Evento de aniversário contou com palestra da professora e escritora Fabiana Moraes, show acústico de Anne Carol e presença de estudantes, professores e representantes políticos sergipanos.

Em 19 de abril de 2023, a Mangue Jornalismo nascia propondo algo raro em Sergipe: um jornalismo profissional, investigativo e independente. Três anos depois, para a surpresa de muitos da própria equipe, essa ideia, que persistiu, insistiu e resistiu, foi grandemente celebrada. Em evento na sede do Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário de Sergipe (Sindijus) na última segunda-feira (18), a reunião de cerca de 70 pessoas gerou um clima de entusiasmo e de animação pela continuação de um trabalho jornalístico sério.
A público contou com representantes políticos, como a deputada estadual Linda Brasil (PSOL), os vereadores por Aracaju Iran Barbosa e Sônia Meira, ambos do PSOL, e Camilo Daniel (PT), além de professores de Comunicação, jornalista, estudantes, acadêmicos e leitores entusiastas, que extrapolaram as cadeiras e sentaram até no chão para acompanhar as atrações da noite: a jornalista Fabiana Moraes e a cantora Anne Carol.
“O trabalho da Mangue é independente, profissional, corajoso, combativo, não só em defesa dos direitos humanos, mas em defesa da verdade, da transparência”, celebrou Linda Brasil. A parlamentar diz apoiar o trabalho como uma forma de defesa da democracia e de evitar casos de corrupção e de falta de transparência pública.

Fabiana Moraes, jornalista, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), também não esperava que tantos sergipanos participassem de um debate crítico sobre jornalismo na noite de segunda-feira. Fabiana, que é mestre em Jornalismo e doutora em Sociologia, falou não só sobre a importância do apoio a veículos independentes, como também sobre o controle da narrativa pelos grandes conglomerados de mídia do país.
A Mangue, assim como outros veículos independentes brasileiros, é frequentemente acusada de fazer “militância” ao invés de Jornalismo, de ser engajada e imparcial. Ao invés de dizer que não somos, Fabiana propõe um outro olhar em seus livros e ao público do evento: não existe jornalismo completamente objetivo e imparcial. E, segundo ela, veículos que propõem a objetividade estão muitas vezes apenas performando ela.

“O jornalismo brasileiro sempre foi posicionado, engajado, ativista. A gente pode ver isso tanto em O Joio e o Trigo como na Rede Globo. Essa qualidade de engajamento não está presa e relacionada somente aos veículos não comerciais”, diz Fabiana.
Assim como mostra seu livro “A pauta é uma arma de combate”, Moraes diz que veículos usam pautas, imagens, títulos, tudo isso como armas para garantirem a vitória de um candidato, a prevalência de uma ideia e a manutenção de um regime autoritário. Do nascimento da imprensa no Brasil, passando pelo apoio da imprensa à Lei de Terras, pela ditadura, pela cobertura da Lava Jato, pela presidência de Jair Bolsonaro e pelo caso do Banco Master, a imprensa inteira sempre foi militante, engajada, parcial, mas ela não é considerada assim.

“Já existem vários e excelentes artigos acadêmicos e reportagens reconhecendo o apoio da Folha de S. Paulo e de O Globo à ditadura militar. Mas, ainda assim, a gente não olha esses apoios como provas do engajamento desses jornais”, explica Fabiana.
Apesar de veículos publicarem artigos defendendo a objetividade, o que acontece é o contrário, segundo a pesquisadora: “O que a gente tem que ficar atento é a ideia de performance da objetividade. Há tudo, menos objetividade”, disse.
A subjetividade ganha forma quando a imprensa “chora o corpo ferido do mercado” e reporta a “insatisfação” dos empresários da Faria Lima ou dos militares. Enquanto isso, os demais grupos da democracia não são ouvidos. “A democracia brasileira não se restringe a dois prédios ou um grupo de pessoas que, no máximo, enche um coletivo”, diz Moraes.
Fabiana lembra que passou 20 anos como repórter no Jornal do Commercio e reforça que a crítica é necessária para manter vivo o jornalismo: “A crítica à instrumentalização da objetividade, à performance da objetividade, é uma defesa do jornalismo. Não o contrário. Se eu não acreditasse no jornalismo, eu não estaria há 30 anos falando sobre isso, trabalhando em cima disso. Criei meu filho fazendo isso”.

A professora pernambucana diz que, nos últimos anos, houve avanços em relação a essa disputa de narrativas na imprensa, muito devido às políticas de cotas, que inseriram mais pessoas periféricas, negras, indígenas e quilombolas nas universidades e, consequentemente, no mercado de trabalho e nos espaços de poder. Ela também cita as redes sociais e o período da pandemia da Covid, quando o público em geral voltou a perceber a importância da informação pelo jornalismo.
Ainda assim, segundo ela, é necessário agir para reverter essa mentalidade hierárquica, essa denominação que dura décadas. E como fazer isso? “Disputar a palavra”, diz Fabiana.
Ela se refere a disputar o nome jornalismo profissional. “A Mangue faz jornalismo profissional. O Marco Zero também. Isso é super importante. Essa disputa não é só semântica. Ela é uma disputa de poder. São linguagens de poder, a respeito da qualidade do que está se produzindo”, explica a pesquisadora.
Além disso, muitos profissionais que trabalham em mídias tradicionais podem e devem se posicionar, mesmo que silenciosamente: na escolha de fontes a serem entrevistadas, na escolha de pautas excluídas e de imagens novas, que não repetem as mesmas realidades.
O silêncio estratégico, para ela, é a melhor das hipóteses para continuar fazendo um jornalismo engajado em grandes redações. “Você não precisa chegar para o editor dizer: ‘Eu quero fazer uma pauta sobre raça e gênero’. Começa por aí. Assim como as manifestações culturais do Brasil como os terreiros, o Maracatu, se mantiveram pelo silêncio, apesar das tentativas de os matarem”.

Público celebra a Mangue
A vice-reitora da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Silvana Aparecida Bretas, considera a Mangue um ato de coragem em um estado que tem “amargor ao jornalismo”. “É um luxo, é uma prova de que, politicamente, nós podemos defender o jornalismo de verdade, um jornalismo profissional. Estou absolutamente feliz de estar aqui”, diz a professora.
Carlos Eduardo Franciscato, professor da graduação e da pós-graduação em Jornalismo da UFS, analisa os três anos da Mangue como um período de desafios e de celebrações. “É muito gratificante ver essa capacidade de se renovar, de resolver os problemas e colocar os projetos para frente. Vão se passar cinco anos, dez anos, e a Mangue vai continuar cada vez melhor”, diz o professor.

A jornalista Ana Beatriz Andrade foi ao evento para acompanhar de perto a fala de Fabiana Moraes, que foi seu objeto de estudo no Trabalho de Conclusão de Curso. “A Mangue é o único veículo do estado que podia fazer um intermédio como esse, um encontro tão rico. É um veículo que eu admiro muito”, diz.
A estudante de jornalismo da UFS Gabrielle Lima também diz que teve Fabiana como grande referência ao longo da graduação: “Para mim, ouvir ela falar, celebrando esses três anos da Mangue, é, de fato, um ato de resistência. Mostra que o jornalismo existe”.


