Mangue atualiza diretriz sobre Inteligência Artificial com renovação do não uso de IAs em reportagens

Esta agência de jornalismo independente mantém a firme concepção de que o uso acrítico das IAs no jornalismo pode ampliar a grave crise pela qual passa o jornalismo.

Em agosto de 2024, depois de várias reuniões e debates, a Mangue Jornalismo tornou pública, em razão do profundo respeito a leitoras e leitores e do seu princípio inegociável de transparência, a sua posição diante das Inteligências Artificiais (IAs). 

Naquele mês e ano, este coletivo independente de comunicação em Sergipe decidiu não utilizar as IAs para criação de textos, produção de imagens e conteúdos audiovisuais, seja para o site ou para quaisquer outros canais oficiais da Mangue (redes digitais, por exemplo) ou em comunicações oficiais (relatórios, balancetes, comunicados e afins).

Também foi informado naquele período que esta deliberação sobre as IAs na Mangue estaria sempre aberta para receber contribuições que pudessem permanentemente gerar mais debates e estudos. 

De agosto de 2024 para cá, a Mangue continuou acompanhando o desenvolvimento das IAs nas redações e realizando debates internos. É inegável o forte avanço das Inteligências Artificiais no jornalismo. 

Depois de quase dois anos, com um pouco mais de maturidade profissional, reforço no senso ético e amplo compromisso com o interesse público, a Mangue entendeu que chegou a hora de atualizar a resolução sobre essa ação e torná-la pública.


Ambiente ainda de grande incerteza

A Mangue Jornalismo ainda entende que, neste momento, o uso deliberado e sem regras de IAs em redações pode comprometer o compromisso inabalável do jornalismo com a verdade. 

É verdade que muitas organizações têm usado largamente as “facilidades” prometidas pelas IAs para pautas, apurações, organização de dados, para copiar ideias, produzir textos em parte ou inteiros e até para gerar imagens, tudo de modo artificial. 

Alguns veículos até elaboraram critérios para o uso desses sistemas artificiais, prometendo informar ao público que utilizam as IAs. Alguns juram também que não abrem mão da ação humana no produto final.

Para a Mangue Jornalismo, a inexistência de referências e informações seguras sobre o uso de IAs neste momento impõe ao ambiente jornalístico ainda um quadro de vulnerabilidade que pode afetar a centralidade do seu compromisso incontornável com a verdade, base da credibilidade, da confiança, da referência da verdade. 

As IAs são apenas mesclas de números probabilísticos raspadas de um grande número de referências e captadas sem a autorização dos autores. Existem inúmeros exemplos de “entregas” pelas IAs de textos e imagens com perspectivas coloniais e contrárias aos direitos humanos. Além disso, a essa apropriação de conteúdo ocorre de maneira a alimentar a precarização de quem de fato trabalha. 

Para a Mangue Jornalismo, o uso das IAs nas redações sem quaisquer freios pode reforçar um ambiente onde a verdade – razão de ser do jornalismo – estará permanentemente em suspenso e sendo corroída, o que é uma tragédia do ponto de vista das relações com os públicos. Várias pesquisas apontam uma forte queda na credibilidade do jornalismo e o uso de IAs não resolve isso, talvez, aprofunde seu descrédito.

A Mangue mantém na sua diretriz a firme concepção de que o uso acrítico das IAs no jornalismo pode ampliar a grave crise pela qual passa o jornalismo, uma crise que não é apenas tecnológica, mas centralmente de credibilidade.

A Mangue não é contra as tecnologias e jamais poderia ser. Há uma plena consciência de que as IAs se apresentam com grande potencial de aceleração de processos e produtos. A Mangue Jornalismo não abre mão de inovar, mas isso precisa ocorrer dentro de parâmetros éticos e minimamente seguros, quadro que ainda não se apresentou.


Não uso de IAs nos textos e imagens

Diante disso, a Mangue Jornalismo reafirma e deixa público que continuará a não utilizar IAs para criação de textos, imagens e conteúdos audiovisuais, seja para o site ou para quaisquer outros canais oficiais da Mangue. 

Entretanto, a Mangue, com essa nova resolução, passa a considerar o uso crítico de IAs para a conversão de longos arquivos em áudio e vídeo em textos-base e que ajudem nas reportagens; para a revisão estritamente gramatical de textos, isto é, sem que ela implique alterações de angulação, perspectiva e restrita do texto final; e para consultar com grandes arquivos de documentos, extraindo dele menções, dados, referências que ajudem nas apurações. 

Todas essas operações que a Mangue passa a considerar devem ser rigorosamente checadas, rechecadas e assumidas pelo profissional que as utilize. O que é fundamental assegurar é que os textos das reportagens e as suas imagens serão resultados exclusivos da autoria natural e humana, isto é, dos jornalistas.

O propósito da Mangue Jornalismo é apresentar, de modo regular, conteúdos de qualidade e que são resultado de investigação jornalística humana, trazendo à luz da realidade os acontecimentos e as histórias de pessoas, principalmente aquelas em invisibilização nas mídias tradicionais. 

O jornalismo da Mangue é pautado pelo profissionalismo e busca da verdade, pela independência, ética, transparência e compromisso fundamental com o interesse público em todas as temáticas atravessadas pelos direitos humanos.

Esta deliberação da Mangue Jornalismo sobre as IAs atualizada hoje não é uma decisão imutável; portanto, a organização estará sempre buscando conhecer mais as IAs e aberta para receber contribuições que possam permanentemente gerar mais debates e novos entendimentos. E como a transparência é um dos pilares da Mangue, qualquer alteração nesse posicionamento será publicizada para o público.

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Cristian Góes

Jornalista pela Universidade Tiradentes, mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação e Sociabilidade pela Universidade Federal de Minas Gerais. Experiência como repórter e assessor de Comunicação nas áreas sindical e pública.

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