Mangue Jornalismo faz três anos e não pode acabar agora

Sustentada por trabalho quase voluntário e sem financiamento de governos e empresas, a Mangue completa mais um ano de existência com uma pergunta inevitável: até quando será possível continuar?

Em 19 de abril, Dia dos Povos Originários, a Mangue Jornalismo completará apenas três anos de atividades públicas. Naquele dia, em 2023, publicamos nossas primeiras reportagens, todas revelando que Sergipe é uma terra indígena lavada em sangue e esquecimento. Mostramos como a elite local apagou da história as resistências e os genocídios dos povos originários aqui. De lá para cá, não paramos mais.

Falamos “apenas três anos” porque a sensação é de muito mais tempo em razão da grande qualidade e quantidade de reportagens e projetos jornalísticos desenvolvidos nesse curto período. Lembramos o e-book sobre a privatização da água em Sergipe, curso e eventos sobre jornalismo, coberturas especiais, newsletter, podcasts, documentários em vídeos, a Revista Paulo Freire e até a edição de um livro histórico, o Borracha na cabeça: o golpe e a ditadura militar em Sergipe (2024).

O mais incrível disso tudo é que a Mangue faz três anos de um jornalismo sério, profissional, independente, investigativo, corajoso, transparente em Sergipe Del Rey, onde quase toda imprensa é financiada pelos cofres públicos, por mandatos de políticos e empresas privadas.

A Mangue é um coletivo de profissionais de comunicação, uma associação sem fins lucrativos, que ousa propor um jornalismo em Sergipe que não recebe verbas de publicidade de governos e de empresas, que tem uma política editorial baseada em reportagens que envolvem os direitos humanos (nós temos lado!), e que tem por princípio a transparência, inclusive se submetendo voluntariamente a um conselho externo de interlocutores.

São três anos sem ter o rabo preso com ninguém, fazendo jornalismo local, ganhando prêmios e reconhecimentos no nível estadual e nacional. Publicamos mais de 1000 reportagens investigativas e temáticas, mexendo com a vida política e social em Sergipe. Muitas matérias foram e são objeto de pronunciamentos na Câmara de Vereadores de Aracaju, na Assembleia Legislativa. Reportagens nossas resultaram em CPI e na tomada de decisões do Governo do Estado e da Prefeitura de Aracaju.

Os números de audiência e de engajamento nas redes digitais da Mangue Jornalismo são enormes, muito além do que imaginávamos, ultrapassando a casa dos milhões de acessos e milhares de compartilhamentos. As frases que mais ouvimos das nossas leitoras e leitores nesse período são: “Vocês são muito necessários”, “É desse jornalismo que Sergipe precisava”, “A Mangue faz jornalismo de verdade”.

Ou seja, tudo lindo e maravilhoso, certo? Não é bem assim.

Todo esse reconhecimento é muito bom e nos anima demais, mas nesses três anos as dificuldades foram imensamente maiores do que as conquistas. Por exemplo, os profissionais de Comunicação que passaram e os que continuam carregando todos os dias a Mangue Jornalismo com muita bravura não foram remunerados e apenas dividem o pouco que se arrecada com as doações voluntárias que recebemos de leitoras e leitores, de apoiadores, amigas e amigos da Mangue

Nossa organização não tem sede própria, quase todos os equipamentos que utilizamos são pessoais e a Mangue segue existindo sustentada pelo tempo e pela dedicação de seus profissionais, que apuram, investigam, escrevem e produzem diariamente, à custa de um trabalho que está muito longe de ser justamente remunerado. Ninguém tem dedicação exclusiva para a Mangue Jornalismo. Por isso, muitas vezes nesses três anos, cogitamos encerrar as atividades. Sentimentos de fracasso, derrota, frustração também nos acompanham.

Entretanto, ao final de cada ano, sempre temos renovada a fé de que no ano seguinte as coisas vão melhorar. Mas até quando esse fôlego voluntário vai durar? Até quando profissionais qualificados, corajosos, comprometidos com o jornalismo de verdade vão continuar trabalhando quase de graça? Não sabemos as respostas, mas nutrimos ainda alguma esperança, para o bem do interesse público da sociedade sergipana: a Mangue Jornalismo não pode fechar suas portas logo agora que a gente completa três anos.

Se a Mangue Jornalismo encerrar suas atividades, não será apenas um projeto e uma série de produtos jornalísticos muito relevantes que se apagam, mas a vitória de um silenciamento imposto a um território já historicamente marcado pelo apagamento, pela concentração de poder e pela ausência de vozes dissonantes. 

Manter a Mangue Jornalismo viva é decidir, coletivamente, entre a comodidade da desinformação e o esforço de sustentar um jornalismo que investiga, confronta as versões ditas oficiais e dá sentido ao debate público. Neste aniversário de três anos, o que está em jogo não é só a sobrevivência de um veículo, mas a continuidade de um espaço raro de um jornalismo corajoso e sem amarras em Sergipe. E uma vez perdido, esse espaço dificilmente será reconstruído. 

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Redação

A Agência Mangue de Jornalismo é produto do CENTRO DE ESTUDOS EM JORNALISMO E CULTURA CIRIGYPE, uma associação sem fins lucrativos que busca realizar um jornalismo de qualidade e independente. Somos uma organização da sociedade civil, sem qualquer vinculação político-partidária, sediada em Aracaju, Sergipe, Nordeste do Brasil, movida para promover o jornalismo como lugar de debate no interesse público, com participação democrática, que prima pela rigorosa apuração, busca da verdade no relato dos acontecimentos e precisa apresentação do conteúdo jornalístico.

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