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Sergipe tem quase 5 mil pessoas na fila esperando por cirurgias. O Governo Federal já liberou R$ 2 milhões e Estado promete mutirão

CRISTIAN GÓES, da Mangue Jornalismo

A empregada doméstica Ana Cristina Alves dos Santos, 51 anos, sofre há anos com varizes (veias dilatadas que se desenvolvem abaixo da pele) e dores nas duas pernas. Em razão do trabalho cotidiano e exaustivo, as dores evoluíram muito e as veias aumentaram de calibre. “São dores horríveis e muitas vezes sou obrigada a faltar ao trabalho. Não tenho condições de ficar de pé, na lida”, conta Ana Cristina.

A recomendação do médico na Unidade de Saúde Carlos Fernandes de Melo, no Lamarão, para ela, era de cirurgia, que deveria ser realizada de forma rápida. Ana Cristina entregou toda a documentação para o procedimento e entrou na fila de espera da Prefeitura de Aracaju (SUS). O problema é que isso aconteceu no ano de 2015 e até hoje, oito anos depois, a cirurgia dela ainda não foi realizada.

“Olhe, é tanto tempo que nem sei se na fila ainda estou. O que sei é o que sinto. Nesses anos todos minha situação piorou, algumas veias estouraram, tenho feridas nas pernas, e quando procuro saber da cirurgia, apenas dizem ‘aguarde’, mas até quando?”, pergunta a empregada doméstica. A resposta que ela espera é a mesma de pelo menos 5 mil pessoas em Sergipe (os dados oficiais registram 4.809) também esperam resposta. Esse é o número da fila da vergonha e ele pode estar subestimado.

Pessoas esperam por cirurgias de casos graves

“Uma vez estive no posto para saber se a fila estava andando, e uma pessoa disse que meu caso ia demorar porque varizes eram cirurgias estéticas. Veja o absurdo? Mostrei para ela minhas pernas com feridas abertas, os remédios forte para as dores, e eu perguntei onde está a estética aqui?”, lembrou Ana Cristina que, se não bastasse os oito anos de espera, ainda tem que enfrentar a desinformação. As varizes estão relacionadas ao sistema circulatório e se não tratadas podem evoluir para trombose venosa e até embolia pulmonar.

Segundo o Plano Estadual de Redução de Filas, apresentado pelo Estado de Sergipe ao Ministério da Saúde para obtenção de recursos para as cirurgias, o maior número de procedimentos atrasados é o de catarata, com implante de lente ocular dobrável. Das 4.809 cirurgias da fila, 2450 são de catarata. Na sequência vem histerectomia total (retirada do útero e do colo do útero), 508; colecistectomia (remoção da vesícula biliar), 435; hernioplastia inguinal/crural (retirada de hérnia), 432. Também existem muitos pacientes esperando por cirurgia de laqueadura tubária, postectomia (fimose), entre outras.

Uma médica, que trabalha em um dos maiores hospitais do interior do estado e pediu para não ser identificada, acredita que a fila de espera por uma cirurgia em Sergipe deve ter o dobro dos quase 4,9 mil pacientes oficiais. “Muitos deles, quando descobrem que precisam passar por uma intervenção cirúrgica, nem entram na fila. A grande maioria desiste pelas dificuldades e vive nos remédios, o que pode agravar demais o quadro. Uns poucos vendem coisas, tomam empréstimos e fazem a cirurgia no sistema privado. Nós, médicos, não temos o que fazer”, disse ela.

O Ministério já liberou R$ 2,1 milhões. Estado espera R$ 6,5 milhões

Segundo dados do Ministério da Saúde, até o momento, foram investidos no Estado de Sergipe R$ 2.192.480,67, apenas para o Programa Nacional de Redução das Filas no Sistema Único de Saúde (SUS), ação que iniciou os repasses em março. Mas, segundo planilha apresentada pelo Estado ao Ministério da Saúde, são necessários R$ 6.577.442.01 para Sergipe zerar ou atualizar a fila de cirurgias, sendo R$ 4.685.575,96 para o Governo do Estado e R$ 1.891.866,05 para a Prefeitura de Aracaju. Veja (AQUI) o Plano Estadual de Redução de Filas em Sergipe.

O programa do Ministério da Saúde para zerar a fila de cirurgias, muitas delas represadas em razão da pandemia da Covid, prevê um investimento total em 2023 de R$ 600 milhões, sendo que os primeiros R$ 200 milhões já foram repassados aos estados e destinados para cirurgias eletivas. Cada estado estabeleceu as cirurgias prioritárias, de acordo com a realidade local. Com os recursos liberados, as secretarias de saúde estaduais e municipais poderão realizar mais de 360 mil cirurgias dessa fila. Segundo o Ministério da Saúde, em Sergipe, 100% da fila poderá ser atendida com os recursos repassados.

O Governo de Sergipe promete incrementar valores para atualizar a fila

A Secretaria de Estado da Saúde, através de nota de sua assessoria, informou que a palavra zerar a fila não se ajusta bem ao quadro real da saúde. A melhor palavra seria “atualizar” a fila, porque todos os dias existem demandas por cirurgias eletivas. Sobre os recursos recebidos, os mais de R$ 2,1 milhões, o governo do estado vai incorporar ao Programa Opera Sergipe, que o governo deve lançar no início de julho deste ano, com aporte inicial de R$ 30 milhões. Segundo a assessoria de comunicação, o Opera Sergipe será dividido em quatro etapas, sendo que na primeira, o Estado pretende atingir a 10 mil cirurgias envolvidas em 15 tipos de procedimentos.

Também é promessa do Governo do Estado fazer aporte financeiro aos municípios para que desenvolvam o Programa Enxerga Sergipe. O objetivo é realizar 6 mil procedimentos oftalmológicos. “O Estado realiza todos os dias cirurgias eletivas, mas reconhece que é necessário um esforço maior para reduzir e atualizar essa fila, que cresceu em razão da completa suspensão das cirurgia eletivas por causa da pandemia. Com o mutirão na primeira etapa do Opera Sergipe, realizando 10 mil procedimentos cirúrgicos, vamos atualizar essa fila”, diz a assessoria.

Imagens: reprodução da internet

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