
A seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas possam expressar perspectivas que estimulem o interesse e o debate público. O artigo deve dialogar com os princípios da Mangue, entretanto ele não precisa representar necessariamente o ponto de vista da organização.
A Globo, um conglomerado multinacional de comunicação com sede no Brasil, tem mobilizado seus tentáculos para celebrar 100 anos de existência. Essa data vem da primeira edição do jornal O Globo, em 29 de julho de 1925.
Em toda festiva comemoração, certamente a narrativa será a mais fantástica de todas, aquela do homem simples e visionário que consegue superar dificuldades e implanta um império de comunicação no Brasil.
Serão repetidos depoimentos e imagens para confirmar essa narrativa extraordinária, buscando-se imprimir como verdade na história a ideia do necessário e do decisivo poder da Globo para definir e até salvar o país.
Ocorre que a história é moldada pelos apagamentos. Sim, por óbvio, o que está invisível na trajetória vitoriosa tem essa condição e assim ficará porque, iluminando-se, pode contradizer ou, no mínimo, ofuscar a verdade construída.
No ano de 2017, finalizei o doutorado em Comunicação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde estudei processos de invisibilização no jornalismo. Na pesquisa, enfrentei 20 anos (1996-2016) de dois jornais brasileiros, a Folha de S. Paulo e O Globo.
Entre outras questões, defendi que o olhar crítico sobre a história de veículos de imprensa pode ajudar a desvelar suas opções, por aquilo que diz e pelo que não diz, pelo que mostra e pelo que apaga. A tese foi aprovada e transformada em três livros, um deles é O jornalismo e a experiência do invisível: teoria, método e estudo de caso (Appris, 2022).
No momento dos 100 anos d’O Globo, partilho apenas algumas histórias que não deverão ser ditas ou serão ditas de outro modo, desde que não comprometam a narrativa oficial.
Antes, vale registrar que na história do jornalismo no Brasil há um relato muito parecido e quase linear, marcado pelo aspecto evolutivo da imprensa, o empreendedorismo, o heroísmo de seus proprietários, os feitos extraordinários, as mudanças tecnológicas, a importância do veículo para a democracia.
Essa história é quase que totalmente autorreferenciada (que se define através de si mesma) e autoritária. Nesse ponto, o veículo revela toda sua força como ator político e social que constrói uma espécie de autorização pública para poder falar e mostrar, mas também para calar e apagar.

O Globo cartilha política, empresarial e moral
Fundado em 1925 por Irineu Marinho, o jornal O Globo se tornou a ponta de lança para um negócio empresarial multinacional de comunicação que busca exercer grande poder de influência política e econômica no Brasil.
Antes de lançar O Globo, Irineu já tinha fundado o jornal A Noite, em 1911. Ele também atuou em outros periódicos da então capital do Brasil, o Rio de Janeiro, a exemplo de A Tribuna e da Gazeta de Notícias, sendo neste último diretor geral.
Há uma camada invisível e profunda em torno dos primeiros passos para Irineu Marinho lançar O Globo em 1925. A historiografia apenas informa que o novo jornal “já nasceu grande”, com boa equipe e tiragem superior aos 33 mil exemplares diários.
Para Sérgio Mattos (2005), não existem dúvidas de que Irineu Marinho recebeu significativas contribuições financeiras de empresários e políticos do Rio de Janeiro para montar e sustentar O Globo, mas nunca se descobriu quem foram, efetivamente, aqueles que empregaram dinheiro nessa empreitada.
O que se sabe é que dias depois de lançar o jornal, Irineu morreu e o vespertino foi assumido pelos diretores Herbert Moses, tesoureiro; Leal da Costa, diretor-gerente; Costa Soares, secretário, e Euricles de Mattos, que comandava a redação.
Desde as primeiras edições, O Globo tornou-se uma cartilha moral cotidiana a cobrar progresso, urbanização e limpeza social das cidades. Festejou a iniciativa privada, a industrialização, o livre mercado, a classe média consumidora e as ideias de modernização vindas dos Estados Unidos e da Europa.
Para Mattos (2005), sobre O Globo, nunca se teve dúvidas sobre a sua filiação aos interesses capitalistas, estando estampadas em suas páginas as defesas liberais, a campanha pela limitação dos poderes do Estado, a liberdade irrestrita ao capital, o permanente combate a toda iniciativa que atrapalhasse o progresso para o setor privado.
Em 1931, Roberto Marinho, filho de Irineu, assumiu a direção de O Globo e essa linha política foi reforçada e ampliada. O jornal buscava ser um agente político e social influente na vida nacional. A empresa teve uma postura ampla e “virulenta anticomunista, condenando a Intentona Comunista de 1935 e exigindo severa repressão contra os subversivos” (MATTOS, 2005, p. 268).
Lembra esse autor que durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), O Globo reagiu a qualquer possibilidade de aproximação do Governo do Brasil com os países do Eixo. Foram impressas várias edições na defesa do acordo com os Aliados, com os Estados Unidos.
O Globo, em amplo crescimento na capital da República, buscava agir diretamente influenciando os governos de plantão. Na guerra, chegou a lançar O Globo Expedicionário, edições próprias e exclusivas que chegavam às mãos dos soldados nos campos de batalha.
Na prática, existia uma grande relação de amizade entre Roberto Marinho e os comandantes do Exército, contatos intensificados ao longo dos anos e que resultaram no crescimento econômico e na influência política de O Globo. João Arêas (2012) revela que esse jornal sempre apoiou as ações das Forças Armadas nos golpes de Estado no Brasil.
Em 1944, Marinho ganhou a concessão da Rádio Globo, graças aos “bons serviços” prestados, especialmente para políticos da União Democrática Nacional (UDN) e outros alinhados aos interesses econômicos do capital nacional e multinacional (MATTOS, 2005).
De um lado, O Globo era a voz da UDN e esse partido era o porta-voz dos banqueiros e das empresas multinacionais no Congresso Nacional. Por outro, o jornal, em 1947, fez ampla campanha para cassar o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em outras palavras, não há dúvida sobre de qual lado sempre esteve O Globo e quais valores e interesses lhe movem.
Além do jornal e da rádio, Marinho também avançava para a editoração. A nova ação era a impressão e distribuição de revistas com histórias em quadrinhos, em um acordo com empresas estadunidenses, em plena ditadura empresarial-militar. Na época, Roberto Marinho também começava a mexer com enormes empreendimentos imobiliários.
“O Globo esteve ao lado de quase toda a imprensa nacional e das entidades ligadas ao capital multinacional e associado na oposição ao governo Vargas. A rádio e o jornal de Marinho estiveram à disposição de políticos da UDN, em especial, de Carlos Lacerda, para desferir ataques ao governo. O jornal fez forte campanha contra a criação da Petrobrás”, conta João Arêas (2012, p. 63).
E o porquê da oposição ao Governo Vargas? Ainda nos anos 40, a rádio Globo tinha pedido uma concessão de uma transmissora de TV. Na época, o presidente era o general Eurico Gaspar Dutra e ele deu resposta positiva para Roberto Marinho, mas o Governo Vargas revogou essa concessão. Entretanto, em razão dos inúmeros serviços prestados à elite, a concessão final da TV Globo foi outorgada pelo presidente Juscelino Kubitschek.

Apoio ao golpe, a ditadura e os militares renderam muito para Globo
Em 1961, o jornal O Globo começa a ser vendido em quase todo país, ampliando as suas formas de pressão e de influência sobre a vida nacional. O jornal, a rádio e a televisão fizeram parte da “Rede da Democracia”, que era formada por grandes empresas de jornalismo, partidos políticos, parte da Igreja Católica, empresas nacionais e internacionais.
O objetivo da rede era insuflar, convocar e defender o uso das forças armadas para não permitir que João Goulart, vice-presidente da República, assumisse o cargo em razão da renúncia de Jânio Quadros. Goulart era acusado de estar próximo aos comunistas, aos sindicatos de trabalhadores e de querer interferir na economia com reformas populares.
A primeira solução encontrada pela elite foi inventar um parlamentarismo por um período, mas Goulart terminou assumindo. Com a posse, a rede golpista se ampliou e a narrativa era a do medo do comunismo, do fim da democracia e da liberdade, do fechamento das igrejas, etc. Essas notícias se repetiam e tratavam do “perigo vermelho”, da “República sindicalista”.
“Diversas associações das classes dominantes voltaram-se para a desestabilização e derrubada do Governo Goulart. Nesta frente, participaram os principais órgãos de imprensa, como O Globo, Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, partidos políticos conservadores, como a UDN, setores da igreja Católica, grupos militares sob orientação da doutrina de Segurança Nacional”, (ARÊAS, 2012, p. 64-65).
O jornal O Globo teve papel destacado no golpe de 1964 e na ditadura. Na edição do dia do 31 de março, estampava na sua primeira página: “Graças à decisão e heroísmo das Forças Armadas, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo a rumos contrários à sua vocação e tradições”. Para o jornal, os brasileiros, com a ditadura que se instalara, estavam “salvos da comunização que celeremente se preparava”. Foi em O Globo que o golpe e a ditadura passaram a ter a narrativa de “revolução democrática”.

Apoiar o regime implicava ao jornal, à rádio, à televisão não noticiar torturas, desaparecimentos, mortes dos opositores à ditadura. Não era não noticiar, mas negar.
Durante todo o período da ditadura, o Grupo Globo se expandia física e economicamente, sustentava militares, políticos aliados e avançava em grandes acordos políticos e econômicos internacionais, principalmente com os Estados Unidos. Isso transformou esse grupo ao final desse período no maior conglomerado de mídia do país. Ressaltamos que o jornal continuava como o principal e influente produto impresso das Organizações Globo.
Lembra Carlos Eduardo Lins da Silva (1991), O Globo já era, desde o início dos anos 1950, a primeira empresa jornalística no Brasil a estar firmemente conectada com a política norte-americana, que soube como nenhuma outra aproveitar-se da internacionalização da economia brasileira no Governo de Juscelino Kubitschek.
As relações com os Estados Unidos e as Organizações Globo resultaram em ajustes editoriais e reforços ideológicos nos produtos jornalísticos, na forma de fazer jornalismo, e abriu a organização para receber volumosos recursos para que pudessem se expandir pelo país. Um dos principais acordos da Globo foi com a empresa norte-americana Time-Life, uma editora de revistas e que tinha canais de televisão nos Estados Unidos.
Essa “parceria”, mesmo sendo ilegal segundo a legislação brasileira, rendeu mais de 6 milhões de dólares às Organizações Globo e gerou uma expansão de seus negócios. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) chegou a ser aberta para apurar o então “escândalo Globo-Time Life”, mas o presidente militar, o ditador Costa e Silva, arquivou tudo.
Com os recursos e com a estrutura de telecomunicações dada pelos militares, as Organizações Globo transformaram a emissora de TV em uma rede para cobrir todo o país, como desejava a elite nacional e seus parceiros internacionais. Para Arêas (2012), o “regime militar, empresas transnacionais e Organizações Globo tinham os mesmos interesses e estavam umbilicalmente ligados”.
Em plena vigência do AI-5 (Ato Institucional), que fechou o Congresso e aumentou o número de prisões e mortes, O Globo festejava o regime militar, a economia, o “milagre econômico”, o “Brasil que vai para frente”, o “povo pacífico e ordeiro”.
Segundo Daniel Herz (1989, p. 205), a TV Globo “surgiu perfeitamente integrada ao bloco de poder que instaurou o modelo econômico de desenvolvimento capitalista associado pós-64”. O resultado das íntimas relações entre a Globo, os militares, os políticos e as grandes empresas nacionais e internacionais, durante e depois da ditadura, foi um crescimento sem precedentes para o jornal, a rádio, a televisão, as várias empresas e os negócios do grupo, e que confluíram para um dos maiores conglomerados de mídias do mundo (HERZ, 1989).

Os novos produtos de comunicação, entretenimento e outros negócios dessa organização seguem um mesmo padrão ideológico, político e econômico, com o fio histórico passando pela criação de O Globo em 1925. Esse impresso tem uma grande importância porque nele se imprimem os fundamentos que orientavam a complexa organização que viria surgir.
Em O Globo estão postos valores a serem cultivados, tendo por base o capitalismo, e que são propagandeados como princípios universais e únicos. O jornal age como uma espécie de bíblia, com indicações de ensinamentos morais, identitários, políticos e econômicos para os jornalistas e “colaboradores” da própria organização e para a população do país.
A estrutura empresarial dessa organização busca produzir as condições para um regime de visibilização na tentativa de convencer a comunidade de leitores, por exemplo, de que são necessárias e urgentes as práticas liberais e neoliberais porque elas atendem aos interesses da nação, porque levam o país para a modernidade. Qualquer iniciativa contrária à livre circulação do capital, que limite a iniciativa privada, é apontada como “atrasada”, “antidemocrática”, como “censura” e obra de “comunistas”.
Lembra Herz (1989) que as relações políticas entre os presidentes da República e a cúpula da Globo eram de tal ordem que Roberto Marinho sempre era consultado sobre ações que o governo deveria fazer, inclusive escolhas de ministros e os rumos da política econômica.
Com a crise no seio do regime militar, com o aumento das manifestações populares, das greves e reações contra a carestia, O Globo percebe a ascensão do MDB (Movimento Democrático Brasileiro) e passa a influenciá-lo no sentido da condução do fim da ditadura sem traumas, sem povo e reivindicações, com o compromisso de apagar o que passou.
O Globo, como toda a rede, ignorou as mobilizações pelas eleições diretas para presidente, ao mesmo tempo em que agiu na eleição de Tancredo Neves (BOLAÑO e BRITTOS, 2005).
A ação política da Rede Globo também foi nitidamente vista em muitas outras eleições estaduais e nacionais, especialmente na de Fernando Collor, fabricado como o “caçador de marajás” contra Lula da Silva, candidato do Partido dos Trabalhadores.
Em resumo, o jornal O Globo que está fazendo 100 anos é um histórico impresso de uma organização que age como se fosse partido político não-institucional, com forças suficientes para, junto com outros atores, tentar influenciar em decisões econômicas, jurídicas, políticas e culturais.
O jornal é o porta-voz mais nítido e tradicional do que pensam, querem e agem os donos dessa rede e grande parte da elite. O Globo é um guia, um direcionador ideológico para os demais produtos e para uma parte da sociedade (BOLAÑO e BRITTOS, 2005). Trata-se de um ator político que faz parte de um sistema nascido na Casa Grande, com vínculos com a Casa Grande e para a Casa Grande, atuando na defesa e promoção dos valores do capital.
A trajetória histórica de O Globo confirma um percurso coerente com essas defesas. Ele constrói um regime de visibilização sobre ele mesmo e sobre o mundo, onde garante que é referência do jornalismo sério, profissional, verdadeiro e que pauta suas atividades pela defesa da liberdade e da democracia. Enxergar criticamente sua história, porém, revela camadas invisíveis e que gritam e denunciam que a superfície festejada é sustentada por uma série de não ditos e vistos.
Referências
ARÊAS, João Braga. Batalhas de O Globo (1989-2002): O neoliberalismo em questão.
Tese (Doutorado em História). UFF. Niterói, 2012.
BOLAÑO, Cesar e BRITTOS, Valério (Orgs.). Rede Globo: 40 anos de hegemonia e poder.
São Paulo: Paulus, 2005.
GOÉS, José Cristian. O jornalismo e a experiência do invisível: identidades, lusofonias e a visível herança colonial brasileira. Tese (Doutorado em Comunicação). UFMG, 2017.
HERZ, Daniel. A história secreta da Rede Globo. Rio Grande do Sul: Tchê!, 1989.
MATTOS, Sérgio. As Organizações Globo na mídia impressa. In: BOLAÑO, Cesar e
BRITTOS, Valério (Orgs.). Rede Globo: 40 anos de hegemonia e poder. São Paulo: Paulus,
2005.
SILVA, Carlos Eduardo Lins da. O adiantado da hora: influência americana sobre o jornalismo brasileiro. São Paulo: Summus, 1991.

José Cristian Góes é jornalista, mestre e doutor em Comunicação. Foi repórter e colunista em jornais, revistas e portais e trabalhou em assessorias. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju, presidente do Sindicato dos Jornalistas de Sergipe e membro da Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas. É autor de A Comunidade Invisível: jornalismo, identidades, e a rejeição dos povos de língua portuguesa no Brasil (Ponte, 2021); Quem somos nós na fila do pão? A fabricação dos Invisíveis na história do Brasil (Edise, 2021); O jornalismo e a experiência do invisível: teoria, método e estudo de caso (Appris, 2022). É servidor público na AGU e é repórter e editor-chefe da Mangue Jornalismo.


