O Agente Secreto (quase) conquistou o mundo — e expôs o preconceito que tenta reduzir o cinema nordestino a “regional”

A seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas possam expressar perspectivas que estimulem o interesse e o debate público. O artigo deve dialogar com os princípios da Mangue, entretanto ele não precisa representar necessariamente o ponto de vista da organização.

No centro do Recife, a Rua da Aurora estendeu o tapete vermelho em frente ao Cinema São Luiz, de onde um telão transmitiu a cerimônia do Oscar para uma multidão. (Créditos: Reprodução/Instagram)

No último domingo (15), o mundo acompanhou a 96ª edição do Oscar, a principal premiação do cinema em Hollywood. Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil chegou à disputa de Melhor Filme Internacional com um representante entre os indicados. Em 2025, a vaga veio com Ainda Estou Aqui; desta vez, coube a O Agente Secreto carregar as expectativas. O longa brasileiro, no entanto, acabou superado por Valor Sentimental, produção norueguesa que já vinha chamando a atenção na temporada de premiações.

O Agente Secreto se passa em 1977 e nos apresenta Marcelo (Wagner Moura), um professor especializado em tecnologia. Ele decide fugir de seu passado violento e misterioso se mudando de São Paulo para Recife com a intenção de recomeçar sua vida. Marcelo chega na capital pernambucana em plena semana de Carnaval e percebe que atraiu para si todo o caos do qual ele sempre quis fugir. Para piorar a situação, começa a ser espionado pelos vizinhos. Inesperadamente, a cidade que ele acreditou que o acolheria ficou longe de ser o seu refúgio.

Nesse texto não vou me debruçar sobre o enredo do filme, que já foi bastante explorado desde novembro, quando o longa foi lançado comercialmente no Brasil. Aqui irei me dedicar à construção da imagem pública de O Agente Secreto e suas nuances. Se você quer ler uma crítica sobre o filme, indico uma ótima crítica escrita por Vinicius Oliveira, especialista na filmografia de Kléber Mendonça Filho, e publicada pelos nossos conterrâneos do Oxente Pipoca.

Longa dirigido por Kleber Mendonça Filho retrata a história de Marcelo, um professor que abandona um passado violento em São Paulo e se muda para a capital de Pernambuco. (Créditos: Reprodução/O Agente Secreto)

Antes de tudo, quando se pensa em premiações, é preciso entender que para além do aspecto artístico, também se trata de lobby. Ou seja, ter uma grande campanha de publicidade para que o filme esteja a todo momento presente e chame a atenção dos votantes (é de conhecimento geral que nem todos os votantes assistem todas as obras para fazerem suas votações). E o Agente Secreto conseguiu fazer muito bem isso, estando presente na mente do público tanto nacionalmente, quanto no exterior, quando conquistou os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator em maio de 2025, no Festival de Cinema de Cannes. 

Entre Cannes e a sua estreia comercial no Brasil, O Agente Secreto já tinha conquistado 17 prêmios em diversos festivais internacionais, rotacionando nas categorias de atuação (para Wagner Moura), direção (para Kléber Mendonça) e melhor filme internacional. Evgenia Alexandrova também venceu algumas premiações pela sua direção de fotografia no longa. A estatueta pode não ter vindo, mas o feito ainda assim é significativo. Depois de um intervalo de 26 anos entre a indicação de Central do Brasil e o retorno do país à categoria com Ainda Estou Aqui, ver o Brasil disputar o prêmio de Melhor Filme Internacional por dois anos consecutivos já representa, por si só, um avanço importante para a presença do cinema brasileiro no circuito global.

Mesmo que em razão da polarização política que atravessa o debate público brasileiro, o que fez o filme sofrer críticas de setores da extrema direita por rotulá-lo como “militante”, O Agente Secreto, com suas quatro indicações, reforçou a força do cinema brasileiro. Mais do que isso: mostrou que podemos competir em pé de igualdade com outras grandes indústrias cinematográficas, sejam as europeias ou de países emergentes.

A ‘derrota’, é importante ressaltar, não deve ser interpretada como fracasso ou coisa semelhante: o filme já é histórico para o cinema brasileiro, com trajetória triunfante desde as primeiras exibições, no Festival de Cannes, em maio do ano passado. (Créditos: Reprodução/Instagram)

Saindo do espectro das premiações, Kléber Mendonça Filho é inegavelmente bairrista. Todos os seus filmes se passam em Pernambuco, e o único que não vive Recife é Bacurau. Em O Agente Secreto, a capital pernambucana não é apenas uma locação, ela é um personagem vivo, seja no carnaval, nas referências, e principalmente no Cinema São Luiz, um dos cinemas de rua mais emblemáticos do Brasil. Além disso, boa parte do elenco é pernambucana, contando com a participação de atores de outros estados nordestinos. Desde o núcleo principal até participações pontuais temos a presença da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Alagoas, Paraíba, ficando de fora Sergipe, Maranhão e Piauí.

Se internacionalmente o filme ficou marcado por ter “uma cara bem brasileira”, dentro do Brasil ele ficou marcado por ser um filme “bem nordestino”. Essa visão ficou bem explícita na fala da crítica cinematográfica Aline Diniz, que estava na transmissão do Oscar na HBO Max. Após a cerimônia, antes da transmissão encerrar, Aline comentou que “Ainda Estou Aqui é um filme brasileiro e O Agente Secreto é um filme recifense”. Porém, assim como O Agente Secreto é irrigado de referências e vivências recifenses, Ainda Estou Aqui transborda na tela as vivências de uma população específica do Rio de Janeiro.

É impossível aqui não retomar o pensamento de que tudo que é produzido no eixo Rio-São Paulo é nacional e fora dele é regional, principalmente se tratando do Nordeste ou do Norte brasileiro. Foi jogado para nós, do Nordeste, esse estigma do cinema regional nordestino. Mesmo vencendo prêmios internacionais e representando o Brasil no Oscar, essa pecha ainda vai pairar sob os olhares das pessoas do eixo “nacional”, jogando até Kléber Mendonça Filho, um dos maiores cineastas brasileiros contemporâneos, dentro da caixa do cinema nordestino.

Por mais que o comentário da Aline Diniz tenha vindo de uma intenção de elogio, de valorizar o regionalismo do filme, ela reforça essa visão xenofóbica da representação do brasileiro (e enfatizo que não estou chamando a Aline de xenófoba, mas que o comentário dela abre margem para reforçar essa visão). E fica ainda mais preocupante o comentário vir no final da premiação, após a “derrota” de O Agente Secreto, deixando um ar de renegação: “Já que não ganhou, é de vocês de Recife; o que ganhou é nosso, do Brasil”.

O Agente Secreto representou muito bem o Brasil nessa temporada de premiações. Não venceu o Oscar, mas segurou a porta aberta para que mais e mais filmes trilhem um caminho vitorioso. E finalizo vangloriando Kléber Mendonça Filho, Glauber Rocha, Karim Aïnouz, Gabriel Mascaro, Ilma Fontes, Viviane Ferreira, Allan Deberton, Glenda Nicácio, Cláudio Assis e muitos outros e outras que são Nordeste e fazem CINEMA BRASILEIRO.

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Hector Sousa

Hector Sousa é sergipano, bacharel em Cinema e Audiovisual (UFS) e Mestre em Comunicação Social (UFS). É responsável pelas produções sonoras da Mangue Jornalismo e escreve sobre cinema e sociedade.

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