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Obras culturais do passado fortalecem o racismo cotidiano. O que fazer hoje com músicas, livros e produções artísticas que trazem expressões racistas?

GUSTAVO COSTA, especial para Mangue Jornalismo
@gustavonox

Imagine que por algum motivo você resolve fazer umas arrumações em casa. Para isso, abre gavetas e caixas que ficavam sempre fechadas e acaba reencontrando álbuns antigos.

Ao folhear as fotos, se depara com imagens de um passado que preferia esquecer. O coração bate mais forte, falta o ar, o estômago embrulha e todo sentimento ruim daquela época vem à tona novamente. Imediatamente, você fecha o álbum e toma uma decisão: jogar as fotos no lixo. Afinal, ainda que sejam memórias que contam a história da sua própria vida, só te fazem mal.

Certamente, se você nunca passou por esta situação, conhece alguém que já enfrentou o mesmo “gatilho” emocional e deve reconhecer que se desfazer das imagens ruins do passado, é a decisão mais sábia a ser tomada.

A grande questão é: por que quando se trata de obras artísticas, como músicas, filmes, livros ou outras produções que humilham, rebaixam ou agridem a dignidade de pessoas, seja pela cor da pele, gênero, classe social ou religião, a sociedade ainda resiste em atirá-las na “lata de lixo” da história?

“O Brasil ainda não aprendeu a falar de reparação histórica”

De acordo com o pesquisador e professor de Direito da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Ilzver Matos, “o Brasil ainda não aprendeu a falar de reparação histórica.” Segundo ele, “vemos que aqui tudo sempre se reveste de um caráter meramente simbólico, infelizmente, sem ação concreta de transformação”, complementa.

Talvez o exemplo mais concreto para tratar deste assunto seja o debate em torno da obra do escritor Monteiro Lobato. Considerado o “pai da literatura infantil” sua data de nascimento chegou a ser homenageada como o Dia Nacional do Livro Infantil, celebrado em 18 de abril.

No entanto, Lobato coleciona uma série de controvérsias por ser assumidamente racista e eugenista, ao ponto de ter até mesmo uma obra recusada nos Estados Unidos por ser considerada muito ofensiva, mesmo em meio à sociedade americana da década de 1920, altamente marcada pela segregação racial.

Mais recentemente, a bisneta do autor, Cleo Lobato, chegou a editar os termos que se referiam à personagem Tia Nastácia, para tornar a obra Sítio do Pica Pau Amarelo menos preconceituosa. No entanto, as discussões em torno do assunto ainda são superficiais e pouco objetivas.

“Quanto se lucra e lucrou com as obras de Monteiro Lobato? Quanto disso foi para reparação? Isso não tem relação com desprestigiar a história de instituições e pessoas, é o oposto, é forma de proteger sua honra e dignidade no presente por erros do passado”, afirma o professor Ilzver Matos.

Ilzver: “o Brasil ainda não aprendeu a falar de reparação” (Foto Arquivo Pessoal)


O que dizer da música Fricote: “nega do cabelo duro”?

Por falar em importância histórica, no campo da música, um dos exemplos mais evidentes é a canção Fricote, do cantor e compositor Luiz Caldas. Considerada o embrião do gênero musical axé music, a música que fala da “nega do cabelo duro” projetou a música carnavalesca da Bahia nacionalmente e levou Luiz Caldas ao patamar de 100 mil cópias vendidas na década de 1980.

Trata-se de um sucesso estrondoso para época, construído em cima de “uma grande piada racista”, como destaca Thatiana Meneses, ativista da União de Negras e Negros pela Igualdade (Unegro-SE). Thaty, que hoje exibe com orgulho seu cabelo afro, lembra dos tempos em que “cresci com essa música no auge mesmo e sofri com essa música que era perpetuada entre os colegas na escola, na rua, em qualquer lugar. Só fazia reforçar meu ódio ao cabelo e ao fato de eu ser negra.”

Foi pensando em milhares de “Thatianas” espalhadas pelo Brasil, que há pelo menos quatro anos, Luiz Caldas reconheceu que “não ia escrever Nega do Cabelo Duro nos dias de hoje” e que “o politicamente correto é necessário”.

Mais recentemente, no último dia do Pré-Caju 2023, em plena Orla da Atalaia, em Aracaju, o cantor que conduzia o bloco “Caranguejo Elétrico”, reforçou sua posição diante da própria obra composta em parceria com Paulinho Camafeu.

No momento em que o trio elétrico parou em frente ao camarote de uma rádio que transmitia o evento, um dos apresentadores pediu para Luiz Caldas entoar a música racista.

Com muito respeito e educação, o artista negou o pedido e aproveitou a oportunidade para fazer uma fala potente com o intuito de sensibilizar, tanto seu interlocutor, quanto toda a platéia que o acompanhava no percurso da pipoca[1].

Luiz Caldas voltou a dizer que “não canto mais essa música porque ela fere outras pessoas”, apesar de reconhecer a “importância histórica que a música tem” por ter alçado a música baiana a um patamar de grande sucesso na década de 1980.

Procurado por nossa reportagem, a assessoria do artista disse que tentaria uma declaração sobre o episódio, mas adiantou que dificilmente Luiz Caldas gostaria de falar sobre o assunto. A resposta não veio, mas a atitude em cima do trio, fala por si.

“Uma manifestação como essa só poderia vir de um artista negro com consciência racial e do seu papel e lugar na sociedade racista, como é Luiz Caldas. Nós pessoas negras vivemos na mesma sociedade racista, sexista e patriarcal na qual vive qualquer outra pessoa e também somos influenciados por ela. Mas, essa sociedade não nos permite errar. Nossos erros são imperdoáveis e os chicotes do passado sempre são atualizados e sofisticados no presente, quando isso ocorre. Luiz é esse exemplo da sobriedade de quem sabe que, sendo artista preto, não pode se comportar como artista branco”, reflete o professor Ilzver Matos.

Luiz Caldas: “não canto mais essa música” (Foto: André Faofano/Arquivo)

O direito ao esquecimento

A atitude do músico baiano, de atirar a própria obra no esquecimento, atende uma profunda necessidade de reparação por parte de quem sentiu na pele as consequências do racismo contido em sua letra.

“Por mim, essa música caía totalmente no ostracismo. Porque pra gente que é mais velho, só serve de gatilho e pra quem é mais novo, não serve pra p… nenhuma! Se pudesse ter uma varinha mágica e apagar essa música da história, eu apagaria tranquilamente. Não serve pra nada”, desabafa Thatiane.

Thatiana: “essa música só fazia reforçar meu ódio ao cabelo e ao fato de eu ser negra” (Foto Arquivo)


No mesmo sentido, o professor de Direito aponta que “o direito ao esquecimento é previsto na legislação brasileira. Os direitos do autor, assim como o direito de não discriminação e outros que protegem a coletividade. Seria digno o autor ou seus herdeiros refletirem sobre isso, como fez Luiz Caldas. Na minha concepção é irrelevante um banco de dados de maus exemplos de obras literárias, fonográficas, cinematográficas e etc. O que ganhamos com um museu que preserve o que há de pior na sociedade?”, questiona Ilzver.

Para o professor, “seria mais importante o registro de como se conseguiu vencer essas violações, a partir de quais estratégias, quais estruturas novas derrubaram as racistas e opressoras, quais personagens, teorias e práticas representam essa virada histórica.”

Para o coordenador do Observatório Permanente da Discriminação Racial e LGBT+ da Secretaria Municipal da Reparação de Salvador, Eden Vinicius, além da legislação, a saída também é pela educação.

“Com o advento de novas leis e do acesso ao conhecimento da população, como o letramento racial, artistas têm entendido que precisam olhar para o passado, e que podem utilizar da sua influência e plataforma para ressignificar o presente com exemplo, se abstendo de sucessos em cima de crimes e da dor do povo brasileiro, para que no futuro possamos viver em equidade e inclusão”, defende Eden.

Eden: “artistas têm entendido que precisam olhar para o passado” (Foto Arquivo Pessoal)

No entanto, por entender que não dá para esperar por uma “tomada de consciência coletiva”, a Prefeitura de Salvador dispõe desde 2012 da Lei 8.286, conhecida como a Lei Antibaixaria, que tem por finalidade coibir os órgãos públicos de contratar artistas que contenha em seus repertórios, músicas que desvalorizem, incentive a violência ou exponham às mulheres a situação de constrangimento, além de manifestações de homofobia ou discriminação racial.

Somado à isso, há mais de 10 anos a Secretaria Municipal da Reparação (SEMUR) dispõe de um Observatório do Carnaval, que trabalha “para que as intervenções do que observamos no carnaval sejam combatidas e transformadas em políticas públicas de forma permanente. A observação ocorre no período do carnaval, pois existe uma grande concentração de público diverso em um mesmo ambiente, e com as diferenças lado a lado. A amostra revela o comportamento discriminatório por parte do folião, policiais, turistas, artistas, etc.”, explica Eden.

A lição que fica é que rever as próprias atitudes e reconhecer a necessidade de mudança não é uma questão meramente individual que pode ser descrita apenas como “corajosa”. Trata-se de uma demanda social que vai muito além disso. É uma emergência humanitária, que exige um empenho coletivo. Mesmo que isso inclua “rejeitar” as nossas próprias criações. Afinal, como bem resumiu Belchior nos idos de 1976 (e que se mantém como uma lição extremamente atual), “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”.


[1] Bloco sem corda.

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