
Foi divulgada na manhã desta quinta-feira, 24, a 19ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. O estado de Sergipe aparece com um destaque negativo. O município de Itabaiana, 53 km de Aracaju, é a cidade que lidera no Brasil os casos de letalidade policial.
Em 2024, naquela cidade, foram registradas 41 mortes violentas, sendo que 31 delas foram produzidas pela própria polícia nos chamados “confrontos”, “troca de tiros”, “reação à injusta agressão”. A pesquisa mostra que 75,6% de todas as mortes violentas em Itabaiana em 2024 foram provocadas por agentes da Segurança Pública. Em 2023, o percentual foi 63%.
As cidades de Santos e São Vicente, ambas em São Paulo, aparecem como segunda e terceira mais violentas no quesito da letalidade policial, com um percentual de 66,1% cada uma. A média de “uso desproporcional da força policial” e que resulta em morte é de 14%.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública é um documento elaborado por pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e todos os números são oficiais, fornecidos por órgãos do Estado.
Vale registrar que no ano passado o número de mortes violentas intencionais (MVI) caiu 5,4% em todo o país. Entre as MVI estão homicídio doloso (incluindo feminicídios), roubos seguidos de morte (latrocínios), lesão corporal seguida de morte, mortes decorrentes de intervenções policiais e mortes de policiais em serviço e fora dele.
Mesmo com redução de mortes, Sergipe é 4º colocado em letalidade policial
Para Samira Bueno, diretora executiva do FBSP, “o uso da força letal por parte de alguns estados da federação continua a ser um fator estrutural da violência letal no país. Mesmo diante de reduções gerais nas MVI, o Brasil ainda falha em garantir padrões mínimos de controle institucional da ação policial, revelando o peso das escolhas político-institucionais na gestão da segurança pública”.
Segundo outro levantamento, desta vez do Ministério da Justiça (Mapa da Segurança Pública 2025), as polícias em Sergipe foram responsáveis em 2024 pelas mortes de 145 pessoas suspeitas de crime. Em números absolutos, em Sergipe há mais mortes produzidas pelas polícias do que em 17 outros estados, a exemplo do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pernambuco.
De 2020 até o ano passado, foram 955 pessoas mortas em Sergipe suspeita de algum crime e que teriam entrado em “confronto” com a polícia. Para cada morte nessa condição de “troca de tiro”, espera-se por um inquérito da própria polícia e, quando há, sempre termina arquivado com a atribuição da culpa quase que invariavelmente ao morto.
Apesar da redução de 36,6% na redução de mortes por intervenção de agentes do estado no ano de 2024, Sergipe registrou uma taxa de 6,33 mortes de suspeitos “em confronto” para cada 100 mil habitantes, deixando o estado na 4ª colocação nesse item. Enquanto isso, a média nacional dessa taxa é de 2,9. As três polícias mais letais estão no Amapá (17,1), Bahia (10,5) e Pará (7,0).
Em todo o ano de 2024, foram 145 mortes pela polícia em Sergipe de pessoas suspeitas de crime. Em todos os casos se alegou “confronto”. Os dados da SSP/SE revelam que também no ano passado nenhum policial foi morto em serviço e dois foram mortos fora de serviço. O documento da FBSP aponta que 170 policiais foram assassinados em 2024 no Brasil. Já o número de policiais civis e militares que tiraram as próprias vidas foi de 126, quase o triplo daqueles mortos em serviço (46). “Esse dado de suicídios nas corporações aponta para a importância de as forças policiais buscarem cada vez mais programas de apoio psicológico para esses profissionais”, defende Samira Bueno.

Crescimento de mortes em Itabaiana por intervenção policial
Com base nos dados oficiais da Secretaria de Segurança Pública de Sergipe, pode-se constatar um crescimento ao longo dos anos de mortes causadas pelas polícias no município de Itabaiana. No ano de 2020, por exemplo, foram registradas 69 mortes naquela cidade, sendo que 12 foram produzidas pelos agentes de segurança e todas com a alegação de “confronto”. Quatro anos depois, em Itabaiana o número total de mortes reduziu de 69 para 41, mas se inverteu a autoria. Das 41 mortes de 2024, 31 foram por ação policial. Ao todo, em 2020 foram 69 mortos, 51 em 2021, 53 em 2022, 46 em 2023 e 41 em 2024. Veja o gráfico.

E os casos de letalidade policial não param em Itabaiana. No dia 19 de janeiro deste ano, por exemplo, ocorreu uma operação comandada pela delegacia regional para, segundo nota da SSP/SE, prender “um grupo criminoso especializado em diversos crimes na região”. Foram localizados três homens investigados por homicídios, tráfico de drogas e roubos que “entraram em confronto e vieram a óbito na operação. Todos os investigados são oriundos de Pernambuco e estavam na região na tentativa de dominar o tráfico de drogas, mediante violência contra os rivais”, informa a SSP/SE. Não se divulgou os nomes dos suspeitos.
No dia 26 de abril, a delegacia de Itabaiana cumpriu mandados sobre roubos de cargas. Segundo a polícia, um grupo era especializado em assaltos, receptação e adulteração de sinais identificadores de veículos. “Durante o cumprimento dos mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão, dois alvos reagiram à abordagem policial, efetuando disparos de arma de fogo contra as equipes. Ambos foram alvejados, socorridos ao hospital, mas não resistiram aos ferimentos”, diz a SSP/SE. Não há nomes dos suspeitos.
Na semana passada, 15 de julho, a delegacia em Itabaiana saiu em busca de Aélio Oliveira Santiago, o “Fiscal”, que seria investigado por tráfico de drogas no município. “No momento da abordagem, o investigado reagiu de forma violenta, fazendo uso de arma de fogo. Diante da ameaça iminente, houve confronto, e o suspeito foi atingido. A equipe policial prestou socorro imediato, conduzindo o homem ao Hospital Regional de Itabaiana, onde, apesar do atendimento médico, ele não resistiu aos ferimentos”, informou a SSP/SE.
Outros dados sobre segurança pública em Sergipe
Segundo o Mapa da Segurança Pública 2025, Sergipe reduziu em 18,3% os homicídios em 2024, ou seja, 80 mortes a menos. Também houve queda de 37,5% de casos de feminicídio. Apesar disso, saltam aos olhos outros dados. Por exemplo, o estado registrou 672 tentativas de homicídio em 2024, o que equivale a 29,3% para cada 100 mil habitantes. O estado ficou na 8ª colocação no país nesse quesito, atrás do Espírito Santo, Rondônia, Mato Grosso, Amapá, Roraima, Acre e Tocantins, respectivamente. A média no Brasil foi de 19,2%.
Outro item em que Sergipe não vai bem é sobre mortes a esclarecer sem indício de crime. Em 2024, o estado teve 425 mortes nessa condição, com taxa de 18,5 para cada 100 mil habitantes. A média brasileira foi de 7,02. A taxa no estado coloca Sergipe na 5ª colocação, ficando atrás do Mato Grosso do Sul, Rondônia, Alagoas e Tocantins, respectivamente.
A jurista Andréa Depieri, professora do Departamento de Direito da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e reconhecida como uma das maiores especialistas em Segurança Pública no país, chama a atenção de que muitos dados chegam em boletins de ocorrência, em especial na Polícia Civil. “Outro aspecto é considerar sempre uma significativa taxa de subnotificação. Nem todos os crimes são levados ao conhecimento de autoridades”, lembra.
A professora destaca que o aumento de registros relativos a um determinado delito pode refletir não necessariamente o aumento das infrações, mas uma melhora no atendimento dos serviços policiais. Ela lembra dos crimes contra as mulheres: “quanto mais a estrutura de atendimento se aperfeiçoa e quanto mais se alastra a compreensão de que a violência contra a mulher não é algo a ser tolerado, mais registros são efetuados”, avalia.

SSP/SE: dados confirmam avanço de Sergipe na redução da violência
Reproduzimos a nota encaminhada pela SSP/SE e publicada na Mangue Jornalismo quando da divulgação do Mapa da Segurança Pública 2025, do Ministério da Justiça. Segundo a secretaria, os dados “confirmam o avanço consistente de Sergipe na redução da violência. O estado registrou uma queda de 18,3% nos homicídios dolosos, com 80 mortes a menos em relação a 2023, e uma redução de 37,5% nos casos de feminicídio — o segundo melhor resultado do país”.
Sobre a letalidade policial, a secretaria informou que “embora Sergipe ainda esteja entre os quatro estados com maiores taxas, houve uma redução significativa de 36,6% nas mortes decorrentes de intervenção policial. Esse resultado mostra que o estado está avançando de forma firme e contínua nesse indicador”.
A nota informa que “a redução é fruto de uma série de medidas adotadas pela gestão da Segurança Pública, entre elas: capacitação constante dos policiais, com ênfase em uso proporcional da força, mediação de conflitos e direitos humanos; atualização dos protocolos operacionais, priorizando a preservação da vida; investimento em tecnologia e inteligência policial, que proporciona operações mais estratégicas e com menor risco de confronto; e a integração entre as forças de segurança, com foco na prevenção, investigação e combate ao crime de forma qualificada”.
A SSP/SE garante que “o trabalho é realizado com o acompanhamento direto do Ministério Público e do Poder Judiciário, que têm acesso pleno às informações das ocorrências e participam ativamente do controle institucional, fortalecendo a transparência e a legalidade nas ações”.
A secretaria ainda afirma que “Sergipe não só apresenta uma queda histórica nos homicídios — saindo de quase 70 mortes por 100 mil habitantes em 2016 para menos de 16 em 2024 — como já superou a meta nacional prevista para 2030 pelo Ministério da Justiça. Além disso, o estado tem se consolidado como referência nacional na redução da violência letal e no enfrentamento qualificado ao crime organizado, mantendo-se fora da rota das grandes facções criminosas que atuam em outras regiões do país”.
A nota conclui informando que a SSP/SE “reafirma seu compromisso com uma segurança pública cidadã, moderna e eficiente, pautada na proteção da vida e no combate estratégico à criminalidade”.
TRANSPARÊNCIA. Acesse AQUI todo o Anuário Brasileiro da Segurança Pública 2025


