A caminhada é política. É preciso resistir ao preconceito e combater o racismo religioso
Em cada passo, um pedido de proteção. Em cada canto, um chamado à memória. Em cada tambor, a força de quem insiste em existir. Na última sexta-feira (30), a 11ª Caminhada para Oxalá reuniu o povo de terreiro em Aracaju em uma celebração marcada por afeto, acolhimento e resistência. De branco, reverenciando os mais velhos e reafirmando os laços de comunidade, os participantes caminharam por justiça e pelo direito de viver a própria fé sem medo.
Organizado pela Rede de Matriz Africana (REMA) em parceria com o Conselho Estadual e os Conselhos Municipais de Promoção da Igualdade Racial, o ato ocorreu sob o lema “Caminhando a gente se transforma” e reuniu o povo de terreiro de Sergipe em um chamado coletivo por respeito, dignidade e justiça diante de um inimigo antigo: o racismo religioso.
Em 2024, a atividade foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial de Aracaju pela Lei nº 5.896/2024. Antes disso, já havia sido incluída no calendário cultural do Estado de Sergipe, conforme a Lei nº 8.452/2018.
Ao longo do percurso, embalado pelo som da banda Afoxé Di Preto, os adeptos misturavam a alegria de viver a própria fé, mas também carregavam pedidos: a Oxalá, clamavam por paz; a Ogum, força e proteção. Neste ano, a caminhada também homenageou Mãe Miralda, matriarca do Ilé Axé Ogum Talandé, localizado em Laranjeiras.
“É uma honra fazer essa homenagem para ela ainda em vida. Ela é um exemplo de resistência ao preconceito, ao racismo e à intolerância religiosa”, afirma Karol Borges, Iyakekerê do Ilê Axé Obé Fará, terreiro de candomblé da nação Ketu situado em São Cristóvão.
“Mãe Miralda é o aço temperado na doçura. É a voz que ecoa onde o silêncio tentou morar. Filha do ferreiro, ela traz no peito o escudo e a espada, transformando a luta contra o preconceito em solo sagrado para caminhar”, diz a ialorixá Lígia Borges, líder do Obé Fará. “Homenageá-la é celebrar a justiça, a fé e a coragem de quem faz da própria vida a nossa maior herança”.
Os líderes religiosos fizeram questão de reforçar que a caminhada é política. Estar nas ruas é reivindicar dignidade, proteção e justiça para quem tem a fé criminalizada, silenciada ou atacada. Ao caminhar, batucar, cantar e dançar para os orixás, esperavam que a justiça os alcançasse e fizesse cessar anos de sofrimento e preconceito sofridos pelos povos de religiões de matriz africana.
A mobilização ocorre em um contexto de violência alarmante. De acordo com o Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, Sergipe contabilizou 44 denúncias e 67 violações contra a liberdade ou crença religiosa somente no ano passado. Um crescimento desmedido em relação a 2024, com 14 denúncias e 22 violações contabilizadas.
“Essa violação dos direitos dos povos de matriz africana é o reflexo de um racismo estrutural que tenta silenciar nossas vozes. Por isso, a Caminhada para Oxalá é necessária. Ela é o nosso grito de resistência, pois sabemos: ao colocar o pé na estrada, a gente se transforma”, destacou a REMA.
Veja algumas das principais imagens do ato:












