Não há alternativa ética possível no jornalismo brasileiro senão combater sem trégua a onda fascista que busca naturalizar a barbárie.
A Mangue Jornalismo é uma organização comunicacional sem fins lucrativos e que tem uma atuação profissional, livre, independente, ética e posicionada na promoção de um jornalismo local assentado nos Direitos Humanos e com incidência na sociedade sergipana. Todos os princípios e métodos da Mangue estão publicados no site.
Como a transparência é um dos pilares da organização, é obrigação ética a manifestação pública em momentos vitais na vida de Sergipe e do Brasil, a exemplo das eleições do próximo domingo, dia 4. Assim, segue um editorial-manifesto da Mangue Jornalismo para o momento.
A sensação é de que, a cada processo eleitoral, a sociedade brasileira chega ao limite do esgarçamento político. Alguns partidos que apresentam nomes aos cargos públicos mais parecem organizações criminosas, cujo objetivo é apenas colocar seus representantes nos poderes Legislativo e Executivo para controlar e saquear os cofres públicos.
Esse quadro produz desesperança e apatia, exatamente os efeitos esperados por quem sequestrou a necessária ação política-eleitoral e a transformou em um negócio familiar, criminoso e infame. Entretanto, há sempre esperança de reagir a essa tragédia e contê-la.
Infelizmente, em 2026, alguns candidatos envolvidos com corrupção usam a farsa justamente do combate à criminalidade, abusam da hipocrisia cristã e do falso moralismo, chegando até mesmo a explorar a luta em prol de crianças neurodivergentes, animais e outras pautas sensíveis.
Em razão das anomalias eleitorais que garantem o abuso do poder econômico, alguns desses candidatos têm enorme chance de vencer, engrossando a onda fascista. Eleitos ou reeleitos, vão defender apenas seus interesses, muitas vezes saqueando o Estado, seja por meio de licitações e contratos fraudulentos seja pela chantagem via emendas e cargos.
Para disfarçar seus crimes, a maioria usa palavras vazias como deus, pátria, família, liberdade e jura que é contra a corrupção, mas vive do dinheiro público furtado; destrói o meio ambiente para favorecer o agronegócio e a especulação imobiliária; retira direitos dos trabalhadores e amplia a exploração dos demais para garantir os lucros dos mais ricos.
Nos últimos anos, ganhou força a disseminação da mentira e da desinformação, gerando um manipulado medo social para o apoio popular a pautas de ódio, violência e morte, buscando naturalizar as execuções públicas, pelo Estado, da juventude empobrecida e negra nas periferias das cidades, transformando a barbárie em espetáculo e em voto.
Diante desse quadro, onde está o jornalismo? A resposta está no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, não como uma opção, mas como imposição: “É dever do jornalista: opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos; combater e denunciar todas as formas de corrupção” (Art. 6º).
E, ainda nesse mesmo artigo: “É dever do jornalista: defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias”. Não se pode “usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime”. Não há outro caminho, doa a quem doer, é obrigação do jornalismo, conforme o Código de Ética.
Em períodos dramáticos como o eleitoral deste ano, em que avançam ações fascistas na sociedade brasileira com o objetivo de tomar majoritariamente os Executivos e Legislativos, as exigências para todo o jornalismo precisam ser reafirmadas na prática cotidiana. Ou o jornalismo combate eticamente e sem trégua o fascismo, ou pode ser cúmplice dele, cavando sua própria cova.
Em Sergipe, nos últimos quatro anos, a maioria de deputados estaduais, federais e senadores não representou o povo sergipano – muito pelo contrário, agiu e votou em pautas de promoção da violência e da morte, de destruição do meio ambiente, de proteção dos mais ricos, de retirada de direitos dos mais pobres e no fortalecimento de esquemas corruptos. Quase sem apoio, a Mangue Jornalismo cumpriu o dever de denunciá-los.
Infelizmente para a eleição de domingo próximo, políticos inimigos do povo, antigos e novos, apresentaram-se tentam conquistar cargos públicos. Os sergipanos não podem ter os piores representantes na Assembleia Legislativa, na Câmara Federal e no Senado.
É impossível eleger candidatos que atacam a dignidade da pessoa humana, que defendem a destruição do meio ambiente e que humilham mulheres, professores, profissionais da saúde. Eleitoras e eleitores não podem ser cúmplices disso, não podem sujar as mãos de sangue elegendo aquelas e aqueles que só propagam ações de ódio, violência e morte, usando o falso discurso de segurança. Nesse mesmo barco está o jornalismo, que tem como farol o Código de Ética, e que não pode ser cúmplice fingindo isenção. A imparcialidade é antiética.
Não permita que o ódio, o medo e a manipulação ditem os destinos de Sergipe e do Brasil. Vote pela transparência, pelo fortalecimento dos serviços públicos e pelo respeito incondicional à dignidade humana.
Mangue Jornalismo
Aracaju/SE
Quarta-feira, 30 de setembro de 2026.


