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O que é a sergipanidade? O dia 8 de julho se aproxima e a busca pela identidade sergipana ainda continua concentrada nas ações do Governo do Estado

DÍJNA TORRES, da Mangue Jornalismo

O dia 08 de julho está se aproximando, dia em que se comemora a emancipação política de Sergipe e, nos últimos anos, a expressão “sergipanidade” tem retomado o fôlego como o sentimento de pertencimento e orgulho em ser sergipano.

O conceito surge cada vez mais forte nas campanhas midiáticas do Governo do Estado desta e de gestões anteriores, como forma de incentivar a população a divulgar e prestar serviços a Sergipe, reconhecendo seu estado como sendo o melhor local para se viver, segundo informações de materiais publicitários da gestão do ex-governador Marcelo Déda (PT), um dos gestores que retomou a ideia de sergipanidade à época.

Apesar de estar em evidência, seja nos meios de comunicação seja nas campanhas políticas ou no meio acadêmico, não há registros de quando exatamente surgiu a expressão sergipanidade. O sentimento de pertencimento e comemorações acerca do Dia da Sergipanidade, na verdade são celebrações que existem desde o século XIX, após o decreto de lei que instituiu o dia 24 de outubro como aquele para comemorar a independência sergipana e o orgulho de pertencer a esse estado.

Mas, afinal, na prática, como fortalecer o sentimento de sergipanidade através dos aspectos econômicos, culturais e políticos que são características intrínsecas aos processos de formação de uma identidade?

Ação direta do Governo do Estado no conceito de sergipanidade

De acordo com o professor e historiador, Osvaldo Ferreira Neto, na década de 80 houve um movimento para a valorização da identidade estadual, tanto na gestão de Valadares como na de João Alves Filho, ex-governadores do Estado, através do incentivo de publicações sobre Sergipe, reedições de livros históricos e a comemoração dos 400 anos da cidade de São Cristóvão.

“Com o passar dos anos, o uso do termo passou por um certo escanteamento, mas, com a gestão de Marcelo Déda, houve um incentivo por parte do próprio governador para usar o termo como uma marca, inclusive para a construção do Museu da Gente Sergipana, que foi inaugurado em 26 de novembro de 2011. Esse museu se tornaria o símbolo da valorização da sergipanidade e da formação do povo sergipano, seria um elemento muito forte junto à museologia, à história e à cultura”, informa Osvaldo.

O historiador diz que é necessário lembrar de que Sergipe não é uma ilha descolada do país, do Nordeste, da América Latina. “Sergipe tem certas nuances e características que o destaca e é a partir do Governo Marcelo Déda que isso ganha maior visibilidade, porém, é fundamental destacar que a sergipanidade engloba inúmeras características que vão além do patrimônio e da memória, existe um atravessamento nas questões étnicas, culturais e práticas de destaque oriundas de povos como os indígenas, negros, dentre outros”, pontuou o professor.

Osvaldo explica ainda que a construção do termo não passa somente pela questão política, mas, por um debate sociocultural, uma vez que, para fortalecer o sentimento de pertencimento é necessário saber a história, memória e costumes do grupo ao qual pertence, e além disso, é necessário expandir o acesso da população sergipana também ao que é culturalmente produzido no estado. “A ideia de sergipanidade é tentar criar a identidade do povo sergipano, tentar valorizar, respaldar, e isso contribui com a história nacional, mundial. Há também, a partir desse contexto, a ideia governamental em investir no potencial turístico do estado, há a movimentação econômica, política e cultural, fortalecendo este sentimento de pertencimento e atendendo aos anseios da população em conhecer e se reconhecer no seu próprio território”, conta.

O historiador diz ter a compreensão de que isso não deve ser restrito ao poder público, porque a identidade sergipana está em várias coisas. “Por exemplo, ainda há pouca valorização do que foi realmente a data do 08 de julho, há o desconhecimento de personalidades como Carlos Bulamarqui, existe um vocabulário próprio nosso, modos de fazer como o da renda irlandesa, que são nossos, gastronomia nossa, então há contradições, pois o próprio sergipano muitas vezes desconhece sobre a sua memória, sua cultura e suas referências históricas, como essas duas datas”, avalia Osvaldo.

Osvaldo Ferreira Neto: a compreensão da sergipanidade não deve ser restrita ao poder público, porque a identidade sergipana está em várias coisas (Foto: Julia Rodrigues).

Gestão de Marcelo Déda: amplo reforço a ideia de sergipanidade

Para que haja o fortalecimento da identidade sergipana deve também haver o interesse político em fomentar e expandir projetos que divulguem o que acontece em Sergipe, mas que também passe a favorecer de alguma forma a população do estado. Como mencionado anteriormente pelo historiador, é fundamental destacar que a construção de um sentimento de pertencimento e de uma identidade característica local não depende somente dos incentivos do Estado, as mobilizações urbanas, a exemplo dos grupos de manifestação da cultura popular e associações de artesãos, que buscaram veementemente ao longo dos anos o apoio e estruturação de suas atividades por meio do Estado formaram-se a partir do resgate da história de seus antepassados e da geração de renda que tais atividades podem gerar, além do fomento à preservação e difusão da história através do patrimônio material e imaterial que também fazem parte da construção identitária de um povo.

A comunicóloga e ex-secretária de Estado da Comunicação e da Cultura durante a gestão do governador Marcelo Déda (PT), Eloísa Galdino, destacou que, ao longo da gestão, parte do projeto e da missão era elevar a autoestima do povo sergipano, através do resgate de símbolos, datas, patrimônios. “Resgatar a autoestima tem relação direta por cultuar sua aldeia, aquilo que nos faz diferentes por seu conteúdo identitário. Como se faz isso? Incorporando esse intento à comunicação governamental, aos projetos, ações em geral. A bandeira do Sergipe foi estilizada em um coração que comunica através de signos o amor pelo lugar, resgatando um elemento cívico. Junto, a mensagem “Governo de Todos”, e uma comunicação centralizada e direcionada para produzir cada ação o sentido de pertencimento e orgulho não pelo governo de plantão, mas por ser em Sergipe, de Sergipe. Na Cultura, esse movimento precisava ser premissa de tudo que era produzido, e foi assim que elevamos Sergipe ao ponto mais alto em que ele já chegou nacionalmente na gestão cultural, ocupando cargos nacionais e fazendo o Brasil olhar pra gente em várias ocasiões”, afirmou.

Sobre a difusão da importância do 8 de julho para a população sergipana, Eloísa acrescenta que o resgate e o engrandecimento do 8 de julho como Dia da Emancipação de Sergipe é algo emblemático. “Todo lugar no mundo tem uma data simbólica e as pessoas celebram esse dia. A orientação era usar a liturgia dos poderes, do governo, das instituições civis e militares para uma ode à Sergipe. A sede do governo voltava à cidade mãe em cerimônias tão simbólicas quanto diversas. Era como convidar o povo para se olhar no espelho, se conhecer e se reconhecer. E quando digo que o Brasil passou a olhar para Sergipe é só perceber que essa cerimônia ocorria na Praça São Francisco, quando ela era apenas candidata a patrimônio da humanidade pela Unesco. Patrimônio cultural numa campanha que envolveu restaurações, reformas, adequações, educação patrimonial e toda sorte de articulações políticas para que esse título chegasse. E ali, naquela mesma praça, já tombada, recebemos o diploma da Unesco das mãos da Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, num 8 de julho. Importante registrar que vivíamos os governos Lula e Dilma, com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) das Cidades Históricas, e priorizamos as obras de São Cristóvão e Laranjeiras nesse programa, e a partir dele tivemos as obras que permitiram a conquista do título e, no caso de Laranjeiras, as obras que permitiram a instalação do Campus da Cultura”, explicou.

Eloísa Galdino: 8 de julho, a orientação era usar a liturgia dos poderes, do governo, das instituições civis e militares para uma ode à Sergipe (Foto: Melissa Warwick).

Além de aspectos linguísticos, gastronômicos, artísticos e patrimoniais, dentre todas essas características, vale ressaltar dois aspectos importantes que são o econômico e o de formação étnico-racial do estado, uma vez que, para que o sentimento de pertencimento e orgulho em ser sergipano seja fortalecido, é necessário que a economia local seja próspera e que a população reconheça o trabalho ancestral dos grupos que formaram todo o escopo de hábitos e costumes do estado. Ou seja, o sentimento de pertencimento e de amor ao estado depende também do resgate da memória ancestral de quem ergueu e lutou para a sustentação do território e da situação econômica em que a população se encontre, afinal, se a economia não é próspera ou não beneficia o povo, como despertar a sergipanidade em quem vive em condições extremas de vulnerabilidade social e abandono?

“Existe uma caminhada histórica, de ocupação territorial, de usos do solo, dos recursos naturais e humanos, do encontro entre povos e raças, da presença indígena, negra e branca europeia em cada parte desse gigante país. Essa caminhada não é uniforme, ao contrário, guarda sempre especificidades de cada lugar. Esse recorte geográfico que chamamos Sergipe possui identidades, falas, sotaques, sons, gostos e acontecimentos que são próprios, particulares, são de Sergipe. Mas para valorizarmos isso, precisamos conhecer e respeitar. Essa vai sempre ser uma tarefa que passa pelo poder público, pela educação patrimonial e cultural, pelo respeito aos brincantes, à música, às artes, às malocas, aos quilombos, fazeres e saberes, da vida acadêmica à Serra da Guia. Resgatar essas identidades é projetar outro futuro, e será sempre importante para o fortalecimento daquilo que somos nesse imenso Brasil, sergipanas e sergipanos”, concluiu Eloísa Galdino.

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