“Poemas não são sobre coisas ou sentimentos, eles têm vida própria, são crianças de muita personalidade”, diz Demétrio Soster

Agende-se. No dia 1 de agosto, sexta-feira, às 18h30, será a estreia em terras que eram dos cajus e papagaios do poeta Demétrio de Azeredo Soster, um gaúcho que se mudou de mala e cuia para cá faz quatro anos. Em Aracaju, mais precisamente na Livraria Escariz, localizada na Avenida Jorge Amado, Demétrio fará o lançamento do seu sétimo livro de poesias “Migalhas do mundo”, pela editora Bestiário. Ah, o livro já está na Escariz.

Demétrio Soster é jornalista desde 1985 e passou por empresas como o Jornal do Comércio e Zero Hora. Não demorou e ele tomou o rumo da universidade, fez mestrado, doutorado e pós-doutorado e assumiu salas de aula ensinando o jornalismo. O rapaz tem uma ampla e consolidada carreira acadêmica em todo país. Isso é pouco. Organizou, com outros autores, 16 livros sobre jornalismo, comunicação e narrativas.

Entretanto, bem antes disso tudo estava a literatura, ainda criança. “Preferia ter tido escolha, coisa que não aconteceu: a poesia, de certa forma, nasce comigo. Em o sendo, e não tendo opção, Demétrio é o cara que estuda pra caramba sobre poesia, que lê muito, que demora uma vida pra terminar um poema e acha, sinceramente, ao fim, que poderia ter ficado melhor. Então é dolorido ser assim, sabe?”, explica ele.

E não é só isso. Apenas em termos de literatura, Demétrio é autor de 13, geneticamente divididos em poesia, narrativas de viagem e crônicas. Sim ele é jornalista com mais de 25 anos em redações, professor de Jornalismo na Universidade Federal de Sergipe (UFS), escritor, cicloturista e “aprendiz de surf”.

A Mangue Jornalismo fez uma entrevista com Demétrio Soster. Nela, ele afirma que a poesia “é uma literatura para ser lida em voz alta, ou pelo menos movendo-se os lábios. Poesia exige algo mais que movimento dos olhos. Depois, é importante lembrar que a força do poema é ele próprio”.

Leia a entrevista na íntegra:


Mangue Jornalismo – Quem veio primeiro na vida do Demétrio: a literatura com poesias e crônicas ou o jornalismo? Ou não existe ordem nessa chegada?

Demétrio Soster – Literatura, sem sombra de dúvidas; com ela, a poesia. Naquela época – e lá se vão muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuitos anos – eu nem sabia que aquilo que estava escrevendo se chamava literatura, muito menos poesia; aconteceu assim, por acaso. Lembro de um rio, de uma ponte sobre este rio, e de algumas palavras que escrevi sobre isso. O resto são memórias desse acontecimento; de algo que escrevi a respeito e que me pareceu diferente, por assim dizer. O jornalismo aconteceu bem mais tarde, quando eu era pós-adolescente e já me reconhecia como um poeta.


Mangue Jornalismo – Quem é o poeta, quem é o jornalista, quem é o professor Demétrio Soster? Quantas faces tem esse sujeito?

DS – Eita… não faço ideia, mas desconfio. Como poeta, é o cara que não gosta de ser poeta. Melhor dizendo: preferia ter tido escolha, coisa que não aconteceu: a poesia, de certa forma, nasce comigo. Em o sendo, e não tendo opção, Demétrio é o cara que estuda pra caramba sobre poesia, que lê muito, que demora uma vida pra terminar um poema e acha, sinceramente, ao fim, que poderia ter ficado melhor. Então é dolorido ser assim, sabe? Não me pesa tanto a solidão de ser pouco lido; é problema de outra ordem, isso não faz falta, ainda que eu ache importante e deseje. O que eu queria mesmo era mais sossego, “partos” menos dolorosos, entende? Mas é o que temos; as coisas são como são. Quanto às outras faces… Bem, tem o jornalismo, como profissão: 25 anos em redações de todos os portes e matizes e um eito em sala estudando, refletindo a respeito. Mas, também, a sala de aula, que adoro, a pesquisa, a extensão, essas coisas. E o surf, né? AMO estar no mar com minha prancha, assim como amo o cicloturismo, os livros que escrevo a respeito, as corridas de rua – em agosto faço minha primeira maratona, meus filhos, Pedro e Verônica; Rose, minha mulher, e tantos amigos. A vida de uma forma geral, enfim.


Mangue Jornalismo – Ao que parece, as crônicas literárias – mesmo ficcionais – aproximam-se muito mais do jornalismo em razão das narrativas do que a poesia. Entretanto você despeja força na poesia, inclusive com sete livros. A poesia é uma forma de resistência ou complemento ao jornalismo?

DS – Crônicas estão próximas do jornalismo, com certeza; tem a ver com tempo em movimento, com a narração do vivido. Por isso ainda escrevo, de vez em quando, alguma crônica. Mas a poesia dialoga pouco ou quase nada com o jornalismo. A minha poesia, ao menos. Antigamente, ainda na fase de formação, usei a poesia para exercitar métrica de títulos, essas coisas, mas hoje não vejo conexão entre as duas formas, muito embora muita gente boa já tenha feito literatura a partir de notícias de jornais. Minha poesia nasce de minhas vísceras, do que provoca movimento aos olhos e faz pulsar o coração; se isso vem da discursividade midiática, não refuto, claro. Scliar, Drummond e outros já mostraram que dá pra fazer coisa de qualidade por aí, mas comigo acontece diferente.


Mangue Jornalismo – Seu primeiro livro de poesia foi “Tempo Horizontal” em 2013. Doze anos depois chega em 2025 o “Migalhas do Mundo”. É uma sequência de produção que indica uma jornada coerente no campo da poesia, até porque você revisita neste novo trabalho os sete livros de poesias anteriores? Ou, poesia não tem ponto final?

DS – Certamente ela não tem ponto final, pois é um processo; neste sentido, todos os meus livros, como você bem aponta, estão interligados. São, de certa forma, uma extensão de meu, ainda que em versos. A revisita que fiz na segunda parte do “Migalhas do Mundo” – Cantos Ancestrais, tem a ver com uma tentativa de “enxergar” a linha que amarra um livro ao outro. E também para que o pessoal aqui de Sergipe tivesse uma ideia do que eu fiz em termos de poesia antes do livro novo.


Mangue Jornalismo – Como sua mudança do Rio Grande do Sul para Sergipe se revela em “Migalhas do Mundo”? Isso tem relação com a palavra ‘desejo’ que o poeta gaúcho Celso Gutfriend encontrou para explicar nesse seu último livro?

DS – Acho que sim, ainda que não diretamente, e nem de forma proposital. Ao me transferir “de mala e cuia” para cá, trouxe comigo, claro, minha forma de perceber o mundo em que eu vivo. E aí acabo traduzindo meu momento em versos vez que outra. Isso aconteceu, por exemplo, no poema “noite branca”, quando me surpreendi, mesmo morando em um estado onde a presença de pretos e descendentes de povos originários é expressiva, sua mais absoluta ausência em um show que assisti no Teatro Tobias Barreto. De meu espanto nasceram os seguintes versos: “uma plateia branca// poltronas repletas/ de bundas brancas// dois negros na banda/ se tanto// acordes dissonantes// momentos, instantes//


Mangue Jornalismo – Você é um leitor e escritor de crônicas de narrativas de viagens. Como isso aconteceu e como eles atravessam nas poesias?

DS – Foi há pouco mais de oito anos, durante uma viagem de carro com minha família ao Uruguai, quando conheci um casal de cicloturistas que estava atravessando a fronteira por aqueles dias. A imagem de duas pessoas em bicicletas carregadas de carga foi marcante demais. Retornando do passeio, comprei uma bicicleta e comecei a pedalar. Um ano depois lá estava eu, cruzando a fronteira novamente entre Brasil e Uruguai, dessa vez pedalando. Na volta escrevi o livro – “Operação Banda Oriental” (Catarse, 2017), fiz documentário (disponível no youtube), fiz palestras, exposições; enfim, transformei o vivido em fenômeno midiático. E não parei mais: de lá para cá foram seus livros escritos sobre o tema. A poesia entra neste contexto por meio das coisas que me marcam de forma diferenciada. É por isso que, no “Migalhas do Mundo”, trago o poema “la vieja estación”, que escrevi inspirado em um hostel onde fiquei por uma noite na divisa entre Argentina e Chile, aos pés do Aconcágua e em uma noite extremamente fria.


Mangue Jornalismo – Como você define “Migalhas do Mundo”? Como se divide? De que migalhas você trata?

DS – O novo livro é composto de pouco mais de 80 poemas, divididos em dois grandes blocos. O primeiro, “Livro I – Cantos Inaugurais”, reúne o que de mais significativo eu produzi no tempo circunscrito entre a pandemia de Covid 19 e minha transferência para Sergipe. Os poemas da série “Cantos da floresta”, mais para o final no primeiro momento de “Migalhas do mundo, entram, neste contexto, como um ensaio a um tempo mágico e transcendental embalado pela experiência, ainda dos tempos de Santa Cruz do Sul (RS), há pouco mais de três anos, de interplanetários magic mushrooms.
Já o segundo momento do “Migalhas do Mundo” – “Livro 2 – Cantos ancestrais”, é uma espécie de revisita aos sete livros de poesia que publiquei desde o seminal “Tempo Horizontal” (Edunisc, 2013), tomando o cuidado de melhorar um que outro verso, que isso, o lapidar, nunca acaba. Na falta de um designativo melhor, trata-se de uma coletânea de minha produção em 35 poemas que considero basilares em meu percurso. Mas, também, que ajudasse a quem ainda não me conhece – todos os livros anteriores, à exceção de ‘O sonho da sombra’, estão esgotados, infelizmente – a ter uma visão panorâmica do que eu tenho de mais significativo em termos de literatura.


Mangue Jornalismo – O porquê e como devemos ler esses poemas?

DS – “Eis o mistério da fé!” kkkkkkkkk Mas, falando sério, talvez porque seja importante lermos poesia de vez em quando, este gênero a um tempo tão difícil e incompreendido de literatura. Poemas, parodiando aquele aforisma, não movem o mundo, mas é estranho pensar o mundo sem poesia. É importante, aos que forem ler os meus poemas; senão os meus, poemas, seja lá de quem for, que considerem algumas coisas em relação à poesia. A primeira, e mais importante, é que se trata de uma literatura para ser lida em voz alta, ou pelo menos movendo os lábios. Poesia exige algo mais que movimento dos olhos. Depois, é importante lembrar que a força do poema é ele próprio. Ou seja, os poemas não são sobre coisas, ou sentimentos, eles tem vida própria. Por isso que costumo dizer que poemas são crianças de muita personalidade. Então não espere a descrição de coisas vividas, ainda que, aqui e ali, reconheçamos cenários; busquem, sobretudo, sentir o que emerge das palavras. Sobretudo, leiam. Gosto de pensar, como disse aí em cima, que é complicado pensar o mundo sem poesia; então é preciso fazer ela acontecer. E ler poesia é um bom primeiro passo.

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Cristian Góes

Jornalista pela Universidade Tiradentes, mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação e Sociabilidade pela Universidade Federal de Minas Gerais. Experiência como repórter e assessor de Comunicação nas áreas sindical e pública.

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