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O Brasil pode aprender com Portugal sobre democracia e memória? Como o Museu do Aljube nos obriga a pensar na necessidade do Museu do Golpe de 1964

ZEZITO DE OLIVEIRA e CEILA MARIA FERREIRA BATISTA, especial para Mangue Jornalismo

1974 é um ano de triste memória para nós brasileiros amantes das liberdades democráticas, da justiça social, e da arte e cultura com plenitude, assim como pelo respeito às diversidades religiosa e sexual entre outras maneiras de viver como pessoas felizes.

O contrário de Portugal em que, a partir de abril de 1974, eclodiu a Revolução dos Cravos, encerrando décadas de uma ditadura de corte fascista iniciada em maio de 1926 quando militares portugueses conservadores deram um golpe, pondo fim à Primeira República.

Em sequência no ano de 1932, António de Oliveira Salazar foi indicado para assumir o cargo de presidente do Conselho dos Ministros, função correspondente à posição de chefe de Estado e, em 1933, inicia a longa ditadura salazarista, que recebeu o nome de Estado Novo, sustentado, do ponto de vista jurídico, em uma nova constituição no ano de 1933.

Importante lembrar que, no ano de 1928, António Salazar, professor universitário na Universidade de Coimbra, já tinha sido nomeado para a chefia do Ministério das Finanças do governo ditatorial.


A ditadura continuava torturando e matando

Voltando ao Brasil, vivíamos, em 1974, os famosos anos de chumbo: a ditadura de então continuava torturando e matando os que buscavam resistir ao arbítrio da ditadura e àquele que é considerando o mais sanguinário dos sanguinários ditadores que tomaram o poder, em 1964, o general Garrastazu Médici, entregava a presidência, no mês de março, para o também militar indicado pelo colégio eleitoral, para sucedê-lo, o general Ernesto Geisel.

No Brasil, em 1974, a ditadura continuava torturando e matando (Foto Arquivo Público SP)

Já, em Portugal, em abril de 1974, a ditadura salazarista cai como fruta que apodrece na árvore, um regime que ficou marcado por ser antidemocrático, antiliberal, corporativista, colonialista e conservador.

Cai a ditadura salazarista, facilitada por Portugal enfrentar problemas econômicos, pelo menos desde a década de 1960, sendo considerado como o país mais atrasado da Europa, sob esse ponto de vista, situação agravada pelos custos econômicos, políticos e pelas perdas de vidas humanas e a vivência dos horrores da guerra, para manter o controle das colônias portugueses na África, controle esse que chegou ao fim nos anos de 1970, com a derrota do exército português no campo de batalha e com a própria Revolução de Abril.

E o fim do velho e carcomido “Estado Novo” foi realizado com o aporte de fortes símbolos da cultura, como a música que serviu como senha para a entrada dos militares progressistas em cena: “Grândola Vila Morena”, de Zeca Afonso, e os cravos que foram colocados, por mulheres floristas, no cano dos fuzis dos soldados sublevados. O filme Capitães de Abril (2000) também faz referência a gosto por literatura da parte destes, inclusive de poesia.

Cravos nos fuzis e nas fardas dos soldados portugueses: construção de memória


“E depois do Adeus”,

Além de “Grândola Vila Morena” ainda teve antes como primeira senha “E depois do Adeus”, segundo o jornal El País, edição de 25 de abril de 2018:

“Em primeiro lugar, soou às 22h55 de 24 de abril E Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho, transmitida pelo jornalista João Paulo Diniz da Rádio Emissores Associados de Lisboa. Já no dia seguinte, à 0h25, a Rádio Renascença, emissora católica portuguesa, transmitiu a canção de Zeca Afonso. Esse era o segundo sinal, indicando que os rebelados deviam ocupar os pontos estratégicos do país. Nas horas seguintes, a ditadura desmoronou.”

Não à toa, já abordei acerca do poder da arte para nutrir e acalentar corações e mentes que vivem sob o jugo da tirania. E aproximando corações e mentes de brasileiros e de portugueses progressistas de Portugal e do Brasil, temos como um bom exemplo o que foi feito por Chico Buarque, quando compôs a icônica canção “Tanto Mar”, que apesar da ditadura civil-empresarial-militar, deste lado do Atlântico, conseguiu divulgar, não sem antes sofrer cortes obrigado pela censura – e com simpatia pelo movimento que derrubou a ditadura salazarista – notícia da Revolução dos Cravos por aqui.

O que escrevi e publiquei no dia 26 de abril de 2019 no blog da Ação Cultural, no primeiro ano em que um capitão do exército brasileiro, eleito pela maioria do povo brasileiro, ameaçava atrasar o relógio da história do Brasil a abril de 1964  

“Os cravos no Portugal da revolução de abril de 1974, floresceram na primavera, depois de tantos anos de noites escuras e manhãs frias e com céu nublado, em meio também a noites salientes, regadas a bom vinho do Alentejo, alimentando e aquecendo a luta de sempre, por justiça e liberdade, com canções de amor, rebeldia e de esperança.

Também houve dias de sol e praia, para aquecer os corpos e alegrar corações, sempre lembrando que os dias e as noites, vem e vão, assim como as estações. Até que chega o 25 de abril, na primavera de 1974.

Lembrar essa primavera especial será sempre necessário, para que mesmo no inverno possamos nos aquecer com a memória das flores que brotam nos campos, e do sol tranquilo que chega nestes dias. Lembrar que a primavera, no sentido político, como empregado aqui, é uma construção.

Que mesmo demorando, nunca deixa de chegar. Como diz a canção de Nelson Cavaquinho, “O sol há de brilhar mais uma vez….”

E agora em 2023 aos poucos o sol começa novamente a brilhar no Brasil e para que este não venha a se apagar, o que podemos aprender com os portugueses com relação a memória da nossa democracia e com as tentativas em destruí-la ou de enfraquecê-la? Quem nos responderá é Ceila Maria, professora de Crítica Textual do Departamento de Ciências da Linguagem do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF).


Segunda parte: o Museu do Aljube, Resistência e Liberdade

Em 25 de abril de 2015, 41º aniversário da Revolução dos Cravos, em Lisboa, Portugal, foi inaugurado o Museu do Aljube, Resistência e Liberdade, no prédio da antiga cadeia do Aljube, onde foram encarcerados presos políticos durante a longa e cruel ditadura salazarista.

O Museu do Aljube vem cumprindo a missão de contribuir para que a memória da resistência e da luta contra a ditadura se mantenha viva, assim como também para que as gerações atuais e as vindouras não se esqueçam dos horrores perpetrados pelo regime ditatorial.

E por falar em Museu do Aljube, em março de 2022, ano de uma das eleições mais importantes em nosso país, tive a oportunidade de visitar esse Museu, que podemos chamar de fundamental numa sociedade que pretende manter e ampliar a democracia, combatendo também o racismo, a misoginia, o pensamento colonialista e imperialista.

No Museu, observei as grades que foram mantidas em algumas de suas janelas e portas e senti, na pele, o efeito provocado pela presença dessas grades quando, já no interior do Museu, literalmente, por detrás das grades, observarmos, o exterior. Colocamo-nos no lugar daquelas e daqueles que lá estiveram e me pareceu que estávamos adentrando em um passado que não deve, que não pode ser esquecido.

Na exposição permanente, vemos fichas com retratos de presos políticos; prensas de jornais opositores ao regime ditatorial; solitárias; métodos de tortura. De repente, uma sineta toca. Algo cai. Ficamos sobressaltados. Porém, temos a certeza de que estamos diante de uma grande realização, inclusive performática, de preservação da memória de um passado para que nunca mais o arbítrio, a ditadura e a tortura aconteçam.

O Museu do Aljube: memória da resistência e da luta se mantem viva


Uma imensa e intensa primavera

Há toda uma memória de resistência e de luta que vai culminar numa representação de uma imensa e intensa primavera: no Museu, há uma sala em que uma das paredes é quase completamente coberta por muitos e muitos cravos vermelhos e que traz por legenda, acompanhados de sua tradução para o inglês, os versos de “25 de Abril”, de Sophia de Mello Breyner Andresen: “Esta é a madrugada que eu esperava\ O dia inicial inteiro e limpo\ Onde emergimos da noite e do silêncio\ E livres habitamos a substância do tempo”.

Há também estrofes de outros poemas; trechos de canções e de outros tipos de textos que nos provam de a a z a importância de recordarmos e de mantermos viva a memória, inclusive, por meio da divulgação da literatura estampada, sim, estampada em paredes.

Na emocionante exposição temporária que tivemos oportunidade de visitar, também no Museu do Aljube, a intitulada ATO (DES) COLONIAL, entramos em contato com informações sobre lutas de independência de países da África que, assim como o Brasil, estiveram sob o jugo português. Vivenciamos, sim, vivenciamos informações, por meio da leitura de textos escritos, inclusive de poemas, e de imagens de e a respeito de pessoas que lutaram pela liberdade de seu povo: Amílcar Cabral, Josina Machel estavam e estão entre eles e elas. E como é bom ver seus rostos estampados em bandeiras que os e as exaltam em homenagem numa ação de preservação de sua memória de resistência e de luta.

Para que vocês tenham maior aproximação com o que estamos relatando, escrevemos, aqui, o link dessa exposição e é, como diz seu título, um ato descolonial: https://www.museudoaljube.pt/expo/ato-des-colonial/

Aproveitamos também para divulgar o site do Museu (https://www.museudoaljube.pt/) e temos certeza que quem visitar este site concordará plenamente com o que disse a Ministra Margareth Menezes, após visitar o Museu do Aljube, a respeito da necessidade de o Brasil ter um Museu sobre memória e democracia. Concordamos com ela em gênero, número e grau. Então, depois de passarmos pelos horrores do governo do agora inelegível, é uma das pautas fundamentais a construção de um Museu como o do Aljube, Resistência e Liberdade, no Brasil.


Preservação da memória de resistência e de luta

Hoje, deste lado do Atlântico, estamos percebendo com maior intensidade a necessidade de aproximação com os demais países que formam o Sul global, assim como a centralidade da preservação da memória de resistência e de luta, para, inclusive, minimizamos as chances de o fascismo crescer por aqui e em outras partes do mundo.

Na Argentina, 24 de março, dia em que teve início a ditadura militar de 1976, é feriado, desde 2002, e recebeu o nome de “Día de la Memoria por la Verdad y la Justicia”, em homenagem às vítimas do regime ditatorial (https://www.argentina.gob.ar/educacion/efemerides/24-marzo-memoria).

Aqui, no Brasil, em setembro deste ano de 2023, estão ocorrendo atos que lembrarão o golpe militar de 1973, no Chile, para que nunca mais aconteça.

Como diria Paulo Freire, esperançamos que o Governo Lula atenda à pauta de criação de um Museu da Memória e da Resistência já expressa pela Ministra Margareth Menezes.

Como está escrito numa das paredes do Museu do Aljube, Resistência e Liberdade: “Preservar a Memória Histórica é um ato de Cidadania, rasgando o silêncio em que todo um povo foi mergulhado e resgatando essa memória para ensinamento dos mais novos.”

#ditaduranuncamais


Zezito de Oliveira – Graduado em História pela UFS e pós graduação em Arte-Educação pela Faculdade São Luiz de França. É professor na rede pública de ensino e agente/produtor cultural da Ação Cultural. Autor do livro AMABA: O esquecido círculo de cultura da Aracaju dos anos de 1980


Ceila Maria Ferreira Batista – Professora de Crítica Textual do Departamento de Ciências da Linguagem do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisadora do CNPq. Escritora ligada ao Coletivo Narcisa Amália do Mulherio Rio das Letras.

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