Entre 2014 e 2022, a geração e consumo de energia em Sergipe esteve no topo das emissões de gases do efeito estufa (GEE) no estado, segundo levantamento atualizado do Sistema de Estimativas de Emissões e Renovações de Gases de Efeito Estufa, o SEEG.
Das mais de 78,1 milhões de toneladas de GEE lançadas na atmosfera a partir de Sergipe no período de nove anos citado, 38,1% vieram do setor de energia. A hegemonia foi quebrada apenas em 2023, quando a agropecuária avançou para a primeira posição estadual mantendo uma distância modesta do segundo lugar.
Dentre as subcategorias emissoras listadas pela plataforma para o setor de energia, o transporte dominou, graças à queima de combustíveis de origem fóssil, caso da gasolina, diesel e GNV. Ainda sobre energia, os dados compilados pelo SEEG mostram uma alta em 2021 da emissão por parte da geração de eletricidade pelo serviço público, sendo 47,5% maior que o setor de transporte naquele ano.
Outras subcategorias do setor energético que tiveram destaque foram a exploração de petróleo e gás, a indústria química e a do cimento.

Além de verificar as informações gerais sobre Sergipe, a Mangue Jornalismo organizou e analisou os números disponíveis na plataforma referentes às 75 cidades sergipanas no período de uma década que começa em 2014 e termina em 2023.
De acordo com as estimativas, Aracaju está no topo das emissões, sendo a principal causa a energia, seguida mais ou menos de perto pelos processos industriais, que entraram na contagem da capital a partir de 2015.
Lagarto, maior município do Centro-Sul de Sergipe, é a segunda colocada nas emissões estaduais nos anos analisados, com protagonismo do setor agropecuário entre 2014 e 2022, e predomínio, em 2023, das emissões causadas pelas mudanças no uso do solo e da vegetação.
Já Nossa Senhora do Socorro, terceira no ranking, também teve na energia a maior fonte de GEE, com exceção do ano de 2015, que apresentou um pico de emissões devido a processos industriais – houve 72,8% de aumento de gases do efeito estufa liberados em comparação com o ano anterior.
Contradições da gestão ambiental e climática em Sergipe
Atualmente, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Sustentabilidade e Ações Climáticas de Sergipe (Semac) está elaborando a Política Estadual de Emissão de Gases de Efeito Estufa como parte do Plano Estadual de Ações Climáticas (Peac), desenvolvido em parceria com a Fundação Instituto de Administração (FIA). A conclusão do plano está prevista para a primeira metade de 2026.
Por e-mail, a secretaria disse à reportagem que os principais desafios para a diminuição das emissões de GEE no estado são “a integração de dados setoriais e a consolidação de informações sobre emissões e vulnerabilidades climáticas; o fortalecimento da governança interinstitucional, com envolvimento dos municípios e setores produtivos; a necessidade de ampliação da infraestrutura de monitoramento e gestão energética”, além de uma questão que perpassa todas as outras, que é “o financiamento das ações de transição climática”.
O órgão afirma que o problema da escassez de recursos financeiros “será tratado por meio do estudo de fontes de financiamento e créditos de carbono previsto no plano”. No mercado de créditos de carbono, as empresas, indivíduos e projetos que evitam emissões de GEE, capturam ou armazenam esses gases podem vender os “créditos” excedentes para empresas que superam o limite de emissões determinado para as suas atividades. Ou seja, na prática, empresas que poluem mais pagam para continuar emitindo maiores quantidades de gases do efeito estufa, abordagem criticada por muitos pesquisadores da área climática.
Há ainda outras contradições diante da urgência global de conter as emissões de GEE, como o incentivo à expansão da indústria do gás natural em Sergipe (o estado detém 20% das reservas nacionais), bem como os preparativos para a retomada da extração de petróleo na costa, com o projeto Sergipe Águas Profundas (SEAP). Tanto o gás natural quanto o petróleo são combustíveis de origem fóssil, o que significa que suas emissões de GEE são maiores do que as de combustíveis renováveis, caso, por exemplo, do biodiesel e do etanol.
Outra decisão na direção oposta às recomendações de especialistas para diminuir a emissão de gases do efeito estufa é a atração, por parte do governo de Fábio Mitidieri (PSD), de indústrias cuja emissão de gases é intensa, a exemplo das empresas de data centers de hiperescala com foco em inteligência artificial.
Essas estruturas armazenam e processam milhões de dados, mas para conseguir isso consomem enormes quantidades de água para resfriamento e muita energia elétrica para manutenção de suas operações. Como precisam funcionar 24h por dia durante os sete dias da semana, fontes de energia menos poluentes como a solar e a eólica não podem ser as únicas opções, já que são intermitentes.
O primeiro data center de IA a ser instalado em Sergipe é produto de um acordo entre a atual gestão estadual e a empresa texana Optimus Technology Group, que pretende instalá-lo em Nossa Senhora do Socorro junto com um centro de pesquisa em IA.
Para se ter uma ideia da dimensão desse empreendimento, o secretário-executivo da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico do Estado de Sergipe (Sedetec), Marcelo Menezes, declarou em entrevista no final de julho, durante o evento Sergipe Oil&Gas, que a quantidade de energia elétrica necessária para manter o data center da Optimus superará o consumo da população sergipana – cerca de 2,3 milhões de pessoas.
Em entrevista também durante o Sergipe Oil&Gas deste ano, a solução sugerida pelo governador para atender à demanda energética foi a construção de uma “minitermelétrica” a gás natural exclusiva para o data center. Mais detalhes sobre a situação dos centros de dados de hiperescala no Brasil e o caso da Optimus em Sergipe são mencionados no episódio Vale tudo pelos data centers?, do podcast Ciência Suja.
Em artigo publicado no ano passado, os pesquisadores Marcos Felipe Sobral dos Santos, Isabelly Pereira da Silva e Gabriel Francisco da Silva informam que “66,48% da capacidade total de geração de energia em Sergipe provêm de fontes renováveis”, sendo que 94% dessa capacidade renovável é gerada apenas pela Usina Hidrelétrica do Xingó, localizada na divisa entre Sergipe e Alagoas. Portanto, há subdesenvolvimento da capacidade energética solar e eólica no estado.
Contudo, vale ressaltar que mesmo as energias renováveis apresentam problemas socioambientais, em muitos casos pela inexistência de consulta e constante diálogo por parte das empresas com as comunidades que serão afetadas pelos empreendimentos.
A Mangue Jornalismo perguntou à Semac sobre se o processo de elaboração do Peac terá a participação de universidades, órgãos públicos e organizações da sociedade civil. A secretaria afirmou que estes grupos “serão ouvidos nas etapas de diagnóstico, mitigação e governança.”
Por meio de sua assessoria, a pasta disse também que as ações incluirão “apoio técnico operacional às gestões municipais, capacitação de equipes locais, integração de dados e incentivo à adoção de políticas municipais de mudança do clima, garantindo que as ações locais estejam alinhadas às diretrizes estaduais e nacionais.”
Pecuária e gases do efeito estufa
Relatório elaborado pelo SEEG e divulgado em outubro de 2023 destaca que “os sistemas alimentares respondem por 21% a 37% das emissões globais de gases de efeito estufa”. Em Sergipe, a agropecuária respondeu por 34,5% das emissões de GEE em 2023, enquanto a energia ficou com 28,6%.
Ao olhar para as principais fontes emissoras no setor agropecuário sergipano entre 2014 e 2023, o processo de digestão de ruminantes, caso dos rebanhos de bovinos e caprinos, é o maior. A segunda posição, bem atrás da primeira colocada, também está relacionada ao mundo agro: é a deposição de dejetos em pastagens.
Segundo o professor Alexandre de Siqueira Pinto, do departamento de Ecologia da Universidade Federal de Sergipe, as ações para mitigação da liberação de gases do efeito estufa no estado precisam considerar técnicas que reduzam as emissões na criação de ruminantes. Isso pode se dar, por exemplo, nas escolhas para a alimentação dos animais.
Como opções, o professor aponta o uso combinado da braquiária, planta forrageira comum em pastos, com a gliricídia, árvore leguminosa capaz de enriquecer o solo com nitrogênio. Esse par diminui o uso de fertilizantes nitrogenados químicos e a emissão de metano pelo gado. Em média, nitrogênio e metano são, respectivamente, 300 e 28 vezes mais danosos à atmosfera que o dióxido de carbono em um período de 20 anos.

A Mague perguntou à Semac se a elaboração da Política Estadual de Emissão de Gases de Efeito Estufa está considerando as emissões da agropecuária e quais medidas considera para diminuir a liberação de gases poluentes pelo setor. A pasta disse que “nos setores de energia e agropecuária [..] o plano propõe medidas estruturadas em cinco frentes: transição energética e eficiência, produção e consumo sustentáveis, agropecuária de baixo carbono, educação e capacitação técnica e monitoramento de metas”. Não foram repassados detalhes.
Caso a política inclua o incentivo ao tratamento de dejetos de animais de corte, Sergipe pode trabalhar caminhos menos poluentes para os dois principais setores emissores de GEE no estado. Siqueira Pinto, da UFS, explica que através da instalação de biodigestores, estruturas que capturam o metano liberado pela decomposição do esterco antes que este seja emitido para a atmosfera, é possível utilizá-lo na produção de energia.
Ele pontua, ainda, que o escalonamento na produção animal em Sergipe deve considerar o desmatamento zero e a recuperação de pastagens degradadas. “No primeiro caso, evita-se as emissões provenientes da remoção da vegetação nativa, atividade que costuma ser seguida por queimadas. No segundo, a recuperação de pastagens, uma das metas do Plano de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono do Governo Federal (Plano ABC), tem potencial de sequestrar carbono devido ao aumento da produtividade da forrageira, ou seja, uma maior quantidade de CO² é capturado da atmosfera pelas plantas e armazenado posteriormente no solo.”
SEEG e dados abertos sobre emissões de GEE
O levantamento do SEEG, uma iniciativa do Observatório do Clima, toma por base o Inventário Brasileiro de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases do Efeito Estufa. O sistema compila as emissões de gases como o dióxido de carbono (CO²), metano (CH4), o óxido nitroso (N2O) e os hidrofluorcarbonetos (HFCs), estes últimos recorrentes em produtos para refrigeração e resfriamento.
Esses quatro gases e outros de menor ocorrência retém o calor na atmosfera terrestre, dessa forma aumentando a temperatura do planeta. A consequência mais preocupante disso é a contribuição para eventos climáticos extremos, caso do furacão Katrina, que devastou a cidade estadunidense de Nova Orleans em 2005, e as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024.
A elaboração e divulgação do inventário é um dos compromissos assumidos pelos países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, caso do Brasil. O documento auxilia o setor público a pensar políticas de combate à emissão de gases que contribuem para o aumento da temperatura global.


