“O cristianismo não suporta tamanha politização, à esquerda ou à direita”. Romero Venâncio, professor (UFS)

Ex-presidente Bolsonaro em ato neopentecostal (Crédito: reprodução/vídeo)

Romero Venâncio é professor de Filosofia na Universidade Federal de Sergipe (UFS) e vem se dedicando nos últimos anos aos estudos sobre religião. Ele investigou, por exemplo, sobre a atuação da extrema direita da Igreja Católica nas redes digitais e como ela conseguiu emparedar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Romero defende que “a questão religiosa nesse país sempre deve ser levada a sério. Não haverá transformação profunda nesse país que não passe pela vivência religiosa, que é uma marca da América Latina e da herança de nosso processo colonizador”. Ele é graduado em Teologia pelo Instituto de Teologia do Recife (ITER) e em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

O professor acredita que “a radicalização política no cristianismo engolfa a fé e a mata. A história tem demonstrado isto”. Também diz que “a influência de Olavo de Carvalho e as redes digitais fizeram nascer uma extrema direita católica que se fortaleceu desde 2018”. Romero festeja o crescimento de praticantes de religião de matriz africana, representando uma “régua democrática” enquanto espaço religioso, mas isso não impacta no trânsito religioso brasileiro que continua cristão.

Segue a entrevista:

Mangue Jornalismo (MJ) – Segundo o último censo, um em cada quatro brasileiros é neopentecostal, e o percentual é maior entre os mais jovens. O Brasil pode se transformar numa teocracia?

Romero Venâncio (RV) – Apesar desses dados do Censo ser bem categóricos, não vejo a possibilidade de uma “teocracia” num país como o Brasil. Os mesmos dados do Censo podem nos demonstrar outra coisa: o catolicismo não caiu tanto em número de adeptos como se esperava. Mas existe um fato importante que não está no Censo: quanto mais se politiza o neopentecostalismo, mais perde adeptos. O cristianismo não suporta tamanha politização, à esquerda ou à direita. Está na raiz do cristianismo.

MJ – O Brasil já foi um país laico ou só é letra morta na lei? Hoje, o que mais se vê é espaço público sendo transformado em igreja para cultos e isso, claro, com muito dinheiro público.

RV – A nossa laicidade que vem com a República de 1889, sempre foi “meia boca”. O laicismo brasileiro é mais uma disputa e uma luta do que uma realidade. O Brasil é muito cristão ainda. Nosso trânsito religioso é sempre do cristianismo católico para o protestante. Assim, temos pouco trânsito religioso. A laicidade na vida pública no Brasil tem sempre que ser uma luta pela democracia.

MJ – Como o Brasil, que já foi considerado um dos países com mais católicos do mundo, tomou o rumo de um fundamentalismo religioso reacionário? Aqui entram as alas de direita e extrema-direita católicas?

RV – A demarcação é o pós-2013. Houve um crescimento de um movimento de direita inédito no Brasil e muito diferente do pós-1964. Esse caldo cultural de direita impactou o catolicismo. A influência de Olavo de Carvalho e as redes digitais fizeram nascer uma extrema direita católica que se fortaleceu desde 2018. Estudei por três anos essa extrema direita católica nas redes digitais. Grupos e Youtubers cresceram muito e reconfiguraram o catolicismo no Brasil. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) foi emparedada. A esquerda católica ainda não entendeu o papel das redes digitais no projeto evangelizador não fundamentalista. Uma pena.

Romero: “O laicismo brasileiro é mais uma disputa e uma luta do que uma realidade” (Crédito: arquivo pessoal)

MJ –  Didaticamente como caracterizar as alas de direita e de extrema-direita da igreja católica? Quais são as referências de pessoas e organizações do país?

RV – A partir de um ponto central: a posição diante do Concílio Vaticano II. A direita quer acabar com a herança conciliar. A esquerda católica tem no Concílio o início de uma mudança renovadora na Igreja Católica. A luta continua e forte na atual quadra histórica.

MJ – Quais as diferenças e aproximações da direita católica dos fundamentalistas neopentecostais, da Igreja Universal, dos Testemunhas de Jeová, de Edir Macedo, dos líderes da Lagoinha, etc? Isso passa pela política, economia, cultura, pelo uso massivos das redes digitais?

RV – A direita católica tem aproximações com a direita evangélica na pauta moral. Se distanciam na pauta teológica. A pauta moral: aborto, feminismo, eutanásia, benção a casais homossexuais e família. 

MJ – Muitos pré-candidatos à Presidência do Brasil, mas também ao Senado, Câmara Federal, Assembleias e governos estaduais aderem estrategicamente o discurso do fundamentalismo religioso reacionário. Lembro, por exemplo, que o aparato estrutural e de comunicação da Canção Nova apoiou a eleição e reeleição de Bolsonaro. É um caminho sem volta?

RV – No caso da “Canção nova”, acredito que tenha volta a depender das posições da CNBB e sua liderança no catolicismo brasileiro. Com esse acanhamento atual, a CNBB não lidera nada. O problema é uma extrema direita católica como o Centro Dom Bosco do Rio de Janeiro. Esse, não têm mais volta. Acabarão no fascismo.

MJ – Tanto na igreja católica como nas neopentecostais existem setores que não aceitam o uso da religião para instrumentalizar a política e manipular a fé das pessoas? Onde e como sobrevivem esses setores?

RV – Sempre existirão. Por que? por conta da própria histórica do Cristianismo ocidental. A instrumentalização das pautas cristãs têm limites. A radicalização política no cristianismo engolfa a fé e a mata. A história tem demonstrado isto.

MJ – O último Censo também mostrou que praticantes de umbanda e candomblé triplicam nos últimos dez anos no Brasil. O que isso pode sinalizar?

RV – Triplicaram, é fato. E acrescento: foi importante esse crescimento das religiões de matriz africana. Mas não impactam no trânsito religioso brasileiro que continua cristão. O censo também mostra isto. Vejo assim: As religiões de matriz africana no âmbito político representam a nossa “régua democrática” enquanto espaço religioso.

MJ – Discutir a questão religiosa é discutir também o Brasil?

RV – A questão religiosa nesse país sempre deve ser levada a sério. Estudos, debates e publicações no âmbito das ciências da religião têm ajudado na reflexão. Não haverá transformação profunda nesse país que não passe pela vivência religiosa. Uma marca da América Latina e herança de nosso processo colonizador.

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Cristian Góes

Jornalista pela Universidade Tiradentes, mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação e Sociabilidade pela Universidade Federal de Minas Gerais. Experiência como repórter e assessor de Comunicação nas áreas sindical e pública.

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