No país que mata seis mulheres por dia, grupo transforma o Maracatu em trincheira contra o machismo em Sergipe

O Baque Mulher Aracaju Aracaju iniciou suas atividades em 2018 com o objetivo de lutar pelas vidas das mulheres. Hoje com mais de 60 integrantes, o grupo prova que o Maracatu é um poderoso instrumento de conhecimento e libertação.

O Baque Mulher Aracaju é um movimento de libertação e conhecimento (Crédito: Pritty Reis/Reproodução)

“Mulher guerreira” é o verso que ecoa em diversas Loas do Maracatu de baque virado. Cerca de 60 mulheres cantam e tocam os seus instrumentos pelas ruas de Sergipe. Juntas, lutam, com o uso da arte, por um mundo sem violência, opressão e machismo. O Movimento Baque Mulher Aracaju é sinônimo de que arte também pode ser instrumento de conhecimento e libertação.

O Movimento surgiu a partir da Nação Maracatu Encanto do Pina, em Recife (PE), por meio da Mestra Joana Cavalcante e hoje já possui mais de 30 filiais espalhadas pelo Brasil. Em 2008, a Mestra foi a primeira mulher a liderar o maior grupo de Maracatu do estado. Ao perceber que o grupo popular era composto, desde a sua criação, por mais homens do que mulheres, Mestra Joana fundou o Baque Mulher, grupo de Maracatu apenas de mulheres.

Para além de reunir percussionistas, o movimento tinha o propósito de formar mulheres politicamente para lutar por suas vidas. “Tem passo firme, é um movimento muito determinado, conta com muita força e resistência contra todas as formas de opressão às mulheres. Todas as dores sofridas por cada uma e por todas se transformam em lutas e em apoio”, explicou Mestra Joana.

Dez anos depois, o Baque Mulher chega em Aracaju com o mesmo propósito de exercitar o fortalecimento do espaço da mulher na sociedade. Após uma pausa no ano de 2020, por conta da pandemia de Covid-19, o grupo retomou em 2023, instigadas pela força de Pétala Tâmisa e Elis Correia. 

“Dá para sentir muita coisa, muita alegria, muito orgulho de ver as pessoas realmente conquistando, a alegria de ver pessoas conseguindo aprender a tocar e se apresentando, estando ali. É muito boa a sensação de acompanhar histórias”, disse Elis Correia, emocionada, ao relembrar a sua trajetória dentro do grupo.

O Baque Virado das sergipanas

Atualmente, o Baque Mulher Aracaju possui mais de 60 integrantes, com uma faixa etária que se estende de 7 até mais de 60 anos. Mesmo possuindo o nome da capital, o Movimento recebe mulheres de diversos municípios de Sergipe, como Itabaiana, Barra dos Coqueiros e São Cristóvão – os dois últimos da região metropolitana.

O grupo se distribui pela percussão e funções administrativas, o que organiza o grupo e faz todo o movimento acontecer. Dentro dessas funções há a Comissão de Formação Política, em que são feitos debates, oficinas e letramento político.

“A gente também faz esse movimento de formação política internamente, discutir essas pautas, entender qual é o nosso lugar enquanto mulheres na sociedade, entender quais são as violências e as opressões atuais que somos submetidas, entre outros tantos temas que permeiam, que atravessam esse espaço hoje de 60 mulheres”, explicou Emanuelle Oliveira, uma das coordenadoras do Baque Mulher Aracaju.

A formação política se torna um lugar de fortalecimento e acolhimento dentro de um país em que ao menos seis mulheres são mortas por dia. Segundo o Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL), o Brasil registrou 6.904 vítimas de casos consumados e tentados de feminicídio em 2025.

Dentro do Baque Mulher, as integrantes participam de oficinas de percussão para aprimorar as suas habilidades (Crédito: Pritty Reis/Reprodução).

Emanuelle Oliveira entrou para o Baque Mulher Aracaju já atravessada por uma trajetória de luta feminista. Artista visual e graduada em Pedagogia, ela esteve à frente, entre os anos de 2022 e 2024, do projeto Kuña, uma feira multicultural voltada para artistas mulheres. “Dentro da minha movimentação artística e como realizadora cultural, eu sempre me movimentei, criei movimentos de articulação entre mulheres. Cheguei no Baque muito motivada justamente por esse movimento da articulação política.”

Para Suzayde França, atual coordenadora geral junto com Emanuelle, o Baque Mulher se tornou a sua primeira vivência de coletivo feminino. Suzayde é formada em Turismo e em Fisioterapia, e em uma de suas consultas, uma paciente lhe contou sobre o Baque Mulher. A partir daí o seu caminho dentro do movimento começou a ser trilhado. “Estar com essas mulheres, aprender com essas mulheres, não só em relação à música, mas em relação à política também, como eu disse, eu sou um aprendiz feminista, então eu aprendi muito e aprendo muito com essas mulheres”, contou.

O Baque Mulher Aracaju se sustenta pela força das mulheres que tem o objetivo de, acima de tudo, se manter vivas e seguras dentro da sociedade. Ao ocupar diversos espaços das cidades, essas mulheres deixam as suas marcas pelos sons dos tambores, agbês e suas vozes. No dia 8 de março, Dia Internacional de Luta Pelas Mulheres, o Baque Mulher fará uma apresentação no ato unificado que acontecerá em Aracaju, na Feira Livre do Bugio.

“Somos um grupo de emancipação de mulheres, um grupo político, que se utiliza do Maracatu como ferramenta de resistência e de luta”, falou Emanuelle.

O som do baque virado

O Maracatu é uma expressão cultural historicamente negra, vinda dos terreiros de Candomblé. Em diferentes regiões do Nordeste, passou por singulares transformações. Em Pernambuco, há duas maneiras de se manifestar: Maracatu de Baque Solto ou Maracatu da Mata e Maracatu de Baque Virado ou Maracatu Nação.

O baque virado se dá pela mudança de ritmo durante a percussão. Nesse momento, em que Mestra Joana afirma que é possível apenas sentir, alguns tambores dobram a marcação rítmica – ou seja, fazem a “viração” – enquanto outros seguram o compasso da marcação.

As músicas cantadas durante a percussão, que são puxadas por uma solista e replicadas pelo coro, se chama Loa. As Loas possuem a características dos cantos e textos africanos, entoando cantigas de luta, resistência e libertação das mulheres.

Por ter uma nascente no Candomblé, alguns grupos do Baque Mulher possuem ligação direta com algum Ilê (no iorubá, a palavra significa “casa”). No caso do Movimento de Recife, o grupo de Maracatu faz parte do Ilê Axé Oxum Deym. Já em Aracaju, o coletivo não é associado diretamente com um terreiro, embora mantenha suas características da religiosidade afro-brasileira.

“Como a gente não tem essa ligação direta, não está associada diretamente ao Ilê, a gente acaba tendo um grupo mais diverso nesse sentido. Então a gente tem mulheres de Axé e a gente tem mulheres também de outros segmentos religiosos. Somos bem diversas”, explicou Emanuelle.

Sergipe também é terra de Maracatu

O Maracatu não é novidade para o estado de Sergipe, mesmo que tenha se popularizado e conseguido mais reconhecimento em Pernambuco. Segundo o portal Kizomba dos Saberes, “o Maracatu surgiu no Nordeste brasileiro como uma manifestação popular genuinamente afro-brasileira, em que cada estado do nordeste vai possuir uma identidade diferente de se ‘brincar’. Suas cantigas, vestimentas e instrumentação são realizadas pelos próprios integrantes, sempre tendo como principal influência as lutas quilombolas e suas raízes ancestrais.”

Em Japaratuba, município localizado na zona norte de Sergipe, há a presença do Maracatu desde o início do século XX, quando ainda era tocado de forma carnavalesca. Com o passar dos anos, a manifestação cultural foi se transformando e recebendo novos nomes, como Maracatu de Dona, Maracatu Nação Pavão Dourado e, por último, Maracatu Renascer.

Já em Brejo Grande, município do norte extremo de Sergipe, banhado pelo Rio São Francisco, havia apenas um grupo até 2006, o Maracatu Patrocínio do Brejão, que tinha como regente o Mestre Seu Adalto, juntamente com a líder Dona Lila. Após o reconhecimento do povoado como remanescente do Território Quilombola Brejão dos Negros pela Fundação Cultural Palmares, em 2006, o grupo se dividiu. De um lado, o Mestre Seu Adalto fundava o Maracatu Raízes do Quilombo; do outro, Dona Lila seguiu com o Maracatu Patrocínio do Brejão, que durou até o seu falecimento, em 2022.

Picture of Valter Davi

Valter Davi

Jornalista (DRT 2945/SE) e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe (PPGCOM/UFS), em que pesquisa Narrativa de Sofrimento no campo do Jornalismo. Fotojornalista e escritor, atua como repórter e tem experiência em assessoria de comunicação.

Compartilhe:

Isso aqui é importante!

Fazer jornalismo independente, ousado e de qualidade é muito caro. A Mangue Jornalismo só sobrevive do apoio das nossas leitoras e leitores. Por isso, não temos vergonha em lhe pedir algum apoio. É simples e rápido! Nosso pix: manguejornalismo@gmail.com

Deixe seu comentário:

CATADO DA MANGUE

Receba de graça as reportagens