De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, três em cada quatro vítimas são crianças e adolescentes. Redução de 3,7% nas ocorrências pode refletir subnotificação, apontam especialistas. Procurada, SSP-SE não respondeu.

Sergipe continua liderando o Nordeste na taxa de estupros, mesmo após a redução dos registros no último ano. O estado chefiado por Fábio Mitidieri (PSD) contabilizou 1.129 vítimas de estupro e estupro de vulnerável em 2025, uma queda de 3,7% em relação ao ano anterior, mas suficiente para manter a maior taxa da região, de 49,1 casos por 100 mil habitantes, acima da média nacional (39,5).
Os dados constam do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado na semana passada. A posição da menor unidade da federação no topo do ranking regional já havia sido discutida em reportagem da Mangue Jornalismo, publicada em 27 de junho de 2024. Àquela altura, também chamavam atenção os indicadores de exploração sexual infantil e pornografia infantojuvenil.
Dois anos depois, embora o número de vítimas tenha diminuído, o perfil da violência permanece praticamente inalterado. Dos 1.129 registros contabilizados no estado, 863 (76,4%) foram classificados como estupro de vulnerável, indicando que crianças e adolescentes continuam concentrando a maior parte das vítimas de violência sexual.
Para a advogada Glícia Salmeron, presidente da Comissão da Criança e do Adolescente do Instituto Brasileiro de Direito de Família em Sergipe (IBDFAM/SE), a liderança de Sergipe resulta da combinação entre maior capacidade de registrar os casos e falhas persistentes na prevenção. “Houve uma mobilização maior entre os municípios para fortalecer as notificações tanto no sistema de segurança pública quanto na saúde e na assistência social. Isso significa que mais casos chegam ao conhecimento do poder público”, diz ela, em entrevista à Mangue.
Segundo a advogada, o avanço nas notificações não elimina problemas estruturais. “Também significa dizer que há pouco investimento na prevenção e na proteção. Há uma cultura extremamente machista e uma sensação de impunidade. Esses fatores ajudam a explicar por que Sergipe continua apresentando taxas tão elevadas.”
Embora o Anuário não apresente o perfil das vítimas por estado, os dados nacionais ajudam a compreender a realidade sergipana. Em 2025, 87,3% das vítimas de estupro no país eram meninas ou mulheres, 57,1% eram negras e a maior concentração dos registros ocorreu entre crianças de 10 e 13 anos, com pico aos 13 anos.

Na avaliação de Salmeron, a experiência da rede de atendimento em Sergipe confirma esse cenário e revela ainda um importante recorte social. “A maioria das crianças atendidas no Centro de Referência da Infância e encaminhadas para as delegacias vem de famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Isso não significa que a violência não aconteça nas classes média e alta, mas que nesses grupos ela permanece muito mais invisível.”
A reportagem publicada pela Mangue em 2024 já destacava que a violência sexual ocorre, majoritariamente, dentro do ambiente familiar e é praticada por pessoas conhecidas das vítimas. Os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública reforçam esse diagnóstico.
No ano passado, cerca de 63,3% dos estupros registrados no País ocorreram dentro da residência. Entre vítimas de até 13 anos, 59,2% dos autores eram familiares e outros 36,9% eram pessoas conhecidas, evidenciando que o principal risco continua dentro de casa, e não nas ruas.
“Esses crimes sempre aconteceram. O que mudou foi a possibilidade de revelação. Durante muito tempo, as famílias resolviam essas situações dentro de casa, sem denunciar”, comenta Glícia, para quem a escola é um dos principais espaços para romper esse ciclo. “Na maioria das vezes, é na escola que surgem os primeiros sinais ou a revelação espontânea da criança. Por isso é fundamental que professores e demais profissionais sejam preparados para identificar esses casos e acolher a vítima sem revitimizá-la”.
Queda nos registros não altera diagnóstico da violência sexual
De acordo com o Anuário, a redução registrada em 2025 não alterou as características estruturais da violência sexual no estado. Assim como em anos anteriores, a maior parte das vítimas continua sendo crianças e adolescentes, o que acompanha o cenário nacional. Dos 1.129 registros contabilizados em Sergipe, 863 correspondem ao crime de estupro de vulnerável, demonstrando que a violência sexual permanece concentrada na infância.
O estudo ainda destaca que Sergipe está entre as unidades da federação que apresentaram inconsistências na classificação de parte dos boletins de ocorrência. Isso porque, em alguns casos, vítimas menores de 14 anos tiveram os crimes registrados como estupro, quando a legislação determina a tipificação como estupro de vulnerável.
A equipe do FBSP, então, fez a reclassificação desses registros para garantir a consistência metodológica da análise, mas observa que falhas no preenchimento dos boletins ainda dificultam uma compreensão mais precisa da violência sexual.
Além das inconsistências de classificação, o levantamento também adverte para a baixa qualidade das informações registradas. Em todo o país, 80% dos boletins não informavam a relação entre vítima e agressor e quase um terço não continha o registro da raça ou cor da vítima. A ausência desses dados limita a formulação de políticas públicas e dificulta identificar padrões da violência, especialmente em estados como Sergipe, onde as taxas permanecem entre as mais elevadas do país.
Essas falhas, diz a presidente da Comissão da Criança e do Adolescente do IBDFAM/SE, refletem fragilidades da própria rede de proteção. “Ainda existem muitos municípios sem delegacias especializadas. Também faltam formação continuada para quem atua na ponta e uma rede articulada entre saúde, assistência social, educação e segurança pública. Quando essa rede funciona, a criança é protegida e evita-se a revitimização”.
Apesar da queda de 5,4% nos registros nacionais em 2025, os pesquisadores responsáveis pelo Anuário também ponderam que não é possível concluir que houve diminuição da violência sexual.
Como o número de boletins de ocorrência depende tanto da incidência dos crimes quanto da capacidade de denúncia e acolhimento das vítimas, a redução pode refletir maior subnotificação, mudanças nos canais de atendimento ou dificuldades de acesso às instituições policiais.
“É preciso investir prioritariamente na proteção integral de crianças e adolescentes. Isso passa pelo fortalecimento dos municípios, pelo orçamento destinado à infância e pela compreensão de que proteger crianças é responsabilidade da família, do Estado e de toda a sociedade”, completa Glícia Salmeron. “É urgente discutir proteção, direitos e educação sexual nas escolas. Crianças precisam compreender seus direitos e os adultos precisam saber reconhecer a violência. Sem prevenção, continuaremos apenas reagindo aos casos depois que eles acontecem”.
Outro lado: SSP/SE não respondeu aos contatos da reportagem
Na última sexta-feira (24), a Mangue pediu manifestação da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP/SE) sobre o cenário retratado no Anuário.
A reportagem questionou como a pasta avalia o fato de Sergipe permanecer com a maior taxa de estupros do Nordeste, quais ações vêm sendo adotadas para prevenir a violência sexual, especialmente contra crianças e adolescentes, e quais medidas estão sendo implementadas para aprimorar a qualidade dos registros policiais, após o Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontar inconsistências na classificação de parte das ocorrências do estado.
Também perguntamos como a secretaria interpreta a redução dos registros em 2025 diante da avaliação do Fórum de que a queda não significa, necessariamente, diminuição da violência sexual, podendo estar relacionada à subnotificação ou a dificuldades de acesso aos canais de denúncia.
Nesta segunda-feira (27), a Mangue reforçou o pedido de posicionamento, mas não houve retorno até o momento. O espaço permanece à disposição para eventuais manifestações.
Quem procurar em casos de suspeita de violência sexual?
– Unidade de Saúde Básica do seu município;
– Rede Hospitalar ou Unidades de Pronto Atendimento – UPA;
– Unidade Assistencial mais próxima de sua casa – CRAS e CREAS;
– Centro de Referência no Atendimento Integral Infanto-juvenil – CRAI. Telefone: (79) 3225-8650 ou 3225-8654;
– Delegacias Comuns ou de Grupos Vulneráveis de sua região;
– Polícia Civil – ligue 181;
– Polícia Militar – ligue 190;
– Disque Denúncia – ligue 100;
– Ministério Público Estadual – Telefone (79) 3209-2400 ou ligue 127;


