
Nos três primeiros meses do ano de 2026 as receitas do Ipesaúde, dentro de cada mês, superaram os R$ 53 milhões, no entanto, ainda faltam especialidades médicas no atendimento e a espera para consultas e exames de rotina são longas.
Com um grande número de idosos entre seus usuários, não há geriatras cadastrados que atendem pelo Ipesaúde. O curioso é que, no site da instituto, duas clínicas aparecem como tendo a disponibilidade da especialidade geriatria, mas ao ligar para as clínicas, e tentar marcar, os usuários são informados que outras especialidades atendem ao Ipesaúde, mas não geriatras.
A dirigente do departamento de aposentados do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Estado de Sergipe (Sintese) e usuária do Ipesaúde, professora Ana Geni, coloca que o atendimento de geriatra é uma cobrança antiga feita pelo sindicato.
“Temos muitos idosos, muitos professores aposentados que dependem do Ipes. A sensação que temos é que há um descaso por parte das gestões do Ipesaúde, ao longo dos anos, mesmo sabendo da necessidade, da demanda, não se preocuparam em assegurar o atendimento com médicos geriatras. Essa é uma cobrança antiga e recorrente feita pelo o Sintese”, disse a professora.
Ana Geni lembra que os idosos precisam de cuidados específicos, por isso, é fundamental ter acesso à especialidade médica destinada ao cuidado de idosos. “É uma questão de saúde, de bem-viver, para quem contribuiu durante todo vida para o crescimento e fortalecimento do estado de Sergipe”, destaca a professora.
Segundo o sindicato, também não há disponibilidade de neuropediatria no Ipesaúde, o convênio com podologistas especializados em pés de pessoas com diabetes foi suspenso. Os usuários portadores de doenças crônicas estão entre os grupos que mais sofrem, já que a demora para marcação de exames e consultas não só prejudica os cuidados permanentes e necessários para estes pacientes, como pode representar piora e agravamento de seus quadros de saúde.
Contribuição dos servidores dobrou e o serviço piorou
O Sintese lembra que o valor da contribuição dos servidores públicos de Sergipe ao Ipesaúde dobrou, e, mesmo pagando muito a mais do que pagavam antes, os servidores públicos enfrentam meses de espera até por consultas de rotina.
Como base na Lei de Acesso à Informação (LAI – Lei 12.527/2011), O Sintese solicitou à presidência do Ipesaúde a lista dos órgãos e entes públicos que têm dívidas com Ipes, já que tais dívidas, por vezes, foram apontadas como responsáveis pelo desordenamento financeiro do Ipesaúde e consequentes problemas na prestação do serviço.
O presidente do Sintese, professor Roberto Silva, é enfático ao dizer que os servidores públicos não podem ser responsabilizados, muito menos pagar esta conta.
“Precisamos saber quais órgãos públicos têm dívidas com o Ipesaúde e cobrar que tais dívidas sejam quitadas. O que não é certo é o Ipes penalizar servidores por algo que não é de nossa responsabilidade. A contribuição para o Ipesaúde dobrou e a qualidade do serviço caiu, ou seja, essa conta não fecha. O certo é que o servidor público não pode pagar ‘o pato’ pela má gestão financeira do Ipesaúde”, afirma o professor.

Falta transparência e democracia
Como é gasto os recursos do Ipesaúde? Quem recebe estes recursos? Com quais clínicas o instituo tem dívidas? Onde está a prestação de contas? Esta são perguntas feitas pelo sindicato e que apontam para a falta transparência nos gastos do Ipesaúde.
Ao acessar o site do instituo se consegue encontrar as receitas, mas não aparecem as despesas com pagamentos. Na aba do site com o nome “despesas” a mensagem que aparece é “página não encontrada”. A prestação de contas não está publicada no site, bem como não aparecem os pagamentos por ordem cronológica, indo de encontro ao que determinaria o Tribunal de Conta do Estado de Sergipe.
“Pouco se sabe sobre as dívidas que o Ipesaúde tem com clínicas, os usuários do Ipes descobrem da pior maneira possível: quando precisam do atendimento, procuram a clínica que aparece cadastrada do site, para agendar consulta, e são informados que aquela clínica não está atendendo ao Ipesaúde porque há dívidas do Instituto com a clínica em questão”, disse Ilanmeide Ribeiro, dirigente do Sintese, professora aposentada e também usuária do Ipesaúde.
Para ela, se há uma receita mensal de mais de 53 milhões de reais, é preciso saber por que existe tantos débitos com as clínicas conveniadas. “O que está acontecendo? Com não há transparência, nós, usuários, não podemos saber, de fato, com o que dinheiro do Ipesaúde está sendo usado. Como pode o valor do Ipes dobrar e o atendimento pioria?” indaga a aposentada.
Outro grave problema e que vem há tempos sendo denunciado pelo Sintese é a falta de representatividade no Conselho Fiscal do Ipsaúde, de sindicatos e associações que representam as diversas categorias de servidores públicos e que são atendidos pelo Ipes.
Por diversas vezes, o Sintese solicitou assento no Conselho, haja vista que professoras e professores, da ativa e aposentados, representam uma das maiores parcelas de servidores que contribuem para o Ipesaúde.
A diretora do departamento de aposentados do Sintese, professora Maria Luci, lembra que a solicitação pela participação do sindicato no Conselho Fiscal do Ipesaúde é uma demanda antiga. O sindicato já teve reuniões com a atual e com outras gestões do Ipesaúde para cobrar que não somente o Sintese tenha participação, mas também representantes de outras categorias.
“Afinal, somos o público do Ipesaúde. Somos nós, servidores, que contribuímos para o Ipes e como a gente contribui, queremos saber como vem sendo gastas as nossas contribuições. Esperamos que o presidente atual reveja essa situação, porque o Ipesaúde existe para e por causa do servidor. Portanto é fundamental e legítima a nossa participação no conselho”, defende a professora Luci.
Atualmente nove conselheiros compõem o Conselho Fiscal do Ipesaúde. Nenhum deles representa qualquer categoria de servidores. Cada um dos conselheiros recebe por mês R$ 2.100 de gratificação (Jeton) e o conselho se reúne, apenas, uma vez a cada mês.
“Não há democracia, não há fiscalização, de fato, do uso dos recursos do Ipesaúde, os servidores estão sendo penalizados por uma suposta desordem financeira no Ipes, enquanto o conselho que deveria ser fiscalizador segue de braços cruzados e seus conselheiros recebendo Jeton de 2.100 reais. Por isso, o Sintese exige transparência e participação efetiva de sindicatos no conselho para que a fiscalização seja feita por aqueles que utilizam os serviços do Ipesaúde e têm total interesse no crescimento e fortalecimento do nosso Instituto de Saúde”, cobra o presidente do Sintese, professor Roberto Silva.
Ipesaúde diz realizar investimentos para ampliar e qualificar os serviços
Em nota enviada para Mangue Jornalismo, o Ipesaúde afirmou ser “a maior operadora de saúde em caráter suplementar do estado, com mais de 113 mil beneficiários ativos, ampla rede credenciada e serviços próprios distribuídos na capital e no interior. Mesmo diante do aumento contínuo da demanda assistencial e da elevação dos custos da saúde suplementar em todo o país, o Instituto segue realizando investimentos estruturantes para ampliar e qualificar os serviços prestados aos beneficiários”.
Segundo a nota, o instituto informou que no 2025 “realizou mais de 428 mil consultas, 3,1 milhões de exames, 101.956 cirurgias, além de terapias, procedimentos multidisciplinares e ações preventivas e educacionais. Entre os investimentos recentes estão a implantação do Centro Integrado de Ortopedia e Reabilitação, do Centro de Terapias Integradas para crianças e adolescentes neurodivergentes, a ampliação do Centro de Endocrinologia e Diabetes, além da construção do Bloco da Saúde da Mulher e da construção do novo espaço do Serviço de Atenção em Saúde Mental, o SASM, dentro do Centro de Especialidades, na sede da autarquia. O novo SASM, inclusive, aumentará significativamente a capacidade atual de atendimentos psicológicos e psiquiátricos”.
O instituto também informou que “vem ampliando a assistência no interior do estado, com fortalecimento das unidades regionais e implantação de novas estruturas, como a nova Unidade Regional de Lagarto, em espaço mais moderno, amplo e adequado à demanda da região, que será inaugurado em breve. Nos últimos três anos, o Instituto também entregou novos prédios nas unidades de Itabaiana, Estância e Simão Dias”.
Na nota, o Ipesaúde disse “que um dos fatores que mais impactam a disponibilidade de vagas é o alto índice de absenteísmo. Atualmente, cerca de 40% dos pacientes faltam às consultas e exames agendados sem cancelamento prévio, comprometendo o aproveitamento das vagas e aumentando o tempo de espera para outros beneficiários. E apesar de várias campanhas internas, este percentual não reduziu”.
Sobre o não oferecimento de geriatras, o Ipesaúde informa “que mantém editais permanentes de credenciamento para ampliação da rede médica, inclusive para a especialidade de geriatria. Entretanto, há uma reconhecida escassez nacional de profissionais especializados na área, realidade que impacta tanto o SUS quanto à saúde suplementar em diversos estados brasileiros. Mesmo diante desse cenário, o Instituto segue adotando medidas para ampliar o acesso dos beneficiários idosos ao atendimento especializado, fortalecimento da clínica médica e previsão de reembolso para consultas particulares, conforme critérios legais. O Ipesaúde ressalta ainda que, além da rede própria especializada, com mais de 43 especialidades médicas, conta com mais de 460 prestadores credenciados em Sergipe, ampliando a assistência ofertada aos beneficiários”.
Em relação a não há disponibilidade de neuropediatria, a nota informa que o Ipesaúde “foi pioneiro em Sergipe ao implantar o Centro de Terapias Integradas, unidade especializada no atendimento multidisciplinar de crianças e adolescentes neurodivergentes. E atualmente faz uma média de 4500 atendimentos por mês. O serviço reúne profissionais de psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, fisioterapia, psicopedagogia, nutrição, neuropediatria, neuropsicopedagogo e psiquiatra Infantil”.
A instituição “reconhece que a neuropediatria é uma das especialidades com maior escassez de profissionais no país. Atualmente, o Instituto possui especialistas na área e implantou telemedicina como alternativa para ampliar o acesso e reduzir o tempo de espera. Paralelamente, o Ipesaúde mantém editais de credenciamento abertos de forma contínua para ampliação da rede especializada. O Instituto destaca ainda que os tratamentos voltados às neurodivergências possuem caráter contínuo e de longo prazo. Diferentemente de outras especialidades, muitos pacientes permanecem em acompanhamento permanente por vários anos, o que contribui para o aumento progressivo da demanda pelos serviços especializados”.
Em relação aos pacientes diabéticos, o Ipesaúde “informa que mantém assistência especializada por meio do Centro de Endocrinologia e Diabetes Luciano Barreto Júnior, que oferece atendimento multidisciplinar voltado ao acompanhamento e controle das doenças crônicas, incluindo assistência ao pé diabético, acompanhamento nutricional, psicológico, de enfermagem e ações preventivas contínuas. O Instituto esclarece ainda que o serviço de podologia não integra o rol obrigatório de cobertura da saúde em caráter suplementar”.
Sobre o valor da contribuição que dobrou, mas os servidores reclamam de enfrentar meses até por consultas de rotina, Ipesaúde “reforça que atua como autogestão de saúde, sem finalidade lucrativa, sendo responsável pela assistência médica e multidisciplinar de mais de 113 mil beneficiários em Sergipe. Nos últimos anos, o Instituto realizou investimentos em infraestrutura, ampliação da rede própria, modernização tecnológica e fortalecimento dos mecanismos de controle e auditoria”.
Segundo o instituto, “entre as medidas implementadas estão a ampliação do call center, implantação do aplicativo “Meu Ipes”, controle por biometria facial, reformas e ampliação das unidades próprias, fortalecimento da assistência em saúde mental e ampliação de programas preventivos e assistenciais. O Instituto também ampliou a rede própria, contratou profissionais em novas especialidades e mantém editais de credenciamento abertos continuamente para ampliação da rede médica e multidisciplinar, especialmente em áreas com maior demanda, como reumatologia, psiquiatria, neuropediatria e geriatria.
A nota ainda informa que “Ipesaúde adotou medidas de gestão para otimizar recursos e ampliar a eficiência dos serviços, como a revisão de tabelas médicas e hospitalares, compra direta de OPME, modernização do sistema, fortalecimento da perícia, controle biométrico facial para evitar duplicidade de atendimentos e campanhas contra o absenteísmo. O Ipesaúde reforça que segue trabalhando para ampliar a capacidade de atendimento e fortalecer a assistência prestada aos servidores públicos estaduais e seus dependentes”.
Em relação a falta de representatividade, a nota do Ipesaúde diz “que a composição do Conselho Fiscal segue os critérios estabelecidos pela Lei Estadual nº 9.226/2022, que define os requisitos técnicos e administrativos para nomeação dos membros do colegiado. O pagamento de jetons aos conselheiros possui previsão legal e atende às normas aplicáveis à administração pública estadual. O Ipesaúde mantém diálogo institucional com sindicatos e entidades representativas dos servidores, buscando o aperfeiçoamento contínuo da assistência e a ampliação dos serviços prestados aos servidores públicos estaduais e seus dependentes em Sergipe”.
LUANA CAPISTRANO
Sintese
CRISTIAN GÓES
Edição


