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Sergipe é o 3º estado do Nordeste com mais afastamentos de trabalhadores com adoecimento mental

Números podem ser maiores porque os divulgados são de benefícios já concedidos (Imagem Pexels)

Reações graves ao stress, transtornos de ansiedade e episódios depressivos levaram o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) a afastar de suas atividades, no ano passado, mais de 471 mil trabalhadores no país. Os dados oficiais revelam ainda que do ano de 2020 a 2024 ocorreu um aumento de 62% nos benefícios ligados à saúde mental concedidos pelo INSS.

No Nordeste, Sergipe é o terceiro estado com mais afastamentos de trabalhadores acometidos por alguma doença mental. Quem lidera na região é o Rio Grande do Norte, que registra a taxa de 247 afastamentos por saúde mental a cada 100 mil habitantes. Na sequência, vem a Paraíba com 192 casos, e Sergipe, com 166 liberações do trabalho em razão de adoecimento mental. 

“Esse dado é alarmante, considerando que estamos falando somente dos notificados, imagino que se todas e todos os trabalhadores tivessem a oportunidade de notificar a situação com certeza os números não só em Sergipe e no Nordeste, mas acredito que no Brasil inteiro seria bem maior”, avaliou Caroline Santos, vice-presidenta da Central Única dos Trabalhadores em Sergipe (CUT/SE).

Todos esses dados foram disponibilizados pelo Observatório da Segurança e Saúde do Trabalho, iniciativa coordenada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). A Agência Tatu também analisou os números e mostrou que esses afastamentos no ano passado superam, inclusive, o ano de início da pandemia da Covid-19, 2020, em que aconteceram 289.697 afastamentos.

De todo o país, Santa Catarina foi o estado com maior número proporcional de afastamentos por saúde mental, concedidos pelo INSS em 2024, com 454 a cada 100 mil habitantes. Em seguida aparecem Distrito Federal (425), Rio Grande do Sul (358) e Minas Gerais (334). Na outra ponta está o Amapá com 24 afastamentos por saúde mental a cada 100 mil habitantes.

Para Caroline Santos, as mudanças no mundo do trabalho das últimas décadas, com o uso cada vez maior das tecnologias, criou um ambiente de trabalho onde todas e todos estão “praticamente disponíveis 24 horas”. Segundo ela, esse é um processo também tem a ver com a extrema precarização das relações de trabalho no país, fruto do neoliberalismo, principalmente após a Reforma Trabalhista que esgarçou ainda mais as relações de trabalho. 

“O fato é que hoje, milhares de trabalhadores estão submetidos a uma escala 6×1 de trabalho não dando espaço para qualquer outro aspecto da vida a não ser o trabalho e isso faz com que boa parte destes trabalhadores tenham que lidar, em sua maioria sem nenhum suporte seja das empresas ou até mesmo do Sistema Único de Saúde, com o adoecimento mental”, avalia.

O procurador do Trabalho em Sergipe, Raymundo Ribeiro, informa que alguns setores econômicos possuem dados mais expressivos e numerosos de afastamentos relacionados a doenças mentais, como o telemarketing, bancos e hospitais. “A atuação do MPT em Sergipe é na linha de cobrar das empresas o cumprimento fiel da legislação. Evidente que, em alguns casos, medidas mais enérgicas são adotadas, como ação civil pública buscando a responsabilização civil coletiva do empregador e o afastamento do assediador mediante sentença da Justiça do Trabalho, especialmente, quando o empregador não atende às determinações do MPT durante a fase de investigação”, informa o procurador.

“Reforma Trabalhista esgarçou ainda mais as relações de trabalho”, diz Caroline Santos (Crédito Iracema Corso)

Extrema precarização do trabalho e doença mental

A psicóloga Raquel Martins diz que esses casos de afastamentos do trabalho em razão da saúde mental “são mais do que estatísticas; são um sintoma social urgente. Como psicóloga, vejo diariamente no consultório que o adoecimento mental ligado ao trabalho raramente é sobre “falta de resiliência” do indivíduo; o contrário: muitas vezes, a ansiedade e a depressão são respostas humanas e esperadas a ambientes de trabalho tóxicos, metas abusivas, assédio moral e à crescente precarização”, aponta Raquel.

A psicóloga também afirma que não se pode mais individualizar uma dor que é, fundamentalmente, coletiva e estrutural. “A saúde mental do trabalhador não é uma responsabilidade que deve recair apenas sobre seus ombros. Precisamos, como sociedade, discutir a criação de ambientes de trabalho que promovam dignidade e segurança psicológica, e não que lucrem à custa do esgotamento de seus funcionários”, afirma.

Raquel Martins diz que esses casos ““são mais do que estatísticas; são um sintoma social urgente” (Crédito: Arquivo pessoal)

No entender da psicóloga Ana Franco, as questões de saúde mental estão bastante relacionadas com o trabalho, já que a rotina e o ambiente de trabalho estão cada vez mais adoecedores. “De forma geral, nós como sociedade estamos falhando em realizar as transformações necessárias para mudar esse cenário”, avalia.

Para ela, o aumento do número de pessoas com problemas relacionados à saúde mental pode ser consequência de diversos fatores, desde desdobramentos oriundos da pandemia, mudanças no mercado de trabalho, injustiça social, dependência tecnológica, e violências diversas. “A crise de saúde mental é generalizada, mas ela também tem muitos recortes, sejam eles de gênero, classe, raça, identidade sexual, entre outros. Mulheres são muito mais afetadas, e se o recorte vier por classe, a realidade será ainda mais dura”, afirma.

Ana Franco lembrou que o Ministério do Trabalho atualizou recentemente a norma regulamentadora sobre saúde e segurança no trabalho (NR1), incorporando riscos psicossociais, como estresse, sobrecarga de trabalho e assédio moral, mas as mudanças não foram implementadas na data prometida. “No ambiente psicoterapêutico, a realidade encontrada é de pacientes extremamente esgotados das diversas demandas e do ritmo de vida imposto pelo trabalho e pela sociedade. Mas sabemos que a psicologia não chega para todos”, lamenta.

A psicóloga defende que a sociedade precisa lutar por leis trabalhistas mais dignas, por diminuição de carga horária e para que todos tenham acesso à justiça social, à salários dignos e ambientes de trabalho saudáveis. “Também é urgente que existam transformações no serviço de saúde pública, para que a atenção e o cuidado com a saúde mental deixem de ser um privilégio, e passem a ser um direito de todos”, reforça.

“O cuidado com a saúde mental não pode ser um privilégio, mas um direito de todos”, diz a psicóloga Ana Franco (Crédito: Arquivo pessoal)

Procurador de MPT em Sergipe defende três medidas urgentes

O procurador do Trabalho em Sergipe, Raymundo Ribeiro, diz que, respeitada a independência funcional de cada membro do Ministério Público do Trabalho (MPT), tem atuado exigindo das empresas denunciadas a adoção de medidas de gestão ambiental do trabalho, a exemplo de Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), prevenção do assédio moral, do assédio sexual e de outros possíveis abusos nas relações de trabalho.

Para ele, é fundamental que as empresas criem código de conduta e que deixem clara a política da empresa em relação ao assédio; incluam nos contratos de trabalho com os trabalhadores e empresas terceiras as diretrizes e penalizações em caso de ocorrência de assédio; criem canais de denúncia, como ouvidoria; implantem um comitê independente para tratamento das denúncias de assédio, com regras rígidas de sigilo da informação; capacitem e conscientizem os trabalhadores sobre como evitar o assédio no ambiente laboral; realizem pesquisas periódicas de clima, abrangendo o tema de assédio com foco; fornecem apoio e suporte psicológico necessário para a vítima de assédio, entre outras medidas.

“É preciso acabar com a escala 6 x 1, pois o trabalho, a cada dia, mostra-se mais intenso”, defende Raymundo Ribeiro (Crédito: Ascom MPT/SE)

Raymundo Ribeiro defende três medidas que precisam ser tomadas de modo mais urgente para se enfrentar o adoecimento mental nas empresas. “A primeira, acabar com a escala 6 x 1, pois o trabalho, a cada dia, mostra-se mais intenso com a utilização de tecnologias, muitas vezes usadas apenas para aumentar a produção e sem compromisso com a saúde do trabalhador. A pressão por produtividade é uma constante nas relações de trabalho, o que pressiona o trabalhador psicológica e mentalmente, levando-o a doenças mentais relacionadas ao trabalho, como o burnout (exaustão)”, afirma.

A segunda medida, segundo o procurador do Trabalho, é “reduzir a jornada de trabalho padrão no Brasil, que ainda é de 8 horas diárias e 44 horas semanais, sem redução salarial. A redução da jornada é uma conquista humanitária, fruto da luta por direitos pela classe trabalhadora e do reconhecimento, pelo Estado, da importância do direito ao lazer, à convivência familiar e comunitária etc. e a terceira é a criminalização do assédio moral, pois apenas o assédio sexual é crime. O assédio moral ainda é apenas uma violação civil”.

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Cristian Góes

Jornalista pela Universidade Tiradentes, mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação e Sociabilidade pela Universidade Federal de Minas Gerais. Experiência como repórter e assessor de Comunicação nas áreas sindical e pública.

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