Neide Silva insistiu em amar até à morte. A história de uma mãe que lutou pela vida das pessoas LGBTQIA+

Neide Silva foi mãe de muitas. Participou ativamente de organizações sociais olhando para as pessoas como se fossem os seus filhos. De certa forma, eram. Não mediu esforços. Até caldinho de macaxeira e feijoada levava para dar sabor aos dias. Durante a pandemia da Covid-19, Neide fez da sua própria casa um lugar de coleta e retirada de cestas básicas para pessoas LGBTQIA+. Não se continha, queria abraçar, cuidar, amar em tempos de distanciamento e, mesmo se protegendo, contraiu o vírus. Neide Silva faleceu aos 50 anos.

Nascida na pequena cidade sergipana de Rosário do Catete, que não chega a 10 mil habitantes, Neide Silva começou a trabalhar aos 12 anos; com 18, teve o primeiro filho, não demorou muito e mais dois nasceram. Mudou-se para a capital, Aracaju, com o seu então marido e por nela começou a construir novas vidas. Pouco tempo depois, Neide e o marido se separaram, e ela seguiu cuidando dos três filhos sozinha.

Desde sempre Neide foi católica. Dentro da igreja que frequentava, procurava formas de ajudar o próximo. “Quando eu era criança, ela fazia parte dos grupos da igreja que fazia distribuição de cesta básica, mas ela sempre foi muito crítica de coisas dentro da igreja. Do que ela não concordava, ela falava”, relembrou o filho mais novo, Nicolas Santos, de 33 anos.

Quando Neide se desvinculou das atividades da igreja, se juntou a um grupo que estava se formando para doar cestas básicas para pessoas em situação de rua. O grupo não durou muito, e assim que se desestruturou, Neide se viu perdida.

No início de 2018, ela soube de uma festa de inauguração que aconteceria na CasAmor, uma Organização da Sociedade Civil (OSC) sediada em Aracaju que busca dar apoio a pessoas LGBTQIA+. Nesse dia, houve shows de drag queens, samba, dança e angariação de alimentos e roupas para doação. Então ela foi, se encantou e nunca mais quis sair.

“Ela disse: eu quero participar, eu acho que é isso aqui que eu quero fazer. E eu lembro quando ela me falou que estava começando a participar dos eventos de lá, começando a participar das ações, e que ela finalmente estava se encontrando. Ela disse: eu me encontrei aqui agora, era o que eu estava esperando a vida toda”, contou Nicolas.

Neide Silva foi uma das fundadoras da filial Mães Pela Diversidade em Sergipe (Crédito: Arquivo Pessoal)

Desde a primeira conversa que Neide teve com os colaboradores da CasAmor, deixou claro que queria contribuir com tudo o que fosse possível. “Ela começou a oferecer um caldinho de macaxeira que era delicioso, e ela preparava um caldeirão que era sucesso. Ela se tornou uma figura de uma mãe mesmo, considerando muitas pessoas expulsas do ambiente familiar de casa. Ela tinha esse acolhimento, como se fosse uma mãe para muitas pessoas LGBT”, disse o atual presidente da CasAmor, Rafael Machado.

Se tem amor, me chama que eu vou

De acordo com o Mapa das Organizações da Sociedade Civil, Sergipe possui cerca de 15 OSCs voltadas para a defesa de Direitos Humanos às pessoas LGBTQIA+, mas esse número pode ser ainda maior, visto que nem todas as organizações hoje ativas estão cadastradas no mapa ou são filiais de redes nacionais, caso da Mães pela Diversidade. 

A OSC Mães Pela Diversidade surgiu em 2014, em São Paulo. Inicialmente como um coletivo, o projeto tinha como objetivo reunir mães, pais e responsáveis que estavam preocupados com os preconceitos que seus filhos, filhas e filhes LGBTQIA+ estavam sofrendo. O coletivo tomou grandes proporções, pessoas de diferentes estados começaram a aderir à organização e aplicar ações em suas regiões, criando novas filiais.

Quem levantou a cabeça e assumiu a responsabilidade de trazer a Mães Pela Diversidade para Sergipe foi Neide Silva, em 2019, que já estava instigada na luta LGBTQIA+ dentro da CasAmor.

A CasAmor começou a ser idealizada em 2017 e foi oficialmente fundada em 29 de janeiro de  2018, em Aracaju, mesmo dia que é comemorado o Dia da Visibilidade Trans. A organização teve como referências a Casa 1, em São Paulo, e a Casa Nem, no Rio de Janeiro, iniciativas que promovem o acolhimento e suporte a pessoas LGBTQIA+ que sofrem violências dentro e fora do ambiente familiar.

Neide Silva, Linda Brasil e Nicolas Santos na inauguração da CasAmor (Crédito: Arquivo Pessoal).

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública começou a distinguir violências contra pessoas LGBTQIA+ das violências gerais apenas em 2020, com os dados dos anos 2018 e 2019; Sergipe, no entanto, não disponibilizou nenhuma informação. Em 2018, o Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (ANTRA) registrou que em Sergipe houveram 5 mortes violentas de pessoas trans.

Segundo a ANTRA, 90% das pessoas trans acabam entrando na prostituição como forma de sobrevivência e de fonte de renda. Um dos objetivos iniciais da CasAmor foi dar assistência a esse grupo de pessoas com recursos básicos e formações para que elas possam ter autonomia no mercado de trabalho.

Linda Brasil, mulher trans e atualmente deputada estadual de Sergipe, foi uma das fundadoras da CasAmor, colocando para frente um projeto que se tornou o primeiro ponto de cultura e memória LGBT de Sergipe.

“A gente não tinha nome, nos questionávamos como é que a gente podia começar essa iniciativa, daí várias pessoas surgiram nesse processo, a gente fez campanhas, enquetes para o nome… Tinha uma casa no [bairro] Inácio Barbosa que estava para alugar e eu disponibilizei a casa para a gente começar a fazer os trabalhos, as reuniões, as oficinas, a arrecadação de roupas, de cestas básicas, para já ir ajudando essa população. Nesse processo, várias pessoas se somaram, e uma dessas pessoas foi Tia Neide, que hoje é o nome da casa”, disse Linda Brasil.

Após o falecimento de Neide, a CasAmor alterou o nome de registro para CasAmor Neide Silva, em sua homenagem.

Coração de mãe cabe todo mundo

Neide Silva sempre prezou em manter uma vida tranquila para os seus filhos. Não queria que eles passassem pelos mesmos sufocos que precisou passar em sua vida. E o caminho que encontrou para isso foi a liberdade.

“Eu costumo pensar que eu cresci num ambiente muito livre, para ser quem eu quisesse ser, então eu lembro desde a infância dela ser muito aberta para muita coisa, e ela nos ensinar essa abertura de ser mais livre”, contou Nicolas.

Neide tinha formação técnica em hospedagem pelo Instituto Federal de Sergipe (IFS) e sempre sonhou em continuar estudando. Conseguiu ser aprovada para a graduação em Gestão de Turismo, também no IFS, curso que tanto almejava. Chegou até o 5º período, penúltimo da grade curricular, estava desenvolvendo o seu Trabalho de Conclusão de Curso focado em turismo e pessoas LGBT. Mas o vírus impediu que completasse mais um sonho.

Neide era uma mulher de muitos sonhos (Crédito: Arquivo Pessoal).

Uma das coisas que Neide amava era viajar, voar por aí sem se sentir presa, por isso a escolha do curso. O seu desejo era conhecer o mundo, proporcionar novos sorrisos e levar consigo todos à sua volta. Essa vontade de descobrir cada canto do mundo se espelhou na descoberta de si mesma.

Certo dia, Nicolas Santos pegou uma caneta e um pedaço de papel e escreveu sobre os seus sentimentos. Na carta, contava que estava apaixonado por um menino. Não que fosse alguma revelação, pois desde muito novo já entendia o suficiente sobre a sua atração por outros homens. Mas sentia que precisava contar para a sua mãe, a sua melhor amiga. A voz ficou presa em sua garganta, só lhe restou riscar as palavras.

“Aí ela pegou a carta, os olhos dela brilharam, mas por surpresa e ao mesmo tempo de ‘ele está me contando, que bom!’ Então a gente sentou e conversou sobre aquilo, e ela disse que nada ia mudar, como eu já sabia que nada iria mudar. Então, acho que a gente ficou muito mais próximo”, relembrou Nicolas com um tom de felicidade na voz.

“Eu me encontrei aqui agora, era o que eu estava esperando a vida toda” Neide Silva

O tempo passou e Nicolas foi percebendo que ele não era apenas homossexual, que a sua orientação sexual ia para mais longe. Nesse processo de descobrir que também gostava de mulheres, resolveu ligar para a sua mãe e “se assumir” mais uma vez.

“Eu fui contar para ela, e teve esse segundo momento que ela também contou para mim, que estava começando a se envolver com uma mulher.” A partir de então, em todos os lugares que Neide chegava, fazia questão de dizer: Meu nome é Neide Silva, sou bissexual e mãe de LGBT.

Filhos biológicos, Neide teve três — Nicolas Santos, Neris Neto e Nayara da Silva. Mas a vida fez questão de lhe entregar muito mais. Algumas pessoas a chamavam de mãe ou tia, por ela proporcionar esse lugar tão afetuoso dentro do seu coração.

Maluh Andrade, hoje presidenta da OSC AMOSERTRANS, relembra com carinho os momentos que teve com Neide, principalmente ao enfrentar problemas de saúde, tendo sua mãe de coração sempre presente. “Eu estava, uma vez, gripadíssima, peguei uma virose daquelas, e aí eu falei, ‘gente, eu tô muito gripada. Saudade do xarope de mainha, mas mainha tá em Salvador, não tem como’, e aí ela falou, ‘pois eu vou fazer um lambedor pra você e vou te entregar’. Foi o lambedor que me salvou e me salvou por um tempo, então ela é essa mãe”, disse Maluh.

A Covid-19 e a luta pela vida

No centro de Aracaju, Neide fez da sua casa morada para muitas pessoas. A quem precisasse de acolhimento, ela era suporte. Assim que a pandemia da Covid-19 começou acentuar, a CasAmor precisou procurar outras formas de atuação. O local não tinha estrutura para receber os kits que chegavam de diferentes pessoas, organizações e instituições ou receber quem precisava de auxílio. 

Neide, que já fazia parte da estrutura organizacional da CasAmor, cedeu a sua casa para ser ponto de coleta e retirada de cestas básicas, pois muitas pessoas já a procuravam em busca de um colo-abrigo para as tristezas, alegrias ou pedir apoio.

“Foi bem difícil para ela, mas ela era uma pessoa que se cuidava muito, ela sempre andava com o álcool dela, sempre borrifando o álcool nas pessoas. Mas ela teve que trabalhar muito, porque se ela não fizesse, não ia ter como manter essa distribuição para as pessoas”, enfatizou Nicolas.

Durante a pandemia, a CasAmor conseguiu distribuir mais de 2.500 cestas básicas e mais de 600 kits de higiene e proteção para pessoas em estado de vulnerabilidade, a maioria sendo LGBTQIA+. Todos os kits foram recebidos pela organização a partir de campanhas nas redes sociais e pedidos a instituições públicas e privadas.

Uma das ações de entrega de cestas básicas. Neide Silva usa uma máscara vermelha no rosto (Crédito: Arquivo Pessoal)

Jéssica Taylor, uma das fundadoras da Unidas na Luta Pela Cidadania, OSC que luta pelos direitos de pessoas trans e travestis desde 1999, era muito apegada à Neide. Por fazerem parte da luta LGBTQIA+ em Sergipe, as duas dividiam os recursos que recebiam para repassar ao máximo de pessoas que conseguissem.

“A gente estava na linha de frente. Quando a Unidas recebia um quantitativo grande de doações, eu entrava em contato com ela, ‘Tia Neide, vamos dividir [para a] CasAmor, Unidas e outras instituições’. Porque nós também éramos parceiras. Ela era aquele tipo de pessoa que adorava dar risada, você não sabia quando era que ela estava chateada com algo, porque ela adorava ter as risadas bem altas, com gosto, então a gente sempre vivia a vida assim”, lembrou Jéssica.

Em outubro de 2020, o ex-presidente Jair Bolsonaro negou a compra da vacina CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan. Apenas em janeiro de 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso emergencial das vacinas da Oxford e CoronaVac. Em março daquele mesmo ano, o Brasil vivia o início da terceira onda da Covid-19 — o número de mortes por dia já passava de 2 mil, chegando a 300 mil óbitos totais até aquele momento. Foi iniciada, então, uma campanha lenta de vacinação, com prioridade para pessoas com comorbidades.

A última foto publicada na conta do Instagram de Neide foi no dia 23 de fevereiro de 2021. De costas para a câmera, olhando para o horizonte do mar, mostrando o seu cabelo separado em duas tranças longas e uma mochila nas costas. A legenda dizia “que dia bom”. Duas semanas depois, Neide Silva faleceu em decorrência do vírus. Ainda não tinha a autorização para tomar a vacina.

A vida de Neide Silva foi repleta de amor, solidariedade e luta. A sua força sempre contagiava as pessoas para continuarem batalhando pelo o que acreditavam. A sua história deixou marcas profundas nas memórias de quem teve o prazer de lhe conhecer; como também um legado vigoroso da sua trajetória breve, mas potente, por essas terras. 

A organização Mães Pela Diversidade em Sergipe segue ativa até hoje, com o mesmo propósito de acolher e lutar por um mundo de amor. Na Casa Linda Brasil, um espaço de memória, cultura e debates que a deputada estadual idealizou, há um lugar especial para Neide.

Neide Silva será eternamente mãe de muitas.

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Valter Davi

Jornalista (DRT 2945/SE) e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe (PPGCOM/UFS), em que pesquisa Narrativa de Sofrimento no campo do Jornalismo. Fotojornalista e escritor, atua como repórter e tem experiência em assessoria de comunicação.

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