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Raymundo Souza Dantas, primeiro embaixador negro do Brasil. A Mangue Jornalismo conta a história do sergipano de Estância que a “sergipanidade” apagou

ANA PAULA ROCHA, da Mangue Jornalismo

“Sabe quanto significa esse gesto do presidente?”, perguntou um estudante ganense ao recém-empossado embaixador brasileiro em Gana, Raymundo Souza Dantas. Durante a recepção ao primeiro embaixador negro do Brasil, o então presidente ganense e líder pan-africanista Kwame Nkrumah dançou com o brasileiro.

“A dança tem para nós mais do que sentido cultural, ela é um elemento essencialmente religioso. Quando conhecer melhor os nossos hábitos e coisas, compreenderá”, lhe disse o jovem, em registro no livro “África Difícil”, publicado por Raymundo Dantas em 1965. A obra traz trechos do diário que manteve ao longo do último ano de sua experiência à frente da embaixada.

Raymundo Souza Dantas é um daqueles sergipanos de grande importância na História do Brasil, porém foi ocultado pela seletiva construção da ideia de “sergipanidade”.

Nascido no município de Estância em 1923, o menino Dantas viveu uma infância muito pobre, o que o impediu de frequentar a escola, permanecendo semianalfabeto até os 18 anos. Foi com essa idade que o rapaz se mudou de Sergipe para o Rio de Janeiro e, por meio do jornalista e também sergipano Joel da Silveira, conseguiu emprego no semanário carioca Diretrizes.

Autodidata, Raymundo alfabetizou-se muito rápido. Três anos após sua chegada ao Rio, já publicava o romance “Sete Palmos de Terra”. Outros seis livros seriam lançados por ele entre 1945 e 1961 – cinco deles de ficção –, além de inúmeros artigos publicados em vários jornais de circulação nacional.

Enquanto cobria a corrida presidencial de 1960, Souza Dantas conheceu de perto Jânio Quadros, que assumiu a presidência em 31 de janeiro de 1961. Logo foi nomeado pelo presidente para o cargo de Oficial de Gabinete da Presidência da República. Semanas depois, em abril de 1961, era alçado ao posto de “Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário do Brasil” em Acra, capital de Gana, localizada no Golfo da Guiné, na África Ocidental, e que havia se tornado independente do Reino Unido em 1957, se tornando referência na luta anticolonial. Em 19 de janeiro de 1963, Raymundo escrevia em seu diário que “não passa de drama o que todos consideram conquista: ser Embaixador.”

Um oceano de dificuldades

A recepção da mídia, de figuras políticas brasileiras e de servidores do imponente Palácio do Itamaraty foi bastante hostil à nomeação de Souza Dantas ao cargo de embaixador. O racismo permeou muitas das declarações que circularam na época.

As dificuldades enfrentadas pelo embaixador negro, nordestino e sergipano incluíram lidar com os ataques e mentiras divulgados na imprensa, a falta de apoio que o próprio Ministério das Relações Exteriores do Brasil impunha e as limitações que um país jovem como Gana apresentava.

O professor de História Fábio Koifman (UFRRJ), autor da biografia “Raymundo Souza Dantas: o primeiro embaixador brasileiro negro”, lançada em 2021, explica que as falas preconceituosas que encontrou durante suas pesquisas em jornais da época eram tão absurdas que optou por incluir as declarações na íntegra, para melhor dimensionar o cenário complexo enfrentado pelo sergipano.

“O Quadros [presidente Jânio Quadros] chegou a dizer que mesmo tendo concedido uma medalha ao Che Guevara [a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul], o céu quase caiu em sua cabeça foi quando nomeou um negro para assumir uma embaixada”, complementa Koifman.

Petrônio Domingues, professor de História da Universidade Federal de Sergipe e doutor em História Social (USP), ressalta que “o contexto no qual o Raymundo Souza Dantas estava inserido era um no qual vigorava no Brasil o mito da democracia racial. Já existiam mobilizações do movimento negro, mas este tinha pouco espaço”.

Ainda que Jânio Quadros colocasse em prática uma inédita aproximação brasileira com o continente africano, o avanço dos planos de Souza Dantas – como celebração de acordos econômicos e intercâmbios de pesquisadores – se dava de forma muito lenta ou inexistente. A instabilidade política em Gana, com sucessivas tentativas de golpe contra Nkrumah, piorava a situação.

Do ponto de vista pessoal, os impedimentos abatiam o embaixador e se somavam à saudade da esposa e dos três filhos, que precisaram retornar ao Brasil pouco tempo após desembarcarem no país africano, o que se dera já com atraso de meses depois da chegada de Dantas a Acra.

Não bastassem todos esses entraves, em 25 de agosto do primeiro ano de mandato, Jânio Quadros renunciou à presidência. Com o revés, Dantas decidiu deixar o posto diplomático, mas foi convencido pelo novo governo, liderado por João Goulart, a permanecer. A mudança de presidente não alterou a dinâmica precária de trabalho disponível para Raymundo Dantas em Gana. Ele renunciou ao cargo de embaixador brasileiro em Gana no mês de janeiro de 1964.

O “irmão brasileiro” e o divisor de águas

Como refúgio, havia os livros e seus estudos africanos. Várias entradas do diário listam as leituras, dentre elas Marques Rabêlo, Machado de Assis, José Lins do Rego, Mário de Andrade e o psiquiatra e filósofo político Frantz Fanon.

Em viagens curtas ao Togo e Benin, Dantas conheceu descendentes dos retornados brasileiros, sendo a família De Souza a mais importante. Nos anos de 1960, ela ainda guardava resquícios do poder que o seu patriarca havia conquistado, o controverso baiano Francisco Félix de Souza, que acolheu outros retornados, mas fez fortuna intermediando com a Europa o comércio de escravizados.

O embaixador brasileiro era chamado de irmão pelos De Souza e “Tabons”, descendentes de retornados brasileiros em Gana, além de frequentemente ser confundido com membros do povo Ashanti. Esses episódios afetaram Raymundo Dantas, que se via como um homem que não precisava “se fazer negro entre negros” em África, mas também se sentia conectado a outra cultura, a brasileira.

O professor Petrônio explica que “foi a partir da experiência ganense que o Raymundo passou a se sentir dividido entre dois mundos: o Ocidental (eurocentrado) e o mundo africano, com o qual ele se identificou. Ele desenvolve o que W.E.B Du Bois [intelectual pan-africanista] chama de ‘dupla consciência’. Essa consciência dupla é complementar, não é em oposição. Em Gana, ele se dá conta de que aquilo que ele é como ser humano, como homem negro, tem a ver com o legado africano”, explica Petrônio.

Quando ainda muito jovem no Rio de Janeiro, Souza Dantas se filiou ao Partido Comunista, e seu pensamento forjou-se tendo como centro a questão de classe. Ao ser nomeado para a embaixada, já não era muito ativo no partido. Contudo, a questão racial como secundária à questão de classe permanecia sendo a base de seus posicionamentos.

“A partir de Gana, Raymundo Dantas revê suas concepções não somente sobre a África, como também sobre o Brasil. Ele se torna um africanista não afrocentrado, alguém que tem interesse em estudar sobre a África, mas sem ter no continente seu eixo”, resume o professor Petrônio Domingues.

Mais negros no Itamaraty

Passados mais de 60 anos desde a nomeação do primeiro embaixador negro brasileiro e do início das relações diplomáticas do Brasil com os países africanos, o cenário é de progresso, ainda que não seja o ideal.

Para o diplomata aracajuano Pedro Mahin, filho do economista e ativista do movimento negro sergipano Carlos Trindade, apesar das muitas dificuldades, “Souza Dantas guarda todo o simbolismo de ter sido o primeiro embaixador negro. Isso abriu portas para que, um tempo depois, tivéssemos pessoas negras ingressando na carreira diplomática.”

Pedro Mahin ressalta os esforços do Itamaraty para atrair e reter pessoas negras e cita o Programa de Ações Afirmativas (PAA) – Bolsas-Prêmio de Vocação para a Diplomacia. Elas são destinadas ao custeio de estudos preparatórios ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD)”. Mahin foi contemplado pelo programa em 2019. A bolsa foi implementada em 2002, exatamente no ano de falecimento de Souza Dantas.

“O Ministério das Relações Exteriores foi vanguardista ao implementar as bolsas-prêmio”, diz Mahin. “Essa foi a primeira vez em que se implementou um programa de ações afirmativas voltado para pessoas negras do serviço público federal no Brasil”, complementa o aracajuano.

A primeira pessoa contemplada com a bolsa foi Marise Ribeiro Nogueira. Em 2021, ela foi nomeada para posto em Washington, onde trabalhou com outros dois diplomatas negros, ambos também beneficiados com a bolsa do PAA. Desde abril de 2022, Marise Nogueira é conselheira na embaixada do Brasil no Panamá.

Doze anos após a iniciativa do Itamaraty, outra medida de âmbito federal – desta vez mais ampla – fortaleceu o caminho da diversidade nos cargos públicos brasileiros: a Lei nº 12.990/2014. Ela destina 20% das vagas no serviço público do país a candidatos negros. A vigência da lei acaba em 2024, mas já há projetos que visam estendê-la.  

Olhando para 2023, o professor Petrônio afirma que “com o terceiro mandato do Lula, estamos numa realidade na qual ocorreram avanços efetivos em benefício da população negra no campo dos direitos e cidadania.”

Para ele, isso tem relação com a percepção de que o Brasil é racista, e não uma “democracia racial”, como afirmava-se nos anos 1960. “Obviamente, ainda há vozes argumentando o contrário, porém há um consenso mínimo de que o país é racista e de que esse racismo é estrutural”, acrescenta Petrônio Domingues.

Infelizmente, não é possível saber o que Raymundo Souza Dantas diria sobre um Brasil onde políticos, diplomatas e ministros negros são protagonistas e pioneiros na discussão de pautas importantes em todo o mundo, como igualdade racial, direitos humanos, cultura e não-proliferação de armas de destruição em massa. No entanto, há uma ideia registrada em “África Difícil” que ecoa a conexão Brasil-África que ele constatou: O africano […] está condenado à originalidade, pois todos os seus problemas exigem soluções diferentes”.

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