Governo de Sergipe gastou R$ 143 mil com palestra de cantor e estudante de Pedagogia para professores

Leo Chaves, da dupla sertaneja Victor&Leo, recebeu mais que dois anos de salário de um professor da rede estadual. Governo também pagou R$ 53,9 mil por palestra virtual de Mário Sérgio Cortella.

A palestra do cantor sertanejo Leo Chaves foi realizada na última terça, dia 20, como parte da Jornada Pedagógica da Rede Pública Estadual de Ensino de Sergipe. (Crédito: Reprodução/SEED)

Mais de dois anos de salário de um professor estadual em começo de carreira foi o valor desembolsado pela Secretaria de Educação do Estado de Sergipe (SEED) para custear uma palestra de uma hora e 40 minutos de duração do cantor sertanejo Leo Chaves, da dupla Victor&Leo. 

Realizada na última terça-feira, dia 20, no Teatro Tobias Barreto, em Aracaju, a palestra de R$ 143.000,00 abriu a Jornada Pedagógica da Rede Pública Estadual de Ensino 2026, cujo público-alvo são os educadores e gestores da rede pública do Governo do Estado.

O cantor, em nota para a Mangue Jornalismo, disse que “sempre busquei me aprimorar em todas as minhas áreas de atuação. Por esse motivo, resolvi retomar os estudos e hoje curso faculdade de pedagogia”. Ele não informou onde faz esse curso e em que período se encontra.

A contratação de Leo Chaves foi feita por meio da Editora Chaves LTDA, empresa registrada na cidade mineira de Uberlândia em fevereiro de 2015 com capital social de R$ 10 mil e tendo como administrador o próprio cantor, que é também sócio do Grupo Chaves Participações LTDA, parte do quadro societário da empresa.

Essa contratação foi publicada no Diário Oficial do Estado em 15 de janeiro, apenas cinco dias antes da realização da palestra. Como justificativa, a SEED afirmou que “amplamente reconhecido em âmbito nacional, o palestrante possui atuação consolidada em eventos educacionais, corporativos e sociais destacando-se por uma metodologia própria que articula vivência, prática, sensibilidade humana e comunicação inspiradora”.

O contrato foi feito por inexigibilidade de licitação. O governo informou que “a contratação direta mostra-se plenamente justificada, em razão de sua [Leo Chaves] notória especialização, singularidade técnica e elevada relevância para o contexto educacional nacional”. 

A notória especialização referida pela SEED é um curioso “bacharelado em Coaching pela Florida Christian University e formação em Pedagogia”, sem mais detalhes sobre as instituições e as datas de conclusão dos cursos. A secretaria também afirma no Diário Oficial que o cantor “dedicou-se de forma sistemática ao estudo do comportamento humano, com ênfase na filosofia existencialista e vitalista”.

Também no mesmo dia da fala do cantor Leo Chaves, professores e gestores da SEED assistiram uma palestra virtual do professor Mário Sérgio Cortella. A MSCortrella Consultoria LTDA recebeu dos cofres do Governo do Estado o valor de R$ 53.900,00. Cortella falou sobre “Do medo à ação: como transformar a tecnologia em aliada na sala de aula”. Já o cantor sertanejo palestrou para os professores, abordando o tema “A grande arte de se reinventar”.

Palestra virtual de Cortella custou R$ 53,9 mil (Crédito: Reprodução/SEED)

A Florida Christian University (FCU), pela qual Chaves diz ter o título de bacharel em coaching, afirma em seu site oficial ter como missão “proporcionar Ensino Superior de forma prática e acessível, a profissionais e ministros, preparando-os para o cumprimento de suas vocações em bases cristãs”. 

Em 2016, o Governo do Rio Grande do Norte proibiu a atuação da FCU no estado devido a propaganda enganosa e por oferecer cursos sem validação no Brasil. Em fevereiro de 2023, pouco mais de um mês após a tentativa de golpe de Estado contra o presidente Lula, Jair Bolsonaro visitou a FCU em Orlando, recepcionado pelo presidente da instituição.

Em entrevistas, o sertanejo frequentemente menciona a Programação Neurolinguística, também conhecida pela sigla PNL, como parte importante de seus estudos no campo da inteligência emocional. Resumos sobre sua trajetória como palestrante destacam sua certificação em PNL pela Sociedade Brasileira de Neurolinguística (SBPNL), que define esse campo como uma série de métodos para descobrir “modelos mentais inconscientes, mas também para modificar esses padrões de pensamento e comportamento que podem estar limitando a realização pessoal e profissional”.  

Apesar de ter surgido na década de 1970 na Universidade da Califórnia em Santa Cruz, nos Estados Unidos, a PNL não possui grande respaldo científico e ficou mais conhecida por sua associação a treinamentos de coaches, como o brasileiro Pablo Marçal. 

Leo Chaves diz ter “educação como paixão” e que “cursa faculdade de pedagogia”

Procurado pela reportagem da Mangue Jornalismo, a assessoria do cantor enviou uma nota do próprio Leo Chaves afirmando ter “a educação como paixão desde sempre, e mesmo antes de fazer uma pausa na carreira da dupla com meu irmão, já buscava não só conhecimento, como também algumas formas de agregar”. 

O cantor informa que fundou “o Instituto Hortense, que já atendeu mais de um milhão de pessoas, com foco em educação socioemocional. E sobre este tema, escrevi dois livros, e com esta vivência e convivência ministro minhas palestras, sempre como convidado”.

Leo Chaves assegura que a palestra de abertura da Jornada Pedagógica em Sergipe “não tinha cunho PNL, se tivesse eu poderia estar ali, por ter o certificado”.

O cantor conclui a nota informando que “sempre busquei me aprimorar em todas as minhas áreas de atuação. Por esse motivo, resolvi retomar os estudos e hoje curso faculdade de pedagogia”.

A Mangue Jornalismo contatou a SEED para saber detalhes sobre a escolha do músico e quais as contribuições que a secretaria enxerga numa palestra como a dele, mas não houve resposta até o fechamento da reportagem. Por volta das 10 horas de hoje (22), a secretaria enviou uma nota para a Mangue e esta reportagem foi atualizada com a inserção da nota da SEED sobre a contratação. Leia abaixo..

Dois anos do salário de um professor 

Essas contratações acontecem em meio às reivindicações do magistério por abertura de diálogo, respeito à carreira e melhores condições de trabalho, o que inclui reajuste salarial e a garantia de ambientes adequados para a realização das aulas. 

O edital do concurso para professor estadual lançado pelo governo de Sergipe em setembro de 2025 informa que o salário inicial para a jornada de 200 horas mensais – média de 8h diárias nos cinco dias úteis da semana – é de R$ 5.142,15, o que resulta em R$ 61.705,80 de salário bruto pago a um professor em um ano. 

O valor acima é 43,15% do pagamento ao cantor Leo Chaves pela palestra na jornada pedagógica, ou seja, o sertanejo recebeu por uma hora e 40 minutos de trabalho o equivalente ao salário bruto de um professor da rede pública estadual por dois anos e um mês.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Estado de Sergipe (Sintese), Roberto Silva, declarou que o sindicato “repudia veementemente” a contratação. “É um desaforo, uma agressão ao magistério sergipano. Nós temos uma rede muito qualificada, com vários professores com mestrado e doutorado que poderiam contribuir enormemente para o debate pedagógico”. 

Roberto classificou como “pirotecnia” o gasto com a palestra e informou que o sindicato pedirá no Conselho do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) e nos órgãos de controle a devolução desse dinheiro para os cofres da educação. 

A reportagem encontrou outro contrato de palestra de Leo Chaves em janeiro deste ano pago com dinheiro público: o município de Sorriso, no Mato Grosso, desembolsou R$ 109,800,00 para o cantor ministrar palestra motivacional aos professores em evento de abertura do ano letivo que teve início ontem, dia 21 (quarta-feira). 

Nota da SEED sobre as palestras para a Jornada Pedagógica* 

A seguir, a nota na íntegra da SEED sobre as contratações dos palestrantes para a Jornada Pedagógica 2026.

A Secretaria de Estado da Educação (Seed) informa que anualmente realiza a Jornada Pedagógica 2026, evento que reúne equipes das 319 escolas da rede pública estadual para abrir os trabalhos de planejamento estratégico para o ano letivo. O evento tem como propósito central de oferecer espaços de diálogo, reflexão e atualização profissional, fortalecendo o compromisso dos educadores com uma educação transformadora e conectada com os desafios da contemporaneidade, fatos que credenciaram a definição de duas palestras na programação.

A abertura do evento contou com as palestras do filósofo Mário Sérgio Cortella e do palestrante de arte, educação e desenvolvimento humano, Léo Chaves. O investimento nas duas palestras foi de R$ 196.900,00 no total.

A primeira foi do professor e filósofo Mário Sérgio Cortella, que ministrou a palestra on-line com duração de 60 minutos, intitulada ‘Do Medo à Ação: Como Transformar a Tecnologia em Aliada na Sala de Aula’. Filósofo reconhecido por sua metodologia envolvente e didática, destaca-se pela capacidade de traduzir conceitos filosóficos e educacionais em reflexões aplicáveis à prática docente, promovendo engajamento e inovação pedagógica.

A palestra de Cortella apresentou-se como atividade estratégica e inspiradora, provocando reflexões profundas sobre a relação entre tecnologia e prática pedagógica, o papel do professor como protagonista da transformação educacional, defendendo a importância de alinhar saberes humanistas e tecnológicos em prol de uma aprendizagem significativa e completa.

O encerramento do evento ocorreu com o palestrante Léo Chaves, que apresentou a palestra presencial de cunho motivacional ‘A Grande Arte de se Reinventar’, com duração de 1h40. A temática abordou a importância da reinvenção diante de novos desafios, reforçando a necessidade de reinterpretar saberes e práticas por diferentes contextos educacionais. Léo Chaves tem participado de grandes eventos de educação no país, devido à sua experiência em palestras sobre propósito, neurolinguística, inteligência emocional, comportamento humano, filosofia e educação. Em Sergipe, sua participação promoveu reflexões sobre práticas pedagógicas e o papel transformador da educação, atitudes positivas e relações saudáveis no ambiente escolar, reforçando o compromisso do educador com sua missão social.

O palestrante estudou o comportamento humano e atualmente se dedica aos estudos de filosofia existencialista e vitalista, além de bacharelado em Coaching pela Flórida Christian University e Pedagogia. Além de músico, escritor e palestrante, Léo Chaves também possui atuação na área de educação, como CEO da EAI Educa e fundador do Instituto Hortense, com foco de atuação a formação e desenvolvimento de competências socioemocionais de professores, alunos, pais, familiares, parceiros e voluntários.

A abertura da edição de 2026 da Jornada Pedagógica aconteceu no Teatro Tobias Barreto, no dia 20 de janeiro, e, ao longo da semana, a programação segue em todas as 10 Diretorias Regionais de Educação. Este ano, o tema central é ‘Conectando saberes, transformando vidas’, com o foco no alinhamento de práticas educacionais, o uso de tecnologias em sala de aula e a preparação a rede para os desafios contemporâneos da educação. 



*REPORTAGEM ATUALIZADA ÀS 10 HORAS COM A CHEGADA DA NOTA OFICIAL DA SEED E QUE FOI PUBLICADA NA ÍNTEGRA.

Picture of Ana Paula Rocha

Ana Paula Rocha

É jornalista (DRT: 0002920/SE) e tradutora. Integra a 8ª geração da RedLatam de Jóvenes Periodistas de Distintas Latitudes e foi trainee de checagem da 2ª edição do Programa Mirante da Agência Lupa. Uma de suas reportagens para a Mangue foi finalista do Prêmio Megafone de Ativismo 2025, categoria mídia independente, e uma sobre emendas Pix em Sergipe ficou em terceiro lugar no 5° Prêmio INAC de Integridade, categoria comunicadores locais.

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Respostas de 8

  1. Um absurdo!!! Teriam que apoiar os profissionais do nosso estado, mas ,infelizmente, os de fora são melhores!!!

  2. Questionaram também os BILHÕES ganhos pelos artistas ESQUERDONAZISTAS via lei Ruanet?

    Pergunto: Vocês poderiam logo mudar o nome do jornal para:
    Mangue ESQUERDONAZISMO ou
    Mangue COMUNAZISMO
    ???????

  3. Ilustre professor Mario Sérgio Cortela é fenômeno mundial na área da educação, agora contratar um estudande de pedagogia que só porque é cantor sertanejo é um absurdo. Existem tantos palestrantes educacionais que podem contribuir para a educação do estado de Sergipe, estou decepcionada .

  4. Como escreveu Jorge Luis Borges, “A realidade não tem nenhuma obrigação de ser coerente.” Esse episódio poderia ser chamado A Gande Arte da Embromação. Dinheiro público jogado fora. Ainda mais em uma área tão sensível. Professor precisa ouvir outros professores sobre suas práticas pedagógicas que ultrapassam obstáculos; precisa ler e discutir textos de Adorno, Horkheimer, Paulo Freire, Larossa. Sair de casa para ouvir palestra online de um diluidor de conceitos, e de um cantor que se arvora em ser educador, é o fim dos mundos!

  5. O valor total é equivalente a 150 reais por professor, considerando a lotação do Tobias Barreto. Está bem razoável.

    Foi evento de abertura de ano letivo. O investimento está justificado. Leo Chaves veio, Cortella não. Isso faz diferença no preço.

    O que querem ao comparar com o valor cobrado a uma prefeitura de 106 mil habitantes? Se for pela capacidade de pagamento, saiu barato pra nós, estado da federação, ou caro pra eles.

    Cortella é doutor, escritor, ex docente universitário, fez uma palestra curta, online, porém condizente com seu conhecimento, tema atual e relevante. O tema da palestra do Leo Chaves também! Se há alguém que precisou se reinventar foi ele, após a família jogar no lixo a imagem da dupla. Haha

    “Ah, mas tem que valorizar os da casa… ” Quem? Santo de casa não faz milagre. Quem se despencaria do interior pra vir ouvir um docente local? Conhecimento não é sinônimo de eloquência, de didática. Nem todo mundo que detém o conhecimento sabe transmiti-lo. Os da casa não lotam o teatro, infelizmente.

    Por fim, o governo gasta bem mais que isso pra contratar show de artistas de qualidade duvidosa, rasos como um pires. Fala-se tanto em valorização docente, mas valorização não se faz só com salário. Deixo a crítica à SEED. Na próxima, coloquem entre os figurões a palestra de um prata da casa sem fama, mas com talento. E, claro, paguem por isso! Vamos formar e jogar luz em gente boa que é dos nossos.

    Por fim, deixem os professores serem felizes! Certeza que as tias fizeram fila pra foto, cheias de esperança hahahahaha

    Mangue, continua denunciando. Mas nessa a SEED acertou. Um ótimo ano letivo a todes.

  6. Vejam a “imparcialidade” dessa matéria jornalística. Se fosse um artista ou profissional da educação que defendesse a educação e pautas esquerdistas, essa “imparcialidade” estaria destilando elogios a ambos convidados e ninguém saberia dos milhares de reais pagos com a verba da educação para esses profissionais. Por quê? Porque omitiriam. Não estou aqui discutindo que o valor pago foi correto. Estou avaliando, criticamente a matéria, assim como somos ensinados a fazer análise crítica do que lemos. Viva o progresso da educação nesse sentido! Estou aqui analisando como a hipocrisia impera na “imparcialidade” de determinadas matérias. Nesse caso, como se tratam de pessoas que não são declaradamente defensoras das pautas esquerdistas, divulgam os milhares de reais pagos, procuram saber e expor detalhes da vida acadêmica da pessoa e ainda tem que falar de Bolsonaro em algum momento, conectando, de algum modo, certa possível relação da faculdade do convidado com Bolsonaro, tudo isso usando uma linguagem que visa macular ainda mais a imagem do palestrante. E não obstante, tem que se falar cansativamente de “tentativa de golpe contra Lula”. Vocês amam Bolsonaro. Até numa matéria de palestrante convidado tem que se falar de Bolsonaro. E se você, que está lendo esse comentário, acha um absurdo a minha observação sobre essa matéria, lembre-se que a liberdade de expressão é um direito, que não existe crime de opinião por eu estar comentando uma opinião diferente da sua. Até mesmo porque não estamos vivendo em uma ditadura. Ou estamos? Mas para quem é a didatura? Para os que falam algo diferente do que você concorda? Salve a democracia que ainda nos resta nesse país!

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