A Mangue Jornalismo conversou com o mestre em Economia (UFS) Iargo Souza sobre as possíveis repercussões para o setor energético brasileiro e sergipano dos bombardeios em países da Península Arábica e no Golfo Pérsico, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo do mundo
No sábado, dia 28 de fevereiro, Israel e Estados Unidos bombardearam o Irã alegando que o país estaria muito próximo de conseguir fabricar bombas nucleares. O ataque aconteceu em meio a negociações diplomáticas sobre o programa nuclear do Irã, cujo uso bélico alegado pelos EUA e Israel é contestado não só pelo governo iraniano, como também por agências internacionais especializadas no tema.
O fechamento do Estreito de Hormuz pelo Irã (02), a suspensão das atividades de refinarias de petróleo na Arábia Saudita e da empresa QatarEnergy, maior produtora de gás do mundo, pressionam outros países produtores de hidrocarbonetos, caso do Brasil. Sergipe possui 20% das reservas brasileiras conhecidas de gás fóssil; cerca de 33% da energia elétrica consumida no estado provém das 42 termelétricas a gás sediadas em solo sergipano. Apesar de explorar gás, o Brasil não tem autossuficiência, e por isso importa de países como Argentina e Bolívia.
A Mangue Jornalismo conversou com o pesquisador sobre petróleo e gás Iargo Souza, mestre em Economia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Segundo ele, “No nosso país, a pressão atual tende a possibilitar o aceleramento de projetos [de extração de hidrocarbonetos], novos leilões de petróleo, novas fronteiras de exploração e inclusive a exploração na Margem Equatorial, a etapa quatro do Pré-Sal e o Sergipe Águas Profundas [SEAP]”.
Em caso de vazamento de petróleo, a exploração na chamada Margem Equatorial tem grande potencial de poluir a foz do Rio Amazonas. Já o projeto Sergipe Águas Profundas, previsto para 2030, é bastante criticado por povos costeiros e ribeirinhos sergipanos, que sofreram as consequências do vazamento de petróleo que tomou a costa nordestina em 2019.
Para o pesquisador, o cenário será aproveitado pelo lobby pró-gás e petróleo em Sergipe, apesar de ser o uso de combustíveis fósseis a principal fonte de gases do efeito estufa, que elevam a temperatura média da Terra e causam eventos climáticos extremos como enchentes e ondas de calor.
Abaixo você pode ler a entrevista completa.
MANGUE JORNALISMO – Qual o papel do petróleo e do gás fóssil na situação que se desenrola desde sábado (28/02) no Oriente Médio?
IARGO SOUZA – Quando a gente olha para o Irã, os discursos têm a ver com o regime ser um “regime do mal” que ameaça a existência de Israel e dos Estados Unidos, sendo que o país não tinha atacado ninguém na região há muitas décadas. O Irã vinha, inclusive, em processos importantes de negociação, fechou acordos com o governo Obama.
O Irã tem quase 12% das reservas de petróleo do mundo, está atrás somente da Venezuela e Arábia Saudita [algumas estatísticas o colocam em quarto, atrás do Canadá]. Naquela região ali, estão concentradas 46% das reservas de petróleo (quando a gente considera Arábia Saudita, Kuwait, Emirados Árabes, Irã e Iraque).
A guerra do Iraque [invadido pelos EUA em 2003] já permitiu aos Estados Unidos o acesso importante à reserva de petróleo naquela região. A gente sabe que a guerra do Iraque foi feita por essas reservas de petróleo. As negociações com o novo governo da Síria, a aproximação dele com os Estados Unidos, também tem a ver com o acesso a algumas reservas de petróleo na Síria, que são bastante menores. Do mesmo modo, a Líbia, que tem quase 3% das reservas de petróleo, teve seu regime destituído com a intervenção da OTAN [em 2011].
A Arábia Saudita tem uma relação muito estreita com os Estados Unidos, é garantidora de fornecimento de petróleo e de petrodólares para a economia americana. Vale dizer que o Irã tem esse tamanho de reserva e também uma produção muito grande, diferentemente da Venezuela.
Os Estados Unidos tem a maior produção, depois a Arábia Saudita, a Rússia, Canadá e Irã, isso com os dados de 2023. Depois vem Iraque, China, Emirados Árabes Unidos, Brasil e Kuwait.
A NIOC, que é a National Iranian Oil Company, é a segunda maior empresa produtora de petróleo do mundo, só está atrás da Saudi Aramco, da Arábia Saudita. Essa produção atende a economia interna do Irã, uma fração muito pequena disso é para seu consumo, e a outra parte é para ser exportada. Agora, como é que isso é exportado se tem um conjunto de sanções enormes no país? O petróleo sai particularmente para a Ásia, especificamente para a China, maior consumidor do petróleo iraniano. Mesmo com sanções, o que se sabe é que eles conseguem desenvolver esse comércio com dificuldade, mas o petróleo é vendido e mantém o financiamento da economia do país.
Pensando nisso tudo, em todos esses elementos, o controle das reservas de petróleo pelos Estados Unidos – pelas empresas estadunidenses – tem estado na linha de frente de suas ações militares nas últimas décadas. Se a gente pensar em todas as intervenções dos Estados Unidos na região e em outros países que possuem reservas de petróleo, eu diria que tem tudo a ver o petróleo com o que está acontecendo agora.
A própria defesa do Irã, no ataque a algumas instalações de petróleo na região, e particularmente com o fechamento do Estreito de Hormuz, quer demonstrar o quanto que, para a indústria do petróleo e, consequentemente, para a economia global, aquilo ali pode virar um inferno. A QatarEnergy [maior empresa de gás do mundo] anunciou a suspensão da produção alegando que sua refinaria foi atingida.

O grande conflito que a gente tem hoje, já lá nas portas da Europa, que é a guerra Rússia e Ucrânia, começa em 2022 – e a questão do gás é central nessa guerra. Uma das primeiras coisas que foi feita foi a inviabilização do gasoduto Nord Stream 2, que faria o escoamento de gás da Rússia para a Europa. A Europa enfrentou um inverno bastante difícil nos primeiros períodos da guerra. Uma parte da produção de gás que abastecia a Europa precisou vir de outros lugares via navios gaseiros, inclusive da Península Arábia/Golfo Pérsico.
O sequestro do presidente Nicolás Maduro tem totalmente a ver com o petróleo venezuelano e dito com todas as letras pelo presidente estadunidense de que eles estavam lá para pegar o petróleo da Venezuela, embora o regime chavista tivesse negócios com empresas americanas, particularmente a Chevron, mas talvez não no tamanho que os Estados Unidos gostariam. A colaboração da presidente interina da Venezuela [Delcy Rodríguez] com o governo estadunidense tem tudo a ver com o acesso dos Estados Unidos às reservas de petróleo.
MJ – Lembrando das principais crises do petróleo, nomeadamente a Guerra Árabe-Israelense de 1973, a Revolução Iraniana, a Guerra do Golfo e a Invasão do Iraque em 2003, o que esses episódios ensinaram sobre as dinâmicas econômicas relacionadas ao petróleo e gás?
IA – A guerra Árabe-Israelense de 1973 vai dar no choque do petróleo quando os países, inclusive o Brasil, buscaram um nível maior de autossuficiência na produção de petróleo, justamente por conta da volatilidade nessa época específica, com a alta dos preços chegando a comprometer o atendimento da necessidade de petróleo do país.
Em 1975, a gente tem no Brasil as campanhas exploratórias, inclusive com flexibilização do monopólio. O governo Médici entrega para as empresas estrangeiras a prospecção para ver se achava petróleo para aumentar a produção do país e a intensificação da exploração no mar do Brasil, a abertura de novas fronteiras de pesquisa e tal. Isso leva às grandes descobertas de campos de petróleo no país. Essas situações de restrição de oferta, para usar o jargão da economia, podem ser gravíssimas.
O passado demonstra isso, de que a alta dependência e a luta pelo controle desse recurso é estratégico para o desenvolvimento do capitalismo. As empresas imperialistas estadunidenses se espalham pelo mundo todo por meio de guerras para poder ter o controle das reservas de petróleo. Esses eventos que você narrou são demonstrações disso. Os eventos mais recentes são um pouco a continuidade disso e até a desesperança sobre haver alguma intenção em diminuir o uso de combustíveis fósseis.
A gente já conversou em outras oportunidades sobre se existe ou não uma transição energética ou as possibilidades dessa transição energética. Eu acho que esses conflitos mais recentes demonstram que não há transição nenhuma. Pode até ter uma sobreposição energética ao uso de outras fontes e tal, mas o controle do petróleo segue sendo estratégico para um mundo cada vez mais em crise, em vários sentidos. E, por isso mesmo, as disputas se tornam mais intensas pelo controle desses recursos.
Para não deixar de usar os memes que têm circulado na internet, que são uma linguagem importante também, os Estados Unidos têm sorte de que todos os países para os quais eles vão levar a democracia têm petróleo, é uma “coincidência interessante”.

Essa situação eleva a pressão sobre todos os países produtores de petróleo, inclusive o Brasil. Então, se você tem a perspectiva de uma restrição de médio e longo prazo na oferta do petróleo barato, que é o petróleo da região do Golfo Pérsico/Península Arábica, já é esperado que o atendimento da demanda mundial, que está em torno de 100 milhões de barris por dia, seja em parte suprida por países que estão fora da OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo].
No nosso país, essa pressão tende a possibilitar o aceleramento de projetos, novos leilões de petróleo, novas fronteiras de exploração e inclusive a exploração na Margem Equatorial, a etapa quatro do Pré-Sal e o Sergipe Águas Profundas [SEAP].
MJ – Que tipo de repercussões a nível prático você acha que essa situação terá para Sergipe?
IA – Há desde 2016 um estímulo que primeiro começou com o programa Gás para Crescer, depois a gente teve a Nova Lei do Gás [de 2021] que foram instrumentos institucionais para tentar ampliar a produção de gás natural no país.
O gás natural passa a ser tratado como um combustível de transição. Antes da gente chegar à descarbonização – ou seja, de abandonarmos o combustível fóssil – a gente vai usar o gás natural, que emite menos, particularmente emite menos partículas de enxofre e um pouco menos de CO2.
Os acontecimentos na região do Irã, particularmente o anúncio da QatarEnergy suspender sua produção, eu acho que entra no mesmo marco dessa pressão que eu estava falando.
No caso do Brasil, a gente não tem, digamos assim, uma produção de gás para exportação. Nós ainda somos importadores de gás. A gente importa gás da Bolívia, a Eneva começou a importar gás de Vaca Muerta, na Argentina.
Outra coisa é que o transporte de gás é um problema complexo e importante, porque ele é feito via dutos (nesse caso a nossa exportação, se a gente chegar nesse nível, seria para os nossos vizinhos), transporte via navios gaseiros ou terminais de regaseificação. Não temos uma frota de navios para isso, porque nós somos um país importador de gás.
O que eu acho é que aumenta essa pressão pelo aumento da produção, e aí tanto o Pré-Sal quanto Sergipe estão nessa lógica de que aqueles que estão interessados em que o projeto comece a rodar o mais rápido possível vão pressionar para que isso aconteça o quanto antes, com o argumento de que a gente não pode ficar refém dos preços do mercado internacional.
Nesse sentido, eu acho que o argumento vai ser muito mais pensar a situação internacional como uma restrição de oferta para a defesa dos projetos de aumento de produção para consumo interno no nosso país.
MJ – Caso a guerra perdure por cinco, seis meses, isso pode pressionar as indústrias daqui de Sergipe?
IA – A indústria já está pressionada, e não é pouco, pelo preço interno do transporte de gás, pelo abuso das empresas multinacionais que adquiriram a malha da Petrobras – a TAG [Transportadora Associada de Gás S/A] e a NTS [Nova Transportadora do Sudeste S/A] – que foram vendidas dos anos 2020, 2019, para cá.
Há pouco tempo, eu estava vendo no Senado uma audiência pública que tinha o grande fiador do mercado do gás, o senador Laércio Oliveira (PP-SE), e os setores da indústria chorando as pitangas quase que desesperados em relação às tarifas cobradas pelas transportadoras de gás.
Essas transportadoras eram todas estatais e foram privatizadas com o argumento de que haveria concorrência, de que haveria queda de preço. Hoje, a indústria brasileira que depende do gás está lá chorando as pitangas por conta do abuso que é para ter acesso à estrutura de transporte e carregamento de gás.
A outra coisa é que, em Sergipe, nós já tivemos momentos extremamente dramáticos por conta do preço do gás. Não podemos esquecer da crise da Fafen [Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados] dos anos 2020 para cá. Ela está retomando suas atividades agora e isso foi atribuído ao preço do gás. Nós não podemos esquecer que um industrial se suicidou na frente do governador Belivaldo Chagas por conta do preço do gás cobrado para a Escurial, uma fábrica de cerâmica.
Também tem, por exemplo, as fábricas de cimento e atendimento domiciliar, embora o gás que vai para as casas seja gás liquefeito de petróleo, um derivado do petróleo que também pode ser tirado do gás natural.



