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Sergipe, o cenário cultural e o que podemos aprender com o pensamento radical de Beatriz Nascimento?

LUCIANA OLIVEIRA, especial para Mangue Jornalismo

Maria Beatriz Nascimento


No dia 20 de outubro de 2023, a Prefeitura de Aracaju publicou, finalmente, os Editais referentes à Lei Paulo Gustavo, editais estes bastante aguardados pela classe artística local. Devido a atual gestão da Fundação de Cultura de Aracaju (FUNCAJU) já demonstrar, há anos, uma postura autoritária e amadora com relação à gestão cultural, não foi surpresa, para muitos, que os editais lançados apresentassem tantas irregularidades, e até questões que ferem os direitos autorais dos artistas. Para saber mais, recomendo a leitura da Carta aberta lançada pelo Fórum do Audiovisual Sergipe no dia 23 de outubro.

Mas, as leitoras e leitores devem estar se perguntando o que isso tem a ver com o título proposto? Apresento aqui essa situação recente, de irresponsabilidade do poder público municipal, mas certa de que poderíamos mobilizar diversas memórias lamentáveis do descaso da gestão pública cultural com os artistas sergipanos. Para pensar sobre esse cenário, convoco o pensamento radical da historiadora sergipana Maria Beatriz Nascimento, por entender que para que possamos desmontar algumas práticas coronelistas de Sergipe Del Rey, é necessário munir-mo-nos de conhecimento do contexto histórico do território e, assim, construir uma consciência política mais forte.

Recorrero ao pensamento de Beatriz Nascimento

Maria Beatriz Nascimento nasceu em 1942, em Aracaju, e na mesma década migrou para o Rio de Janeiro com sua família, onde se tornou historiadora e mudou a perspectiva dos estudos sobre Quilombo, antes escrita por historiadores brancos, com um olhar reduzido sobre o tema. A historiadora defendeu uma “história feita por mãos negras”, como também se dedicou a realizar críticas sobre a produção cultural nos anos 1970, momento em que diretores brancos como Cacá Diegues, narraram no cinema as histórias de Ganga Zumba e Xica da Silva, atendendo a um mercado e estereotipando os personagens históricos, o que Beatriz chamou de “novo mercado de negros”.

Mas gostaria de trazer Beatriz mais para perto de nós, sergipanos. O que podemos aprender com o seu pensamento radical, insurgente à ideia de que a imagem do povo negro continuasse a ser escrita e filmada pelo olhar dominante?

Nos editais municipais da Lei Paulo Gustavo em Aracaju, além das irregularidades sobre os direitos autorais, há um ponto curioso, que nos leva a acreditar que a Prefeitura deseja usar o trabalho dos fazedores de cultura a favor de seu marketing.

Com a proposta da produção de um longa-metragem com colagens de várias obras de diferentes autorias selecionadas no edital, que possui já uma temática pré-definida como “Aracajueiros”. E no edital que abrange outras artes, direciona a categoria Fotografia com o tema “Magia do cotidiano” e “Aracaju Alto Astral”. Em debate no grupo de WhatsApp do Fórum Permanente do Audiovisual, uma colega nos chama a atenção: “Parece que a disputa é pelas imagens e acham que o pessoal de Audiovisual tem que ser publicitário da Prefeitura”. Eureka!

Uma nítida disputa narrativa da vida

A disputa é pelas imagens, é por meio das imagens que o olhar do colonizador destruiu subjetividades, construiu ideias de identidades nacionais, por meio das imagens governos de esquerda são derrubados, por meio das imagens Leni Riefenstahl favoreceu ao governo nazista, e para dar exemplos mais próximos, é por meio das imagens que a publicidade sergipana tem lucrado bastante com o conceito de Sergipanidade, em contrapartida, o empresariado sergipano não investe em produções locais.

O que acontecerá se muitos artistas sergipanos, em sua pluralidade, periféricos, negros, indígenas, mulheres de diferentes raças, artistas com pensamentos decoloniais, puderem ter acesso a financiamento público para narrar outras histórias? Nós sabemos a resposta e os donos das canetas e cadeiras do poder também sabem. O desprezo pelos realizadores de audiovisual em Sergipe, por parte das gestões públicas locais, não é pura cisma, pura má vontade, vai além, é uma estratégia de continuar invisibilizando narrativas necessárias que fortaleceriam o povo. É preciso estar atento a isso. A disputa pelo imaginário, tão debatida por Beatriz Nascimento, nossa conterrânea, não é pouca coisa.

Em um de seus textos sobre suas lembranças saudosas de Aracaju, Beatriz Nascimento lembra da imagem do Cacique Serigy, a quem ela se refere como “herói que deu nome à terra onde nascemos”, palavras da sua mãe. E questiona a heroicidade esquisita de um “índio secularmente derrotado, em metal petrificado”. Atualmente, o Cacique Serigy está confinado, imponente, dentro do Palácio que leva o seu nome e abriga setores da Secretaria Estadual da Saúde, localizado na Praça General Valadão, enquanto diversas estátuas de generais, ex-governadores, dentre outros enfeitam a cidade ruas afora.

Voltar à história significa fazer um movimento de entender como nasce o território sergipano.

Recentemente, o ator e pesquisador Jhonatan Rodrigues lançou o espetáculo “Corpo Terra”, com a sinopse: Uma palestra performance que propõe refletir sobre elementos que constituem identificações do povo sergipano. O espetáculo é uma verdadeira aula crítica, em que podemos saber mais sobre como o nosso território foi construído à base de derramamento de sangue indígena e negro, e o enriquecimento de muitas famílias europeias às custas do sofrimento desses povos. E uma boa pergunta a nos fazer é: onde estão os herdeiros de hoje desses engenhos do passado?

Devo encerrar aqui essa breve reflexão convidando colegas artistas que ainda não se engajaram nos coletivos que estão na linha de frente desta luta, talvez por medo de “se queimar”, lembrando que não temos nada e para conseguir para todos, a luta só se dá no coletivo. Também convido para esta roda coletivos e grupos de outras frentes, entendendo que a luta pelo imaginário diz respeito a todos e todas nós. A nós que produzimos e àqueles que consomem arte. E para citar mais uma feminista negra, Audre Lorde: “as ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande”.


Luciana Oliveira é mãe, cineasta e curadora. Mestre em Cinema e Narrativas Sociais e doutoranda em sociologia pela Universidade Federal de Sergipe. Co-idealizadora da EGBE- Mostra de Cinema Negro, associada à Associação dos Profissionais Negros (APAN), e integrante do Fórum Permanente do Audiovisual Sergipe (FPA).

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