Plantio de mudas marca resistência de catadoras de mangaba em área sob a mira da especulação imobiliária na Barra dos Coqueiros

Ação ocorreu meses após prefeitura retirar cercamento de área destinada às catadoras há quase uma década. No município, extração da mangaba, a fruta-símbolo de Sergipe, caiu 73% em quatro anos, apontam dados do IBGE.

(Créditos: Jonathan Calzavara)

Mais de 400 mudas foram plantadas neste sábado (5) por catadoras de mangaba no povoado Capuã, em Barra dos Coqueiros, na Grande Aracaju. A área, usada há gerações para o extrativismo, está no centro de uma disputa territorial e sob pressão da expansão imobiliária.

A ação reuniu as trabalhadoras que há gerações tiram o sustento da restinga sergipana, pesquisadores, estudantes e instituições parceiras em uma tentativa de recuperar a vegetação e preservar o uso tradicional de um terreno de quase 10 hectares destinado à associação das catadoras.

Intitulada “Raízes que protegem”, a iniciativa foi articulada pela Associação das Catadoras de Mangaba do Município de Barra dos Coqueiros (ACMBC) com a Universidade Federal de Sergipe (UFS). O Ministério Público de Sergipe financiou as mudas com recursos provenientes da conversão de valores relacionados a crimes ambientais.

Também participaram da ação a Emdagro, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Embrapa Tabuleiros Costeiros e a empresa Bioverdade, que forneceu a tecnologia de hidrogel utilizada para manter a umidade do solo. Cerca de 15 estudantes de Geografia, Ecologia, Agronomia, Engenharia Florestal, Jornalismo e Biologia da UFS participaram do plantio.

Ameaça territorial 

O terreno de quase 10 hectares foi destinado à associação pela Lei Municipal nº 859/2017 para atividades de cultivo e extrativismo. Desde então, a área se tornou alvo de uma disputa envolvendo a comunidade e a Prefeitura de Barra dos Coqueiros. Em junho de 2026, agentes da Prefeitura de Barra dos Coqueiros retiraram o cercamento que vinha sendo instalado pela comunidade com recursos de uma emenda parlamentar. A gestão municipal justificou a medida alegando inércia da entidade e descumprimento das finalidades previstas para a cessão do terreno. A prefeitura havia formalizado a reversão do imóvel por meio do Decreto nº 1.451/2025.

A comunidade, contudo, obteve amparo institucional. O Ministério Público Federal (MPF) emitiu recomendação à prefeitura cobrando a suspensão de quaisquer atos restritivos contra o território tradicional, alertando que a tentativa de reversão violou a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) por não realizar consulta prévia, livre e informada. Além disso, a 3ª Vara Cível e Criminal da Comarca de Barra dos Coqueiros concedeu liminar para proibir intervenções de terceiros na área e determinou que o município esclarecesse a existência de projetos de condomínios de luxo planejados para o local.

Para Patrícia de Jesus, diretora-geral da Associação das Catadoras de Mangaba de Barra dos Coqueiros, o plantio é uma forma de manter a atividade e reafirmar a presença das trabalhadoras no território.

“Essa atividade é uma continuidade do trabalho que já realizamos. Sempre que podemos estamos aqui, realizando o plantio, além de ter datas de roteiro comunitário. Estamos com cerca de 800 mudas de mangaba em nossa associação e hoje temos mais de 110 famílias conosco, que catam mangaba. Hoje, é um motivo de alegria, mesmo com a situação que estamos enfrentando. Temos duas liminares a nosso favor, mas não temos uma resposta ainda definitiva”, disse.

Patricia de Jesus, diretora geral da Associação das Catadoras de Mangaba na Barra dos Coqueiros. (Créditos: Jonathan Calzavara)

A importância da mobilização foi fortalecida por Caroline Santos, vice-presidente da CUT em Sergipe. “Para nós, esta é uma luta dos trabalhadores e trabalhadoras. É um outro formato laboral, mas é trabalho. E onde estiver essa causa, nós estaremos presentes”, ressaltou. 

Saberes compartilhados entre gerações

Aos 65 anos, Ana Maria Santos participou do plantio e levou para a atividade uma história que atravessa gerações. Ela aprendeu a coletar mangaba com a sogra, Pracida, matriarca lembrada na proposta de batizar o território ao lado de dona Josefa, outra pioneira local. Seguindo a tradição, Ana Maria ensinou o ofício à filha, Patrícia. Pracida é lembrada como uma das matriarcas da comunidade e dá nome, ao lado de dona Josefa, outra pioneira local, ao território.

“Já faz muitos anos, criei meus filhos na mangaba”, recordou Ana. “Lembro de quando Patrícia aprendia a andar de bicicleta: eu levava dois baldes no bagageiro, uma trouxa e outro balde, e ela ia com cuidado pela estrada, nos ajudando a transportar a carga.”

O cuidado de Ana vai da coleta natural ao preparo das sementes, que secam por dois dias à sombra antes da triagem. A celebração do plantio, contudo, divide espaço com a angústia da insegurança fundiária. O plano da associação de erguer um pomar coletivo com quase 900 mudas esbarrou na remoção das cercas pela prefeitura, forçando o grupo a recuar estrategicamente para não perdê-las.

Aos 65 anos, Dona Ana participou ativamente do plantio das mudas. (Créditos: Jonathan Calzavara)

 “Confesso que só não estou plenamente feliz por conta da incerteza que enfrentamos aqui. Já deveríamos ter plantado quase 900 mudas, mas o processo de cercamento foi interrompido. Por conta desse impasse, hoje estamos plantando espécies variadas, como aroeira, pau-ferro e araçá, além de apenas dez mudas de mangaba. Trouxemos poucas mangabeiras justamente por não sabermos o desfecho dessa situação. Temos muita fé e esperança, mas não queremos arriscar o plantio sem segurança”, relatou a catadora.

O plantio também mira os próximos anos. A mangabeira leva cerca de cinco anos para produzir os primeiros frutos, e a associação pretende acompanhar o crescimento das árvores para formar um pomar coletivo.

Para Ana Maria, garantir a permanência no território significa também assegurar que as futuras gerações possam colher o que está sendo plantado agora. “Espero que tenhamos uma resposta favorável das autoridades para que possamos concluir o plantio. Desejo que, daqui a alguns anos, possamos receber vocês e os estudantes aqui novamente, não apenas para visitar, mas para nos ajudar na colheita”, afirmou. “Mesmo que, daqui a cinco anos, eu já esteja com uma idade avançada, continuarei firme. É um trabalho que amamos e que realizamos com muito orgulho. Sou extrativista, aposentada pela pesca, mas sigo na luta pela preservação da ‘cata’ da mangaba”, finalizou a catadora.

A ciência como aliada: hidrogel e cerca viva

A estratégia de plantio precisou ser adaptada à estiagem. Foram plantadas 200 mudas de aroeira-vermelha, 150 de araçá, 50 de pau-ferro e dez de mangaba.

O plantio ocorreu fora do período inicialmente previsto pela equipe, que esperava instalar as mudas durante a estação chuvosa, em junho. Para reduzir os efeitos da falta de água, foi usado hidrogel, material aplicado próximo às raízes para ajudar na retenção de umidade do solo.

Mudas de aroeirinha vermelha e araçá. (Créditos: Jonathan Calzavara)

“Aguardávamos apenas o cercamento para realizar o plantio durante a estação chuvosa, em junho. A tentativa de desterritorialização nos forçou a adiar”, disse a professora Laura Jane, do Departamento de Ciências Florestais da UFS.

Ela explica que, com o plantio acontece em período de estiagem, “aplicamos uma tecnologia de hidrogel para assegurar a retenção hídrica nas raízes por pelo menos três meses. A aroeira funcionará como cerca viva e gerará renda com a colheita da pimenta-rosa; o araçá fornecerá matéria-prima para doces e sucos; e o pau-ferro, como pioneira, acelerará a regeneração florestal”. 

A escolha das espécies também envolve o conhecimento das próprias catadoras. As mudas de araçá, por exemplo, foram produzidas a partir de sementes coletadas pelas extrativistas na restinga e levadas aos viveiros da UFS, sob coordenação de Laura Jane. “Estamos fortalecendo as espécies que são naturais dessa área, por isso fazemos a seleção de sementes e enviamos para a universidade. Plantamos agora, sabemos que é um período de estiagem, mas as parcerias nos ajudaram a ter as ferramentas necessárias para essa ação”, pontua a líder comunitária Patrícia.

Mudas de aroeirinha são preparadas para serem plantadas, à esquerda. Ao centro, o apoiador atua preparando o solo e a direita, hidrogel é inserido antes do plantio da muda. (Créditos: Jonathan Calzavara)

Para além da recuperação florestal, a ação funcionou como uma sala de aula a céu aberto para os mais de 15 alunos da UFS engajados na atividade de extensão. “Eles estão aprendendo técnicas de plantio na prática e, simultaneamente, conhecendo de perto a luta das catadoras, o que fortalece a sensibilização sobre a questão territorial”, ressaltou a professora Laura Jane.

(Créditos: Jonathan Calzavara)

A docente enfatizou que a presença da universidade no Capuã terá caráter contínuo, acompanhando os desdobramentos judiciais da posse da terra. O plano inclui a realização de novos plantios e o manejo adequado da vegetação já estabelecida no local. “Esperamos realizar novos plantios e, futuramente, gerenciar as espécies já existentes, como cajueiros, mangabeiras e cambuís, que demandam podas. Quanto às novas mudas, estamos articulando com técnicos a possibilidade de viabilizar um caminhão-pipa para a irrigação, garantindo que o esforço realizado não seja perdido”, concluiu.

A ciência dos polinizadores noturnos

A produção de mangaba também depende de processos que acontecem longe dos olhos das catadoras durante o dia. A polinização da mangabeira é feita principalmente à noite, e esse ciclo passou a ser estudado pela professora Crislaine Calazans, do Departamento de Engenharia Florestal da UFS.

A aproximação entre a pesquisadora e as catadoras partiu de uma dúvida das próprias trabalhadoras. Elas percebiam oscilações na produção de frutos, mas não sabiam quais animais visitavam as flores da mangabeira.

“Nas comunidades de Mangabeira, surgiu um questionamento por parte dos moradores: eles não conseguiam identificar quais eram os polinizadores das mangabeiras. Fui, então, convidada a realizar pesquisas para identificar esses polinizadores, visto que este fator é determinante para a frutificação e a produtividade”, relembrou Crislaine.

Para identificar os polinizadores, a pesquisa precisou acompanhar o ciclo noturno da mangabeira. Segundo Crislaine, os principais visitantes são mariposas, conforme indica a literatura científica.

“Devido ao hábito noturno desses insetos, majoritariamente mariposas, segundo a literatura, realizamos frequentes trabalhos de campo à noite. Esse envolvimento nasce da necessidade de uma troca mútua de conhecimento: aprendemos com a comunidade, enquanto eles recebem os subsídios científicos desenvolvidos na universidade”, explicou a professora.

Para Crislaine, ampliar a diversidade de espécies no terreno pode ajudar a criar condições mais favoráveis para a fauna e a flora da região. O plantio de árvores nativas e frutíferas, segundo ela, pode melhorar o microclima e atrair novas espécies para a área.

“A proposta de introduzir mais espécies da biodiversidade local visa melhorar o microclima e tornar o ambiente propício à atração de novas espécies, tanto da fauna quanto da flora, criando um refúgio ecológico em meio ao avanço das construções”, afirmou.

Depois de plantadas, a equipe inseriu um material de identificação. (Créditos: Jonathan Calzavara)

“Criar um corredor ecológico em meio às construções”

A disputa pelo terreno do Capuã ocorre em um cenário de redução das áreas naturais de mangabeira no litoral sergipano. Um mapeamento realizado pela Embrapa em 2017 apontou que o estado perdeu 10.456 hectares de áreas naturais da espécie entre 2010 e 2016, uma redução de quase 30% em seis anos. O levantamento considerou nove municípios extrativistas, entre eles Barra dos Coqueiros, Estância, Indiaroba e Pirambu.

Dados do IBGE mostram também uma queda na quantidade de mangaba extraída em Sergipe. Depois de atingir 495 toneladas em 2020, o volume caiu ano a ano e chegou a 308 toneladas em 2024, uma redução de quase 38% em quatro anos. O quadro é ainda mais intenso em municípios que são considerados centros de conflitos fundiários provocados pela expansão imobiliária. 

Na Barra dos Coqueiros, a queda foi ainda maior. A coleta passou de 26 toneladas em 2020 para 7 toneladas em 2024, segundo o IBGE, uma redução de 73%. O município chegou ao menor volume de extração entre as principais cidades produtoras do estado.

A redução das áreas de mangabeira afeta tanto a biodiversidade quanto a atividade das famílias que dependem do extrativismo. Para as catadoras, a perda das árvores significa também a redução dos espaços onde podem trabalhar.

“Antes existiam muitas mangabeiras por aqui; me deixa muito triste ver que a grande maioria não existe mais. Minha avó passou esse conhecimento para várias mulheres e este território é o único e acreditamos que será o último espaço de prática coletiva, onde muitas trabalhadoras se encontram na coletividade para a coleta das mangabeiras”, lamenta Patrícia.

O ato de plantar, para as catadoras de mangaba, tornou-se um ato de resistência. (Créditos: Jonathan Calzavara)

Para Patrícia, cada muda plantada também representa uma forma de manter viva a relação das catadoras com o território e transmitir esse conhecimento às próximas gerações.

“Ações como essas nos dão uma vontade de continuar. Acharam que estávamos sozinhas, mas hoje vemos que não estamos. Ter esses parceiros demonstra nossa força e atrai mais apoio à nossa causa. Ainda há muitos jovens que não conhecem essa realidade, e nosso objetivo é expandir essa troca de conhecimentos”, concluiu.

Enquanto as mudas crescem, a comunidade espera que a área também permaneça de pé diante do avanço das construções. A professora Laura Jane, da UFS, resume o desejo em uma imagem: “Esperamos criar um corredor ecológico em meio ao caos que está a Barra dos Coqueiros por conta das construções”.

No Capuã, as árvores plantadas agora ainda são pequenas. Para as catadoras, porém, elas carregam uma expectativa que vai muito além da próxima colheita: permanecer no território para que outras mulheres possam, um dia, voltar ali para colher mangaba.

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Camila Farias

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