A seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas possam expressar perspectivas que estimulem o interesse e o debate público. O artigo deve dialogar com os princípios da Mangue, entretanto ele não precisa representar necessariamente o ponto de vista da organização.
Na manhã de 22 de junho, o eleitor sergipano soube que Fábio Mitidieri (PSD) havia consolidado a liderança na disputa pelo governo do Estado. Horas depois, no mesmo portal, recebeu outra notícia: Valmir de Francisquinho (PL) estava à frente, com vantagem de 6,5 pontos. Não houve uma reviravolta eleitoral durante o almoço. Eram duas pesquisas realizadas praticamente no mesmo período, transformadas em narrativas com desfechos muito diferentes para a eleição sergipana.
O levantamento da CTAS, feito entre 16 e 20 de junho, atribuiu a Mitidieri 41,2% das intenções de voto e a Valmir 26,7%. O INOR, que entrevistou entre 16 e 18 de junho, encontrou Valmir com 41,5% e Mitidieri com 34,95%. Em 3 de agosto, uma terceira pesquisa, da Real Time Big Data, acrescentou outro retrato: Mitidieri com 43% e Valmir com 40%, em empate técnico devido à margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
Até 04 de outubro, outras sondagens serão publicadas, e não é possível tratar esses resultados como variações estatísticas ocasionais. Na pesquisa da CTAS, Mitidieri aparece 14,5 pontos à frente, na do INOR, Valmir lidera por 6,55 pontos. A diferença entre as duas margens supera 21 pontos. Os números legitimam histórias políticas distintas: liderança consolidada do governador, virada do adversário ou disputa em aberto.
O eleitor pode ter a sensação de que há muitas pesquisas, cada uma ao gosto de uma candidatura. Não é apenas impressão. Uma consulta ao PesqEle, sistema de registro de pesquisas eleitorais da Justiça Eleitoral, mostra que, entre fevereiro e julho de 2022, foram feitas 22 pesquisas em Sergipe. No período equivalente de 2026, foram 44, exatamente o dobro.
Uma pesquisa é uma estimativa construída a partir de escolhas metodológicas, não um atestado da vontade popular. Algum grau de variação é aceitável e não autoriza acusar um instituto de fraude sempre que seus números desagradam. Mas tampouco se deve considerar natural uma divergência dessa magnitude sem investigar suas causas. E aqui cabe questionar: por que parte da cobertura jornalística local noticia sucessivamente os resultados, muitas vezes reproduzindo textos de assessorias, mas raramente problematiza os levantamentos?
Registrar uma pesquisa não significa que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tenha auditado ou certificado seus resultados. A própria Justiça Eleitoral esclarece que não exerce controle prévio sobre eles. O PesqEle torna públicas informações sobre contratantes, financiadores, questionários e metodologias. Cabe à imprensa examinar esses dados e oferecer ao leitor uma interpretação crítica.
Há uma dimensão quase ausente das manchetes: quem paga pelos levantamentos?
Segundo informações publicadas pelo portal O Sergipense e confirmadas nos registros consultados para este texto, a pesquisa que colocou Valmir na liderança foi financiada pela Martins Produções e Publicidade, empresa que mantém ou manteve contratos com prefeituras administradas por grupos politicamente próximos ao candidato. O levantamento que colocou Mitidieri à frente foi pago pela In Comunicação Produções e Serviços, que já prestou serviços ao Governo do Estado. Essas relações não comprovam manipulação dos dados nem invalidam automaticamente qualquer pesquisa. São, porém, indispensáveis para compreender as condições econômicas e políticas de sua produção, pois as pesquisas não existem fora do campo de disputa que pretendem medir.
Quando a cobertura apresenta retratos tão diferentes sem confrontá-los, a divergência ganha ainda mais força no ambiente digital. O que circula nos grupos de WhatsApp e nos perfis de apoiadores não é o plano amostral ou o nome do financiador. O que viraliza é o print: “Valmir assume a liderança”, “Mitidieri consolida vantagem”. A matéria jornalística vira story, mensagem encaminhada e argumento no almoço de família. Serve para animar militantes, atrair lideranças, convencer indecisos, estimular o voto útil e desmobilizar adversários. Mais do que registrar a disputa, a pesquisa participa de sua construção.
É nesse ponto que a ideia de pós-verdade ajuda a compreender o fenômeno. Não se trata apenas da circulação de mentiras, mas de um ambiente no qual informações parciais são retiradas de contexto, selecionadas conforme sua utilidade política e dirigidas a públicos predispostos a aceitá-las. Cada grupo compartilha a pesquisa que confirma suas expectativas e rejeita a outra como fraude. O critério de credibilidade deixa de ser a qualidade do método e passa a ser a identidade de quem encaminha a mensagem. Em vez de uma realidade comum submetida ao debate, formam-se versões paralelas da eleição, todas acompanhadas de um número de registro no TSE.
A imprensa não precisa escolher antecipadamente qual instituto está certo. Precisa fazer jornalismo. Isso significa informar quem contratou e quem pagou, comparar pesquisas realizadas em datas próximas, explicar diferenças de método, questionar divergências incomuns. Significa, sobretudo, deixar de atuar como mera distribuidora de releases.
Talvez Mitidieri esteja à frente. Talvez Valmir. Talvez a conclusão mais responsável, diante de levantamentos tão discrepantes, seja admitir que ainda não sabemos com a segurança anunciada pelas manchetes. Em tempos de pesquisas abundantes, o dever da imprensa não é proclamar o vencedor da semana, mas explicar por que cada pesquisa parece descrever uma eleição diferente.


