“Saberes ancestrais do Quilombo Serra da Guia rompem com individualismo e reensinam a vivência coletiva”, diz pesquisadora

“Caminhar com as comunidades tradicionais me ensinou que há outras formas legítimas de organizar a vida, que não se subordinam às estruturas dominantes do Direito e da Ciência”, Renata Cedraz (Crédito: RF)

Como promover justiça social e territorial num país que ainda nega direitos básicos a populações quilombolas? A pergunta levou a pesquisadora Renata Cedraz Ramos Felzemburg ao sertão sergipano, precisamente ao Quilombo Serra da Guia, em Poço Redondo, 175 km de Aracaju. “A convivência com seus moradores transformou minha percepção sobre o papel da pesquisa, da educação e da luta por dignidade… É possível reconhecer a equivalência entre os saberes tradicionais e o conhecimento científico”, afirma.

Renata estava imersa no Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos da Universidade Tiradentes e, nele, no Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Políticas Públicas em Educação para o Estado de Sergipe. O resultado mais aparente de sua transformação e pesquisas com as comunidades quilombolas é o livro “Direito Territorial, Agricultura Familiar e Biodiversidade, o caso do Quilombo Serra de Guia”, que será lançado no dia 19 de agosto, às 17 horas, no Museu da Gente Sergipana, em Aracaju.

A obra é um convite a uma reflexão urgente sobre a interconexão entre biodiversidade, direitos culturais e territoriais das comunidades tradicionais. O livro explora como os modos de vida nesses espaços, em especial suas relações com a natureza, expressam saberes locais, que deveriam ser colocados em pé de igualdade com o conhecimento científico, contribuindo de forma equitativa para uma compreensão mais ampla e diversa do mundo.

“Resgatei minhas origens no sertão baiano onde nasci, em Conceição do Coité, e cresci observando a resistência corajosa do agricultor sertanejo. Na minha vida profissional, tive a alegria de trabalhar no Incra com processos de titulação de comunidades quilombolas. Quando fui apresentada à comunidade Serra da Guia encontrei o exemplo vivo da conexão dos coletivos humanos agrários vocacionados ao uso consciente e respeitoso da biodiversidade”, lembra Renata.

Ao valorizar epistemologias plurais, a obra promove o reconhecimento dos diversos modos de existir e compreender o mundo, abrindo caminho para um direito pluriétnico capaz de transformar tanto o Estado quanto a sociedade. “Cuidar do mundo que compartilhamos exige justiça epistêmica e ambiental. Só será possível um futuro habitável quando reconhecermos que a diferença é fonte de aprendizado e não de exclusão”, defende a pesquisadora.

A Mangue Jornalismo fez uma entrevista exclusiva com Renata Cedraz que, além de mestra em Direitos Humanos é também procuradora federal junto ao INSS em Aracaju.

Obra será lançada no dia 19 de agosto, às 17 horas, no Museu da Gente Sergipana (Crédito RF)

Mangue Jornalismo (MJ) – O porquê do Quilombo da Serra da Guia? Você chegou nele, com sua história, ou ele que chegou em você, com sua força? Como você resume sua relação com ele?

Renata Cedraz (RC) – O livro nasce do encontro entre a pesquisa acadêmica e a realidade das comunidades tradicionais, resultado de experiências vividas no âmbito de um Projeto de Pesquisa apoiado pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Políticas Públicas em Educação para o Estado de Sergipe, da FAPITEC.

Focado na atualização dos Arranjos Produtivos Locais (APLs) do Sertão e do Baixo São Francisco, o projeto buscou ir além dos diagnósticos técnicos. Seu objetivo central foi a formulação de propostas de políticas públicas voltadas ao fortalecimento das comunidades rurais, com ênfase na escuta e valorização de saberes locais. Nesse percurso, eu conheci a Comunidade Quilombola Serra da Guia, em Sergipe, e as visitações revelaram não apenas modos de viver profundamente conectados à terra e à ancestralidade, mas também as marcas persistentes da desigualdade e do abandono por parte do Estado.

O trabalho de campo foi, nesse sentido, um exercício de escuta e de aprendizado. As vivências compartilhadas com a comunidade foram fundamentais para formular a problemática que atravessa a obra: como promover justiça social e territorial num país que ainda nega direitos básicos a populações negras, quilombolas e camponesas?

O encantamento surgiu não de uma idealização romântica, mas do reconhecimento da potência política e epistêmica presente na resistência cotidiana da Serra da Guia. A convivência com seus moradores transformou minha percepção sobre o papel da pesquisa, da educação e da luta por dignidade.

MJ – Sua mirada sobre o quilombo é acadêmica. Entretanto, a riqueza da Serra da Guia, de sua história e do seu presente, como dos demais territórios parecem não caber em um objeto. Como os saberes tradicionais atravessaram seu estudo?

RC – Os saberes tradicionais atravessam de forma viva e estruturante todo o texto, não como adorno, mas como fundamento da resistência histórica dos povos originários e comunidades tradicionais frente à opressão e ao apagamento sistemático. É justamente nesse campo, do conhecimento ancestral, construído na prática e na coletividade, que reside a força de quem, por séculos, tem sustentado modos de vida em harmonia com a natureza, apesar da violência colonial e da negação institucional.

O contato com os modos de viver da Comunidade Quilombola Serra da Guia foi fundamental para compreender o que realmente significa transformar a experiência em conhecimento.

Enquanto a ciência moderna, atrelada a lógicas de mercado e interesses de exploração econômica, se revela cada vez mais impotente diante da devastação ambiental, os saberes tradicionais permanecem como guias concretos para a preservação da biodiversidade. Não é coincidência que esses povos convivam há séculos com os ecossistemas sem destruí-los. A verdadeira inovação está em reconhecer que os caminhos para superar a crise climática e ambiental não virão da repetição das fórmulas do progresso, mas do reconhecimento e valorização dos conhecimentos historicamente silenciados.

MJ – O grande pensador peruano Aníbal Quijano fala que ainda hoje os fios de colonialidade nos amarram. Quilombos e comunidades tradicionais são lugares de enfrentamento que nos desarmam? Como?

RC – O quilombismo é, antes de tudo, uma forma coletiva de resistência e reexistência. Mais do que um conceito histórico, trata-se de uma prática viva, forjada na luta e na memória de um povo que nunca se curvou às violências do colonialismo nem às exclusões impostas pelo capitalismo racial. O aquilombamento, nesse contexto, é um gesto político e social de preservação da vida, uma resposta concreta a uma sociedade guiada pelo consumismo, pelo individualismo e pela destruição sistemática dos vínculos comunitários e ambientais. Esse processo de resistência desafia diretamente o que Boaventura de Sousa Santos chama de pensamento abissal, a separação radical entre os que são reconhecidos como humanos e os que são descartados como sub-humanos ou inexistentes. Para ele, o colonialismo não apenas explorou territórios e corpos, mas também operou por meio do epistemicídio, apagando e deslegitimando os saberes dos povos originários e tradicionais. Aquilombar-se, portanto, é também reconstituir essas epistemologias silenciadas, trazendo-as para o centro da luta por justiça social e ambiental.

“Os saberes tradicionais são fundamento da resistência histórica dos povos originários e comunidades tradicionais frente à opressão e ao apagamento sistemático”, diz Renata (Crédito RF).

MJ – Em seu trabalho, que agora é livro, você defende que a vivência relacional dos quilombolas com a natureza e que se expressa em vários saberes deveria ser colocada em pé de igualdade com o conhecimento científico. É possível? Quais os reflexos disso na vida da Casa Comum?

RC – Sim, é possível. Reconhecer a equivalência entre os saberes tradicionais e o conhecimento científico. Como propõe Pergentino Pivatto, inspirado em Emmanuel Lévinas, é preciso uma ética da alteridade: escutar o outro sem reduzi-lo ao nosso referencial. Isso significa acolher a dignidade das formas diversas de vida e existência, como as dos quilombolas, que historicamente resistem ao apagamento.

Antônio Carlos Diegues em O mito moderno da natureza intocada mostra como o discurso ambiental dominante desconsidera que populações tradicionais sempre conviveram de forma sustentável com seus territórios. A ecologia de saberes, formulada por Boaventura de Sousa Santos, oferece um caminho para superar essa lógica colonial, ao valorizar conhecimentos enraizados na ancestralidade e na experiência cotidiana.

Na prática, isso transforma relações com o alimento, o tempo e o território, promovendo formas sustentáveis de vida e produção. O reflexo disso na Casa Comum é direto: cuidar do mundo que compartilhamos exige justiça epistêmica e ambiental. Só será possível um futuro habitável quando reconhecermos que a diferença é fonte de aprendizado e não de exclusão.

MJ – Ciência e Direito são campos marcados por significativo pensamento conservador, elitista, muitas vezes reacionário. Você chama Ciência e Direito para aprender com as comunidades tradicionais, com os quilombolas. Há espaço para isso ou você constrói esse espaço na Ciência e no Direito?

RC – Caminhar com as comunidades tradicionais, como os quilombolas, me ensinou que há outras formas legítimas de organizar a vida, que não se subordinam às estruturas dominantes do Direito e da Ciência. Ao perguntar se há espaço para esse reconhecimento ou se é preciso construí-lo, afirmo com clareza: é preciso construir.

Seguindo uma ética altruísta, no sentido mais profundo proposto por Pergentino Pivatto a partir de Lévinas, acredito que é necessário deslocar a centralidade do “eu” para o reconhecimento legítimo do “outro”. Isso exige ver, nas comunidades tradicionais, não objetos de pesquisa ou tutela, mas sujeitos de saber.

A diversidade humana revela múltiplas formas de organização social, cultural e normativa plenamente válidas. Esse reconhecimento conduz ao pluralismo jurídico, que desafia diretamente os alicerces do direito positivo, construído para servir a uma lógica única, centralizadora e colonial. Tanto o direito positivado quanto a ciência moderna, como estruturados no Ocidente, têm sido ferramentas de silenciamento. Ambos se apresentam, muitas vezes, como universais, mas, como bem denuncia Boaventura de Sousa Santos, carregam a marca de um universalismo excludente, próprio do colonizador.

O sistema de repartição das terras no Estado brasileiro reflete isso com clareza: historicamente excludente, racista e marcado por interesses econômicos que ignoram o vínculo ancestral e comunitário que povos quilombolas mantêm com seus territórios. A terra, para esses povos, não é mercadoria, mas memória, identidade e modo de existir.

Diante disso, o campo científico e o jurídico não são, por si, espaços naturalmente abertos a esses diálogos. É preciso construí-los. E é justamente nessa construção, por vezes conflituosa, que reside o gesto político de romper com os alicerces coloniais e criar brechas de escuta e reconhecimento. A ciência e o direito só se tornarão verdadeiramente democráticos se forem capazes de aprender com a experiência do outro e acolher as epistemologias que resistem e reexistem.

MJ – Quais as urgências deste país em enxergar os quilombos e as demais comunidades tradicionais?

RC – A urgência do Brasil em reconhecer as territorialidades tradicionais é, acima de tudo, um caminho possível e viável para a conservação da biodiversidade nacional. Mais do que uma pauta de justiça histórica, trata-se de reconhecer que os modos de vida das comunidades tradicionais, como os quilombolas, indígenas, ribeirinhos e camponeses, guardam saberes ancestrais profundamente alinhados com o equilíbrio ecológico e com a manutenção dos ciclos naturais.

Esses territórios não são apenas espaços físicos, mas verdadeiras redes de relação entre seres humanos, natureza e espiritualidade. Neles, a terra não é vista como recurso a ser explorado, mas como mãe, como fonte de vida que exige cuidado e reciprocidade. O reconhecimento dessas territorialidades, portanto, não apenas repara violências históricas, como também aponta para alternativas sustentáveis diante do colapso ambiental gerado pela lógica predatória dos atuais modelos econômicos e produtivos.

Proteger esses territórios é proteger o futuro do Brasil. É compreender que a diversidade cultural e a biodiversidade caminham juntas, e que, sem as comunidades que historicamente cuidaram dessas terras, não haverá floresta em pé, nem água limpa, nem clima estável para ninguém.

“A terra para esses povos não é mercadoria, mas memória, identidade e modo de existir”, afirma Renata (Crédito RF).

MJ – Como você resumiria as contribuições de seu livro para o campo do Direito?

RC – As contribuições do meu livro para o campo do Direito estão centradas na ampliação do olhar jurídico para além do positivismo. Ao tratar da territorialidade quilombola e da agricultura familiar sob uma perspectiva interdisciplinar, a obra propõe uma escuta ativa às epistemologias do Sul — como sugere Boaventura de Sousa Santos — e valoriza os saberes produzidos pelas comunidades tradicionais, historicamente invisibilizadas.

Em vez de compreender o território apenas como propriedade ou posse nos moldes eurocêntricos, o livro propõe uma abordagem que reconhece o território como espaço de existência, cultura, espiritualidade e resistência. Trata-se de afirmar o protagonismo político das comunidades quilombolas como um caminho viável à redemocratização dos modos de conhecer e de atuar nas políticas ambientais, rompendo com lógicas coloniais que ainda persistem nas instituições jurídicas e administrativas.

Assim, a obra oferece uma crítica à colonialidade do saber jurídico e contribui para a construção de um Direito mais sensível às realidades locais, mais democrático e conectado com os desafios socioambientais do Brasil contemporâneo.

MJ – Quem era a Renata antes do Quilombo de Serra da Guia e quem é a Renata depois da vivência com a comunidade?

RC – Antes do Quilombo de Serra da Guia, eu era uma mulher formada pelas raízes do sertão baiano. Neta de agricultor, cresci acompanhando a lida do meu avô Florisvaldo, que me ensinou, com o corpo e com o tempo, que a terra é fonte de saúde, de trabalho e de honra. Esse legado afetivo moldou meu olhar e foi o filtro com que interpretei, ao longo da formação acadêmica, os desafios colocados ao Direito diante da degradação ambiental e das injustiças fundiárias.

Anos depois, como procuradora federal na Procuradoria Federal Especializada junto ao Incra, aprofundei tecnicamente esse contato com a questão agrária. Foi ali, no exercício cotidiano da função pública e no diálogo com equipes multidisciplinares, que desenvolvi uma escuta mais atenta às singularidades dos territórios e à complexidade das disputas envolvendo comunidades quilombolas.

A vivência com a comunidade de Serra da Guia veio depois — e veio como um chamado. Ao me aproximar da história daquela coletividade, fui também revisitando a minha. Ali, compreendi que a força coletiva, aliada à espiritualidade, à memória e ao pertencimento, é capaz de ativar modos outros de existir e resistir. Depois da Serra da Guia, o Direito passou a ser para mim também um espaço de reconexão e cuidado. Um lugar onde a dignidade pode florescer a partir do reconhecimento da vida comum como centro.

MJ – Que inquietação lhe move?

RC – O que mais gostaria de destacar é uma inquietação que me atravessa profundamente: a necessidade urgente de romper com o individualismo que tem moldado nossas formas de viver, conhecer e se relacionar. Vivemos um tempo em que as relações humanas se tornaram rasas, utilitárias, marcadas por uma lógica de consumo que se estende à natureza, tratada como algo a ser explorado e não respeitado.

Essa mesma lógica, que coloca o lucro acima da vida, é a que nos empurra para um colapso anunciado. Seguimos trilhas de destruição como se fosse possível continuar indefinidamente nesse modelo de dominação econômica sobre corpos, territórios e ecossistemas.

Mas há outros caminhos, onde a coletividade, o cuidado, a espiritualidade e o respeito à biodiversidade não são acessórios, mas elementos centrais. E acredito que esse seja o convite mais potente que essa experiência pode oferecer: reaprender a viver em relação, com profundidade, com dignidade e com responsabilidade diante do que ainda pode florescer.

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Cristian Góes

Jornalista pela Universidade Tiradentes, mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação e Sociabilidade pela Universidade Federal de Minas Gerais. Experiência como repórter e assessor de Comunicação nas áreas sindical e pública.

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