Nordeste não está preparado para calor extremo e seca do El Niño, diz meteorologista

Em entrevista à Mangue Jornalismo, Humberto Barbosa, fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS), alerta para os riscos à saúde, à agricultura familiar e ao abastecimento de água e cobra medidas de adaptação dos governos.

Por meio do LAPIS, Humberto Barbosa realiza o acompanhamento do El Niño via satélite  (Créditos: Acervo pessoal)

No Nordeste brasileiro, altas temperaturas, possibilidade de secas, incêndios, perdas de plantações, falta de energia e mortes. Um impacto pode desencadear outro. Essas são algumas das consequências previstas para o El Niño, que deve atingir seu pico a partir de novembro de 2026 e se estender até janeiro de 2027.

Desde junho deste ano, agências de monitoramento do oceano e da atmosfera alertam para o aumento anormal da temperatura do Oceano Pacífico. Quando a média da temperatura da superfície do mar ultrapassa 0,5 °C em relação à média climática, segundo o indicador desenvolvido pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), considera-se configurado o El Niño. Em meados de setembro, a anomalia da temperatura já havia ultrapassado 3 °C.

O aquecimento está relacionado, entre outros fatores, ao enfraquecimento dos ventos alísios, que sopram de leste para oeste e deslocam as águas quentes da superfície do Pacífico em direção à Oceania. Quando esses ventos perdem força, as águas aquecidas se acumulam na costa oeste da América do Sul, favorecendo o desenvolvimento do fenômeno.

O oceano e a atmosfera estão conectados. Uma alteração nas condições oceânicas pode provocar mudanças atmosféricas semanas depois, afetando a distribuição das chuvas. Durante episódios de El Niño, o Nordeste brasileiro tende a registrar menos precipitação, enquanto o Sul pode ter aumento das chuvas.

O meteorologista Humberto Barbosa, pesquisador e fundador do Lapis, acompanha o fenômeno por meio de imagens de satélite. Em entrevista à Mangue Jornalismo, ele afirma que o aquecimento observado já caracteriza um episódio de El Niño muito intenso e defende a adoção de medidas para reduzir seus efeitos diretos e indiretos. “A temperatura é um impacto direto do El Niño. E aí é onde está a maior preocupação, porque idosos e crianças são extremamente vulneráveis às altas temperaturas. E as altas temperaturas também podem levar à morte”, afirma.

O Norte e Nordeste do Brasil são as regiões que mais sentirão os impactos do El Niño com as altas temperaturas e secas extremas, que podem ocasionar incêndios. Em julho passado, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome elaborou um planejamento que prevê R$ 1,335 bilhão para ações de preparação e resposta durante o El Niño. Meses depois, o governo federal fez um complemento e destinou mais de R$ 35,8 bilhões, dos quais R$ 16,9 bilhões foram destinados ao Nordeste, concentrando em 47% do valor total. Esse recurso será direcionado para a manutenção de segurança hídrica.

Apesar disso, Barbosa ressalta que a resposta depende da atuação dos governos federal, estaduais e municipais. Ele também defende que a população cobre dos representantes medidas de prevenção e acompanhe as propostas dos candidatos nas eleições. “É fundamental que os eleitores olhem isso com muita atenção, porque nos próximos 4 anos há muita incerteza de como esses impactos podem estar se intensificando, no sentido de que alguns eventos podem se tornar muito mais intensos”, reforça.

Os efeitos podem atingir tanto o bem-estar da população quanto a produção agrícola, especialmente a agricultura familiar, que tem maior dependência das chuvas e acesso mais limitado à irrigação e a mecanismos de proteção financeira. A escassez de água e de alimentos pode ampliar a vulnerabilidade de comunidades rurais, enquanto as altas temperaturas elevam os riscos à saúde, principalmente para crianças e idosos.

“A partir do momento que a população não tem água e tem pouca disponibilidade de comida, isso traz uma certa vulnerabilidade para essa população”, diz o meteorologista. 

Confira os destaques a seguir. 

Mangue Jornalismo (MJ): Houve um aumento exorbitante do avanço do El Niño desde junho até o momento? Perceberam alguma alteração do que estava previsto?

Humberto Barbosa (HB): Bom, de fato, desde de janeiro esse monitoramento é feito semanalmente, mas a gente começou a perceber que havia uma alteração das condições oceânicas, principalmente ali na região equatorial, ali na região do Pacífico, por ser uma área de monitoramento das condições de El Niño, que é quando tem essas temperaturas da superfície do mar acima de condições de médias climáticas. 

Quando a gente olha essa condição do oceano na região tropical, é importante a gente associar também a atmosfera. Porque na região tropical, principalmente dos oceanos, a atmosfera e o oceano já estão juntos, estão, no que a gente chama no jargão de “acoplados”, eles estão casados. Então, se eu perturbar o oceano, eu vou ter uma resposta depois de um tempo na atmosfera. Esse padrão de resposta, ele interfere em toda a região tropical no globo. 

A partir do final do ano passado, a condição de neutralidade do oceano, que é quando o limite está entre um aquecimento até 0,5ºC e um resfriamento até -0,5ºC. Se ele estiver nessa faixa, nesse intervalo, a gente chama o oceano na condição neutra. Ele não é um El Niño e nem é La Niña, ele é apenas uma condição, em que não existe aquecimento e nem resfriamento. Então, no final do ano passado, ele estava numa condição de neutralidade e a partir do início desse ano, ele ganhou uma condição de aquecimento. E esse aquecimento, ele foi de certa forma divulgado por vários modelos oceanográficos e modelos meteorológicos, e já apontava para um aquecimento crescente. E todos os modelos apresentavam esse sinal de El Niño, embora a intensidade dele, os modelos diferenciavam entre si, mas isso já indicava que esse ano a gente teria o surgimento de um El Niño que poderia ocorrer no final do primeiro semestre ou início do segundo semestre desse ano. 

E de fato, ocorreu. Ele até surpreendeu, porque o que aconteceu com esse El Niño foi a forma como ele foi aquecendo, e esse aquecimento ocorre em função dos ventos alísios. Para quem tá na costa do Nordeste, esses ventos alísios são aquela brisa que a gente sente ali na costa. Então, essa região ali dominantemente por ventos de leste, ou seja, os ventos que vêm da África em direção à América do Sul, e isso foi perdendo força. Esses ventos ficaram muito fraquecidos. Eles são quem empurram a água quente ali na região da costa da América, ali no Peru e Equador, esses ventos alísios arrastam essa água quente para a Oceânia e aí tem uma condição normal, mas quando esses ventos enfraquecem, essa água quente se desloca em direção para a costa do Peru. E isso normalmente acontece no fim do ano.

Então, há uma ligação entre os ventos e correntes oceânicas, para que esse aquecimento ocorra. Então, quando os ventos alísios perdem força, esse acúmulo de água aquecidas ali na região da costa oeste da América do Sul, ele se intensifica e forma a circulação de Walker, que é uma circulação específica que faz com que várias regiões essa circulação de vento seja influenciado por esse aquecimento local, ou seja, uma pequena área faz com que essa circulação vai interferir trazendo mais chuvas ou menos chuvas.

E como consequência esse aquecimento também amplia a temperatura do globo, o planeta todo fica mais aquecido. E com isso esse acúmulo de aquecimento do planeta em função dos gases de efeito estufa com o aquecimento natural dessa condição do El Niño, adiciona mais calor e isso também aumenta a intensidade de eventos extremos, que de fato já está acontecendo.

MJ: O Nordeste é uma região que reúne litoral, Agreste, Semiárido… são muitas regiões dentro de um longo território, consequentemente os impactos tendem a ser diferentes. Quais áreas tendem a sentir os efeitos primeiro? Como essas regiões sentirão o El Niño?

HB: No caso específico da região Nordeste do Brasil, do semiárido brasileiro, que domina a região, quase 80% do território, é uma região que tem um clima muito bem definido, ou seja, uma estação chuvosa muito curta, de fevereiro a maio, onde tem a maior distribuição das chuvas, 90%, dá mais ou menos umas 40 semanas, 30 semanas de chuva, com uma certa sequência.

As demais, a região litoral, que é uma pequena faixa ali próximo do oceano Atlântico, tem uma condição de muito mais umidade, tem fatores nos quais essa estação chuvosa é muito mais longa, ela vai de abril chegando até meados de setembro, climatologicamente falando. Já no oeste, no Nordeste do Brasil, ela segue ali muito uma dinâmica entre um pouco do que é a região as chuvas de outubro até fevereiro, muito parecido com o regime de chuvas da região Norte. 

Fevereiro e março é o período em que você tem o início e já um pouco ali das primeiras semanas das chuvas do semiárido, que é a maior região em termos de espaço e em termos de ocupação do Nordeste, você tem regiões ali com populações que depende muito dessas condições das primeiras chuvas. Então, ela termina sendo influenciada por essas condições do Oceano Pacífico. E aí ela também vai depender do Oceano Atlântico. Se o Oceano Atlântico ali na costa do Nordeste, que tiver mais quente, você tem mais umidade e os ventos, não só de Sudeste e de Leste, vão trazer essa umidade, vai meio que balancear os impactos do El Niño.

Então, se você pegar os 40 últimos anos, certamente muitas das secas do Nordeste estão relacionadas com a condição de El Niño. Porém, nos últimos 20 anos e mais especificamente nos últimos 10 anos, a Amazônia também vem apresentando secas recorrentes, o que não tinha tanto registro no passado. Ela apresentava secas, mas havia um intervalo de tempo maior. Por exemplo, 2023, 2024, a gente teve uma seca muito intensa, a ponto de alguns rios na região Norte, principalmente os rios da bacia amazônica, serem impactados pelas condições do El Niño. Enquanto o Nordeste foi menos impactado, porque o Atlântico estava mais quente.

Nordeste é uma das regiões com menos umidade no solo (Crédito: LAPIS)

A seca começa a ter uma dinâmica em função também da resposta da cobertura vegetal. As áreas mais degradadas, elas são mais impactadas e isso traz também consequência para as condições de seca. Nos últimos 10 anos, em função da maior dos gases de efeito estufa desequilibrar essa condição de equilíbrio do planeta, fazendo com que tenha muito mais calor retido, que tem o calor de radiação de onda longa, tem colocado um outro ingrediente que são as temperaturas. Então as temperaturas também têm acelerado mais esses processos de perda de umidade do solo e principalmente em áreas degradadas e desertificadas. No caso das áreas desertificadas, na região Nordeste do Brasil, você tem de 13 a 15% do território, sendo hoje já com áreas desertificadas, que são áreas onde tem a produtividade do solo e processo de erosão e de oxidação dos solos e em condição já de uma área desertificada.

Então, isso é uma outra problemática para a questão de anos de El Niño em função também do aquecimento global, os dois juntos acelerarem as secas, que a gente chama na tipologia de seca relâmpago, que é uma seca condicionada pelas altas temperaturas e a redução das chuvas. Esses dois mecanismos, de altas temperaturas e de redução de chuva, que estão diretamente relacionado às mudanças climáticas e no caso do El Niño em função da redução das chuvas, eles provocam e aceleram essas secas que estão ocorrendo não só no Nordeste do Brasil, mas também no Centro-Oeste, a região do Pantanal. Em 2023, 2024, a gente teve também uma diminuição significativa das chuvas, um aumento dos incêndios florestais, o que também trouxe uma grande dificuldade, porque quando você tem essa redução das chuvas e aumento dos incêndios, por consequência, o aumento dos incêndios florestais, você traz também uma condição ambiental de poluição, de qualidade do ar, e para a questão da saúde extremamente sensível nessas condições de El Niño com um planeta mais aquecido.

MJ: Hoje, em meados de setembro, o que ainda é possível ser feito para minimizar os impactos do El Niño no Nordeste brasileiro?

HB: Isso vai depender muito da governança, principalmente nas três esferas, no caso, federal, estadual e municipal. É importante que algumas ações já estejam em curso. Eu não sou especialista em determinar quais são essas ações que já estão sendo implementadas, mas a gente tem um histórico já em função da região Nordeste do Brasil por ter essa adaptabilidade às secas, do convívio e do enfrentamento das secas, como, por exemplo o abastecimento de água potável ou carro pipa. Então, acredito que há uma sensibilidade dos municípios intensificando, porque há municípios hoje já sendo afetados por essas condições de seca provocadas pelo El Niño, principalmente na região semiárida.

É importante também a gente destacar que ações na área de agricultura e pecuária são importantes, o que a gente chama de economia rural. No caso da agricultura, a gente tem a Embrapa, que desenvolve a parte genética de algumas sementes que são mais resistentes a essas condições de seca de veranicos. E é importante que essas sementes tragam essa adaptabilidade nessas condições, que é um El Niño muito intenso e que isso traz também uma perda de produtividade na agricultura.

Da pecuária, pelo que a gente já tem de experiência no passado em função do que aconteceu da seca mais longa já registrada no Brasil, que foi a seca de 2012 a 2017, no Nordeste do Brasil o impacto dela na pecuária foi menor, porque a palma forrageira terminou sendo uma forma de fazer com que esse gado, a pecuária, pudesse estar sendo alimentada com um tipo de cacto que armazena 80, 90% de sua fibra, que é água. Obviamente que as adutoras devem e podem ser ampliadas. O Rio São Francisco, ele já abastece algumas áreas e alguns municípios que há 10, 20 anos atrás não tinha esse conhecimento.

Então, e o mais importante que a gente tem visto, é na questão do impacto do El Niño e da mudança climática na qualidade da água, principalmente na questão da saúde pública. Então, já há programas do SUS se preparando para atender a população que eventualmente seja impactada pela qualidade da água. Em épocas de seca, tem os açudes e os tanques, que armazenam água, tem pouca movimentação da lâmina de água em função de ter menos chuva, de ter altas temperaturas, isso cria algas, principalmente algas que podem trazer doenças diretamente à população que consome essa água sem nenhum tratamento.

Então, esse é um perigo maior, que são as cianobactérias. As cianobactérias elas terminam-se proliferando nessas condições de seca, porque você tem menos movimentação vertical da água, há menos água entrando nas nas bacias e principalmente nos rios e isso faz com que essas cianobactérias elas se desenvolvam mais rapidamente e a água não sendo tratada, essas cianobactérias podem provocar doenças, a cólera, e entre outras que podem provocar a morte.

Comparação da temperatura da superfície do mar entre maio e setembro de 2026 (Crédito: LAPIS)

Quando a gente fala do El Niño, a gente tá falando de impactos indiretos. Quando eu falo da seca, das enchentes no sul ou das altas temperaturas na região Sudeste, eu me refiro como um segundo grau. Eu me refiro como um impacto de segunda ordem, ou seja, não tô falando como um impacto de primeira ordem, um impacto direto. Mas a temperatura, sim, é um impacto direto do El Niño. E aí é onde tá a maior preocupação, porque idosos e crianças são extremamente vulneráveis às altas temperaturas. E as altas temperaturas também podem levar à morte, principalmente desses grupos mais vulneráveis.

E nesse sentido, eu acho que há pouca preparação, os municípios, as grandes cidades, ou por exemplo, cidades de porte médio, elas não têm água [disponível nas ruas]. Se você andar nos grandes centros, você não encontra água para beber, bebedouro ali para que as pessoas possam se refrescar. Você tem que comprar ou levar sua própria água. Então, acho que isso ainda precisa ser considerado, principalmente a partir de agora quando você tem essa condição de um planeta mais quente, com condição natural de um El Niño muito intenso. 

MJ: Você já comentou que o El Nino ele é anunciado com antecedência, que existem possibilidades de minimizar esses impactos e também falou sobre o aumento da temperatura, esse aquecimento global. Então, até que ponto ainda a gente pode falar que o El Nino é um desastre natural, já que vem acontecendo todos esses outros fatores?

HB: O El Niño é um fenômeno natural e recorrente, o que significa que os impactos dele já são bem conhecidos, os impactos indiretos, principalmente as secas, algumas regiões como o Nordeste do Brasil, que tem maior sensibilidade em função dessa condição do aquecimento dessa região do Pacífico Equatorial, influenciando a circulação que vai diminuir essas chuvas e vai intensificar secas que podem ser secas prolongadas e com isso traz dificuldade principalmente na abastecimento de água.

Então, o que fica bem claro, é que o El Niño é natural, ele é recorrente, o que significa que entre 2 a 7 anos ele pode ocorrer. A gente já teve mais recentemente quatro La Niñas seguidos, o que nunca tinha sido registrado na história. Então, a dúvida é o que esses próximos anos, qual é o padrão El Niño em função da atmosfera de um planeta mais quente e como o El Niño vai ser influenciado? Há pouca pesquisa ainda para estabelecer se é o aquecimento vai aumentar o número de El Niños ou se vai diminuir, ainda não há um consenso na ciência, mas há indícios de que a condição de El Niño e a condição de aquecimento global traz consequências de eventos extremos, porque você tem mais calor, e algumas regiões vai ter mais umidade e significa mais chuvas.

Mas quando eu trago mais calor para regiões mais secas, significa que a região vai ficar cada vez mais seca e aí a intensidade dessas secas têm uma problemática muito grande, porque a partir do momento que a população não tem a água e pouca disponibilidade de comida, isso traz uma certa vulnerabilidade para essa população.

MJ: Em um lugar em que as estratégias de prevenção e cuidado sobre os efeitos climáticos não foram feitas como deveriam, como a população pode fazer para reduzir os impactos em suas vidas cotidianas?

HB: É fundamental que a sociedade civil, através dos seus representantes a partir do prefeito, da secretaria do meio ambiente, comece também a fiscalizar e entender se algumas iniciativas que estão previstas já estão sendo implementadas. E isso parte do momento também da cidadania, de como essa população vai responder antecipadamente a essa condição de atuação de um El Ninõ que está previsto.

A gente sabe que vai ter um El Niño, ele já está ocorrendo, mas que os seus efeitos, a sua influência, vão ser mais intensos a partir de períodos que a gente considera períodos extremamente sensíveis, que é após o período que ele alcança o pico, ou seja, a partir de novembro. A gente já entra com uma situação em que essas condições extremas, elas vão estar mais extremas, com maior intensidade, em função de que esse oceano vai começar a transmitir, através da circulação, informações ainda mais intensa de ventos que vão intensificar as secas.

Previsão de temperatura da superfície do mar em dezembro de 2026 (Crédito: LAPIS)

Então, a gente tem isso na região tropical, onde dominantemente dois fatores são importantes: o excesso de chuva, e nesse caso, houve a redução de chuva. As altas temperaturas deram impacto direto. Boa parte da região tropical até as latitudes mais altas também são influenciadas, mas principalmente na região tropical, onde a condição oceânica e a condição atmosférica, as duas estão muito conectadas, ou seja, qualquer perturbação no oceano, seja ela com aquecimento ou resfriamento, a atmosfera vai responder.

E daí você tem os extremos: enchentes e secas em várias partes do planeta, principalmente na região tropical, em algumas regiões são muito mais conhecidas por terem sido detectadas ou estudadas a relação entre a temperatura dos oceanos correlacionando com as condições de chuvas e com isso é o caso da região Nordeste, é uma das regiões mais estudadas para validar modelos climáticos para entender como os oceanos interferem na atmosfera e no regime de chuvas.

MJ: Quando é tratado o El Niño, é mostrado que ele tem um grande impacto na vida das pessoas, mas muitas vezes ele é dito como uma forma muito catastrófica, de forma muito mais alarmista do que deveria ser. Então, como é que as pessoas devem compreender o El Niño?

HB: Essa questão da mídia alarmista trazer informações, tipo, “super El Niño”, “El Niño Godzilla”, tem que ser visto com muita cautela, porque você tem uma parte da sociedade, principalmente agricultores e outros que de certa forma criam uma ansiedade quando você utiliza esses termos com superlativo ou com uma visão muito mais catastrófica, enquanto que é um fenômeno natural recorrente, onde tem que antecipar algumas medidas preventivas e, sabendo que o planeta está mais quente, essas condições e sistemas vão estar ali presentes.

Isso eu acho que são informações que você tem que trabalhar não só com a população. Informando de uma forma muito direta, quais são os impactos e não trazendo o evento por si só como sendo ator principal. E isso tem consequências diretamente para vários grupos. O primeiro grupo que eu cito e que é o mais conhecido são os agricultores. Você falar com um agricultor que vai ter um super El Niño sem dar nenhuma preparação para ele, sem nem trazer informações básicas do que ocorreu em anos anteriores, quais medidas foram tomadas, o que é importante, o estoque de pastagem, a redução da água, ou seja, de você ter uma melhor gestão das águas, olhar para a agricultura também, saber quais são as sementes que você vai ter que ter, talvez não plantar alguns determinados de cultivares, de seleção de sementes mais resistentes… Isso sim é mais importante do que você dá atenção à intensidade.

Essas condições de super El Niño, El Niño Godzilla, a intensidade dele não necessariamente têm relação direta: quanto mais intenso, mais extremo vai ser as chuvas. Nos estudos, não estabelecem que quanto mais anomalia de El Niño, mais seco, mais enchente. O que a gente sabe é que El Niños muito fortes podem levar a eventos cada vez mais extremos. Agora a intensidade desses extremos não necessariamente é relacionada, posso ter uma condição extrema relacionada também com El Niño quando ele é apenas forte ou moderado.

Há os fatores na atmosfera que podem a intensificar ou reduzir esse impacto da circulação que não necessariamente está estabelecido por a região estar mais quente ou muito mais quente. Então, aí você tem que ter muito cuidado com isso. Foi o caso do El Niño de 2023 a 2024. A região Nordeste do Brasil não foi tão impactada, mas a Amazônia foi muito mais impactada.

MJ: Alguns pesquisadores e consultores apontam os efeitos do El Niño na produção agrícola de larga escala, ou seja, no agronegócio, e como isso impacta a economia brasileira. Mas vamos olhar para outra esfera, como os pequenos agricultores são e serão afetados pelo avanço do El Niño?

HB: A agricultura familiar tem uma dependência muito maior da parte de chuvas, não usa tanto a irrigação. Uma parcela muito pequena da agricultura familiar tem acesso à tecnologia e acesso à irrigação. Uma parte da população da agricultura familiar na região Nordeste do Brasil ainda é uma agricultura que depende das condições climáticas e isso sim há incentivos de município, de Estado, para tentar minimizar esses impactos ou, por exemplo, liberação de sementes. A gente já teve no passado as secretarias que davam apoio técnico, hoje já diminuiu um pouco disso, mas há outros mecanismos que melhoram ou que pelo menos trazem a segurança financeira para esse agricultor passar esse período que é de escassez.

A agricultura principalmente do agronegócio, ela também é impactada, porém, por ela ter essa componente de tecnologia, ela tem também as seguradoras que colocam uma certa condição de amenizar essas perdas que eventualmente podem ocorrer em determinados municípios, aí ele não tem uma perda total e parcial em função dessas seguradoras que eventualmente estão ali tendo informações de que esse El Ninõ vai ser intenso e vai trazer prejuízo, o agricultor recorre a esse seguro. Não é o caso da agricultura familiar.

Então são dois grupos que são impactados, mas que tem medidas as quais elas diferenciam esses dois grupos, porque, principalmente, o da agricultura familiar tá muito mais exposta a essas condições de El Niño extremo, que traz períodos mais longos de estiagem, de seca, e também traz uma condição de abastecimento de água potável, mesmo para consumo, impactante, ou seja, tem a população difusa, a população que em áreas assentadas que não tem uma infraestrutura hídrica ou de segurança alimentar que em períodos de secas mais prolongadas ou de períodos de El Niño mais intenso pudessem melhor ter essa infraestrutura. É uma região extremamente vulnerável às perdas agrícolas em condições de El Niño.

MJ: Estamos em ano de eleições, o que os eleitores precisam estar atentos às propostas dos governos quanto a questões climáticas? E o que é preciso cobrar deles para os próximos anos?

HB: É importante que a população busque nos candidatos e principalmente nos seus planos de gestão, o que está sendo colocado em termos de medidas. Ou seja, o que há de informações preparatórias para condições extremas de secas, enchentes, altas temperaturas. Isso tudo são fatores que têm um impacto direto, embora são condições provocadas indiretamente pela El Niño ou diretamente pela condição de aquecimento do planeta em função das altas temperaturas, mas isso impacta diretamente em setores da saúde, isso tem um impacto direto em termos da qualidade da água, em termos da qualidade do ar e em termos de como as grandes cidades e os centros, eles estão despreparados com essas condições ainda de eventos extremos condicionadas ao El Niño ou ao aquecimento do planeta.

Então, essa pauta ecológica, ambiental, ela é fundamental que o candidato coloque atenção, porque elas têm um viés econômico, social, cultural, que de certa forma vão afetar a economia e vão afetar o dia a dia do cidadão. Então, é fundamental que os eleitores olhem isso com muita atenção, porque nos próximos 4 anos há muita incerteza de como esses impactos podem estar se intensificando, no sentido de que alguns eventos podem se tornar muito mais intensos, principalmente essa questão das altas temperaturas e isso afeta diretamente não só o lazer, mas também na qualidade de vida das pessoas em áreas urbanas.


Excesso de calor nas regiões brasileiras (Crédito: LAPIS).

Você precisa de mais áreas de parque, o que é que nessa proposta do candidato também olha em termos de adaptação? Como é que essa população nos próximos 4 anos vai se adaptar a essas condições extremas de altas temperaturas? E a parte de paisagística das cidades, em termos de mais parques, mais árvores, medidas que olhe também na coleta de lixo, também, porque isso tem um impacto direto no meio ambiente e na atmosfera, principalmente na produção de metano, e isso é fundamental.

Isso vai estar afetando diretamente na forma como as pessoas se deslocam, da forma como as pessoas trabalham e como elas estão expostas a perder o seu patrimônio financeiro e patrimônio também no sentido de que essa perda de patrimônio empobrece mais essas regiões, principalmente as áreas de risco. E mortes. Porque isso já está muito claro, boa parte da população está exposta a essas condições de eventos extremos.

MJ: Quais indicadores precisam ser acompanhados nos próximos meses?

HB: Olha, o primeiro que eu chamaria atenção é para a qualidade da água, eu acho que ela é fundamental, principalmente pelas áreas periféricas, principalmente as áreas de assentamentos, área rural; a qualidade do ar, nos grandes centros, que é influenciada principalmente pelos incêndios florestais, que estão diretamente ligados pela redução das chuvas.

Mas a região Nordeste do Brasil, entre novembro e dezembro é quando concentra o pico dos incêndios florestais. Isso significa que também traz impacto nas torres de distribuição de energia, porque esses incêndios podem causar desligamento de torres e com isso apagões. Então, existe uma condição também de imprevisibilidade muito grande no setor elétrico, não só pela questão da água, mas hoje a energia solar e eólica de certa forma trazem uma segurança ao sistema, mas a questão hidrelétrica e a questão de incêndios florestais nas torres de transmissão, elas têm um impacto de imprevisibilidade, isso traz um desconforto também para a população, porque elas podem ter perdas, principalmente dos mantimentos, e isso pode ocorrer entre o final e o início do próximo ano. 

E o monitoramento, que é para mim uma forma de ação pública, quando você monitora, você está se preparando para antecipar algo que possa vir acontecer e que tem impacto econômico, social e cultural também. Então, esses indicadores passam por essas três áreas: água, energia e a qualidade do ar.

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Valter Davi

Jornalista (DRT 2945/SE) e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe (PPGCOM/UFS), em que pesquisa Narrativa de Sofrimento no campo do Jornalismo. Fotojornalista e escritor, atua como repórter e tem experiência em assessoria de comunicação.

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