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Este mês de julho é oportuno para reflexões sobre identidade: é o mês em que celebramos a emancipação política de Sergipe, concedida pela Carta Régia de 08 de julho de 1820, que separou Sergipe da Bahia. Um documento oficial por si só, não cria identidades; o nosso, nem garantiu de pronto a emancipação que concedia. Mas os sergipanos se ocuparam, anos a fio, em tecer, para além da luta política, os atributos que os uniam, que os identificavam. Impressionados com o sucesso dos seus homens de letras em outras plagas, sentiram-se representados pela inteligência. Nas primeiras décadas do século XX, o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe elegeu a tríade Fausto (Cardoso), (Sílvio) Romero e Tobias (Barreto) como símbolo do “ninho de águias”, representação do pequeno Sergipe, terra de grandes inteligências. As características desses homens e da sua atuação foram entendidas como expressões da inteligência, da coragem, da argúcia, do destemor e da resistência, além da improvável capacidade de vencer em outras terras, que fazia o orgulho dos sergipanos.
Em fins de maio último foi lançado, na Biblioteca Pública Epifânio Dória, “Sílvio Romero e José Veríssimo em combate: Brasil, literatura, ensino e legitimação”, livro que traz novo ingrediente ao conhecimento da atuação de uma dessas águias, por certo a mais notória, o lagartense Sílvio da Silveira Ramos Romero. Seu autor, Wagner Gonzaga Lemos é um pernambucano que, vivendo em Sergipe, tornou-se docente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) onde lidera o Grupo de Pesquisa em Literatura e História, é colaborador do Programa em Estudos Literários da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e mantém-se atuante na cena cultural sergipana como membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e pesquisador de pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Sergipe. Nesta Universidade cursou a graduação e o mestrado, doutorou-se na Universidade de São Paulo e fez o pós-doutorado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Sua produção bibliográfica contempla literatura brasileira e sergipana, literatura infantil e cordel, num amplo leque de assuntos; contudo, Sílvio Romero o ocupou no mestrado e no doutorado, resultando no trabalho que agora saiu em livro pela Editora da UNEB. Muito apreciada na apresentação e no prefácio, a edição é bonita e, de modo geral, bem cuidada, com uma bela iconografia que torna a leitura mais agradável e traz, para o leitor, preciosos documentos da pesquisa.

O que ressalta do trabalho de Wagner Lemos, além da qualidade da escrita, do uso de títulos muito expressivos, das hipóteses que desenvolve e da bem articulada distribuição dos assuntos, é a riqueza de uma pesquisa profunda e obcecada com as fontes, que o levou a vários locais e encontrou, no acervo de Sílvio Romero que integra a Biblioteca Epifânio Dória, uma fonte inesgotável de descobertas. Esse acervo, talvez a mais rica aquisição da Biblioteca, foi alvo do trabalho do grande estudioso da literatura sergipana, Jackson da Silva Lima, e permanece como um constante convite à pesquisa, que o nosso Autor aceitou e desenvolveu com método e cuidado, como o fez no Arquivo Público Estadual do Pará, na Biblioteca Pública Estadual Arthur Vianna , no Colégio Pedro II, na Academia Brasileira de Letras, na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro e até na Biblioteca Oliveira Lima, em Washington D.C., Estados Unidos.
Após esse percurso, Lemos parece entregar-se com prazer à História da Literatura, num itinerário que liga a origem desses estudos, no Brasil, à carreira de professores que criaram o nosso cânone literário, ao tempo em que desenvolveram a imaginação identitária, trabalhando entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Folheemos os quatro capítulos que compõem a obra, deslindando um ambiente intelectual que se espraia de instituições de ensino à imprensa, às editoras do Rio de Janeiro e à Academia Brasileira de Letras. O livro nos faz passear por elas e sentir o calor das disputas, quando a glória literária era pleiteada na agressividade da polêmica, tendo em Sílvio Romero um implacável combatente e no escritor paraense José Veríssimo, o principal alvo da sua pena afiada.
Estudiosos dos intelectuais brasileiros daquele período costumam apresentá-los como uma espécie de missionários da nacionalidade, tal o faz Nicolau Sevcenko em “A literatura como missão” ; outros há que destacam nessa intelectualidade uma das mais comprometidas com a construção da nação, em todo o mundo. Lemos não foge do tema, mas articula a produção de professores como Romero e Veríssimo à natureza da docência, à necessidade de destaque entre pares e à sua busca de completar salários, alongando a faina de ensinar, junto a jornais e editoras. Seu foco é a educação, a docência, as dificuldades da vida ou, como ele diz, o exercício desses “homens de letras sob a perspectiva da atuação docente” (p. 34), abordagem que reputa como pouco usual na historiografia literária. Aqui começa o desenvolvimento da hipótese com que chega à conclusão da obra – a pesquisa sobre a conformação da carreira docente no que diz respeito a concursos, disciplinas, disputas por preeminência e produção bibliográfica – que Wagner Lemos, também professor, persegue com a ânsia de encontrar as raízes do que constitui o próprio percurso.
Nesse diapasão, o livro enfoca as carreiras docentes de Sílvio Romero e José Veríssimo no Colégio Pedro II, ambos disputando, nas letras, ocupar o lugar inaugurado pelo cônego Fernandes Pinheiro na historiografia da literatura brasileira. Sílvio Romero logrou publicar a História da Literatura Brasileira, ainda em 1888, obra que segundo Lemos tem, para a cultura brasileira, a mesma importância de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre ou Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Professor de Filosofia, Romero pesquisou e escreveu sobre poesia popular, História e Literatura. Porém a preeminência do autor lagartense, amplamente reconhecida, foi construída também através de uma renhida luta de ideias que o levou a divulgar Tobias Barreto e a chamada “Escola do Recife” ou a atacar figuras como Machado de Assis, Manoel Bomfim e particularmente José Veríssimo, sempre usando a palavra escrita com agressividade. Essa circunstância está analisada no primeiro capítulo do livro em apreço, intitulado “Literatura, Ensino e Legitimação” que anuncia, no subtítulo: “A pena é mais forte que a espada”. O segundo, que o completa, dedica-se à personalidade do “amplo e sonoro Sílvio Romero”, polemista por excelência, assim como à sua obra e seu legado.
O foco sobre José Veríssimo, professor de Português, História e Geografia e diretor do Pedro II, aparece no terceiro capítulo. Aí está apresentado o intelectual amazônico, que ainda em 1890 escrevera sobre a Educação Nacional e que também se mudou para o Rio de Janeiro, frequentou a editora Garnier, foi fundador da Academia Brasileira de Letras e deixou uma História da Literatura Brasileira cuja edição não chegou a alcançar (1916). Aqui, a pesquisa se revela ainda mais instigante e o Autor exibe os esforços necessários a palmilhar com segurança os caminhos de José Veríssimo, na literatura e na vida privada, cheia de dificuldades, inclusive na frustrada tentativa de voltar ao Colégio Pedro II, depois que um incidente de caráter político o afastou da direção.

No quarto e último capítulo Wagner Lemos coloca Sílvio Romero e José Veríssimo face a face, perenizando o combate que travaram em vida. Ele destaca, nos dois intelectuais, as semelhanças e as diferenças, fazendo um balanço das posições de ambos na disputa que travaram, à qual imprimiram características de suas personalidades. Mesmo assim, é reconhecida certa filiação intelectual de Veríssimo a Romero, mas são sublinhados comportamentos, excessos e reações deste último, “cuja fama de ferino se estende até a contemporaneidade” (p. 210). Interessante que aqui se pode ver toda a grandeza, a coragem, a acuidade e a atualidade, em vários aspectos, da análise romeriana sobre o Brasil, mas isso não constrange o Autor de apontar os erros de visão e os arroubos de um temperamento apaixonado e incontrolável maculando julgamentos sobre seus pares na vida intelectual, a quem tratou com “dilatado ódio” (p.261) e mesmo com “baixeza” (p.268).
O ataque a José Veríssimo é famoso e muito citado, consignado particularmente por Sílvio Romero no livro “Zeverissimações ineptas da crítica”. Mas o grande atrativo do trabalho de Lemos é que ele consegue trazer novos dados e contrabalançar a visão daquele intelectual com a de alguém que precisa esmagar o adversário mesmo à custa da honestidade pessoal. O final do livro mostra como agiu Romero a propósito do concurso para História Geral a que José Veríssimo se submeteu na tentativa de retornar aos quadros do Ginásio Nacional, antigo Colégio Pedro II. Sem êxito em conseguir a primeira colocação, o professor paraense viu-se tratado como incompetente para o magistério. Wagner Lemos empenha-se numa “reparação histórica” ao demonstrar que a manipulação dos resultados por apadrinhamento político deslocou o quinto colocado para o primeiro lugar, dando a Escragnolle Dória a vaga buscada também por historiadores como o paranaense Rocha Pombo e o sergipano Felisbelo Freire, este aprovado em primeiro lugar com a mesma pontuação de José Veríssimo. Empenhado em fazer justiça a Veríssimo, Lemos estende-se em explicar a situação de cada um dos aprovados e talvez tenha dado muito espaço ao Escragnolle Dória, além de ter considerado Felisbelo Freire como candidato fácil de ser descartado, sem levar em conta que à época, o médico itaporanguense já trazia no currículo os títulos de deputado federal em duas legislaturas, Ministro da Fazenda, Secretário dos Negócios Exteriores, Governador de Sergipe, jornalista no Rio de Janeiro e autor da História Territorial do Brasil, além da História de Sergipe citada no texto.
Com tudo o que descobriu, porém, o nosso autor encerra a disputa, proclamando a vitória do sergipano. Sílvio Romero cometeu muitos erros, mas o seu legado é indiscutível e o reconhecimento disso tem sido maior do que o conferido a José Veríssimo, inclusive por parte dos conterrâneos. O leitor chega ao final convencido de que Wagner Lemos buscou lançar luz sobre duas figuras que devem ser compreendidas na sua humanidade. Muito longe da glorificação ou do cancelamento com que vamos nos acostumando a ver tratadas as pessoas na atualidade, aqui estão dois seres humanos na sua grandeza e nas suas dificuldades. Por isso, temos que concordar que : “Vistos, assim, em sua vivência cotidiana, uma esfera desbastada da aura em que nos acostumamos a colocá-los, tornam-se figuras mais próximas, compreendidas e, sobretudo, respeitadas” (Lemos, p. 312).
Encerro dizendo como foi gratificante essa leitura, que me proporcionou um reencontro com o tema dos intelectuais sergipanos presente nos meus livros sobre Fausto Cardoso e Manoel Bomfim. A respeito de Sílvio Romero, não pude deixar de lembrar que orientei a dissertação de mestrado do professor José Augusto de Melo Araújo intitulada “Debates, pompa e majestade: a história de um concurso docente nos trópicos no século XIX”, versando exatamente sobre o concurso de Sílvio Romero ao Colégio Pedro II, ainda inédita. Assim, recomendando o livro de Wagner Lemos, só posso desejar que venham mais cultores a essa bela seara!
Referências bibliográficas:
LEMOS, Wagner Gonzaga. Sílvio Romero e José Veríssimo em combate: Brasil, Literatura, Ensino e Legitimação. Eduneb: Salvador, 2025.


