A Mangue Jornalismo vai entrevistar todos os candidatos ao Governo de Sergipe. Para garantir a isenção, as perguntas apresentadas são iguais para quase todos eles. As respostas devem ter o mesmo tamanho.

Nascido em 1968 no município sergipano de Itabaiana, Valmir dos Santos Costa, popularmente conhecido como Valmir de Francisquinho, se afastou do cargo de prefeito de sua cidade natal para concorrer a governador de Sergipe pela segunda vez consecutiva. Em 2022, quando ainda era filiado ao Partido Liberal (PL), sua candidatura foi indeferida pelo Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe (TRE-SE) enquadrada na lei de abuso de poder e na da Ficha Limpa. À época, Valmir liderava as pesquisas de intenção de voto, superando Fábio Mitidieri (PSD), que acabou eleito.
No pleito deste ano, agora como candidato do Republicanos, Valmir tem novamente em Fábio Mitidieri seu principal oponente. Sua vice é Priscila Dias Silva Felizola (Republicanos), filha do ex-governador sergipano Belivaldo Chagas. Ela declarou ter R$ 1.322.570,41 em bens, e Valmir informou R$ 258 mil – R$ 2 mil a menos que em 2022.
Em seu plano de governo, Valmir promete implantar a “Muralha Digital Sergipana”, aumentando o número de “câmeras inteligentes, leitura automática de placas, inteligência artificial e monitoramento por drones” para lidar com a violência no estado. Também fala em adotar uma série de políticas para a extração mineral.
Na entrevista que concedeu à Mangue Jornalismo, o candidato do Republicanos afirmou não ter intenções de continuar com privatizações, mas sem mencionar a possibilidade de reverter a privatização da Companhia de Saneamento de Sergipe, a Deso, mencionada apenas uma vez nas 55 páginas do plano de governo.
Leia abaixo a entrevista completa:
Mangue Jornalismo (MJ) – Qual a avaliação geral da gestão do governador Fábio Mitidieri, que se encerra em dezembro deste ano?
Valmir de Francisquinho (VF) – Foi um governo que prometeu muito e entregou pouco. Foram tomados quase quatro bilhões de reais em empréstimos, endividando o Estado, e as transformações não chegaram à população. O Hospital Regional da Grande Aracaju termina o mandato sem ver a luz do dia. A Adutora do Leite virou apenas uma ordem de serviço assinada no último ano, e papel assinado não põe água na torneira. Para piorar, a concessão da água resultou em graves episódios de desabastecimento, enquanto na educação os professores seguem lutando por valorização e respeito. Governar não é anunciar, licitar ou assinar ordens de serviço, é concluir e entregar. Sergipe teve dinheiro e tempo, mas o saldo é uma enorme distância entre o discurso e a realidade.
MJ – O Governo Mitidieri formou o conselho de meio ambiente com maioria de secretários e empresários. Há gravíssimos problemas nas licenças ambientais, Sergipe é o estado brasileiro com menos árvores em vias públicas e já perdeu quase toda a sua área de Mata Atlântica. Quais suas propostas para o meio ambiente no estado?
VF – Para mudar essa realidade, a nossa prioridade absoluta será a reestruturação do Conselho Estadual do Meio Ambiente (CEMA/SE). Vamos acabar com o aparelhamento político e garantir paridade real, devolvendo voz aos cientistas, ambientalistas e à sociedade civil nas decisões do estado.
MJ – Em dez anos, Sergipe só cumpriu duas de 20 metas de educação. Professores da rede estadual afirmam que o Governo Mitidieri massacra a categoria. Dez anos depois do último levantamento, o estado permanece como o sexto com o maior número de analfabetos do país. Quais suas propostas para a educação em Sergipe?
VF – A educação será prioridade porque é o principal caminho para transformar Sergipe e reduzir desigualdades. Vamos enfrentar o analfabetismo, fortalecendo a alfabetização na idade certa e elevando a alfabetização de jovens e adultos. Queremos melhorar a aprendizagem e fazer Sergipe alcançar as médias nacionais do IDEB. Vamos ampliar a educação em tempo integral e combater com firmeza o abandono e a evasão escolar.
O professor precisa ser respeitado, nosso compromisso é buscar recomposição salarial tendo como referência o Piso Nacional e investir na qualificação permanente. Também realizaremos concurso público para professores e para o quadro técnico-administrativo da Educação. Ampliaremos o acesso a especialização, mestrado e doutorado para formação de professores. Vamos modernizar escolas, ampliar internet de alta velocidade, laboratórios, bibliotecas digitais, robótica e inteligência artificial. Fortaleceremos o transporte, a alimentação escolar, a educação inclusiva e o apoio à saúde física, mental e emocional dos profissionais. Ampliaremos a educação profissional, o pré-vestibular e criaremos o programa Ponte para o Futuro para apoiar estudantes de baixa renda no ingresso na universidade.

MJ – Existe uma reclamação generalizada das pessoas que precisam do serviço de saúde na rede estadual: hospitais regionais não funcionam como deveriam, faltam remédios básicos, não se consegue fazer exames simples e muito menos há atendimento de especialistas, além da falta de leitos para internação. Quais suas propostas para a saúde em Sergipe?
VF – Nosso objetivo é claro: descentralizar a saúde, reduzir filas e deslocamentos e garantir atendimento digno e eficiente em todas as regiões de Sergipe. Vamos fazer a saúde funcionar de verdade, perto de onde as pessoas vivem. Ampliar e modernizar o Huse [Hospital de Urgência de Sergipe Gov. João Alves Filho], com mais leitos de UTI, leitos clínicos e cirúrgicos, centros cirúrgicos e estrutura de diagnóstico.
Ao mesmo tempo, vamos fortalecer os hospitais regionais para que o interior tenha atendimento resolutivo e não dependa de Aracaju para tudo. Vamos ampliar consultas e serviços especializados, incluindo cardiologia, ortopedia, neurocirurgia, oncologia e hemodiálise. Os hospitais regionais serão estruturados conforme a necessidade de cada região, com exames, internação, cirurgia e especialidades. Também temos como objetivo reduzir as filas de consultas, exames e cirurgias eletivas e fortalecer a regulação, com monitoramento de leitos em tempo real. Garantiremos abastecimento permanente de medicamentos especializados, com modernização do controle de estoques e distribuição. Vamos realizar concursos públicos, respeitando a responsabilidade fiscal, e investir na valorização e qualificação dos profissionais.
MJ – O setor cultural no Estado de Sergipe está fortemente apoiado em megafestas pontuais, com contratações milionárias de artistas e estruturas. Não se tem notícias sobre políticas públicas para a cultura. Quais suas propostas para esse setor?
VF – A cultura não pode se resumir a grandes festas, ela precisa ser uma política pública permanente e chegar a todo Sergipe. Vamos criar o Cultura em Todo Lugar, apoiando municípios, festivais, feiras literárias, música, teatro, dança e a circulação dos artistas sergipanos. Vamos valorizar mestres da cultura popular, grupos folclóricos e nossas manifestações tradicionais por meio do Patrimônio Vivo Sergipano. Também ampliaremos o Fundo Estadual de Cultura e Turismo para financiar projetos culturais, patrimônio, audiovisual e economia criativa. Vamos recuperar centros históricos, mercados e equipamentos culturais e modernizar museus e centros de memória. Os projetos vão apoiar música, audiovisual, artesanato, moda, gastronomia e produção cultural como atividades capazes de gerar trabalho e renda. Criaremos ainda uma política estadual para fortalecer o cinema e o audiovisual sergipano e abrir oportunidades para os jovens da economia criativa. E o São João será tratado como política permanente, fortalecendo artistas, quadrilhas, municípios e circuitos culturais. Nosso compromisso é fazer a cultura acontecer o ano inteiro, no interior e na capital, valorizando quem produz cultura e transformando identidade sergipana em oportunidade.
MJ – O Brasil saiu do Mapa da Fome pela segunda vez, mas em quase metade dos domicílios sergipanos existe insegurança alimentar. Sete em cada dez crianças e adolescentes aqui no estado estão em situação de pobreza, revelou Unicef. Quais suas propostas para o combate à pobreza e desigualdade social?
VF – O combate à pobreza precisa começar pelo básico, que é garantir comida na mesa, educação de qualidade e oportunidade para que as famílias construam sua própria renda. Nosso programa prevê fortalecer a segurança alimentar, ampliar a produção de alimentos saudáveis e as compras públicas da agricultura familiar, além de fortalecer a alimentação escolar. Mas não queremos uma política social que pare apenas na assistência. Vamos integrar assistência social, qualificação profissional, emprego e desenvolvimento econômico, apoiando pequenos empreendedores, cooperativas, mulheres, jovens e famílias em situação de vulnerabilidade para gerar autonomia e renda. Para nossas crianças, o compromisso inclui ampliar creches em tempo integral em parceria com os municípios, garantir alimentação saudável, implementar o Plano Estadual da Primeira Infância e fortalecer as políticas de proteção dos direitos de crianças e adolescentes. Nosso objetivo é enfrentar a pobreza em duas frentes: proteger quem mais precisa hoje e criar as condições para que essas famílias não dependam para sempre da proteção do Estado. Combater a desigualdade é garantir dignidade no presente e oportunidade para mudar de vida no futuro.
MJ – Números do Ministério da Justiça revelam que Sergipe reduziu a violência, mas é, ao mesmo tempo, um dos campeões nacionais de violência policial. Nos últimos anos, mais de 1000 jovens negros na periferia foram mortos pelo Governo do Estado. Quais suas propostas para a Segurança Pública?
VF – Nossa proposta é uma segurança pública firme contra o crime, mas comprometida com a proteção da vida e o respeito aos direitos humanos. Vamos fortalecer a inteligência policial, combater o crime organizado e integrar as forças de segurança com gestão baseada em metas e resultados. Ampliaremos a Muralha Digital Sergipana, com câmeras inteligentes, leitura de placas, inteligência artificial e monitoramento. Vamos ampliar a presença policial no interior, fortalecer delegacias, bases móveis e o policiamento rural. Também vamos modernizar a investigação e descentralizar a Polícia Científica e os serviços periciais. Os profissionais da segurança terão formação continuada, melhores condições de trabalho e programas de saúde mental e valorização profissional. Vamos fortalecer a proteção às mulheres, crianças, adolescentes e demais grupos vulneráveis. E segurança também se faz com prevenção, integrando educação, assistência social, esporte, cultura e oportunidades para jovens em territórios vulneráveis. Nosso compromisso é combater o crime com inteligência e eficiência, protegendo o cidadão e fazendo da preservação da vida o centro da política de segurança pública.

MJ – O governador Fábio Mitidieri privatizou a água com a venda da Deso. A promessa de melhoria no acesso e abastecimento de água não se cumpriu, e a Iguá acumula reclamações da população. Caso seja eleito, o senhor pretende reverter a venda da Deso? Vai privatizar o Banese e outras empresas públicas?
VF – Nosso compromisso é realizar uma auditoria técnica, jurídica, regulatória e contratual do modelo de saneamento adotado. Vamos abrir os números, verificar investimentos, metas, tarifas e, principalmente, a qualidade do serviço que está chegando à população. Com o Programa Nossa Água, teremos água regularmente na torneira, conta transparente, cobrança justa e proteção às famílias de menor renda. Se houver descumprimento contratual, o Estado deverá utilizar, dentro da lei, todos os instrumentos disponíveis para defender a população. Quanto ao Banese e às demais empresas públicas, nosso princípio será avaliar o patrimônio público pelo interesse dos sergipanos, com responsabilidade, transparência e segurança jurídica, não temos intenções de dar continuidade à onda de privatizações.
MJ – É conhecido o alto nível de insatisfação dos servidores públicos com as gestões do governo de Sergipe: muitos cargos em comissão, péssima remuneração, falta de plano de carreira, interferência política na gestão pública. Qual será a relação do seu governo com os servidores públicos?
VF – Nossa relação com os servidores será baseada em respeito, valorização, diálogo e fortalecimento das carreiras. Vamos investir em capacitação, melhores condições de trabalho e desenvolvimento profissional. Modernizaremos as carreiras e a gestão de pessoas, com valorização aliada à responsabilidade fiscal. Queremos uma administração profissional, eficiente e com menos interferência política. Vamos fortalecer concursos públicos e reduzir a dependência excessiva de cargos comissionados onde for necessário. A gestão terá metas, indicadores, transparência e avaliação permanente dos resultados. A reforma administrativa buscará reduzir desperdícios e melhorar os serviços, sem desvalorizar o servidor. Servidor público será respeitado como profissional essencial para fazer Sergipe funcionar e prestar melhores serviços à população.
MJ – Sergipe não tem grandes indústrias, o comércio é concentrado na capital e em uma ou duas cidades do interior, não há emprego para a juventude. O estado é o 9º do Brasil com a pior remuneração média para trabalhadores pretos e pardos, que são a maioria de nossa população. Ao mesmo tempo, há uma forte concentração de renda. Quais suas propostas para o desenvolvimento do estado, especialmente no campo do emprego?
VF – Nosso desenvolvimento terá uma prioridade: transformar o potencial de Sergipe em emprego e renda para os sergipanos. Vamos atrair indústrias, centros logísticos, empresas de tecnologia e novos investimentos, com segurança jurídica, menos burocracia e incentivos vinculados à geração efetiva de empregos. O desenvolvimento será regionalizado, aproveitando as vocações econômicas de cada território, para que as oportunidades não fiquem concentradas na capital. Vamos fortalecer comércio, micro e pequenas empresas, agricultura, turismo, mineração, confecções, serviços e demais cadeias produtivas locais. A juventude terá qualificação profissional conectada às vagas e às novas tecnologias, em parceria com universidades, institutos federais, Sistema S e empresas. Vamos ampliar crédito, assistência técnica e oportunidades para pequenos empreendedores, cooperativas e economia solidária. Mulheres, jovens, pessoas com deficiência e trabalhadores em situação de vulnerabilidade terão políticas específicas de inclusão produtiva. Também vamos estimular inovação, startups, parques tecnológicos e a economia do conhecimento para gerar empregos mais qualificados. Nosso objetivo é interiorizar o desenvolvimento e reduzir desigualdades.
MJ – Sendo eleito, quais serão seus atos no primeiro dia como governador?
VF – No primeiro dia, vamos conhecer a situação real e colocar a máquina pública para funcionar para o cidadão. Determinarei uma auditoria das contas, contratos e concessões e iniciaremos uma gestão baseada em metas e resultados.


