Soldado da Caixa D’Água: as palavras de Mestre Ciborgue

Em reportagem especial, a Mangue Jornalismo conta a trajetória percutida de um artista periférico na Aracaju Quilombo

Ewerton Batista, artista aracajuano, fotografado na Concha Acústica do Centro de Criatividade, na capital sergipana. Crédito: Henrique Maynart/Mangue Jornalismo

Caixa D’Água, 24 de julho de 2026. O encontro marcado para às 16h na Concha Acústica do Centro de Criatividade – bairro Getúlio Vargas, na cartografia oficial – correria como previsto. “Eu treinei por dois dias pra falar com você”, disse Ewerton, 57 anos, trajado de preto da cabeça aos pés com a certeza de que o sol não lhe castigaria num final de julho em Aracaju. Soldado não rende vacilo. Sentado na Concha Acústica e munido de pastas organizadoras, papéis amarelados em clipes bronzeados de ferrugem, tudo muito bem guardado, a conversa segue com os olhos abertos entre o Cirurgia e a Zona Oeste da capital. 

Netos do Laje Grande

“Eu vou falar bem devagar”. As palavras tropeçam, titubeiam, mas chegam ao destino da boca. Ewerton Batista dos Santos nasceu em 1969 no bairro Getúlio Vargas. Ele é o mais velho de cinco irmãos, todos batizados por Padre Pedro. “A missa mais rápida do mundo”. Filho de uma professora e um comerciário, o primeiro contato com o universo percussivo foi com os tambores do Terreiro Laje Grande, na rua Rio Grande do Norte, próximo ao Cemitério da Cruz Vermelha. O terreiro tinha como zeladora sua avó, mãe Lourdes, e seu avô o principal ogan alagbé, seu Ascendindo, tendo como patrono o caboclo Laje Grande.

“Não tinha coisa pior do que sair na rua e ser apontado na rua e chamado de macumbeiro”. Filho, sobrinho e neto de ogans alagbés, homens responsáveis pela musicalidade e cuidados litúrgicos do terreiro e expressões de presença africana, Ewerton lembra dos primeiros contatos. “Era o único terreiro que na época tinha cinco tambores ao invés de três. Era uma Angola pesada, tocando na mão a noite toda, de seis horas da noite até seis horas da manhã. E a gente tinha que segurar, a mão doía demais”. Os tambores do Laje Grande moldaram os calos e as primeiras noções de ritmicidade do homem que traria o Samba Reggae para Sergipe.

Ewerton (direita) tocando com o percussionista Pedrinho Mendonça. (Crédito: Arquivo pessoal/Ewerton Batista).

Mostrando a cara para o mundo

Tendo aprendido a ler e escrever aos três anos de idade, o contato com o universo dos quadrinhos chegou rápido. O traço de desenho veio antes do traço couro do tambor. A identificação com Ciborgue, personagem negro vivido por Victor Stone que estreou na DC Comics em outubro de 1980, foi irremediável e segue até hoje.

Em comparação com outros personagens negros dos quadrinhos, como o Pantera Negra, a justificativa partiu como um raio. “Apesar de ser metade robô, o Ciborgue vai pra guerra mostrando a cara, mostrando quem é. O Pantera Negra vai de máscara pra lutar; eu não preciso usar máscara nenhuma”. 

Em 1985 ele cria um dos primeiros grupos de break, o Bronka&Cia, trabalhando ritmos urbanos como o hip hop, o rap e o trap, dentre influências caribenhas e latinas. “O Bronka&Cia estava sempre nos festivais da TV Jornal, eu conheci Ciborgue neste período aí. Eles com vontade de fazer uma coisa diferente e eu querendo tocar coisas locais na rádio”, afirma o radialista Tony Chocolate. Acompanhe o depoimento completo de Tony Chocolate aqui: 

Em 1987, ele começa a contribuir com a Comunicação Sindical como chargista e ilustrador. Ciborgue contribui para os informativos do Sindisan, que organiza trabalhadoras e trabalhadores da Deso, do Sindicato dos Bancários, dentre uma série de publicações.

(Crédito: Arquivo pessoal/Ewerton Batista)

Encontros de Salvador

Ciborgue sempre foi fissurado por carreiras militares, desde a escolha das ilustrações e quadrinhos a estímulos familiares. Após uma passagem na Guarda Municipal de Aracaju, ele tentou entrar no Corpo de Fuzileiros de Salvador e derrapou justamente no teste de natação. Apesar da frustração do projeto militar, foi em uma tarde que ele ouviu pela rádio o que mudaria o curso dos acontecimentos. 

“Eu ouvi uma música diferente, uma coisa africana, falando de negro, aí eu fui atrás daquela banda que tava tocando, ouvi Jeronimo, ouvi Banda Reflexus, aí eu cheguei a um tal de Olodum. Fui na loja e comprei o disco que eles tinham, o Egito Madagascar (1987), e trouxe para Aracaju. Minha história com o Samba Reggae começou aí”. 

De volta a Aracaju, Ewerton ouve por amigos que havia um grupo de jovens na Caixa D’Água querendo organizar um bloco afro em Aracaju. A Associação Unidos do Quilombo já existia desde 1987 e realizava rodas de capoeira, e estava com dificuldades de organizar um bloco percussivo nos moldes da experiência do Samba Reggae.

“Os caras queriam montar um bloco com instrumentos de samba, eu mangava muito. Daí o mestre Saci – o Saci capoeirista da antiga, não o da Maloca –, que era o diretor do Quilombo, me chamou pra organizar a parte musical.” Diferente das experiência dos blocos afro como Ile Aiye (1974), Malê Debalê (1979), onde o ijexá é o elemento rítmico central, o que o Olodum construiu nos anos 1980 dialogava com elementos da música caribenha e influência direta do reggae jamaicano, além de um retardamento da célula do samba. 

Ciborgue vai beber direto na fonte e passa algumas semanas na companhia de Neguinho do Samba, Mestre Jackson, Fernando de Itapuã e todo o bonde do Pelourinho-Maciel que denunciava a mortalidade infantil, a violência policial e o descaso com o Centro Histórico de Salvador. Organizada a banda Quilombo em Aracaju, foram lançados sucessos como “Liberdade para a África” e “Belezas de Sergipe” nas vozes de Saci e, posteriormente, Papudo. 

O documentário “Quilombo Caixa D’Água”, com direção de Marcos Santos e produzido pelo Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira em 2010, conta esta história com mais detalhes.

“Ninguém vai botar a mão na cabeça, aqui só tem criança”

As oficinas e ensaios de percussão com crianças e adolescentes ocorriam do lado direito do Centro de Criatividade, e o som que levava suingue e africanidade também reverberava aspectos do racismo estrutural. Além de enfrentar o varejo do tráfico com uma disciplina rígida sobre as crianças do projeto, a batucada organizada por Ciborgue chamava atenção da polícia, de setores do comércio local e da imprensa. “Meu pai ouviu no programa Laércio Miranda que eu estava fazendo zoada e confusão, a gente ficava possesso, mas seguia. A polícia vinha intimidar a gente, chegava pra enquadrar, mas eu nunca deixei nenhum aluno meu ser tratado como meliante. A luta foi muito dura”.

Enfrentando a guerra do varejo do tráfico, chamada na época de “guerra da maconha”, enfrentando a rivalidade e guerra entre os bairros, Ciborgue manteve a firmeza. O mestre Dingo Bala, da banda Descidão dos Quilombolas, foi um dos alunos. “Meu mestre Ciborgue foi uma chave fundamental para a comunidade, marcada por um cenário de guerra. Foi um cara muito firme, muito rígido, ele estava querendo proteger a gente e isso foi muito importante. Quem entendeu os ensinamentos dele está muito bem. Nós, do Descidão, agradecemos até hoje”. 

O bloco Quilombo fez uma apresentação com o Olodum em maio de 1991, em matéria registrada no Jornal da Cidade. Outro grande parceiro da banda foi o cantor sergipano Rogério. As apresentações no programa da Xuxa e shows em muitas cidades do país com clássicos como “Reggae a Peter” são alguns dos trabalhos conjuntos.

Outros trabalhos

Além dos trabalhos com direção musical da banda Quilombo e as aulas de percussão na Caixa D’Água, Ciborgue seguia como cartunista e ilustrador da imprensa sindical. No ano de 1999 ele ajuda a criar o grupo UTI do Riso, com intervenções lúdicas para pacientes da rede hospitalar pública de Sergipe. “A UTI do Riso, a gente foi pra São Paulo. Éramos uma equipe de três, [mas] em São Paulo eram 50, e mesmo assim eles se impressionaram com o nosso trabalho”, destaca. 

A partir dos anos 2000 ele é contratado como chargista no periódico Correio de Sergipe, onde ganha um prêmio do Banco do Nordeste com a charge “Torcidas Desorganizadas” em 2001, que retrata a desproporção do aparato policial no clássico Sergipe x Confiança naquele ano. 

Ciborgue também seguia com projetos como a banda Sulanca, liderada pelo vocalista e pesquisador Jorge Dutti. Em 2007, ele entra para a primeira turma de Licenciatura em Artes na UFS, Campus de Laranjeiras, e foi testemunha de uma longa ocupação da Reitoria em favor dos residentes daquele campus, com pautas que visavam a melhoria na estrutura, repasse das bolsas e denúncia das relações autoritárias de setores da administração universitária. 

Seu irmão mais novo, Gladston Batista, conhecido como Mestre Tontoy, também participou da experiência da UTI do Riso, dentre outros projetos. A referência do irmão e mestre foi fundamental para o mestre do grupo Zabumbadores de Vó Lurdes. “Meu irmão sempre foi muito regrado, muito disciplinado, e era um cara de comando. Com todo o zelo em todas as artes que ele tem, ele me deu esta condição de muita responsabilidade para os outros. Uma vocação de chefe”. Afirma. A série “Tontoy: um mestre dos sons de Sergipe”, dirigido por Bluesvi, reúne 6 episódios do trabalho do mestre; quatro deles já foram ao ar. 

“Eu fui o primeiro, não criei nada só pra mim”

Na antessala dos 60 anos, Ewerton Ciborgue convive com a afasia, um distúrbio neurológico que prejudica a capacidade de falar, compreender, ler ou escrever, apesar de manter intacta a inteligência. O problema de saúde se deu após uma série de Acidentes Vasculares Cerebrais.

A entrevista ocorreu em dois encontros ocorridos entre os meses de julho e agosto, com o total de cinco horas de gravação. Cada palavra fora garimpada a peso de ouro. A homenagem do Descidão dos Quilombolas no Carnaval de 2026 foi o ponto de partida para a observação deste artista versátil, herdeiro do couro que dobra para o cacique Laje Grande em outras dimensões. 

Tal qual o personagem da DC Comics, Ciborgue segue forjado em carne e ferro, encarando a brisa da Caixa D’Água de cara limpa. O dançarino de break, o ilustrador,  chargista, o “palhaço da saúde pública”, o educador social, o alfabetizador percussivo de centenas de crianças e adolescentes da periferia de Aracaju segue em sua batalha para a manutenção de seu legado e sua memória. 

O soldado da Caixa D’Água segue seu passo com todas as homenagens que lhe são devidas. Que os tambores rufem à exaustão em todas as passadas pela Rua Riachão, onde reside até o presente momento. “Tudo que eu criei eu não criei só pra mim, nunca tive ambição de construir nada que não fosse pra minha comunidade. Vocês estão aí, quem quiser que faça melhor que eu”. Salve o soldado da Caixa D’Água, salve o gramático dos tambores do Samba Reggae em Sergipe.

Picture of Henrique Maynart

Henrique Maynart

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