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O pensamento político de Hannah Arendt e o pensar do negro no Brasil

UILDER CELESTINO, especial para Mangue Jornalismo

Hannah Arendt

Se considerarmos a compreensão política uma das atividades do intelecto tal como fez Hannah Arendt ao preparar seu último grande escrito intitulado no Brasil por “A vida do espírito”, quando traduziu o termo kantiano Verstand não por “entendimento” ou “compreensão”, mas na atividade humana do pensar que implica na capacidade de julgar, passamos a doar sentido ao termo compreensão mediante as capacidades do termo “intelecto” não para repetir a posição “ideal” weberiana ou insistir na posição existencialista sartreana, mas para melhor mover a política.

A partir deste “intelecto”, temos não a receita infalível para se prevenir catástrofes e não qualquer tipo de pensamento, mas o “intelecto” em Hannah Arendt integra a experiência do pensamento descrita na obra “Entre o passado e o futuro” voltado para a compreensão política e um ato convidativo, talvez retórico ou de philia (?????), do “pare e pense” e do “reveja ou repense posições”.

Recentemente, o professor Osvaldo José da Silva, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP, licenciado em filosofia e que expressa ser influenciado desde jovem pelo movimento das pastorais negras da igreja católica, entregou ao grande público o livro “Considerações sobre o pensamento político de Hannah Arendt e o pensar do negro no Brasil”, tema que tomou suas atenções durante o curso de doutorado dedicado ao estudo da condição do negro a partir da compreensão política arendtiana, com destaque para a leitura do célebre capítulo dedicado a ação em “A condição humana”.

Seria uma maneira convidativa de recolocar as polêmicas e controvérsias, todas conhecidas, da posição de Hannah Arendt a respeito de movimentos vistos e não vistos de comunidades negras em busca por libertação e por fundação de liberdades políticas.


Hannah Arendt e a luta histórica do povo negro no Brasil

A experiência em pastorais católicas e em grupos de pesquisas sobre relações raciais e núcleos negros de pesquisa e extensão no Brasil deixou marcas na obra de Osvaldo Silva, que captou dois movimentos somente antagônicos quando a política é movida por incompreensões.

Ele captou a proposta da compreensão política presente no pensamento político de Hannah Arendt e a articulou com a luta histórica do povo negro no Brasil em busca por libertação e por fundação de liberdades políticas, um exercício não plenamente realizado pela própria pensadora, já que, “provavelmente, a não experiência de ser negra na sociedade americana pode ser uma das explicações para as polêmicas e ira que Hannah Arendt despertou junto aos movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos” (SILVA, 2021, p. 85), situação historicamente ilustrada, conforme pontuou, na correspondência entre Hannah Arendt e James Baldwin após os eventos em Little Rock, cidade do Arkansas, EUA, mas também nos diálogos entre Hannah Arendt e Ralph Ellison em torno da obra “Who speake for the Negro” [Quem fala pelo Negro] de Robert Penn Warren.

Tendo em vista que, em nenhum momento, a obra de Hannah Arendt poderia referir-se aos dramas e realizações da população negra brasileira, este lugar de compreensão política foi ocupado pelo trabalho de Osvaldo Silva com referências diretas a pesquisadores brasileiros, como nos casos do tema da quilombagem, desenvolvido por Clóvis Moura, das ciladas da integração negra na sociedade brasileira conforme exposto por Florestan Fernandes, da afirmação categórica da ocorrência do genocídio negro em terras brasileiras, conforme a coragem de Abdias Nascimento, da afirmação dos saberes negros presente no trabalho de Joel Rufino dos Santos e mesmo sobre a sutileza da linguagem das “camélias do Leblon”, tema desenvolvido por Eduardo Silva.

Essas e outras referências atravessaram a obra de Osvaldo Silva, demonstrando a posição histórica da população negra brasileira em sua busca por libertação e pela fundação de liberdades políticas, categorias presentes no pensamento de Hannah Arendt como consecutivas uma da outra, conforme destacou na passagem: “não há nada mais inútil do que rebelião e libertação, se essas não forem seguidas pela constituição da liberdade recém conquistada” (ARENDT apud SILVA, 2021, p. 87).

É certo que, em sua interpretação histórica da “revolução americana” na obra “Sobre a revolução”, Hannah Arendt atribuiu o processo de fundação da liberdade política dos Estados Unidos somente à ação dos chamados “pais fundadores”, antecedidos por colonizadores, deixando de expressar a ocorrência dos genocídios indígenas e eliminando críticas à equação construída juridicamente naquele país de que brancos e negros seriam iguais, mas deveriam viver em espaços separados.

Todavia, o arcabouço teórico da ação em busca fundação de liberdades políticas foi plena e apropriadamente referendado para explicar a ação negra no Brasil, já identificado de maneira mais comum na ação de abolicionistas liberais negros do século XIX, mas não apenas neste tipo de ação, tendo em vista que mesmo os exemplos gestados na violência libertadora foram localizados por Osvaldo Silva não como lugar de fundação, mas de defesa histórica de um povo que sobrevive por meio de suas próprias forças.


Violência para libertação ou defesa de comunidades anteriormente constituídas

Há elementos deste lugar a serem ocupados pela violência no pensamento de Hannah Arendt, não como um tipo de violência glorificada e fundadora de comunidades, mas do emprego da violência para libertação ou defesa de comunidades anteriormente constituídas.

A queixa na obra “Eichmann em Jerusalém” por falta de ação incisiva de grupos judeus a fim de evitar o massacre administrativo de seis milhões de judeus na segunda grande guerra europeia é um indicativo de que existe lugar para a violência como ação política em Hannah Arendt, isto é, movida pela política em caráter instrumental para libertação ou defesa de povos, apesar das discordâncias teóricas com o pensamento de Jean-Paul Sartre e de Frantz Fanon na obra “Sobre a violência” no cenário das lutas anticoloniais de nações negras inteiras no decorrer do século XX.

Por fim, Hannah Arendt e Osvaldo Silva compreenderam a situação histórica dos grupos brancos chamados “bôeres” que se instalaram em regiões hoje pertencentes ao território da África do Sul e que promoveram todo o tipo de irracionalidades junto a população negra local, com extermínios pretensamente dotados de um “significado” econômico, posteriormente evidenciando a exata matança racista da maneira mais absurda e desumanamente possível, tal como a sofrida pelo povo judeu na Europa nazista, ao ponto de produzir a afirmação categórica de Hannah Arendt na obra “Origens do totalitarismo” de que o mal radical do totalitarismo surgiu na organização da população branca dos “bôeres”, antes de suas expressões conhecidas na “Rússia soviética” e na “Alemanha nazista”.

Contemplando a realidade brasileira, o professor Osvaldo Silva, homem negro e pesquisador sobre relações raciais, promoveu em sua mais recente obra uma bem-vinda desterritorialização da teoria da ação arendtiana ao avançar na compreensão política para afirmar que a ação negra no Brasil participa da luta por libertação e fundação de liberdades políticas para esta comunidade, sufocada por processos históricos de colonização de onde se reproduz a mentalidade racista, o que também guarda perplexidades e irracionalidades que depõem contra a existência e a condição humana.

A obra de Osvaldo José da Silva é um convite, não às promessas e ao perdão de filosofias morais, mas ao exercício do “intelecto” e da compreensão política em tom de amizade.


UILDER DO ESPÍRITO SANTO CELESTINO é professor, investiga as categorias “violência” e “revolução” em Hannah Arendt como formas de abrangência de sua teoria da ação e na história da filosofia durante o curso de doutorado pelo Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS). E-mail: uilder@academico.ufs.br.

Referência

SILVA, Osvaldo José. Considerações sobre o pensamento político de Hannah Arendt e o pensar do negro no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 2021. 

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