“Quando o poder tecnológico se concentra em poucas corporações estrangeiras, não há neutralidade possível”, diz publicitário

Em livro, o estrategista político Henrique Pereira defende que o poder das big techs não deriva somente do capital financeiro, mas também da concentração massiva de dados e a sua capacidade de transformá-los.

A maior parte das maiores big techs do mundo está sediada nos Estados Unidos. O Brasil não possui empresas de tecnologia de escala global, mas sim importantes empresas regionais e algumas filiais dessas plataformas. (Créditos: Shutterstock)

A dependência digital brasileira das chamadas big techs, como a Meta, Google, Amazon, Microsoft e Apple, ameaçam estruturas fundamentais da democracia do Brasil. Uma das principais afetadas é a construção da chamada soberania digital, que é a capacidade de um país atender de forma autônoma suas necessidades, por exemplo, de armazenamento e processamento de dados, algo dependente de estruturas físicas custosas. 

De acordo com o estudo Contratos, Códigos e Controle: A Influência das Big Techs no Estado Brasileiro, o Governo Federal gastou, de 2014 a 2025, cerca de R$ 23 bilhões em licenças de software, serviços em nuvem e serviços similares dos monopólios estrangeiros. Essas decisões, na prática, resultam em mais subordinação a regras de funcionamento que nem sempre estão explícitas. 

Um dos poucos movimentos feitos pelo Governo Federal mirando a soberania digital e de dados foi a criação do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), anunciado oficialmente em agosto de 2024. Com o objetivo de desenvolver soluções em IA que otimizem a entrega de serviços públicos, melhorar a qualidade de vida da população e promover a inclusão social, o plano investirá cerca de R$ 23 bilhões até 2028.

Em seu livro Teia Popular: Soberania digital para vencer esta guerra, lançado este ano, o publicitário e estrategista político Henrique Pereira defende que o poder das big techs não deriva somente do capital financeiro, mas também da concentração massiva de dados e a sua capacidade de transformá-los em previsão, indução e controle de comportamento. 

“Cada clique, curtida, rolagem de tela, mensagem enviada ou vídeo assistido alimenta sistemas que aprendem continuamente sobre desejos, medos, preferências e fragilidades humanas”, disse em evento realizado na sede da CUT Sergipe, em Aracaju, no mês de maio. 

Em entrevista exclusiva à Mangue Jornalismo, Pereira explicou sobre a dinâmica perigosa dos algoritmos, como eles podem desmobilizar a luta política e quais são algumas das alternativas para resistir. 

Confira os destaques a seguir.

“Sem soberania digital, não há autonomia política no século XXI. Bater continência para algoritmo não é estratégia, é submissão”, adverte Pereira. (Créditos: Jomara Costa/Ascom Sindijus)

MJ – O que seria a soberania digital e de dados? De forma prática, como ela se organizaria? 

HP: A soberania de dados é ter a propriedade dos dados sem entregar para uma outra empresa, como uma big tech. É garantir, por exemplo, que uma organização como um sindicato tenha os seus dados em uma nuvem soberana, com estrutura própria, que não esteja sujeita às leis norte-americanas. Já a soberania digital requer que a gente construa uma infraestrutura própria. É a possibilidade do nosso povo guardar o desenvolvimento das nossas sabedorias em território nacional. Para isso, temos que provocar os governos federal, estaduais e municipais para que construam uma infraestrutura que seja capaz de proteger os dados da população brasileira, e que não os venda para fora para o treinamento de inteligência artificial. Por exemplo, se o Governo Federal investisse 10% dos R$ 23 bilhões gastos em big techs [entre 2014 e 2025], seria possível construir uma infraestrutura soberana. 

MJ – O senhor defende que as redes sociais digitais deixem de ser o foco da ação política e que se transformem em uma ferramenta de captação para os espaços verificáveis. Quais seriam esses primeiros passos?


HP: Defendo que devemos utilizar as ferramentas digitais como uma tarrafa de pesca, em que jogamos a rede, mas ao fim puxamos para perto, ou seja, dentro de relações verificáveis. Isso pode ser, por exemplo, em um ‘dashboard’, que é uma ferramenta que analisa quantas pessoas abriram a minha mensagem e o que disseram. Assim, as organizações conseguem ter as suas próprias métricas, organizadas, confiáveis e verificáveis, e não confiar em um dado da big tech que não podemos auditar. 

MJ – Na sua avaliação, a construção de sujeitos políticos no mundo digital, dentro dos moldes deste algoritmo, atrapalha a mobilização política para mudar a realidade de maneira concreta? 

HP: Ao obedecer a ordem desses algoritmos, surgiram alguns influenciadores de esquerda que defenderam o fim da escala 6×1, então sim, alguma coisa é possível. No entanto, quando se pensa em um crescimento a partir dessa obediência, pode-se caminhar por um caminho, no mínimo, perigoso. Ao surfar nessa onda da viralização, não se tem profundidade no debate, porque o que viraliza é a espetacularização, o ódio, o confronto e o conflito. Então, não podemos nos reduzir a esse modelo, nós precisamos discutir os problemas da sociedade com a sociedade. É claro que podemos usar um card ou um vídeo que chame atenção, esse não é o problema, o problema é parar aí. Podemos construir, a partir disso, uma trilha de relacionamentos.

MJ – O senhor defende que as redes sociais não são espaços neutros e adaptar a comunicação popular e as demandas políticas históricas da esquerda a este formato pode ser um erro estratégico. Qual seria a nova estratégia a ser adotada? 

HP: O primeiro grande erro é fazer de um espaço privado o nosso principal terreno de batalha. É certo que vivemos em uma guerra entre os democratas e os fascistas, mas também é, sobretudo, uma batalha entre os milionários e bilionários que querem liberar geral todas as possibilidades de exploração sobre o povo trabalhador. Portanto, estar nessa guerra já é difícil, porque não temos o poder econômico. Se escolhemos lutar só no terreno do inimigo, em que não se conhece com clareza todas as regras, não temos chances de vencer. 


Então, para vencer esta guerra, não se pode deixar de lutar na internet, porque é lá que estão as pessoas, mas podemos trazê-las para uma relação direta. Nós temos que usar as redes sociais de forma estratégica, entendendo que lá não é a nossa morada e que ela tem dono. 

Lançado no início do mês, o livro defende que movimentos populares, sindicatos e mandatos parlamentares precisam construir infraestrutura própria de comunicação para reduzir a dependência das grandes plataformas digitais. (Créditos: Jomara Costa/Ascom Sindijus)

MJ – Por que a esquerda brasileira não consegue alcançar um maior grau de mobilização nas redes sociais, em comparação à direita? 

HP: A primeira coisa que define é o poder econômico: a partir do investimento nas redes sociais, os conteúdos viralizam mais e, teoricamente, atingem mais pessoas. A esquerda, os trabalhadores, têm menos recursos que os grandes empresários. Mas há uma segunda questão que é o desejo da compra, estimulado por essas empresas, que usam de todos os apelos para atingir a parte de recompensa do cérebro. Aliado a isso estão as bets, que são também programadas para ter uma ação que associe a vitória no nosso cérebro. Então, basicamente, estamos na mão de ferramentas de psicometria e neuromarketing poderosíssimas e autoritárias, que utilizam esse poder violento para manipular os sentimentos.

MJ – O senhor afirma que o Brasil é um bom laboratório para as big techs. O gasto do Governo Federal de R$ 23 bilhões em softwares e serviços em nuvens estrangeiras é um bom exemplo disso. Quais são os riscos políticos de estar na mira desses monopólios? 

HP: Esse valor é absurdo. Eu acho necessário que se pense em quantos por cento desse valor será investido em tecnologia própria, isso é uma prioridade de investimento. Não adianta, por exemplo, resolver uma estrutura militar, se não há investimento em infraestrutura de dados. Dessa maneira, se perde qualquer guerra, pois se perde a informação que me gera o poder. É preciso compreender a importância desse investimento, porque é ele quem define quem manda e quem obedece.

*Com supervisão de Wendal Carmo

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Rossella Cecília

Repórter em formação, baiana e graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Suas linguagens favoritas da comunicação são a fotografia e o texto, fortes aliados na contação de histórias. Acredita que o jornalismo independente é lugar de resistência contra as armadilhas da imprensa burguesa.

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