JORGE RABANAL, especial para Mangue Jornalismo
(@raba.nal)




(Crédito: reprodução rede digital do Governo do Estado)
A seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas possam expressar perspectivas que estimulem o interesse e o debate público.
Começo afirmando o mais importante: só não enxerga a agricultura camponesa quem não quer. Estamos falando de uma classe social teimosa que, mesmo diante de catástrofes ambientais, avalanches econômicas ou gestões administrativas desastrosas, segue firme em seu lugar, reproduzindo-se socialmente. Recebe de volta filhos pródigos frustrados com aventuras urbanas ou vítimas da chamada mobilidade interregional da mão de obra — eufemismo recorrente para trabalho análogo à escravidão demandado pelo agronegócio.
Desde o governo Fernando Henrique Cardoso, com apoio de políticas neoliberais, inaugurou-se o termo “agricultura familiar”, autêntica jabuticaba brasileira. Desde então, assistimos ano após ano à tentativa de reduzir a população rural e insistir na ideia de que apenas 1/5 da ruralidade brasileira deveria ser objeto de políticas públicas como crédito, assistência técnica e infraestrutura logística. O aspecto mais perverso desse processo é o desejo explícito de que esse pequeno contingente permaneça restrito ao papel de fornecedor de matéria-prima e mão de obra.
Os anos passaram, as políticas públicas se modernizaram e o Estado brasileiro passou a exportar iniciativas relevantes mundo afora, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), a Política Nacional de Agroecologia e as políticas de Segurança Alimentar. Ainda assim, acredito que a mais importante inflexão foi a Política de Desenvolvimento Territorial. Ela ressignificou o desenvolvimento das microrregiões e, sobretudo, evidenciou o papel dos movimentos socioterritoriais. Esse processo ecoa a palavra de ordem construída pela Articulação do Semiárido Brasileiro, hoje atualizada: é no território que a vida pulsa; é no território que a vida resiste.
Agrobolsonarismo: invasão cultural nas bases populares camponesas
É também no território que se disputa poder. E, nos últimos anos — mais precisamente desde 2016 —, a classe camponesa vem perdendo essa disputa para o agrobolsonarismo, que ganhou fôlego em 2018 com o mandatário que defendia a existência de apenas uma agricultura no Brasil e extinguiu o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).
Desde então, algo antes impensável se consolidou: a invasão cultural do agronegócio em bases populares historicamente alheias a esse projeto.
Era comum, entre assessores populares que reconhecem a pluralidade das agriculturas brasileiras, o uso de um exemplo retórico: o problema não é acreditar no agronegócio; o problema é alguém subir a Serra da Melancia e dizer a Dona Cotinha que o queijo que ela produz é o agronegócio. Esse é o centro da questão. O agrobolsonarismo recebeu apoio para acessar ruralidades que antes não alcançava — e segue disputando esses espaços, como demonstrou o termo de cooperação, corretamente anulado, entre o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e o MDA.
Chegamos, então, a Sergipe e ao atual governo estadual, notoriamente alinhado ao agrobolsonarismo e marcado pela insensibilidade às pautas populares.
Um primeiro contrassenso é a participação formal no Consórcio Nordeste — reconhecido nacionalmente como instrumento de enfrentamento ao negacionismo bolsonarista — enquanto, na prática, esse alinhamento se esvazia. Exemplo disso são as feiras da agricultura familiar e da economia solidária, que receberam recursos da ordem de milhões sem envolver adequadamente as bases populares.
O pouco realizado pelo Governo de Sergipe não mostra o Governo Lula
Soma-se a isso a desonestidade política: o pouco que ainda é realizado pela administração estadual com recursos federais não carrega a identidade pública do governo federal “Brasil, União e Reconstrução”. Quem acompanha a propaganda institucional estadual pode acreditar que a gestão inventou as cisternas, que o PAA tem alcance universal e que existe apoio consistente à agroecologia.
Quem conhece as políticas de desenvolvimento rural e o orçamento estadual para a agricultura sabe que essa narrativa não se sustenta. Não adianta anunciar milhões investidos em hospitais enquanto o governo é incapaz de executar somente R$ 100 mil destinados à retomada da Política Estadual de Agroecologia, viabilizados por emenda impositiva da deputada Linda Brasil (PSOL).Desenvolver a Política Estadual de Agroecologia é apostar diretamente na saúde e na força popular dos territórios. É acreditar nas sementes da liberdade produzidas por camponeses e camponesas. É fortalecer a rede de cozinhas solidárias que atua no estado. É difundir a experiência camponesa que desafia a racionalidade econômica focada exclusivamente na produtividade e valoriza quem se especializa em preservar os valores culturais e intrínsecos do povo sergipano.

Jorge Rabanal é agrônomo, assessor popular e ativista da Rede Sergipana de Agroecologia.


