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Mulheres lideram resistência pelo direito à moradia na nova Ocupação João Mulungu convivendo com violências e ameaças

MAIARA ELLEN da Mangue Jornalismo (@maiara.ellen)

Em um prédio carregado de história, que já abrigou o Ministério da Educação (MEC) e a Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão de Sergipe (FAPESE), localizado no Centro de Aracaju, encontram-se hoje 30 famílias sem-teto.

Essa é a segunda parte da série de reportagens da Mangue Jornalismo sobre a história e a situação atual da luta e resiliência de pessoas socialmente vulneráveis ao direito à moradia na capital sergipana.

O edifício em questão, situado na Rua Lagarto, é propriedade da Universidade Federal de Sergipe (UFS), porém estava abandonado por uma década. Agora, tornou-se casa para cerca de trinta famílias que restaram da ocupação João Mulungu, após a reintegração de posse violenta do edifício vermelho azulejado da Avenida Ivo Prado, no centro da capital sergipana, em 23 de maio de 2021. Naquela época, a ocupação abrigava mais de setenta famílias.

Com a mudança forçada de endereço, os moradores – mulheres, crianças e idosos – enfrentam uma rotina de conflitos, ameaças, resistência e precariedade, sem apoio governamental.

“Aqui é um espaço em que a maior parte das famílias estão abandonadas pelo Estado, são totalmente vulneráveis. Tem várias crianças aqui com deficiência” relata Bruna Santos, estudante e ex-moradora da ocupação João Mulungu, enquanto as crianças de quem ela fala brincam de correr umas atrás da outras pelo espaço que para eles é como um quintal.

A vida por dentro da nova Mulungu

O edifício mostra sinais evidentes de degradação, com o telhado correndo sério risco de desabamento devido a infiltrações, desgaste natural e perda de sua integridade arquitetônica. Por precaução, os ocupantes limitaram-se a utilizar apenas o térreo, mantendo o primeiro andar totalmente interditado por questões de segurança.

Dentro das salas, diversos equipamentos, livros e objetos foram deixados para trás pela UFS junto com o edifício, e agora são preservados pelos moradores.

A ocupação João Mulungu é organizada pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), um coletivo social popular que atua nacionalmente na reivindicação de moradias para a população sem-teto.

De acordo com Bruna, a vida na ocupação é totalmente coletiva, e diante da ausência de assistência do Estado, são os próprios moradores que se cuidam e se protegem.

“Deixamos o espaço todo organizado. Temos um banheiro para todas as mulheres e crianças, e um banheiro para todos os homens que moram aqui. Então, é necessário manter a limpeza em ambos, lavando todos os dias.”  reforça a militante do MLB e coordenadora da Mulungu, Allana Nascimento.

Ela explica que as divisões dos cômodos são feitas por núcleo familiar – mães, filhos, marido, avó – que às vezes dividem uma única cama/colchão.

Bruna Santos relata que até mesmo o horário de dormir é definido. “ Parte dos moradores são idosos e também evitamos fazer barulho para não incomodar a vizinhança.”

“Tudo aqui é coletivo” é o que foi relatado pelos moradores da João Mulungu à reportagem da Mague Jornalismo. A única geladeira funcionando, o único fogão, a pia para lavagem dos pratos e roupas, os banheiros, o cuidado com as crianças. Em um sistema político onde o poder público é quase inexistente, eles planejam até mesmo a criação de uma creche colaborativa.

Invasões e ameaças

Desde a chegada da reportagem à João Mulungu, é possível perceber a forma como os moradores se organizam. Para entrar na Ocupação, é necessário passar por um portão grande e uma barreira improvisada feita com cadeiras amontoadas, garantindo a segurança do espaço. Apesar da estrutura improvisada, a dinâmica lembra a de um condomínio fechado, exigindo a liberação na portaria para entrada.

Os moradores se revezam para prestarem plantões na portaria, um sistema que, segundo relatos, serve para proteger as crianças e evitar a entrada de pessoas não autorizadas.

Nesse sentido, a coordenadora da Ocupação, Allana, denuncia uma série de tentativas de invasão recentes enfrentadas pelos moradores.

De acordo com declarações e um Boletim de Ocorrência registrado no dia vinte e cinco de abril, na Central de Flagrantes da Polícia Civil de Aracaju, um ex-morador da Ocupação liderou uma dessas investidas, acompanhado por outros homens e algumas mulheres.

O documento descreve como o ex-morador usou um pedaço de madeira para arrombar o cadeado e entrar no prédio, além de ter feito ameaças de morte a Allana e às outras mulheres.

“Eles ficaram dois dias aqui nos aterrorizando, diziam que iam matar a pauladas as coordenadoras da ocupação. Foram dois dias de muito terror,  até hoje nós estamos sofrendo porque continuamos recebendo ameaças até mesmo de incêndio no prédio. Lembrando que aqui é um prédio da universidade e tem documentos, material extremamente inflamável.”

Para Allana, a invasão ocorreu devido ao interesse dos homens em residir na ocupação, após correr o boato de que o governo federal apoiaria a reforma e transferência do imóvel para as famílias. De acordo com ela, o próprio reitor da UFS, Valter Santana, estaria em conformidade com a doação.

 A UFS foi consultada para prestar informações sobre o possível processo de doação do prédio, mas não houve retorno. 

Sobre a instalação de novos indivíduos na ocupação, Allana declara: “O movimento possui regras; não é justo com as pessoas que estão realmente lutando. Se alguém quiser vir morar aqui, primeiro precisa participar de algumas reuniões para compreender o que é o movimento social.”

Ela também reforça que não aceitar novos moradores sem que antes eles passem por esse processo é uma questão de segurança. De acordo com Allana, uma das moradoras foi vítima de violência de seu ex-companheiro e mesmo após acionar a lei maria da penha, segue sofrendo ameaças.

“Uma das mulheres tem uma medida protetiva contra um dos invasores e pela manhã, foi acordada com marretadas na parede do seu quarto que tem uma parede que dá pra rua. Desde então, todas as famílias estão em estado de alerta.”

“Esse tipo de atitude não colabora com o bem-estar de uma vida coletiva. Porque nós temos várias regras, por exemplo, aqui não pode ter uso de drogas ou bebida alcoólica, não toleramos agressão contra a mulher e nenhum tipo de briga.” reforça Allana.

Maternar na João Mulungu

A João Mulungu é totalmente liderada por mulheres, e a maior parte dos residentes também são do gênero feminino, muitas delas mães que criam seus filhos sem a presença paterna. Como é o caso de Luzi Santos.

Ela é mãe de duas crianças, uma delas neuroatípica. De acordo com o relato de Luzi, a tentativa de invasão a Ocupação deixou seu filho desestabilizado emocionalmente.

“Do dia do ocorrido pra cá, ele tá mais agressivo, não dorme direito, porque lembra do acontecimento e fica com medo.”

Luzi conta que não sabe o diagnóstico do seu filho, porque o tempo de espera para conseguir um acompanhamento contínuo no Centro de Atenção Psicossocial de Aracaju (CAPS) é muito longo. Ela também relata dificuldades de locomoção.

“Tenho tentado buscar um psicólogo ou um neuro(psicólogo) para entender o processo que ele está vivendo. Eu fui ao Caps durante três meses seguidos,  mas não tive como continuar por causa do financeiro,  não tenho como pagar transporte.”

Ela, assim como quase todas as famílias da ocupação, vivem de doações ou do dinheiro do bolsa família. O MLB também produz canecas, bolsas, e camisetas para arrecadar dinheiro para prestar assistência às famílias.

Sendo sem-teto, as mulheres da ocupação relatam dificuldades para encontrar emprego, não tem onde deixar seus filhos para ir trabalhar e ainda enfrentam diariamente a incerteza de conviver com a possibilidade de uma nova reintegração de posse A Mangue Jornalismo procurou a assessoria da  Secretaria de Estado da Assistência Social e Cidadania (SEASC) , responsável pela Diretoria de Direitos Humanos, mas não obteve respostas até a publicação da reportagem.

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