Maioria da bancada de Sergipe ficou em cima do muro na bagunça bolsonarista que impediu Congresso de funcionar

Na semana passada, parlamentares aliados de Jair Bolsonaro (PL) ocuparam as Mesas Diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado em protesto contra decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que colocou o ex-presidente em prisão domiciliar. Com a mobilização, que inviabilizou a retomada dos trabalhos legislativos por dois dias, o grupo também buscava forçar a aprovação de um Projeto de Lei da Anistia.

A principal bandeira da base bolsonarista prevê perdoar golpistas condenados em crimes pelos atos de 8 de Janeiro de 2023, abrindo caminho também para livrar Bolsonaro da cadeia. Réu no STF pela tentativa de golpe após a derrota em 2022, o ex-presidente teve a prisão domiciliar decretada após descumprir medidas cautelares impostas pelo ministro Alexandre de Moraes, relator da ação na Corte. Moraes é o alvo preferencial dos bolsonaristas.

Em decisão assinada em 18 de julho, o magistrado proibiu o ex-presidente de acessar redes sociais e determinou a instalação de uma tornozeleira eletrônica nele. Bolsonaro, porém, apareceu na tela de telefones de aliados durante protestos, mandou mensagem a apoiadores, e seus filhos fizeram publicações nas redes sociais que foram interpretadas por Moraes como tentativas de intimidar o STF. “A Justiça não permitirá que um réu a faça de tola, achando que ficará impune por ter poder político e econômico”, escreveu o ministro do Supremo no despacho da última segunda-feira, 4 de agosto.

O episódio de impedimento do Congresso Nacional funcionar por dois dias, expôs uma divisão na bancada de Sergipe no Congresso Nacional. Enquanto alguns aderiram ao discurso de confronto com o STF, outros condenaram a ação como mais um “ato golpista” e uma ameaça ao funcionamento das instituições. A maioria da bancada, porém, preferiu não se comprometer publicamente – não à toa, integra partidos do chamado Centrão (PP e PSD), grupo fisiológico que se aproxima de determinado espectro político a depender da conveniência.

Rodrigo Valadares X Rogério Carvalho e João Daniel

O deputado federal Rodrigo Valadares (União Brasil) foi a face mais visível do alinhamento com a estratégia bolsonarista. Seu tom nas redes oscilou entre o embate institucional e o apelo à mobilização popular, defendendo a obstrução total das pautas até que o PL da Anistia fosse votado. Ao saber que o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), cogitava punir os envolvidos no motim, o parlamentar foi às redes sociais e bradou: “Que democracia é essa que não houve os representantes do povo?”, escreveu em seu perfil do Instagram.

Quando o chefe da Câmara finalmente retomou o controle do plenário, Valadares voltou às redes com explicações. “Os trabalhos foram retomados e a anistia será pautada ou obstruiremos”, informou o deputado. Ocorre que não houve acordo para votar o projeto: no dia seguinte, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), pediu desculpas a Motta e confirmou não ter havido nenhum acordo sobre o perdão aos golpistas do 8 de Janeiro.

Importante dizer que, além da anistia, as demandas da oposição incluem ainda o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e o fim do foro privilegiado. Na prática, são duas alternativas para salvar Jair Bolsonaro: afastando o juiz do caso ou levando o ex-presidente a julgamento em outra instância. Mas, na narrativa bolsonarista, a justificativa da articulação é outra. “É um posicionamento a favor da paz e da liberdade em nosso País”, defende Rodrigo Valadares, cujo nome é ventilado para uma possível candidatura ao Senado em 2026.

Na outra ponta, os parlamentares petistas João Daniel e Rogério Carvalho foram os únicos a criticar diretamente a bagunça no Congresso Nacional. O deputado, além de comemorar a prisão domiciliar imposta a Bolsonaro, disse em vídeo nas redes sociais que a ocupação da Mesa Diretora da Câmara era um “ato golpista”. Partiu de João Daniel também uma das representações que pedem a suspensão dos mandatos dos bolsonaristas envolvidos no episódio por seis meses. A ação dos colegas, sustentou o petista, ultrapassou os “limites constitucionais e regimentais do direito de obstrução parlamentar” e, por isso, puni-los seria uma demonstração de que “atos de coação institucional e desrespeito às regras do jogo democrático” não serão tolerados.

O senador Rogério Carvalho, por sua vez, classificou o motim como um “ataque à democracia”, relembrando o quebra-quebra em Brasília em 8 de Janeiro de 2023. “Quando parlamentares colocam os interesses de outro país acima do povo brasileiro, isso tem nome: traição à pátria. O Congresso vai continuar funcionando. O STF seguirá exercendo seu papel”, escreveu o senador.

Ao mencionar os “interesses” estrangeiros, ele se refere à articulação do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) que, dos Estados Unidos, usa sua influência junto ao governo Donald Trump para defender sanções comerciais ao Brasil. No mais recente capítulo da ofensiva, Trump puniu o ministro Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky, criada para sancionar estrangeiros envolvidos com violações a direitos humanos.

Em cima do muro, com e sem manifestação

Seis dos oito deputados federais sergipanos – Fábio Reis (PSD), Yandra Moura (União), Thiago de Joaldo (PP), Ícaro de Valmir (PL), Gustinho Ribeiro (Republicanos), Delegada Katarina (PSD) – evitaram manifestações diretas sobre o tema, focando as aparições nas redes sociais em agendas externas.

Essa posição pode ser explicada, em parte, por cálculo eleitoral: a base bolsonarista no estado, embora expressiva, não é majoritária, e tomar partido explícito pode ter impactos negativos nas eleições de 2026. Ao mesmo tempo, o silêncio protege contra desgastes imediatos em Brasília, especialmente entre parlamentares que dependem de recursos do Governo Lula.

Surpreende o silêncio adotado por Ícaro de Valmir, que compõe as fileiras do PL, partido de Bolsonaro e principal fiador do motim no Congresso. Mas esse distanciamento das pautas radicais não é recente: integrantes da sigla há muito veem o parlamentar sergipano como parte da “ala centrista” do PL, cuja atuação é focada na obtenção de recursos para enviar às suas bases eleitorais.

Ícaro e os demais deputados foram perguntados, diretamente e via assessoria de imprensa, sobre o porquê de não terem se pronunciado a respeito da ocupação. A Mangue Jornalismo atualizará esta reportagem assim que tiver retorno.

Entre os que ficaram em cima do muro estão os senadores Laércio Oliveira (PP) e Alessandro Vieira (MDB). O pepista havia evitado comentar o assunto, mas, diante da pressão bolsonarista, deu a 41ª assinatura da lista de apoio ao impeachment de Moraes. Ao comunicar o apoio, escreveu: “Em nome do povo sergipano e dos brasileiros que desejam um País melhor, esta assinatura representa meu apoio à paz, à democracia e ao resgate do equilíbrio entre os Poderes da República”. A assinatura de Laércio a essa lista não muda nada na prática; é apenas uma forma de a oposição mostrar que possui maioria qualificada no Senado para aprovar um eventual afastamento do ministro do STF.

Para a infelicidade do grupo, o presidente da Casa Alta, Davi Alcolumbre (União-AP), tratou de afastar a possibilidade de atender à demanda. “Nem se tiver 81 assinaturas (a quantidade de senadores)”, disse o amapaense, ressaltando que o impeachment não envolve uma mera questão numérica. Conforme a legislação brasileira, a decisão de abrir o processo é exclusivamente do chefe do Senado.

Alessandro Vieira também nada disse sobre a ocupação das Mesas Diretoras. Na ocasião, o senador publicou um vídeo de entrevista na qual defende a criação da CPI da Lava Toga, uma de suas bandeiras antigas. A comissão parlamentar proposta em 2019 quando Vieira ainda estava no PPS investigaria “condutas impróprias e desvios no STF e tribunais superiores, que abalam a confiança da população”. Para o parlamentar, contudo, um acordo político teria enterrado “uma chance histórica de limpar o Judiciário”. A acusação nunca foi comprovada: o requerimento de criação da CPI foi arquivado porque dois senadores retiraram suas assinaturas.

Já a Delegada Katarina, que comanda a 3ª Secretaria da Câmara, afirmou, sem citar diretamente o motim bolsonarista, que “manifestações” haviam inviabilizado a realização da sessão deliberativa da Casa e cobrou o fim do radicalismo. “É preocupante ver o país refém de disputas que não constroem. As instituições só se fortalecem quando funcionam. Precisamos retomar os trabalhos com responsabilidade, para que esta Casa cumpra sua missão: legislar em favor da população”, disse a deputada pessedista em vídeo no Instagram.

No fechamento da edição dessa reportagem, ela informou ter se pronunciado sobre o tema nos stories do Instagram e enviou o teor da declaração: “‘Essa é e sempre será a casa do debate’. Foi assim que o presidente da Câmara, Hugo Motta, resumiu seu pronunciamento durante a conturbada sessão de hoje. Como terceira-secretária, ocupei meu lugar à mesa e pude acompanhar esse momento de vitória do diálogo e do exercício da democracia. Com serenidade e firmeza, a condução dos trabalhos permitiu restabelecer a ordem da Casa e garantir o respeito ao rito legislativo. Seguimos rumo a um parlamento cada vez mais forte e um país que respeita suas instituições, mas, sobretudo, seu povo!”.


O deputado Thiago de Joaldo informou que “vejo que o presidente Hugo Mota já está adotando as medidas cabíveis para que não ocorra novamente. A situação política belicosa instalada em nosso país tem gerado muitas vítimas. A democracia, na essência da sua etimologia e sentido, tem sido a mais afetada. Ambos os lados da briga, a pretexto de defendê-la, fragilizam-na cada dia mais”.



*ATUALIZAÇÃO: a reportagem foi atualizada às 9h34 desta quinta-feira, 14, com a manifestação do deputado federal Thiago de Joaldo, inserida no último parágrafo.

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Wendal Carmo

Editor-chefe da Mangue Jornalismo. É jornalista investigativo (DRT 2796/SE) com atuação na cobertura de política, direitos humanos e judiciário. Também colabora com a revista CartaCapital direto de Sergipe.Já trabalhou nas redações do Correio Sabiá, da revista In Magazine do Expresso Jornalismo. Foi vencedor nacional do Expocom 2024, na categoria “reportagem em jornalismo impresso”, e finalista do Prêmio Mosca 2025 com dois trabalhos. Apaixonado por café e pelos bastidores do poder, está sempre em busca de historias cativantes para contar. Também é membro do Conselho Gestor do Centro de Estudos em Jornalismo e Cultura Cirigype.

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