Com maioria das crianças entre 4 e 5 anos fora da escola em Sergipe sendo negras, pesquisa da UFS ressalta o papel conjunto entre escola, família e sociedade para enfrentar racismo.

Crianças pequenas já reproduzem comportamentos de exclusão antes mesmo de compreender plenamente o que significam. Recusar dividir brinquedos, evitar colegas ou repetir falas ouvidas em casa são algumas das formas pelas quais o preconceito começa a se manifestar ainda na primeira infância. “Criança não nasce com preconceito. Ela vai adquirindo isso dentro da família”, afirma a pedagoga Jolúzia Viana, que atua na rede pública de educação em Sergipe. Segundo ela, essas situações aparecem no cotidiano escolar, quando crianças se recusam a brincar juntas, rejeitam colegas ou reproduzem comentários sobre aparência, especialmente relacionados ao cabelo.
O que pode parecer pontual é, na verdade, parte de um fenômeno mais amplo e estrutural. Dados da Pesquisa Panorama Primeira Infância indicam que uma em cada seis crianças de até 6 anos no Brasil já foi vítima de racismo, evidenciando que o problema atinge justamente a fase mais decisiva do desenvolvimento humano.
De acordo com o psicólogo Ueliton Santos Moreira Primo, doutor pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia — INCT Preconceitos, os impactos do racismo na infância são profundos e duradouros. O INCT reúne pesquisadores de diversas universidades brasileiras e se dedica a compreender e enfrentar as diferentes formas de preconceito na sociedade, transformando evidências científicas em caminhos para políticas públicas e práticas educativas.
Autor da tese “O papel protetivo da socialização étnico-racial dos pais na identidade étnico-racial de crianças negras”, o pesquisador investiga desde o mestrado como essas vivências afetam diretamente a construção da identidade infantil. “O racismo produz consequências muito graves no desenvolvimento infantil desde a primeira infância”, afirma.
Segundo ele, crianças negras expostas à discriminação tendem a desenvolver baixa autoestima, dificuldades na construção da identidade e um sentimento de não pertencimento. Em muitos casos, passam a rejeitar características como a cor da pele e o cabelo, construindo uma relação negativa com a própria imagem.
Esse processo ocorre justamente em uma fase decisiva da vida. No Brasil, crianças de 0 a 6 anos representam cerca de 8,92% da população, o equivalente a mais de 18 milhões de crianças, segundo dados do IBGE. Trata-se de um grupo numeroso e em pleno desenvolvimento cognitivo, emocional e social, o que torna ainda mais grave a exposição precoce ao racismo.
A pesquisa de Ueliton Santos Moreira Primo mostra que, embora as crianças consigam identificar corretamente a cor da pele de outras pessoas, encontram mais dificuldade ao se definirem. Entre crianças pretas, apenas 35% se autodefinem como pretas em perguntas abertas, enquanto muitas preferem termos como morena, marrom ou escura. Já entre crianças brancas, 81% se identificam corretamente com seu grupo, evidenciando um descompasso entre reconhecer o outro e reconhecer a si mesmo.

A pesquisa também aponta uma tendência ao branqueamento, na qual crianças negras se aproximam de categorias mais claras ao se descrever. Essa dinâmica reflete o peso de estigmas sociais historicamente associados à negritude no Brasil. A diferença aparece também na forma como essas crianças se relacionam com a própria aparência. Em uma escala de 1 a 4, crianças brancas apresentam maior satisfação com a cor da pele, com média de 3,88, enquanto crianças pretas registram 3,29. O mesmo padrão se repete na percepção sobre o cabelo: fios lisos e ondulados apresentam índices mais altos de satisfação, enquanto o cabelo crespo registra a menor média.
Os impactos do racismo na infância não se restringem à autoimagem. Eles atravessam o ambiente escolar e influenciam diretamente o desenvolvimento social e acadêmico. Segundo o pesquisador, crianças que vivenciam situações de discriminação podem desenvolver um sentimento de exclusão que compromete sua relação com a escola. Em alguns casos, deixam de participar das atividades ou evitam frequentar o ambiente escolar, percebido como hostil.
Quando essas situações não são enfrentadas por adultos, o silêncio reforça a desigualdade. A criança aprende, ainda que de forma indireta, que aquela violência é tolerada. Ao longo do tempo, a exposição contínua ao racismo pode gerar estresse crônico, afetando não apenas o bem-estar psicológico, mas também a saúde física.

Do ponto de vista legal, o Brasil possui instrumentos que buscam proteger crianças contra a discriminação, como o Estatuto da Criança e do Adolescente. Seu artigo 5º, inciso IV, estabelece que toda criança deve ser protegida contra qualquer tipo de discriminação, independentemente de raça, etnia ou outras condições. No entanto, especialistas apontam que a legislação trata o racismo de forma genérica, sem um dispositivo específico que reconheça suas particularidades na infância, o que pode dificultar o enfrentamento efetivo do racismo estrutural vivido por crianças e adolescentes negros.
Diante desse cenário, a família aparece como um espaço central tanto na reprodução quanto no enfrentamento do racismo. A tese aponta que a estratégia mais comum entre pais é o chamado igualitarismo, baseado na ideia de que “somos todos iguais”, com média de 4,18 em uma escala de frequência. Embora bem-intencionada, essa abordagem não enfrenta diretamente o racismo nem seus efeitos concretos.
Por outro lado, práticas de socialização étnico-racial, como o diálogo sobre racismo, o ensino da história e cultura negra e o incentivo ao orgulho racial, apresentam impacto positivo significativo. Essas estratégias funcionam como um fator de proteção, especialmente para crianças negras. Quanto maior o nível de diálogo familiar sobre raça, maior a satisfação da criança com sua identidade e com características como o cabelo cacheado e crespo.
Nesse contexto, o pesquisador destaca que muitas famílias ainda enfrentam dificuldades para abordar o tema no cotidiano. “Muitos pais e muitas mães se questionam sobre o que fazer e como podem fazer para abordar o tema do racismo de uma forma acessível quando as crianças ainda são pequenas. Existem diferentes estratégias que podem ser utilizadas desde quando as crianças são bebês. Nesse momento da vida, elas estão conhecendo o mundo por meio de vários estímulos, como os visuais e auditivos. Então, é fundamental verificar o que a criança está ouvindo e está vendo à sua volta”, explica Ueliton.
Segundo ele, a construção de uma educação antirracista começa justamente nesses primeiros contatos com o mundo, a partir das referências que cercam a criança e das experiências que moldam sua percepção sobre si mesma e sobre o outro. Já na escola, iniciativas pedagógicas também desempenham papel fundamental.
Para Jolúzia Viana, a educação antirracista começa pelo reconhecimento. Ela destaca que o uso de livros, histórias e referências positivas permite que as crianças se vejam representadas e construam uma relação mais saudável com a própria identidade. Ao se reconhecerem em personagens e narrativas, passam a se perceber de forma mais positiva.
A contação de histórias, nesse contexto, se torna uma ferramenta potente. Por meio do lúdico, as crianças entram em contato com outras possibilidades de representação, rompendo com a lógica de invisibilização que historicamente marcou a educação brasileira. Ao se enxergarem como protagonistas, passam a construir novas referências sobre si mesmas e sobre o lugar que ocupam no mundo.
O enfrentamento do racismo na infância, portanto, depende de ações articuladas entre família, escola e sociedade. Especialistas apontam que o diálogo aberto, o acesso à informação e a valorização da diversidade são caminhos fundamentais para interromper a reprodução do preconceito. Se o preconceito é aprendido, ele também pode ser transformado, e esse processo começa desde os primeiros anos de vida.


