
ANA PAULA ROCHA, da Mangue Jornalismo
Maratá Sucos e Tropfruit, sediadas em Estância, exportaram juntas em 2024 mais de R$ 8,6 milhões em suco concentrado de frutas. Mercado israelense foi apenas 1,1% das exportações da cidade no ano passado, mas manutenção do comércio – que este ano já alcançou R$ 1,6 milhão – chama a atenção em meio às ações israelenses contra palestinos em Gaza, classificadas como genocídio.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) disponíveis no portal público Comex Stat, Estância é o único município sergipano a exportar para Israel em meio aos massacres israelenses contra civis palestinos na Faixa de Gaza, intensificados após o ataque de 7 de outubro perpetrado pelo grupo Hamas.
O portal para acesso às estatísticas de comércio exterior do Brasil registra que os principais produtos exportados por Estância são “sumos de frutas (incluídos os mostos de uvas) ou de produtos hortícolas, não fermentados, sem adição de álcool, com ou sem adição de açúcar ou de outros edulcorantes”.
A Maratá Sucos e a Tropfruit são as únicas empresas na cidade sergipana que fabricam e exportam esse tipo de produto, com destaque para o suco de laranja. Em seus sites oficiais, as duas empresas sergipanas citam Israel como um dos países com os quais mantém relações comerciais.
Em 2024, foram vendidos de Estância para Israel US$ 1,6 milhão (mais de R$ 8,6 milhões na cotação atual), correspondendo a 1,1% de todas as exportações do município naquele ano. O autodenominado Estado judeu foi o 9º maior parceiro de exportações do município sergipano no ano passado, atrás dos Países Baixos (Holanda), Estados Unidos, Bélgica, Espanha, Japão, Grécia, China e Índia, respectivamente. No ranking estadual de cidades exportadoras em 2024, Estância figurou em segundo lugar em valores totais.
De janeiro a agosto deste ano, a cidade do litoral sul sergipano respondeu por 25,5% de toda a exportação do estado. Nesse período, a Maratá Sucos e a Tropfruit enviaram em produtos para Israel US$ 296,5 mil (R$ 1,6 milhão, ou 0,3% do total no período) segundo informações da Comex Stat, sendo o 10º país para o qual Estância mais exportou nos primeiros oito meses de 2025.

A Mangue Jornalismo contatou as empresas para saber quanto cada uma exportou para Israel desde outubro de 2023, já que os dados disponibilizados pelo MDIC não discriminam os valores por CNPJ. Também questionou por e-mail se as empresas cogitaram ou cogitam suspender exportações a Israel e se enfrentaram dificuldades para enviar seus produtos àquele país após os ataques do Hamas. Não houve resposta até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.
Exportação de suco de laranja brasileiro
A indústria de suco de laranja para exportação começou a se desenvolver no Brasil na primeira metade da década de 1960, após a devastação dos laranjais da Flórida, em 1962, devido a uma forte geada. Aquele era, então, o principal produtor de laranjas dos Estados Unidos e um dos principais polos globais. À época, os citricultores brasileiros viram uma oportunidade de ocupar o lugar deixado pela Flórida, o que fizeram com a ajuda de incentivos federais.
Hoje, o Brasil é o maior produtor de laranjas do mundo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes a 2024, Sergipe foi o quarto maior produtor dessa fruta, atrás de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Bahia, respectivamente. Dentre os três municípios sergipanos que mais produzem, Cristinápolis está no topo, seguido por Salgado e Lagarto.

O processamento industrial da quase totalidade dessa produção é feito em Estância, onde está a matriz da Maratá Sucos e a sede da Tropfruit. Documento técnico do Banco do Nordeste referente a 2015 já confirmava o destaque dos sucos de frutas, em particular de laranja, nas exportações de Sergipe. Naquele ano, segundo levantamento do BNB, “as empresas Tropfruit Nordeste S.A. e Maratá Sucos do Nordeste Ltda responderam por 76,4% das vendas externas sergipanas”.
Uma década depois, a edição de janeiro-março de 2025 do relatório BNB Conjuntura posicionou os sucos de frutas ou de vegetais como segundo grupo na lista de principais produtos exportados por Sergipe, responsável por 33,8% das vendas do estado para outros países, atrás dos óleos brutos de petróleo (56,7%).
Já os dados do primeiro trimestre do ano passado eram um pouco menores: os sucos foram 27,3% do total das exportações sergipanas. Ou seja, houve um crescimento de 6,5% no comparativo dos primeiros três meses de 2024 com os primeiros três meses de 2025. Este ano, por sinal, já registra supersafra de laranja em Sergipe, com produtores enfrentando dificuldade para escoar a alta produção.
O grande espaço do suco de laranja nas exportações sergipanas não é à toa. A Maratá Sucos e a Tropfruit se beneficiam de isenções fiscais para manter e ampliar suas atividades. Dados de janeiro a agosto de 2024 divulgados pelo Ministério da Fazenda informam que a Maratá Sucos teve desoneração de R$ 5,6 milhões, enquanto a Tropfruit, creditada pelo jornal Movimento Econômico como “maior empresa exportadora de suco de frutas de Sergipe”, desfrutou de mais de R$ 10,1 milhões em isenções de impostos federais sobre a laranja.

A situação da produção palestina é o exato oposto. Triste coincidência, a Faixa de Gaza e a cidade de Jaffa, esta última hoje parte do território ocupado por Israel, foram grandes produtoras de laranja até pelo menos 1967 e 1948, respectivamente. As laranjas de Jaffa eram exportadas por barcos para a Europa, Egito e Turquia, por exemplo. Sua alta qualidade deu origem à alcunha – mais tarde marca registrada por Israel – de “laranjas de Jaffa” ou “laranja ShamoutI”, com seu característico formato oval e casca grossa.
O documentário Jaffa, the Orange’s Clockwork, de 2009, conta a história da economia que floresceu sem muitos problemas na cidade sob a sombra dos laranjais. Contudo, em 1948 ocorreu a Nakba, a grande catástrofe levada àquela terra pelos sionistas e sua ideologia de criação de um estado nacional judeu na Palestina, projeto no qual nem os cultivos palestinos tiveram espaço.
Destruídas boa parte das plantações mantidas por agricultores palestinos e nas quais muitos judeus árabes trabalhavam sem desavenças, historiadores estimam que menos de 5 mil dos 70 mil moradores palestinos permaneceram na cidade.
Os citricultores palestinos tentaram manter suas terras, mas com a guerra árabe-israelense de junho de 1967 e a consequente expansão sionista sobre áreas palestinas, as atividades agrícolas desse povo em Jaffa foram sufocadas.

Esse modus operandi de Israel permanece. Em seu diário sobre os primeiros 85 dias de genocídio em Gaza, publicado sob o título Quero estar acordado quando morrer, o escritor Atef Abu Saif, ex-ministro da cultura da Autoridade Nacional Palestina, explica que “a maioria das áreas agrícolas da Faixa [de Gaza] está sob controle total das tropas israelenses. Tanques e escavadeiras passaram por cima dos cultivos, como fizeram em 2014, destruindo todas as plantações, pomares, sistemas de irrigação e, é claro, as casas dos agricultores”.
Boicote, desinvestimento e sanções
No dia 24 de setembro, durante o discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Lula condenou veementemente os ataques do Hamas a Israel, mas acrescentou que “nada, absolutamente nada justifica o genocídio em curso em Gaza”.
Apesar das declarações públicas do governo brasileiro em prol da Palestina e de um relatório recente encomendado pela ONU sobre a situação em Gaza ter concluído que Israel cometeu genocídio no território palestino, o Brasil mantém relações comerciais com os israelenses, inclusive com a compra de armas pelos governos federais e estaduais, como a Mangue Jornalismo já noticiou. Apenas em julho o governo suspendeu a exportação de equipamentos de defesa brasileiros para Israel, mas as importações continuam.
Movimentos internacionais como o BDS – sigla para boicote, desinvestimento e sanções – argumentam que uma das maneiras mais efetivas de conter a violência israelense contra os palestinos e seus constantes ataques ao Líbano, Síria, Iêmen e Irã são medidas que dificultem acordos comerciais com Israel e com empresas estabelecidas no país.
O Brasil adotou sanções contra a África do Sul na época do regime de apartheid imposto à população negra sul-africana. O Decreto 91.524, assinado pelo presidente José Sarney em 9 de agosto de 1985, proibia “atividades que caracterizem intercâmbio cultural, artístico ou desportivo”, “exportação de petróleo e combustíveis derivados”, “fornecimento à África do Sul de armas e material correlato de qualquer tipo”, “fornecimento à África do Sul de equipamento, material, licença e patentes para a fabricação e manutenção dos produtos mencionados no art. 3º deste decreto [armas de qualquer tipo]” e o transporte de armas para a África do Sul.
O Estado brasileiro se pauta na ONU para sancionar países. A Lei 13.810 de março de 2019 “dispõe sobre o cumprimento de sanções impostas por resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, incluída a indisponibilidade de ativos de pessoas naturais e jurídicas e de entidades, e a designação nacional de pessoas investigadas ou acusadas de terrorismo, de seu financiamento ou de atos a ele correlacionados […]”.
Atualmente, não há nenhuma sanção aprovada pela ONU contra Israel, pois os Estados Unidos, membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, veta todas as propostas.
Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 69 mil pessoas foram assassinadas no enclave palestino por ataques israelenses até 17 de setembro. O número pode ser muito maior, já que vários corpos não foram recuperados dos escombros desde o início do genocídio.


