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Menos “religiosos(as)” na urna, mais religião na política: o que revelam as eleições de 2026?

(Créditos: David Ribeiro/Câmara dos Deputados)

Nas eleições gerais de 2026, os dados preliminares apontam para uma redução das candidaturas que apresentam referências religiosas de maneira explícita no nome de urna, embora essa retração precise ser interpretada com cautela. 

O levantamento com base nas informações disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral em 17 de agosto, identificou 381 candidaturas com termos religiosos no nome de urna, contra 657 em 2022, uma redução de aproximadamente 42%.

Foram consideradas expressões como “irmão”, “pastor”, “bispo”, “diácono” e “mãe de santo”, além de outras referências associadas às tradições evangélicas, católicas e de matriz africana. O próprio levantamento ressalva que a base do TSE ainda estava sendo atualizada naquele momento, de modo que os números poderiam sofrer alterações. Esses dados, portanto, devem ser compreendidos como um retrato preliminar do pleito, e não como um número definitivo de todos os(as) candidatos(as) que possuem identidades religiosas. 

O levantamento também mostra uma concentração muito expressiva das referências religiosas em termos associados ao campo evangélico: dos 381 registros identificados, 355, ou 93,2%, utilizavam expressões relacionadas a suas denominações, sendo “pastor” o termo mais frequente, com 179 candidaturas. Foram identificadas ainda 14 referências associadas ao catolicismo, como “padre”, “frei” e “da pastoral”, além de 12 referências relacionadas a religiões de matriz africana. 

Essa predominância evangélica não significa, contudo, que a participação política do catolicismo seja irrelevante. A diferença resulta, em grande medida, de modelos institucionais distintos de participação. No catolicismo, restrições do direito canônico à atuação política de clérigos fazem com que a representação eleitoral seja predominantemente exercida por leigos. Entre os evangélicos, especialmente pentecostais e neopentecostais, pastores e outras lideranças podem disputar eleições e receber apoio institucional das igrejas. 

A diferença é, portanto, sobretudo organizacional: a Igreja Católica também atua politicamente por meio de leigos, organizações, movimentos e orientações públicas sobre temas como justiça social, dignidade humana, defesa da vida e cuidado ambiental. No campo evangélico, a aproximação entre religião e política se intensificou desde a redemocratização, especialmente a partir da Constituinte de 1987-1988, impulsionada pelo crescimento pentecostal, pela expansão do segmento e pela formação de novas lideranças. A lógica do “irmão vota em irmão” evoluiu para formas mais organizadas de escolha e mobilização de candidaturas, expressando um processo de afirmação política de uma minoria religiosa. Como religião pública, o segmento passou a reivindicar não apenas representação institucional, mas também influência sobre os debates sociais e a direção moral da sociedade (Burity, 2024)

A questão central, portanto, não é apenas saber quantos(as) religiosos(as) estão concorrendo, mas entender como a religião está sendo utilizada como identidade, vínculo institucional e instrumento de mobilização política. O nome de urna é apenas uma das formas possíveis de identificar essa relação. Um candidato pode ser pastor e concorrer utilizando apenas seu nome civil; pode receber apoio oficial de uma denominação sem utilizar qualquer título religioso; pode apresentar-se simplesmente como “cristão”; ou pode mobilizar redes religiosas sem possuir uma posição formal dentro da hierarquia de uma igreja. Por isso, a eventual redução dos nomes explicitamente religiosos em 2026 pode representar menos uma retração da religião na política do que uma transformação de suas formas de atuação.

É justamente nesse ponto que a metodologia se torna fundamental. Não existe uma variável única do Tribunal Superior Eleitoral que permita identificar automaticamente todos os(as) candidatos(as) religiosos(as). O TSE registra informações como nome, partido, ocupação e candidatura, mas não possui uma categoria simples denominada “religião do candidato”. 

Por essa razão, diferentes levantamentos chegam a números distintos conforme o critério utilizado. Um dos recortes considera exclusivamente os termos religiosos empregados no nome de urna; outro pode ampliar a busca para informações sobre ocupação ou outros elementos da candidatura; e há ainda estudos que procuram identificar vínculos institucionais com igrejas ou organizações religiosas. Os números, portanto, não devem ser somados entre si, mas apresentados como diferentes maneiras de observar um fenômeno que não possui uma variável eleitoral oficial única.

A diferença entre os levantamentos de 2026 também decorre do momento em que os dados foram coletados e dos termos utilizados na busca. Como dito, temos 381 candidaturas com referências religiosas no nome de urna a partir da base disponível em 17 de agosto. 

O levantamento considerou uma lista de expressões associadas às tradições evangélica, católica e de matriz africana e chegou a uma redução de 42% em relação aos 657 registros encontrados em 2022. Já outros levantamentos podem chegar a números diferentes ao ampliar ou modificar a lista de termos pesquisados. Essa diferença metodológica não significa necessariamente erro: significa que “candidatura religiosa” é uma categoria construída pelo(a) pesquisador(a), e não uma classificação única fornecida pelo TSE. 

No levantamento em sentido amplo, que combina a ocupação declarada pelo candidato com a presença de referências religiosas no nome de urna, foram identificados 559 candidatos, equivalentes a cerca de 2,7% do universo de mais de 20 mil candidaturas registradas. Nesse recorte, o PL lidera com 61 candidaturas, seguido pelo Republicanos, com 51, pelo MDB, com 43, e pelo PT, com 17. 

Quando o critério é restrito exclusivamente ao uso de termos ou títulos religiosos no nome de urna, o universo cai para 381 candidaturas, número que representa uma redução de aproximadamente 42% em relação aos 657 registros identificados em 2022. Nesse conjunto, as referências associadas ao campo evangélico são amplamente predominantes, correspondendo a 355 registros, ou 93,2% do total. Entre os partidos, o MDB lidera esse recorte, com 34 candidaturas, seguido pelo PL, com 32, pelo Novo, com 31, e pela Democracia Cristã (DC), com 26. No levantamento mais restrito e baseado exclusivamente na ocupação declarada ao TSE, 70 candidatos informaram exercer a atividade de “sacerdote ou membro de ordem ou seita religiosa”, dos quais 35 disputam o cargo de deputado estadual e 28, o de deputado federal. Entre as siglas com menor número de candidaturas no recorte amplo, aparecem o PV e o Missão, com três candidatos cada, o Cidadania, com dois, e o PRTB, com um. Esses números não devem ser somados entre si, pois correspondem a critérios distintos de identificação da presença religiosa na disputa eleitoral.

Nesse sentido, a distinção elaborada por Leonildo Silveira Campos ajuda a compreender esse problema. O(a) pesquisador(a) pode reconstruir dois tipos ideais: o “político evangélico” e o “político de Cristo”. 

O primeiro é aquele cuja identidade religiosa faz parte de sua trajetória pessoal e política. Ele pode defender pautas associadas ao cristianismo, receber apoio de eleitores evangélicos e estabelecer relações com igrejas, mas mantém maior autonomia diante das instituições religiosas. O segundo representa uma forma mais institucionalizada de participação: uma candidatura que nasce, em maior medida, de dentro das estruturas religiosas, com participação da igreja na escolha, promoção e mobilização do candidato e expectativa de uma atuação compatível com os interesses e agendas da instituição. Essa distinção ajuda a compreender por que o nome de urna não é suficiente para medir a influência religiosa (Campos, 2005).

Desse modo, o desaparecimento do título “pastor”, por exemplo, não significa necessariamente o desaparecimento do vínculo religioso. Uma igreja pode apoiar um candidato sem exigir que ele utilize sua identidade denominacional na urna. 

Da mesma forma, candidatos podem abandonar títulos específicos e adotar uma identificação mais ampla, como “cristão”, capaz de dialogar com diferentes denominações. A mudança pode ser entendida como uma espécie de “cristianização” genérica da política: em vez de comunicar ao eleitor “sou pastor de determinada igreja”, o candidato pode comunicar “sou cristão”, utilizando valores religiosos como elemento de identificação moral e cultural. 

Há uma semana, o Ministério Público Eleitoral recomendou que entidades religiosas de Rondônia não realizem, promovam ou permitam propaganda eleitoral em templos, pátios, anexos ou qualquer outro espaço vinculado às instituições. (Créditos: Reprodução/Magnific)

A força política das igrejas, portanto, não está apenas no número de candidatos que elas lançam, mas nas redes sociais e comunitárias que podem mobilizar. Templos, lideranças, grupos de fiéis, meios de comunicação religiosos e redes sociais formam estruturas capazes de produzir confiança, circulação de informações e engajamento. O candidato pode beneficiar-se de uma rede religiosa mesmo sem apresentar explicitamente sua função religiosa no nome de urna. 

Esse modelo ajuda a explicar a permanência da influência evangélica mesmo diante da redução dos títulos religiosos registrados nas candidaturas de 2026 e também ajuda a compreender a eficiência eleitoral de determinadas candidaturas. Estudos sobre eleições municipais já identificaram presença desproporcional de candidaturas com identidade religiosa entre os eleitos, embora esses resultados não possam ser extrapolados diretamente para as eleições gerais de 2026. O ponto central é que a capacidade de transformar uma comunidade de fé em rede política pode ser mais importante eleitoralmente do que a simples presença de um título religioso no nome do candidato.

Por exemplo, uma denúncia apresentada à Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo pela Associação Movimento Brasil Laico acusa a Igreja Universal do Reino de Deus de converter sua estrutura monumental de comunicação em uma “máquina de engajamento eleitoral” por meio da campanha “Desafio de Neemias”. Encabeçada pelo bispo Edir Macedo, a iniciativa foi desenhada para durar 52 dias e terminar exatamente no primeiro turno das eleições, mobilizando obreiros e fiéis em uma rotina diária de vídeos, reflexões e tarefas políticas conservadoras. 

Sob a justificativa espiritual de reconstruir “muros de fé”, a plataforma exige dos participantes o cadastramento de dados sensíveis — como identificação facial, localização, senha e templo do fiel —, gerando mais de 154 mil cadastros sob metas rígidas de inscrição de 52 pessoas por membro. Diante disso, a ação judicial pede a apuração de abuso de poder econômico, político e religioso, além de propaganda eleitoral ilegal em templos e tratamento irregular de biometria e de preferências de voto coletadas logo após os cultos para fins eleitorais (Queiroz, 2026). 

Essa dinâmica de controle e mobilização ilustra empiricamente as reflexões teóricas de Reginaldo Prandi, Renan William dos Santos e Massimo Bonato sobre o funcionamento das igrejas evangélicas como máquinas eleitorais no Brasil. 

A análise acadêmica busca compatibilizar o fenômeno do “avanço da modernidade religiosa” — em que a religião tradicional perde força e se sujeita a “bricolagens” de fiéis que escolhem suas opiniões políticas de forma autônoma e alheia às regulações das instituições — com o “crescente poder de influência eleitoral” de corporações eclesiásticas. Projetos altamente controlados e monitorados por dados como o “Desafio de Neemias”, ao condicionar a rotina espiritual ao consumo de notícias sobre pautas morais ou supostas perseguições promovidas pela esquerda, atuam precisamente para mitigar essa autonomia de “bricolagem” dos fiéis, canalizando a fé comunitária em direção a um enquadramento eleitoral sistemático e corporativo (Prandi & Bonato, 2019). 

Outra maneira de interpretar os dados divulgados pelo TSE surge a partir de teorias como a da vantagem incumbente, proposta por Mayhew (1974) e Jacobson (1983) e de teorias que analisam a maneira como as organizações políticas distribuem recursos (Schaefer, 2019). Essas análises também podem ser relacionadas à obra de Merton (1968), especialmente ao conceito de Efeito Mateus, inspirado no versículo bíblico “Pois a quem tem, mais se lhe dará, e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado”. A partir desse conceito foram desenvolvidas análises de que organizações políticas tendem a direcionar seus recursos para candidatos que obtiveram maior desempenho eleitoral, reduzindo, dessa maneira, o espaço para novas candidaturas. 

A análise a partir dessa perspectiva pode indicar que a eleição de 2026 pode indicar um maior controle sobre as candidaturas pelas lideranças já consolidadas. Em outras palavras, a centralização de candidaturas em nomes mais competitivos poderia também indicar a diminuição da competição entre as candidaturas pelo voto religioso. Contudo, essa perspectiva ainda precisa ser testada por meio de comparação entre as listas publicadas pelo TSE, bem como pelo acompanhamento das campanhas e pela respectiva identificação se há maior concentração de investimentos em determinados candidatos.

O desafio, portanto, é identificar o que os números da urna não revelam: quem apoia quem, quais igrejas e redes religiosas atuam nas campanhas e como identidades de fé se traduzem em posições políticas concretas. A redução de títulos como “pastor”, “bispo” ou “missionário” não significa necessariamente menor influência religiosa; pode indicar, ao contrário, uma mudança em suas formas de atuação. 

Em 2026, a religião pode estar menos visível como marca eleitoral, mas mais disseminada como rede de mobilização, vínculo institucional e instrumento de disputa política. O ponto crítico, portanto, não é apenas medir quantos candidatos religiosos existem, mas questionar até que ponto estruturas religiosas continuam organizando o acesso ao poder, orientando escolhas eleitorais e influenciando políticas públicas sem aparecerem explicitamente na urna.

Referências

BURITY, Joanildo. Minoritização, religião pública e populismo religioso no Brasil. REVER: Revista de Estudos da Religião, v. 24, n. 1, p. 11-27, 2024. DOI: https://doi.org/10.23925/1677-1222.2024vol24i1a2 

CAMPOS, Leonildo Silveira. “De ‘políticos evangélicos’ a ‘políticos de Cristo’: la trayectoria de las acciones y mentalidad política de los evangélicos brasileños en el paso del siglo XX al siglo XXI”. Ciências Sociais e Religião, Porto Alegre, ano 7, n. 7, p. 157-186, set. 2005.

CARRANZA, Brenda. “Modus operandi político de evangélicos e católicos: consolidações e inflexões”. Debates do NER, Porto Alegre, v. 2, n. 32, p. 87-116, 2018. DOI: 10.22456/1982-8136.80058.

CARVALHO JUNIOR, Erico Tavares de; ORO, Ari Pedro. “Eleições municipais 2016: religião e política nas capitais brasileiras”. Debates do NER, Porto Alegre, ano 18, n. 32, p. 15-68, jul./dez. 2017.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (Brasil). Divulgação de candidaturas e contas eleitorais – DivulgaCandContas. Brasília, DF: TSE, [s.d.]. Disponível em: https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/home. Acesso em: 24 ago. 2026.

JACOBSON, Gary C. Partisan and ideological trends in the elections of 1980. American Political Science Review, v. 77, n. 2, p. 452–474, 1983

VILELA, Pedro Rafael. “Candidaturas com identidade religiosa crescem 225% em 24 anos”. Agência Brasil, Brasília, 21 ago. 2024. Disponível: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2024-08/candidaturas-com-identidade-religiosa-crescem-225-em-24-anos. Acesso 23 ago. 2026. 

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Eleições: o que é da responsabilidade da Igreja? Brasília, DF: CNBB, 2024.

INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS (INESC). Religiosos nas urnas: eleições 2024. Brasília, 2024. 

MAYHEW, David R. Congress: the electoral connection. New Haven: Yale University Press, 1974.

MERTON, Robert K. Social theory and social structure. New York: The Free Press, 1968

PRANDI, Reginaldo; SANTOS, Renan William dos; BONATO, Massimo. Igrejas evangélicas como máquinas eleitorais no Brasil. Revista USP, São Paulo, n. 120, p. 43–60, 2019. DOI: 10.11606/issn.2316-9036.v0i120p43-60. Disponível em: https://revistas.usp.br/revusp/article/view/155530. Acesso em: 24 ago. 2026.

QUEIROZ, Danilo. ‘Máquina de engajamento eleitoral’: associação denuncia projeto de 52 dias da Universal. CartaCapital, 17 ago. 2026. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/. Acesso em: 24 ago. 2026.

SCHAEFER, Bruno Marques. Centralização nos partidos brasileiros: evidências a partir da distribuição do Fundo Partidário (2010-2016). Teoria & Pesquisa: Revista de Ciência Política, São Carlos, v. 28, n. 2, p. 47-70, 2019. DOI: 10.4322/tp.v28i2.737.

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Péricles Andrade

Doutor em Sociologia pela UFPE e professor titular no Departamento de Ciências Sociais da UFS.

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