MYRNA LANDIM, especial para a Mangue Jornalismo
(@myrnalandim)

A seção PONTO DE VISTA é um espaço que a Mangue Jornalismo abre para que pessoas possam expressar perspectivas que estimulem o interesse e o debate público. O artigo deve dialogar com os princípios da Mangue, entretanto ele não precisa representar necessariamente o ponto de vista da organização.
Os manguezais são fonte de vida. Ecossistemas costeiros tropicais, com alta produtividade e fonte de recursos alimentares, são extremamente importantes para a subsistência das populações locais e a economia regional.
São também essenciais para a manutenção das cadeias alimentares costeiras, não só aquelas nos estuários, presentes nos rios, mas também as marinhas, como, por exemplo, as espécies de camarão de interesse econômico, que passam parte de seu ciclo de vida nos estuários e manguezais.
Portanto, quando destruímos os manguezais de uma região, destruímos também o modo de vida da população deles dependentes e afetamos negativamente sua alimentação, subsistência e, também, a economia local.
Infelizmente, apesar de protegidos como áreas de preservação permanente, as APPs, esses ecossistemas não são tão conhecidos e valorizados pela população como deveriam. Esse talvez seja o motivo pelo qual eles vêm sendo destruídos quase sem causar indignação em grande parte da sociedade, sendo até mesmo completamente eliminados e substituídos por decks de madeira pelos condomínios e casas de “alto padrão” quando se instalam às margens dos estuários, apesar da sua importância e proteção legal.

Manguezais de Aracaju: há o que comemorar?
Em Aracaju, uma cidade litorânea construída sobre a planície costeira e flúvio-marinha, temos ainda áreas extensas áreas de manguezais localizadas às margens de dois estuários importantes, o do rio Sergipe e o do rio Vaza-Barris. É uma ocupação antiga, antes mesmo que existisse uma legislação visando proteger essas áreas.
Antes, também, do acúmulo do conhecimento científico que nos permite hoje entender a sua importância e os riscos da sua destruição para a coletividade. Isso faz com que enfrentemos hoje vários problemas, são causados pela ocupação indevida dessas regiões. Vamos analisar alguns exemplos.
O manguezal da Praia 13 de Julho
Esta região era conhecida como Praia Formosa, local de banho para as famílias de Aracaju. Isso porque, antes da abertura da atual foz do rio Sergipe, e até um pouco depois, apresentava uma velocidade do fluxo de água que só permitia a sedimentação de partículas mais pesadas, criando praias arenosas, e impedia a fixação dos propágulos de espécies arbóreas de mangue.

Com a abertura da atual foz do Rio Sergipe, a diminuição da intensidade do fluxo de água nessa região fez com que ali se depositassem sedimentos mais finos, mais lamosos, e isso permitiu também a criação, nessa região, de uma planície de lama que foi ocupada por espécies do manguezal, que antes não conseguiam ali se instalar.
Ao contrário do que alguns podem pensar, não foi o estabelecimento do manguezal que impediu o uso recreativo da região, mas as mudanças causadas por alterações na hidrodinâmica do estuário.
O crescimento da cidade e de sua população, sem garantir saneamento básico universal e adequado, levou ao aumento de efluentes sem tratamento nos canais que deveriam servir à drenagem das águas pluviais e da maré. Isso teve como consequência, dentre outras, o incremento do crescimento do manguezal nessa região, já que o esgoto é matéria orgânica e funciona como adubo.
Mas antes que se postule a “adubação com esgoto” para resolver os problemas de saneamento da cidade, é essencial lembrar que esse esgoto carrega bactérias e outros organismos patogênicos, que podem contaminar todos aqueles que se alimentam de seus recursos, bem como banhistas.
Por isso nunca é demais repetir: ao contrário que muitos pensam, o que cheira mal naquela região é o esgoto que é por nós despejado no rio e não os manguezais!
Os manguezais do Rio do Sal
Outro triste exemplo. Este afluente do Rio Sergipe, está localizado em uma porção mais interna do estuário. Consequentemente, apresenta um menor aporte de água do mar.
Isso em uma região com grande adensamento populacional e rede coletora e/ou qualidade do tratamento de esgoto insuficientes, gera situações de elevada poluição e grande impacto sobre as populações humanas e animais da região, o que é infelizmente exemplificado pelos frequentes eventos de mortandade de peixes nessa região.
Essa mortandade não é necessariamente diretamente causada por poluentes. Mais frequentemente ela é devida à diminuição da oxigenação dessa água, causada pelo excesso de matéria orgânica (ou seja, esgotos!), já que o processo de sua decomposição demanda oxigênio. Assim, os peixes, organismos que necessitam de um maior teor de oxigênio dissolvido na água do que espécies de invertebrados, por exemplo, acabam morrendo.
Essa é a qualidade ambiental que desejamos e que as populações locais merecem?
Os manguezais da Coroa do Meio
Outra situação relativamente mais recente é a do manguezal da Coroa do Meio, uma região anteriormente ocupada por manguezais na margem da atual foz do rio Sergipe.
Nela foi planejada a instalação de um foco de expansão da cidade com a criação de um novo bairro. Para isso, manguezais foram cortados e aterrados. No entanto, por ignorância ou desprezo à proteção conferida por eles, passado algum tempo, sua destruição teve como consequência o aumento da erosão na região, que levou rio abaixo quarteirões e muitas casas de pessoas que confiaram no planejamento urbano da prefeitura e ali investiram seu patrimônio.
Para controlar essa erosão tem sido necessário, há décadas, o investimento público em grandes blocos de pedra. Ou seja, um serviço que o manguezal desempenhava gratuitamente foi substituído com altos custos para o poder público.
Ainda na região da Coroa do Meio, na região mais interior, na chamada “Maré do Apicum”, braço do rio Poxim em direção ao Terminal da Atalaia, muitas famílias viviam em palafitas sobre o manguezal. Um projeto de reurbanização da região, realizado em 2001, buscou resgatar a dignidade dessas famílias, realocando-as em casas de alvenaria.
Com o adensamento da população, é essencial garantir a universalidade dos serviços de coleta e tratamento de esgoto na região, e fiscalização de ligações clandestinas despejando esgoto diretamente no manguezal. Isso é essencial para garantir, também, um ambiente que não ponha em risco a saúde da população.
Infelizmente, observa-se atualmente a invasão de parte do manguezal nessa região. É importante sensibilizar a população para entender a sua importância, mas também garantir a fiscalização das agressões cometidas por algumas pessoas sobre esses ecossistemas com consequências negativas para toda a comunidade.
O manguezal do “Parque Ecológico” Tramandaí

Ainda mais recentemente, temos o triste e irônico caso do “Parque Ecológico Tramandaí” (unidade de “conservação”, com pouco mais de 4 ha). Localizado no bairro Jardins, esse pequeno remanescente de manguezal agoniza lentamente “em praça pública”.

Apesar da sua criação recente, em 1998, não foram investidos os recursos e esforços necessários para garantir, ali também, a coleta e tratamento dos esgotos domésticos e impedir que o canal de drenagem de águas pluviais que corta grande parte desse bairro, incluindo o manguezal do Parque Tramandaí, não fosse transformado em um canal de esgoto. A intensificação do adensamento populacional, principalmente vertical, só vem agravando esse processo.
Com o passar do tempo, essa região acabou sendo assoreada por resíduos, inclusive das construções ao seu redor, diminuindo a capacidade de chegada da água da maré, que poderia carreá-los para fora, até essa região. Essa situação alterou a dinâmica da variação diária no nível da água. Ao contrário de que alguns pensam, os manguezais não precisam da água salgada, mas eles toleram a água salgada. O que não pode acontecer é que suas raízes fiquem permanentemente alagadas. Se não, essas árvores acabam morrendo. É o que está acontecendo, atualmente. Um conjunto de fatores claramente previsível, mas que não foram infelizmente identificados pelos responsáveis pela gestão ambiental no município.
Os manguezais do Rio Vaza-Barris: “Aracaju do futuro” repetindo erros do passado?!
Uma situação mais atual e talvez ainda mais preocupante é a região do estuário do Vaza-Barris, o único estuário ainda com balneabilidade aceitável em Aracaju, importante região para a população local e para o turismo e cujos manguezais são fonte de alimento, de sustento e renda para moradores e bares e todos os que dependem do turismo.
O atual projeto de “macrodrenagem” atualmente em implantação na Zona de Expansão, deverá, muito provavelmente, ter as mesmas consequências dos demais canais da cidade e se transformar em novos “canais de esgoto”, com o adensamento populacional e a ineficiência do poder público em coibir a sua contaminação por resíduos e esgotamento sanitário.

Quais serão as consequências para o estuário do Vaza-Barris?
O que será da população local, que vive e depende diretamente da qualidade ambiental das águas deste estuário para a sua subsistência?
O que acontecerá com a Croa do Goré e toda a cadeia do turismo, da qual depende em grande parte a economia de Aracaju?
Seremos nós, a última geração a podermos nos banhar com segurança nessas águas?


Myrna Landim é Doutora em Recursos Naturais, professora titular aposentada/voluntária da UFS e coordenadora do Núcleo de Ecossistemas Costeiros (CNPq/UFS)
Referência
RODRIGUES, Tais Kalil. Análise das mudanças da Linha de Costa das principais desembocaduras do Estado de Sergipe, com ênfase no Rio Sergipe. 2008.


