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Governo militar reprimiu estudantes em Sergipe que resistiam à ditadura com greves e passeatas. Veja o congresso de Ibiúna e a lista dos presos

CRISTIAN GÓES, da Mangue Jornalismo

Depois de trazer as primeiras informações da dura repressão do golpe civil-militar de 1964 e da ditadura implantada aos integrantes do Movimento de Educação de Base (MEB) em Sergipe, a Mangue Jornalismo apresenta hoje o processo de resistência e de repressão contra estudantes e suas organizações.

Esta já é a sexta reportagem sobre o golpe e a ditadura em Sergipe e que foi produzida a partir do relatório final da Comissão Estadual da Verdade (CEV/SE), organizado por Andréa Depieri e Gilson Reis. O grupo realizou trabalhos entre 2016 a 2019 e teve o apoio e colaboração de várias pessoas e entidades.


O movimento estudantil e o golpe de 1964

A partir do golpe de 1964, o movimento estudantil brasileiro passou a ser visto como ameaça ao regime político vigente. Por essa razão, o governo militar procurou controlar as entidades estudantis por meio do Ministério da Educação, substituindo o Decreto “Café Filho” — que regia os órgãos de representação universitária — pela Lei 4.464/1964, a lei conhecida como Lei Suplicy, então ministro da Educação na época.

A Lei Suplicy impôs uma nova organização estudantil em cada universidade: diretórios acadêmicos, diretórios centrais, diretórios estaduais. Nacionalmente, era implantado o Diretório Nacional dos Estudantes (DNE) para substituir a União Nacional dos Estudantes (UNE).

A nova legislação proibia expressamente que os órgãos de representação estudantil promovessem “qualquer ação, manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, bem como incitar, promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhadores escolares”. Naquela época eram comuns as greves estudantis.

A UNE, que tinha ido para ilegalidade com a Lei Suplicy, mas não deixou de atuar, teve um papel importante nas mobilizações de 1968. O assassinato do estudante secundarista Edson Luís, 29 de março de 1968, no Rio de Janeiro, gerou inúmeras manifestações pelo país promovidas pela UNE, como atividades nas grandes cidades como a famosa “Passeata dos Cem Mil”, no Rio de Janeiro.


Estudantes de Sergipe fizeram atos sobre o assassinato de Edson Luís

No dia seguinte à morte do secundarista Edson Luís, estudantes, sindicalistas, intelectuais realizam manifestações nas cidades de Salvador, Belo Horizonte, Goiânia e Porto Alegre. Foram registrados choque com as forças policiais. O episódio fez com que a UNE decretasse greve geral dos estudantes.

O movimento estudantil sergipano também convocou manifestações similares em Aracaju, no dia 02 de abril de 1968 para denunciar a ditadura e o assassinato de Edson Luís. No ato compareceram estudantes secundaristas e universitários, lideranças sindicais, políticas e representantes dos movimentos sociais.

A passeata em Aracaju saiu da Praça Camerino percorrendo algumas ruas do centro da cidade, em direção à Praça Olímpio Campos, onde foi celebrada uma missa campal em frente à Catedral Metropolitana. As manifestações transcorreram normalmente, com tranquilidade e sem incidentes.

Não obstante, forças policiais estavam nas ruas da cidade; além da vigilância à distância, havia militares armados nas ruas e também estrategicamente colocados em prédios públicos, como no prédio onde funcionava a Assembleia Legislativa de Sergipe e no Palácio Olímpio Campos, ambos localizados na praça Fausto Cardoso, região central da capital sergipana.


Resistência e rumo ao Congresso da UNE em Ibiúna

Também em 1968, a despeito da sua ilegalidade, aconteceu o XXX Congresso Nacional da UNE, no sítio Murundu, município de Ibiúna/SP, onde cerca de 700 estudantes foram presos, dez destes detidos eram da delegação de Sergipe.

Mesmo com toda a repressão, a mobilização estudantil acontecia em Sergipe, como pode ser observado no depoimento da jornalista Ilma Fontes à CEV/SE.

Os estudantes universitários sergipanos estavam conectados com o que se debatia nacionalmente e mantinham-se vinculados à UNE. Os secundaristas não ficavam atrás. Politizados, eles fizeram greve no Colégio Atheneu por ocasião do assassinato do estudante Edson Luís, assumindo a frente das manifestações:

“O governador era Lourival Batista e foi um grande movimento. Foi um momento que a gente viu a juventude se mobilizar. Mas em Sergipe, o movimento universitário ia a reboque do secundarista, porque tínhamos muito mais ativistas no movimento secundarista, que no movimento universitário. Da Faculdade de Medicina mesmo tinha pouca gente. Era bem pouca gente e para dar a cara então, aí é que não sobrava”, disse Ilma.

“Com a morte de Edson Luís, teve uma movimentação séria no Atheneu, nós acampamos no Atheneu por dez dias. Nessa greve foram presas quatro pessoas, inclusive um professor holandês, que estavam fazendo pedágio para arrecadar comida, coisa e tal, para levar para o pessoal que estava acampado no Atheneu. Quando o holandês foi preso, a gente conseguiu escapar”, contou Ilma à CEV/SE em maio de 2016.

A reunião citada por Ilma Fontes é referente às atividades preparatórias do XXX Congresso da UNE que aconteceu em outubro de 1968 na cidade de Ibiúna. Apesar da ilegalidade, a preparação para o congresso se deu com debate político e eleição de delegados. Apesar de não ter ido à Ibiúna/SP, Ilma Fontes participou da reunião regional, em Salvador, juntamente da delegação sergipana.

“A reunião que a princípio seria aberta, na Faculdade de Filosofia, mas estouram duas bombas. Então, os padres do Convento Nossa Senhora do Carmo cederam o espaço e a gente ficou alojado ali no convento durante essa preparatória. Tivemos uma divergência com Wellington Mangueira com o andamento, e aí eu e Mário Jorge saímos do Congresso”, afirmou Ilma Fontes.


Congresso da UNE, repressão e prisão

O congresso em Ibiúna aconteceu em outubro de 1968, em meio a uma enorme tensão política. A movimentação libertária da juventude internacional ecoava também no Brasil. Na França, estudantes pediam uma reforma radical no setor educacional e, mais tarde, essa movimentação ganhou a adesão de trabalhadores. Juntas, as classes fizeram uma greve nacional que contou com a participação de quase nove milhões de pessoas, chamando a atenção do mundo inteiro.

Nos Estados Unidos, estudantes pediam o fim da Guerra do Vietnã. Entre as principais pautas do movimento estudantil no congresso da UNE daquele ano estavam críticas ao imperialismo estadunidense, a repressão aos trabalhadores e a política entreguista, de venda do território nacional.

Segundo o historiador Ibarê Dantas, os estudantes sergipanos se mobilizaram para financiar a viagem: passaram livro de contribuição, saíram às ruas para “pedir pedágio” e distribuíram um manifesto com as principais aspirações do período.

Ilma Fontes citou, em depoimento para os membro da CEV/SE, três nomes que possibilitaram também o financiamento da ida de alguns estudantes à Ibiúna: o dono da Fábrica Confiança, Joaquim Sabino Ribeiro Chaves, o deputado Jaime Araújo e ainda o arcebispo de Aracaju, Dom José Vicente Távora.

Já as tratativas para a participação dos estudantes sergipanos foram feitas por José Carlos Novais da Mata Machado, diretor da UNE; João Augusto da Gama Silva, então presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFS; e Wellington Mangueira.

A delegação sergipana foi composta por dez universitários: João Augusto Gama da Silva, Benedito de Figueiredo, Wellington Dantas Mangueira Marques, Antônio Vieira da Costa, José Alves do Nascimento, João Bosco Rolemberg Cortes, Janete Correia de Melo, José Jacob Dias Polito, Elze Maria dos Santos e Laura Maria Tourinho Ribeiro.

“O vice-presidente da UNE, Zé Carlos Novaes Machado, que foi a pessoa que nos trazia as informações, inclusive, nos trouxe a senha pra nós acessarmos ao Congresso da UNE, que depois lá nós soubemos seria em Ibiúna. Zé Carlos, esse rapaz, era ligado à Ação Popular, depois mudou, e foi estupidamente assassinado”, contou João Augusto da Gama à CEV/SE em abril de 2016.

Tão logo se iniciou a movimentação em âmbito nacional para a organização desse congresso, o Departamento de Ordem Política Social (DOPS) de São Paulo montou uma operação em conjunto com forças policiais de outros estados, a exemplo de Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. O intuito era monitorar, prender delegados de todo o país e, enfim, desarticular a UNE.

A operação desenvolvida para Ibiúna ocorreu em três fases: a primeira consistiu monitoramento e apreensão de informações sobre a realização do congresso; a segunda foi a detenção dos estudantes por parte de 95 agentes durante o congresso; e a terceira foi a instauração do inquérito para investigação e posterior processamento e condenação dos participantes.

Assim, no interior de São Paulo, cerca de 700 universitários foram presos, entre eles os estudantes que compunham a delegação sergipana.


Violências e prisão de estudantes

O relatório da operação constou “uma ação rápida, sem violência, fulminante”. Mas, não foi assim. A Folha de S. Paulo, de 13 de outubro de 1968, mostra que os estudantes foram cercados, tendo sido disparadas “algumas rajadas de metralhadora para o ar, para intimidá-los”.

Em depoimento prestado para a CEV/SE, o então estudante à época, Benedito Figueiredo, expôs como se deu a ação truculenta dos agentes militares que cercaram, agrediram e prenderam os estudantes.

“Ao amanhecer, nós somos surpreendidos por tropas, e tinha uma segurança. A segurança ficava nos morros quando chegava, segurança coisa nenhuma. Porcaria, um ou dois revólveres! E aí, eles cercaram, e era assim: tinha um morro e a gente ficava lá embaixo numa tenda, discutindo, discutindo, discutindo e então eles cercam sob o comando do coronel Erasmo Dias que posteriormente é deputado estadual e federal”, lembra Benedito Figueiredo.

“E aí era tiro de metralhadora, tiro por tudo quanto é lado. Correr para onde, se você estava em um vale? Eles cercaram esse vale, eles tinham informações de que a gente estava ali reunido. Aí começa realmente uma fase de enorme sofrimento. Primeiro pela humilhação, as pessoas se dirigiam a gente como se fossem uns marginais mesmo, com chutes, com agressões verbais, com isso e aquilo”, disse Figueiredo.

Polícia paulista solicita ao DOPS/SE antecedentes “políticos sociais” dos sergipanos presos em Ibiúna (Reprodução: CEV/SE)
Sergipanos indiciados pela participação no Congresso Ibiúna (Reprodução CEV/SE)

Presos, os universitários realizaram greve de fome como forma de pressionar o governo a libertar o grupo. Muitas mães dos estudantes de diferentes estados se concentravam diariamente, ao lado da imprensa nacional e estrangeira, nas portas do Presídio Tiradentes. O intuito era denunciar a arbitrariedade das detenções e exigir a libertação dos seus filhos.

“Eu volto a me reunir com os companheiros e resolvemos fazer uma greve de fome e fizemos uma greve de fome de não menos que 48h a 72h. Era uma coisa realmente difícil, era uma forma de a gente mostrar às nossas famílias que estavam em Aracaju, que a gente estava preso, contou Benedito Figueiredo.

As prisões de Ibiúna também serviram, posteriormente, para alimentar o “banco de dados” da repressão política. Muitos dos estudantes que participaram do Congresso da UNE foram identificados, fichados e fotografados ainda no sítio Murundu, servindo como “indício” de envolvimento com o comunismo.

Em seu depoimento à CEV/SE, Bosco Rolemberg conta que, quando foi preso em 1974, em Pernambuco, a fotografia utilizada para identificá-lo foi originária do processo gerado a partir de Ibiúna.

Os estudantes detidos no congresso de Ibiúna responderam a processo criminal perante a Justiça Militar, denunciados por estarem promovendo o funcionamento de associação dissolvida, o que violava a Lei de Segurança Nacional.

A Operação Ibiúna deu origem a quatro diferentes processos-crime, três deles instaurados em face das lideranças. Já no processo crime nº 67/68, foram denunciados 694 estudantes, dos quais 672 tiveram declarada a extinção de punibilidade pela prescrição da ação penal, em decisão da 2ª Auditoria da 2ª CJM/SP, de 15/12/1972, dentre eles os membros da delegação sergipana.

Fotos e dados dos sergipanos em Ibiúna e que estão no Inquérito Policial Militar

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Uma resposta

  1. Veridicidade dos fatos // Sou a filha de Dona Elze Maria dos Santos …. e sempre ouvimos as histórias e os fatos tenebrosos daquela época // Vou repassar a reportagens para o máximo de pessoas possíveis… pois , não podemos nos desdobrar a aos cabulosos pensamentos da Ditadura . Só em pensar que em 2023, ainda existe a falta da evolução política , e como o Brasil quase caiu no obscuro da ética, moral, credibilidade, humanidade… o que aconteceu nos últimos anos do Governo Bolso… e quase fizemos um aborto da evolução política, moral e de direitos o do nosso Brasil // PASSOU !! Tudo aquilo passou !!

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