Evento propõe uma reflexão pública sobre independência editorial, financiamento da imprensa e os desafios de sustentar um jornalismo investigativo em Sergipe.
A Mangue Jornalismo completou três anos de existência carregando uma sensação curiosa para quem acompanha sua trajetória desde o início: a de que muito mais tempo passou. Não apenas pela quantidade de reportagens, projetos e debates públicos produzidos nesse período, mas pela intensidade com que essa agência de jornalismo investigativo se inseriu na vida política, social e comunicacional de Sergipe.
Com as primeiras reportagens publicadas oficialmente em 19 de abril de 2023, a Mangue nasceu propondo algo raro no menor estado do País: um jornalismo investigativo, independente, gratuito e sustentado sem verbas publicitárias de governos ou de grandes empresas privadas. A raridade e ousadia consiste em propor jornalismo de verdade em um estado historicamente marcado pela proximidade entre quase toda imprensa local, o poder político e os grupos econômicos.
Ao longo desse período, a Mangue Jornalismo publicou mais de 1.200 reportagens, a grande maioria investigativas e temáticas, abordando desde conflitos ambientais, privatizações, violência policial e direitos humanos até transparência pública, memória, povos indígenas, saúde e desigualdades sociais. Muitas dessas matérias ultrapassaram a circulação digital, estiveram entre finalistas de prêmios nacionais ao lado de veículos tradicionais e impactaram diretamente o debate público sergipano.
É justamente essa trajetória coletiva de insistência, resistência, investigação e construção pública do jornalismo que será celebrada no próximo dia 18 de maio, às 19h, na sede do Sindijus, localizada na Avenida Ivo do Prado, nº 282, no centro de Aracaju. O encontro, com entrada gratuita, terá como tema “Com a Mangue, Outro jornalismo é possível” e reunirá leitores, apoiadores, jornalistas, estudantes, pesquisadores, artistas e movimentos sociais para uma noite de debate, celebração e reencontros.
A programação contará com a participação da jornalista Fabiana Moraes, escritora e professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que ministrará a palestra “Jornalismo como arma — de qual alvo estamos falando?”. Referência nacional no jornalismo brasileiro, Fabiana pesquisa as relações entre mídia, poder, desigualdade e representação social. É autora de livros como A pauta é uma arma de combate (2022) e O nascimento de Joicy: Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem (2017), além de vencedora de importantes premiações nacionais de jornalismo.
Após o debate, mediado pelo jornalista e coordenador da Mangue José Cristian Góes, a celebração continua com um show acústico da cantora e compositora sergipana Anne Carol, artista marcada por influências das tradições culturais da Mussuca, do Samba de Pareia e das vivências periféricas sergipanas. O evento conta com apoio do Sindijus e da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Mais do que marcar uma data, o encontro pretende celebrar uma experiência coletiva de resistência, escuta e construção pública do jornalismo em Sergipe. “Impossível chegar aos três anos e não celebrar coletivamente. Alguém até pode achar exagero, mas manter a Mangue com compromisso, verdade e qualidade propondo um jornalismo livre e independente em Sergipe não é pouca coisa. Leitoras e leitores que nos apoiam voluntariamente são diretamente responsáveis por esse sucesso”, pontua Cristian Góes.
A Mangue também aproveita a celebração dos três anos para lançar uma nova campanha de financiamento coletivo. A meta é arrecadar R$ 5 mil para ajudar a manter funcionando uma experiência rara em Sergipe: um jornalismo investigativo, independente e sem financiamento publicitário de governos ou empresas privadas. Em tempos de redações desmontadas, conteúdo automatizado e dependência política da imprensa, sustentar a Mangue é também defender a existência de um jornalismo comprometido com investigação, escuta e interesse público.

Apoiar a Mangue é proteger um espaço raro de jornalismo
A decisão de manter independência financeira e editorial sempre teve consequências práticas. Enquanto grande parte da imprensa local opera vinculada a interesses políticos, mandatos parlamentares ou grupos econômicos, a Mangue optou por construir outro modelo de atuação: sem alinhamentos institucionais, sem blindagens e sem compromissos com estruturas de poder.
Essa escolha define também a linha editorial do coletivo. Desde o início, a Mangue assumiu um jornalismo comprometido com direitos humanos, fiscalização do poder público e ampliação de vozes historicamente invisibilizadas no debate público. “Nós temos lado”: a frase sintetiza a defesa de uma prática jornalística que não confunde neutralidade com omissão diante das desigualdades, violências e estruturas de poder que atravessam a sociedade sergipana.
Ao mesmo tempo, construímos uma política de transparência pouco comum no jornalismo sergipano. Além de tornar públicas suas formas de financiamento e princípios editoriais, a Mangue mantém um conselho externo de interlocução e submete sua atuação ao diálogo crítico permanente.
Mas, por trás do reconhecimento público, existe uma estrutura extremamente frágil. Sem sede própria e funcionando majoritariamente com equipamentos pessoais, a Mangue é sustentada pelo trabalho coletivo de profissionais que conciliam a produção diária de reportagens com outras atividades profissionais. Nenhum integrante possui dedicação exclusiva ao projeto.
Em muitos momentos desses três anos, a continuidade da Mangue esteve ameaçada. O desgaste financeiro, a sobrecarga e a ausência de estrutura acompanham permanentemente a nossa rotina. Ainda assim, continuamos existindo porque encontramos uma rede de leitores e apoiadores que compreendeu que sustentar jornalismo independente também é uma forma de participação política e defesa do interesse público.
Por isso, a nova campanha de arrecadação lançada neste aniversário vai além da necessidade financeira imediata. O que está em disputa é a continuidade de um espaço raro de jornalismo investigativo, crítico e sem amarras políticas ou empresariais em Sergipe. Apoie o nosso jornalismo corajoso aqui.
AGENDE-SE:
O QUÊ – Três anos da Mangue Jornalismo: roda de conversa sobre novas formas de fazer jornalismo em Sergipe com Fabiana Moraes e pocket show com Anne Carol
QUANDO – Segunda-feira, dia 18, às 19 horas
ONDE – Sindijus (Av. Ivo do Prado, 282 – Centro)


