Dados do Atlas da Violência 2026 indicam que nova alta de óbitos nas rodovias sergipanas ocorre após cinco anos de queda. Entregas por aplicativo e ausência de políticas de prevenção ajudam a explicar o avanço. Procurado, Detran-SE não comentou.

Após uma década marcada pela redução das mortes no trânsito, Sergipe voltou a registrar aumento nos acidentes fatais. Em 2024, 562 pessoas morreram em ocorrências nas vias do estado. Trata-se de uma alta de 21,6% em relação a 2023 e de 40,5% na comparação com 2019, ano em que foi registrado o menor número da série recente.
Dados do Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontam que Sergipe acompanhou uma tendência observada em todo o País: a reversão da queda das mortes no trânsito registrada até 2019. Os óbitos envolvendo motociclistas lideram esse avanço.
Segundo o estudo, a expansão do trabalho por aplicativos e o aumento do uso de motocicletas, especialmente após a crise econômica, estão entre os fatores associados ao crescimento da mortalidade no trânsito. Especialistas defendem que a redução definitiva da velocidade nas vias precisa ser uma medida aplicada para conter o problema.
O Atlas da Violência utiliza dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde. O relatório aponta que, embora o Brasil tenha registrado queda de 20,1% na taxa de mortes no transporte terrestre entre 2014 e 2024, a partir de 2019 houve uma mudança de trajetória, com aumento de 13,6% nas fatalidades.
No estado chefiado por Fábio Mitidieri (PSD), o movimento foi semelhante. O número de mortes caiu de 526, em 2014, para 400, em 2019, mas voltou a subir nos anos seguintes, alcançando 562 registros em 2024. A taxa de mortalidade passou de 17,8 para 24,5 mortes por 100 mil habitantes no período, crescimento de 37,6% em cinco anos.

As motocicletas foram o principal vetor da mortalidade no trânsito brasileiro no período analisado, respondendo por mais de 40% dos óbitos registrados em 2024. Em Sergipe, o cenário é ainda mais grave: mais de 52% das mortes no trânsito envolveram motociclistas.
Os estados das regiões Norte e Nordeste, onde o uso de motocicletas é mais disseminado, apresentaram os maiores aumentos na mortalidade entre 2019 e 2024.

Segundo o levantamento, a expansão desse meio de transporte, especialmente entre a população de menor renda e em áreas com oferta limitada de transporte público, é um dos principais fatores associados à retomada do crescimento das mortes no trânsito.
O período analisado pelo estudo coincide com os primeiros anos de implementação do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans). Criada em 2018, a política alterou o Código de Trânsito Brasileiro e estabeleceu diretrizes para estados e municípios adotarem medidas voltadas à redução de mortes e lesões graves nas vias.
Apesar disso, o Atlas conclui que os avanços obtidos na década anterior foram parcialmente anulados nos últimos anos.
“No final da década passada, o Brasil atravessava um período de baixa atividade econômica. Isso se refletiu, por exemplo, na circulação de veículos. A redução da mortalidade no trânsito acompanhou esse movimento. Quando a atividade econômica voltou a crescer, após a pandemia de Covid-19, observamos novamente o aumento das mortes”, explica Erivelton Pires Guedes, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea, em entrevista à Mangue Jornalismo.
Segundo ele, esse cenário também está relacionado ao crescimento da frota de motocicletas, impulsionado pela busca por ocupações autônomas, como entregas e transporte por aplicativo.
Um estudo da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) registrou que, em 2024, cerca de metade das motocicletas pertenciam a pessoas não habilitadas. “As motocicletas atraem principalmente os jovens, grupo mais propenso a assumir riscos e com menor experiência no trânsito”, diz o pesquisador.
“Em 2024, Sergipe registrou mais mortes no trânsito do que homicídios. Esse aumento é preocupante e mostra que o estado precisa agir com rapidez e eficácia. As principais vítimas são homens jovens”, diz Guedes.
Segundo o especialista, a medida mais urgente – e uma das poucas capazes de produzir resultados imediatos – é a redução da velocidade. Guedes ainda avalia que o Brasil está atrasado em relação às políticas de gestão da velocidade adotadas em outros países. Na Europa, diversas nações seguem os princípios da Vision Zero, estratégia criada na Suécia nos anos 1990 com o objetivo de reduzir ao mínimo possível as mortes no trânsito.
Nos últimos anos, dezenas de cidades europeias passaram a limitar a velocidade a 30 km/h em áreas residenciais, escolares e centros históricos. Em alguns casos, mais da metade da malha viária urbana opera abaixo de 50 km/h. Levantamento da rede Eurocities com 38 cidades mostrou que 75% delas registraram redução de mortes e feridos após a adoção de limites mais baixos.
Segundo Guedes, no Brasil as políticas de prevenção frequentemente perdem espaço diante de outras prioridades ou da falta de recursos. “No mês passado, o governo criou o Centro Nacional de Estudos de Sinistros de Trânsito (Cnest), iniciativa que considero positiva. Ainda assim, ela é insuficiente. Um órgão permanente dedicado ao tema tem mais chances de garantir continuidade às ações e atuar como política de Estado, e não apenas de governo”, afirma.
Em Sergipe, os esforços têm se concentrado em reduções pontuais de velocidade, fiscalização e campanhas educativas, sem a implementação, até o momento, de um programa estadual estruturado de gestão da velocidade.
A Mangue perguntou ao Departamento Estadual de Trânsito de Sergipe (Detran-SE) qual o posicionamento do órgão diante da alta de mortes no trânsito, as principais ações de combate e prevenção a acidentes no trânsito no estado e eventuais políticas específicas para evitar acidentes com motociclistas. Não houve resposta até o momento. O espaço está aberto a eventuais manifestações.
Além da redução da velocidade, Guedes defende investimentos em transporte público de qualidade e com tarifas acessíveis. “Isso ajuda a reduzir a dependência do transporte individual, que é mais vulnerável. O transporte coletivo é mais seguro”, afirma.
O pesquisador também cita a necessidade de ampliar a capacitação de motociclistas, reforçar a fiscalização e criar oportunidades de emprego para a população jovem, frequentemente atraída por atividades com maior exposição ao risco.


