No mês do meio ambiente, Prefeitura de São Cristóvão devastou área verde que foi restaurada por moradores

A seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas possam expressar perspectivas que estimulem o interesse e o debate público. O artigo deve dialogar com os princípios da Mangue, entretanto ele não precisa representar necessariamente o ponto de vista da organização.

Tenho ouvido com frequência: “árvores na cidade só servem para esconderijo de ladrão”, “é melhor retirar as árvores por causa da sujeira de suas folhas”, “pra que esta área enorme cheia de mato (árvores e outras vegetações nativas)? Seria mais útil construir prédios”.

É fato que o negacionismo científico tem ganhado impulso a nível global. Porém, quero destacar aqui o negacionismo ambiental e climático. Há décadas que os cientistas alertam para o aquecimento global, como podemos constatar por meio do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Embora haja quem ainda negue, é fato que vivemos um aumento exponencial da temperatura anual. 

Neste cenário, surge em 1995 a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, onde representantes de diversos países se reúnem anualmente para discutirem soluções a fim de mitigar estes impactos, criando estratégias e traçando metas e objetivos. A última conferência (COP 30) ocorreu em nosso país nos dias 10 a 21 de novembro de 2025 em Belém do Pará.

Mas, o que pensar quando gestores municipais agem na contramão e em total desrespeito às pautas socioambientais e desprezam conceitos como: cidades inteligentes, mitigação de carbono, preservação da biodiversidade, além de ignorar as metas e Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS 11 (Cidades e comunidades sustentáveis), ODS 13 (Ação contra a mudança global do clima) e ODS 15 (Vida terrestre)?

Sou morador do Conjunto Brigadeiro Eduardo Gomes (atualmente, Bairro Eduardo Gomes) desde a sua fundação, chegando aqui aos 5 anos de idade. Tenho acompanhado com perplexidade o despreparo do município no trato com o bioma local. Neste desabafo, venho relatar quatro situações que vem ocorrendo no decorrer dos anos.

A primeira é que, ao longo da avenida principal do Eduardo Gomes que vai do final de linha até próximo a Igreja Católica podemos encontrar o canal de drenagem pluvial que outrora era descoberto. Após ter sido fechado, a área tornou-se um espaço de lazer, onde é possível constatar o grande número de pedestres se exercitando, passeando em família ou simplesmente utilizando o espaço para se locomover com segurança. 

Assim como ocorreu no Bairro Augusto Franco em Aracaju nas Avenidas Canal 04 e Canal 05, os moradores do Eduardo Gomes começaram a plantar árvores, arbustos, plantas medicinais e ornamentais nos espaços laterais, apropriado para esta finalidade. Ao longo dos anos, as árvores cresceram formando copas frondosas que gentilmente forneciam sombra aos munícipes que ali transitavam, diminuindo significativamente a sensação térmica do local.

Podas drásticas podem ser enquadradas como crime ambiental

Infelizmente a gestão municipal tem adotado há alguns anos a realização arbitraria de “decapitação” das copas das árvores. Esta prática conhecida tecnicamente como “poda drástica” pode ser enquadrada como crime ambiental de acordo com o artigo 49 da Lei Federal nº 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais), tendo em vista que a vegetação em questão não traz nenhum tipo de risco, pois não há fiação próxima, seus galhos não estão invadindo a avenida e nem há risco de queda. Como se não fosse o suficiente, recentemente foi feito o corte total de uma Moringa Oleífera, próximo ao final de linha.

Além de fornecer oxigênio e da sua função paisagística, as árvores tem um papel fundamental para o bom funcionamento e segurança de uma cidade, contribuindo para a drenagem, fazendo com que haja maior permeabilidade do solo por onde a água da chuva pode se infiltrar. Ela também protege o solo contra erosão, evitando o assoreamento; reduz a velocidade dos ventos; diminui a poluição sonora e acústica.

E mais, absorve de parte dos raios solares; formação de sombra e aumento da umidade atmosférica, refrescando o ar das cidades; fornece alimento e proteção a plantas e animais, aumentando a biodiversidade urbana; absorve parte da poluição atmosférica, neutralizando os seus efeitos na população; além de oferecer sensação de bem estar que o contato com a natureza é capaz de proporcionar.

Segunda situação: na Avenida José Conrado de Araújo, no Bairro Rosa Elze existe um canteiro bastante largo que vai da área compreendida entre o Colégio de Aplicação e o SergipeTec (Sergipe Parque Tecnológico) até a entrada do Eduardo Gomes. Nesta área também é possível constatar tais podas agressivas sendo realizadas constantemente.

Nesse canteiro é possível encontrar uma vegetação rasteira de exuberante beleza e de grande importância ambiental. Trata-se da Chanana, uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional) que além de nutritiva, também é medicinal. Pode ser considerada uma planta ornamental devido suas flores que se abrem no período da manhã, proporcionando um belo espetáculo aos transeuntes. É resistente ao estresse hídrico e a falta de adubação, além de atrair polinizadores. É perceptível a redução da sensação térmica ao caminhar, pois os raios solares são prontamente absorvidos também pelas vegetações rasteiras.

Por se tratar de uma planta espontânea, nativa do nosso país, é considerada por muitos como “mato” ou “erva daninha” e é óbvio que o seu extermínio é feito constantemente por meio de roçagem pelos funcionários que prestam serviço à prefeitura, deixando o solo descoberto, permitindo que a radiação do sol seja refletida e aumente a sensação de calor.

Situação três: entre o Eduardo Gomes e o Conjunto Lafayete Coutinho existe um “canal a céu aberto” que não possui nenhum tipo de guard rail, grades ou qualquer outro tipo de proteção colocada para a segurança da população. Já chegando ao final do canal (atrás do Colégio Estadual Professora Clarice da Silva – antigo Colégio Olga Barreto) existe uma planta chamada Margaridão (bastante utilizada na agroecologia) que formava uma barreira natural, impedindo que animais de pequeno porte e até crianças caíssem acidentalmente. 

Adivinha só o que vem acontecendo lá? É feito o corte frequente, impossibilitando que atinjam o tamanho adequado para a proteção do canal. Vale ressaltar que esta planta possui propriedades extraordinárias. Suas belas flores atraem polinizadores e joaninhas, além de enriquecerem o solo devido os nutrientes que possui. Nesta região também há ocorrência da Chanana, que é eliminada com frequência.

Prefeitura destrói área verde construída por moradores

Quarta situação: existia um terreno baldio em área pública (região próxima ao final de linha, entre o Eduardo Gomes e o Lafayete Coutinho) que era utilizada por parte dos moradores como depósito de lixo, entulhos e até mesmo para descarte de carcaça de animais, provocando diversos tipos de transtornos aos residentes próximos, além dos custos operacionais da prefeitura com a limpeza constante da área. 

Não sei precisar o período exato (acredito que tenha ocorrido há mais de 15 anos), uma moradora começou a plantar mudas de árvores e arbustos nesse local. Prontamente, outros moradores começaram a se unir para restaurar e cuidar desta área. Ocorreram algumas represálias daqueles que estavam acostumados a degradar o local, porém a união em prol da revitalização prevaleceu. Comecei a contribuir com a manutenção do local apenas no início do ano de 2022 introduzindo algumas espécies vegetais, fazendo a adubação e indo constantemente com vasilhames de água para garantir o enraizamento e desenvolvimento da planta.

Frequentemente encontrava mudas arrancadas e destruídas, mas mesmo assim, tive o prazer de ver algumas destas mudas se tornarem belas árvores. O local trouxe uma série de benefícios para todos. Era comum, pessoas utilizarem o ambiente para sessão de fotos em ocasiões especiais, coletar plantas medicinais para tratamento natural, consumir os frutos. Alunos do Centro de Excelência Professor Hamilton Alves Rocha coletaram vagens de moringa (em 2024 e 2025) para utilização em projeto científico reconhecido internacionalmente. Pitangueira, mamoeiro, limoeiro, bromélias, flamboyant mirim, cajueiro, moringa oleífera, margaridão, gliricidia, boldo, eram apenas algumas das espécies que havia no local. Ao longo deste processo, os órgãos municipais não tiveram a iniciativa de plantar R$ 0,50 de semente de girassol.

Agora vem a “cereja do bolo”. Apesar de ser comum a realização de constantes podas irregulares, um fato na área causou profunda tristeza e indignação à população local. A área foi arrasada. Um cenário de guerra. Todas as moringas foram eliminadas. Outras espécies também foram arrancadas. Nem o mamoeiro foi poupado. As árvores que restaram, sofreram podas drásticas. Acho bastante simbólico que isto tenha ocorrido no mês dedicado à Conservação do Meio Ambiente. 

Fico me questionando se toda a matéria orgânica proveniente desta agressão socioambiental teve como destino o aterro sanitário? Outro fato bastante curioso é que não ocorreu a supressão de nenhum Nim indiano. Sendo que esta árvore (encontrada com abundância no local) é reconhecida atualmente como causadora de diversos problemas ambientais, tendo o seu plantio proibido por decreto em diversos municípios brasileiros.

Um casal que participou do processo de restauração da região desde o início me confidenciou que também se sentem devastados com o ocorrido e que devido ao desgaste emocional e físico ao longo dos anos, estão desistindo e “fechando os olhos” para o que quer que venha acontecer com o local. Quanto a mim, o sentimento inicial foi de profunda cólera ao ver a dedicação de anos virar um amontoado de entulho. 

Nos dias seguintes, tristeza e angústia. Hoje, o maior desafio consiste em cultivar a esperança. Não me refiro à esperança de uma retratação e/ou revitalização da área com recursos públicos. Mas a esperança de que os órgãos do município de São Cristóvão não voltem a destruir as benfeitorias ambientais realizadas pela população.

Vale comentar que há diversas prefeituras brasileiras que disponibilizam um Plano de Arborização Municipal, onde constam as ações referentes à gestão, implantação, plantio, manutenção e monitoramento das árvores.

Em algumas cidades, a população pode solicitar a implantação de uma árvore em sua calçada ou terreno baldio próximo. Nesta parceria, técnicos da Secretaria do Meio Ambiente verificam qual a melhor árvore, arbusto ou planta para o local e fazem o plantio, sendo repassado ao munícipe a responsabilidade do cuidado com a adubação e rega.

Concluo este texto-desabafo deixando claro que este artigo não é uma crítica ou ataque pessoal aos trabalhadores(as) que realizam as podas e roçagem. Eles(as) são profissionais que estão defendendo seu sustento de maneira digna e honrada. As críticas são destinadas à gestão municipal, principalmente no que se refere à área ambiental. Alguns vídeos de denúncias sobre o assunto acima podem ser vistos em @msg.embaixadorlixozero.

Picture of Matheus da Silva Góes

Matheus da Silva Góes

Educador ambiental e palestrante, técnico em agropecuária, agente de gestão de resíduos sólidos, embaixador lixo zero, assessor de serviço (área ambiental) Lions Clube Aracaju Bertha Lutz, membro do Projeto Vem e Composta – IFS/Aracaju, membro do GEPEASE (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Ambiental de Sergipe - UFS) e Sala Verde – UFS.

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