Campeã nacional em descargas de petróleo em terra, a Carmo Energy continua a receber licenças para suas atividades petrolíferas em Sergipe, enquanto moradores do município de Carmópolis e região relatam problemas socioambientais e de saúde. Esta é a segunda reportagem da série “Não verás verde nenhum”

A empresa de extração de petróleo e gás Carmo Energy gosta de pódios. Em 2024, ela conseguiu três: é a companhia em solo sergipano com o maior valor de isenções em contribuições sociais e importação, está no topo do número de autuações registradas pela Administração Estadual do Meio Ambiente de Sergipe (Adema), além de ser a primeira em ocorrências de descarga de petróleo dentre todas as empresas de extração em terra – também conhecida como onshore – no Brasil.
Segundo dados da Controladoria-Geral da União (CGU), o Estado de Sergipe teve, ao todo, R$ 65,1 milhões em renúncias fiscais do tipo PIS/COFINS Vinculados à Importação e Imposto de Importação e IPI Vinculado. Desse valor, R$ 15,3 milhões foram concedidos à Carmo Energy, parte do grupo internacional Cobra Instalaciones y Servicios, que atua no Brasil há duas décadas e está em Sergipe desde 21 de dezembro de 2022. A empresa adquiriu por US$ 1,1 bilhão a concessão dos 11 campos terrestres de extração de petróleo e gás do Polo Carmópolis, que possui mais de 3,6 mil poços.

Renúncias fiscais funcionam como incentivo para a atração e permanência de investidores em uma localidade. Porém, no caso da Carmo Energy, a retirada da cobrança de milhões em impostos contrasta com as dezenas de autuações ambientais que a empresa registrou ao longo de 2024 por irregularidades em suas atividades.
Segundo dados obtidos com exclusividade pela Mangue Jornalismo via Lei de Acesso à Informação (LAI), das 165 autuações da Adema em 2024, 50 foram contra a Carmo. A maioria das autuações foi por vazamento de emulsão oleosa ou lançamento de substância oleosa com prejuízo à fauna e flora das cidades de Carmópolis, Japaratuba, Siriri, Riachuelo, Divina Pastora, Aracaju, Rosário do Catete e Maruim. Os meses de fevereiro, agosto e setembro do ano passado registraram 15 autuações cada, e em outubro foram cinco.
No documento em resposta à solicitação da Mangue via LAI, a maioria das autuações não informa o valor da multa ou o tamanho da área atingida pelos vazamentos e lançamentos irregulares. Contudo, em 23 de outubro de 2024, por exemplo, o órgão estadual registrou 14,604m² diretamente afetados por “disposição irregular de resíduos” em Carmópolis – o equivalente a pouco mais de dois campos de futebol de área afetada.
Outro registro, de 14 de abril deste ano em Japaratuba, informa que 850m² foram contaminados por “disposição irregular de resíduos oleosos” com o agravante de “ocultação de evidências relevantes para identificação do crime ambiental”. A planilha não detalha quais seriam os meios de ocultação utilizados pela Carmo Energy.
Apesar das irregularidades, a Adema continua a conceder licenças à empresa. Segundo informações publicadas no Diário Oficial do Estado de Sergipe e coletadas pela Mangue, foram emitidas 187 licenças em 2024 e 148 até 05 de dezembro de 2025 para as atividades de extração, com prevalência das Licenças Prévias de Perfuração (LPPERs).
Este ano, houve também a emissão de licença simplificada para a Carmo Energy operar a Estação de Telecomunicação Alto do Jericó, além de três autorizações ambientais (AA), sendo uma de abandono permanente de poços em Siriri e duas para descontaminação de áreas em Japaratuba.
Questionada pela Mangue sobre o porquê de continuar emitindo licenças para uma empresa com tantas autuações ambientais, a Adema explicou, em nota, que “cada atividade é licenciada e acompanhada pelo órgão ambiental, mediante a apresentação de relatórios periódicos e informes de incidentes pela empresa, nos quais devem apresentar medidas de contenção e mitigação de impactos”. A resposta ressalta, ainda, que as infrações são tratadas “de forma pontual, não interferindo no licenciamento ambiental de outras atividades regulares”.
Medalha de ouro no quesito descarga de óleo onshore em 2024
O relatório anual de segurança operacional das atividades de exploração e produção de petróleo e gás natural 2024, produzido pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), afirma que “apenas em instalações terrestres operadas pela Carmo Energy foram registrados 59 incidentes de descarga de óleo em 2024, totalizando um volume de 11,59m³”.
Segundo o documento, o total de vazamentos em terra no Brasil em 2024 foi de 36,4m³, ou seja, a Carmo Energy respondeu por 31,84% do total de vazamentos em explorações de petróleo em solo brasileiro no último ano.
Esse tipo de incidente não é novidade no histórico do petróleo em Sergipe. Em novembro de 1999, um acidente ocorreu devido a uma falha no campo de produção de Carmópolis, então controlado pela Petrobras, o que acarretou no vazamento de óleo e água sanitária no Rio Siriri. Uma das principais consequências foi o prejuízo à atividade pesqueira.
Uma pesquisa de 2015, também durante o período no qual a Petrobras operava os poços onshore de Carmópolis, ressalta que “tanto em pastagens nativas quanto em pastagens plantadas, observaram-se animais alimentando-se nos arredores dos poços de exploração, em áreas contaminadas por derramamento de óleo e vazamento de gás”.
Joelma Siqueira, ativista e presidente da Associação de Mulheres Artesãs de Carmópolis, ressalta que a situação socioambiental da cidade piorou com a instalação da Carmo Energy. “Fora o derramamento de petróleo, há os escapes de gás, e ainda tem a tal da água produzida que eles derramaram próximo de onde está a água que a gente recebe nas torneiras”, disse em entrevista à Mangue.
Ela se refere à água contaminada com Materiais Radioativos de Ocorrência Natural (também conhecidos como NORMs, na sigla em inglês), rejeitos radioativos que, no Brasil, ainda não possuem um repositório nacional como destino final. Cada empresa gerencia os NORMs resultantes da produção e extração de petróleo segundo normas gerais, já que ainda não existem regulações específicas para seu tratamento.
O geólogo Felipe Santos, que desenvolveu pesquisa sobre petróleo na Universidade Federal de Sergipe, explica que, às vezes, uma jazida não tem pressão suficiente para empurrar todo o petróleo aprisionado, seja por conta da distância até o poço ou por questões geotécnicas. Nesses casos, é comum ter poços injetores de água ou gás produzido para forçar o petróleo em direção ao poço, dessa forma facilitando sua extração.
“Como os campos do Polo de Carmópolis são antigos, precisam mais desses injetores, pois a pressão de formação original já está bem mais defasada. Ou seja, cada vez fica mais difícil de empurrar esse petróleo”, explica Felipe Santos. Ele destaca que o tratamento dos resíduos é complicado e tem alto custo para as empresas, pois além de partículas radioativas, a água produzida também possui metais pesados e gases dissolvidos devido à pressão e temperatura.

Segundo Joelma, o consumo da água fornecida à população de Carmópolis causou desarranjos intestinais em sua família e em outros moradores, e a constante inalação do gás que escapa das tubulações desencadeou quadros de sinusite e rinite em suas filhas, além de crises alérgicas. Outro ponto que faz questão de mencionar são os vários diagnósticos de câncer em sua família, incluindo um caso de câncer cerebral em uma sobrinha que faleceu aos três anos de idade devido à doença.
À Mangue Jornalismo, a Adema disse que o monitoramento da qualidade da água nos locais onde há exploração de petróleo e gás é uma das condicionantes para a emissão de licenças ambientais. “A Adema realiza o acompanhamento por meio da apresentação de relatórios periódicos constantes nos Planos de Monitoramento de Águas Subterrâneas de diversas atividades desenvolvidas pela empresa”, afirmou.
Sobre se já foram registradas junto ao órgão denúncias contra a Petrobras ou Carmo Energy pelo descarte irregular de águas de formação, a Adema negou e disse que acompanha os informes de vazamento realizados pelas empresas “em conformidade com a determinação da ANP, e consequentes vistorias pela equipe de campo para apurar a ocorrência, amplitude do dano e responsabilidade legal pelo dano causado”. A autarquia ambiental também informou em nota que acompanha “por meio do cumprimento as condicionantes das Estações Coletoras e da unidade de Tratamento de Resíduos Alto do Jericó”.
Levantamento do DATASUS informa que, entre janeiro de 2020 e novembro de 2025, foram registrados 20.927 casos de câncer entre residentes de municípios sergipanos, sendo 158 em Carmópolis. Até novembro, eram nove os diagnósticos oncológicos confirmados na cidade no ano de 2025. Mas apesar das décadas de atividade petrolífera, faltam estudos específicos sobre a situação do município e cidades vizinhas que permitam traçar relação direta entre a extração de hidrocarbonetos e os casos de câncer.
Um dos raros estudos que explorou temporal e espacialmente os diagnósticos oncológicos no estado é a dissertação da pesquisadora Renata Reis Figueiredo, que analisou a mortalidade por câncer de pulmão em cidades sergipanas entre 1980 e 2022. Uma das conclusões do seu estudo é de que Carmópolis teve as maiores taxas padronizadas de mortalidade na população masculina e feminina no período estudado, sendo que no primeiro grupo ela esteve acompanhada de Aracaju e no segundo de Divina Pastora. Este último município também tem poços de petróleo.
A reportagem questionou a Carmo Energy por e-mail acerca do motivo de tantos vazamentos e lançamentos de substância oleosa nos campos que opera, quais as ações que toma após a identificação de um vazamento, se adotou medidas para diminuí-los e se possui práticas de escuta da população local potencialmente afetada.
Em nota, a assessoria da empresa informou que “qualquer vazamento é tratado como evento não desejado, sendo imediatamente interrompido, contido, comunicado aos órgãos reguladores competentes quando aplicável, investigado e corrigido”. Também afirmou que, atualmente, as operações da Carmo Energy não geram resíduos classificados como NORM, e que possui um plano contínuo de redução de ocorrências, “com investimentos em integridade de linhas, manutenção preventiva e preditiva, treinamentos, simulados e revisão de procedimentos operacionais”, além de canais diretos de relacionamento com a população e interlocução com autoridades e lideranças de comunidades locais.
Sobre as autuações, se limitou a dizer que “todas as notificações e autuações são tratadas com seriedade, com respostas formais aos órgãos competentes, cooperação técnica permanente com os reguladores e compromisso com a melhoria contínua de seus controles operacionais e ambientais”.
Greenwashing empresarial
Como sua missão, a Carmo Energy afirmou em apresentação no Sergipe Day 2024 que promove “o crescimento sustentável dos ativos, de forma ética, inovadora e segura para se tornar referência no desenvolvimento econômico, social e ambiental nos municípios em que atua”. A empresa gerencia 3.674 poços em Sergipe e informou que suas atividades de 2023 geraram R$ 73,5 milhões em royalties distribuídos no estado.
Seguindo a abordagem de outras empresas do setor de petróleo e gás, a Carmo tem investido na projeção de uma imagem “verde” em suas redes sociais. Em sua conta oficial no Instagram, a empresa divulga atividades de limpeza de praias com voluntários e outras ações que visam o “crescimento sustentável, ético e responsável”.
No LinkedIn, maior plataforma profissional, a empresa compartilhou, dentre outras coisas, fotos e um resumo da ação “Caminhos Sustentáveis: a força de trabalho em equilíbrio com o meio ambiente”, que incluiu a distribuição de mudas de árvores frutíferas do bioma Mata Atlântica e sucos naturais.
Contudo, pesquisadores da área ambiental apontam a inefetividade dessas ações, pois não confrontam, por exemplo, questões como emissões de gases do efeito estufa e desrespeito a povos tradicionais residentes nas áreas onde há exploração de hidrocarbonetos.
Em outubro, o Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, conhecido como NetLab, publicou um detalhado estudo sobre práticas empresariais de greenwashing – em tradução literal, lavagem verde – no LinkedIn. No ranking das dez empresas que mais veicularam “propaganda verde” estavam as empresas do setor de combustíveis fósseis Petrobras, Shell, Acelen, Comgás e Compass.
O documento conclui que “ao normalizar práticas nocivas sob uma aparência de sustentabilidade, o greenwashing contribui tanto para a perpetuação de modelos insustentáveis que colocam a sociedade em risco quanto para a formação de uma percepção distorcida do consumidor diante do agravamento das mudanças climáticas”.
Avanços e retrocessos climáticos em Sergipe
Este ano, a gestão de Fábio Mitidieri (PSD) tomou algumas decisões relevantes para o horizonte ambiental e climático do estado. Dentre as de maior importância está o Plano Estadual de Transição Energética, atualmente em sua última fase de construção e cuja previsão de divulgação era novembro de 2025.
Outro ponto a ser destacado é a Portaria 98/2025 da Adema, assinada em 15 de agosto, que “Dispõe sobre a inclusão do Diagnóstico Climático nos Estudos de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental – EIA/RIMA, no âmbito do licenciamento ambiental para os empreendimentos e atividades geradoras dos Gases do Efeito Estufa – GEE, em instalação ou em operação no Estado de Sergipe”.
Em paralelo a essas medidas, Sergipe pensa seu futuro energético apostando na expansão da extração de gás fóssil e na produção do chamado hidrogênio verde (H2V) a partir da água. O documento Guia de Oportunidades de Investimentos 2024 de Sergipe, apresentado no Sergipe Day 2024, afirma que o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, “Destinará R$ 136,6 bilhões para Sergipe. Destes, R$ 109 bilhões são direcionados ao setor energético, contemplando as áreas de petróleo, gás e linhas de transmissão”.
A aposta no gás fóssil como combustível para a transição energética e a retomada das extrações nos campos onshore, agora pelo setor privado, vai na contramão do que muitos dos mais respeitados cientistas da área climática e ambiental recomendam mesmo para o curto prazo.A carta A Margem Equatorial e o suicídio ecológico do Brasil, apresentada na COP30, em Belém, e elaborada por cientistas e outros atores preocupados com as decisões do governo brasileiro de ampliar ou manter a exploração de petróleo, gás e carvão no país, é categórica ao defender “a rápida redução da produção e consumo de combustíveis fósseis, conforme compromissos internacionais assumidos pelo Brasil”.

Sergipe possui uma estreita relação com os combustíveis fósseis. Foi justamente no menor estado brasileiro que começaram, em 1969, as prospecções da Petrobras em alto-mar, levando à extração de petróleo na costa a partir de 1973. O Campo de Guaricema, no litoral sergipano, é um marco da estatal cujo pioneirismo mundialmente reconhecido reside na expertise desenvolvida para exploração de petróleo e gás offshore, já que as reservas em terra no Brasil não são abundantes.
Essa matéria foi atualizada às 16h40min de 16/12/2025 para incluir a resposta da Carmo Energy.


