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Mulheres negras e a auto-organização por equidade e bem viver. Coletivo que homenageia Rejane Maria destaca a importância da luta antirracista

DÍJNA TORRES, da Mangue Jornalismo

Reparação e Bem Viver, esse é o tema da Marcha da Mulheres Negras de 2023, um movimento que atua em busca da luta por equidade, justiça e pelo fim da violência contra a população preta, sobretudo pelo fim da violência contra as mulheres negras, que são as mais atingidas, como apontam dados sobre violência do Atlas da Violência, em pesquisa mais recente. A marcha faz parte da programação do Julho das Pretas, mês em alusão ao dia 25, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, Dia Nacional de Tereza de Benguela e Dia Municipal Rejane Maria.

E para seguir falando sobre Rejane Maria e a sua importância para a construção do movimento de mulheres negras de Sergipe, a Mangue Jornalismo conversou com algumas integrantes da Auto-Organização de Mulheres Negras de Sergipe, que leva o nome da ativista. O coletivo é formado por mulheres negras sergipanas com realidades diversas e surgiu em 2014, por conta do anseios e inconformidades dessas mulheres com a ausência de espaços onde pudessem refletir sobre questões relacionadas ao universo feminino e a suas demandas sociais.

Parte da Auto-organização de Mulheres Negras Rejane Maria (Foto: Arquivo pessoal)

De acordo com Andréia Teixeira dos Santos, mulher negra, professora de História, servidora pública, doutora em Educação e ativista na Auto-Organização de Mulheres Negras Rejane Maria, o grupo atua nos seguintes eixos: Educação, Saúde, Pobreza, Mercado de trabalho e Desigualdade social, Direitos Humanos, Violência, Formação política, Mídia e Cultura.

“A partir desses pilares, são organizadas as mobilizações em comunidades periféricas, instituições públicas e nas mobilizações de rua, com o objetivo de promover discussões sobre a posição da mulher negra dentro da sociedade racista, sexista, classista e cisheteronormativa, e formular proposituras que possam ser apresentadas em momentos de diálogo com instituições públicas e privadas”, afirmou Andréia.

A proposta do nome de Rejane Maria para a Auto-Organização chegou ao grupo após algumas reuniões do coletivo, ainda em 2014, a partir da sugestão da bióloga Ingrid Guimarães e da cineasta Everlane Moraes, que conheciam Rejane, sua trajetória no ativismo, e sabiam do desejo dela em criar um coletivo de mulheres negras. O primeiro encontro aconteceu na Associação Abaô de Arte-Educação e Cultura Negra e marcou a fundação do coletivo.


Avanços a partir da luta coletiva das mulheres negras sergipanas

Segundo a jornalista, mestra em Comunicação Social (UFS), doutoranda em Sociologia (UFS) e Estudos Étnicos e Africanos (UFBA) e integrante do grupo, Laila Oliveira, através da militância política da Auto-Organização e da Rede de Mulheres Negras de Sergipe, houve a defesa e a importância de instituir o Dia Municipal da Mulher Negra Rejane Maria, no mesmo dia em que é celebrada a Mulher Negra, Latina e Afro-caribenha no mundo.

“Para que essa data fosse instituída, houve um esforço coletivo, através da propositura do nosso grupo, que traz o nome dela como homenageada, somado aos movimentos sociais, para conseguir algumas mudanças, a exemplo da instituição do dia 25 como Dia Municipal da Mulher Negra Rejane Maria. Essa é uma forma de também visibilizar e reconhecer a luta dela em prol de toda a comunidade preta, especialmente às mulheres pretas de Sergipe”, destacou Laila.

Mulheres da Auto-organização Rejane Maria (Foto: Arquivo pessoal)

Alessandra Santos da Graça, professora de Sociologia, mãe de dois filhos e ativista social que atua na Rede de Mulheres Negras de Sergipe, no Núcleo de Mulheres Negras Omiró e na Auto-Organização de Mulheres Negras de Sergipe Rejane Maria, destacou a importância na formação de grupos, sobretudo de mulheres negras, para haja avanço nas conquistas não somente para a população preta sergipana, bem como para toda a sociedade.

“Tanto a sociedade como o poder público podem colaborar com transformações sociais a partir do momento em que tomarem consciência das pautas que vem historicamente sendo levantadas pelos movimentos feministas, compreendendo-as como pontos a serem aperfeiçoados, direcionando a sociedade como um todo para o caminho da igualdade de gênero, raça, classe, sexualidade e outros marcadores sociais”, disse Alessandra.

Mulheres da Auto-organização Rejane Maria (Foto: Arquivo pessoal)

A professora Alessandra comenta ainda que a colaboração da sociedade pode se dar por meio da demonstração de apoio às pautas voltadas para o combate às desigualdades interseccionais em diferentes espaços de sociabilidade, “pelo apoio às mobilizações em torno dessas pautas, pelo voto em políticos efetivamente comprometidos e interessados nessa transformação e pela cobrança dos eleitos em torno da propositura e aprovação de políticas públicas de combate às desigualdades”.


Vale a pena ler de novo

Rejane Maria Pureza do Rosário nasceu em Aracaju no dia 21 de março de 1976, coincidentemente dia estabelecido como Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial. Mulher negra e pobre, Rejane cresceu nas ruas do bairro Getúlio Vargas, bairro periférico da capital sergipana. Mulher de axé, Rejane era filha do Ilê Axé Opô Oxogunladê (Terreiro de candomblé situado no povoado Caípe Velho, São Cristóvão-SE), fato que a coloca também como ativista contra a intolerância religiosa frente às religiões de matriz africana.

Era também pedagoga, angoleira (praticante da capoeira angola), ativista da causa antirracista, das mulheres (na capoeira e do reggae) e dos direitos humanos, fundadora e participante de vários braços do Movimento Negro sergipano, a exemplo da SACI (Sociedade Afro-Sergipana de estudos e Cidadania) e do Grupo Abaô de Capoeira Angola. Rejane Maria morreu em 2012, após alguns anos acometida de problemas de saúde.

“A breve presença física de Rejane Maria neste mundo teve grande impacto para o Movimento Negro sergipano, em virtude da sua sensibilidade e envolvimento com a militância preta e sua defesa da educação, servindo como exemplo para mulheres e homens negros ativistas, e hoje sendo energia vital para a Auto-Organização de Mulheres Negras de Sergipe Rejane Maria”, lembrou Andréia Teixeira.

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