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Golpes virtuais explodiram em Sergipe nos últimos 6 anos, mas número de inquéritos é 90 vezes menor que registros

Registros de estelionato virtual passaram de 592 para 7.005 entre 2019 e 2025, enquanto inquéritos chegaram a 78 em 2025, mostram dados obtidos pela Mangue. Pesquisador pondera que a diferença não mede, sozinha, a capacidade de investigação. SSP diz que alta acompanha tendência nacional.

(Créditos: Divulgação/Ogasec)

O número de boletins de ocorrência por estelionato cometido em ambiente virtual disparou em Sergipe nos últimos anos. Dados inéditos obtidos pela Mangue Jornalismo via Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram que os registros passaram de 592 em 2019 para 7.005 em 2025, uma alta de aproximadamente 1.083% em seis anos. 

Esse salto ocorreu principalmente no início da série: foram 2.987 registros em 2020 e 5.338 em 2021. O volume permaneceu acima de 5.500 ocorrências anuais desde então e chegou ao maior patamar em 2025. Os dados foram fornecidos pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-SE), a partir do sistema da Polícia Civil. A base reúne casos classificados como “estelionato — art. 171 do Código Penal” , cujo local do fato foi registrado como “ambiente virtual (internet)”.

O estelionato cometido por meio eletrônico passou a ter previsão específica no Código Penal em 2021, com a Lei Federal nº 14.155. A legislação tornou mais grave a fraude praticada por meio eletrônico ou pela internet: nesses casos, a pena prevista é de quatro a oito anos de reclusão, enquanto a modalidade comum prevê de um a cinco anos.

Felipe Ramos, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP), avalia em entrevista à Mangue que o aumento dos registros é uma tendência observada no país e pode ser explicado por uma combinação de fatores. Ele cita a expansão do acesso ao sistema bancário por meio de bancos digitais e o baixo custo para os criminosos ampliarem a quantidade de potenciais vítimas.

Segundo o pesquisador, a digitalização das relações bancárias teve um efeito ambíguo: ao mesmo tempo em que ampliou o acesso de pessoas e pequenos comerciantes a serviços financeiro, também aumentou o universo de potenciais vítimas. “Esse tipo de crime tem um baixo custo para o golpista, para o criminoso, porque ele consegue atuar numa escala maior”.

Ramos também aponta uma mudança na legislação como um dos fatores que podem ter contribuído para o crescimento dos registros. A criação do crime de fraude eletrônica, em 2021, teria dado maior celeridade ao registro de boletins de ocorrência relacionados a esse tipo de golpe.

O pesquisador ressalva, porém, que os números de Sergipe não permitem concluir quanto do crescimento corresponde ao aumento efetivo dos golpes e quanto pode estar relacionado à maior disposição das vítimas para denunciar. Ele também considera possível a existência de subnotificação, seja porque as vítimas têm vergonha de relatar a fraude, seja porque não sabem como registrar a ocorrência.

A escalada dos registros verificada nos dados obtidos pela Mangue contrasta com o número de inquéritos instaurados: foram abertos 348 procedimentos de investigação entre 2019 e 2025: quatro em 2019, 28 em 2020, 52 em 2021, 63 em 2022, 47 em 2023, 76 em 2024 e 78 em 2025. 

Em outras palavras, enquanto os registros de estelionato virtual ultrapassou a casa dos sete mil em 2025, a Polícia Civil instaurou naquele ano 78 inquéritos relacionados à série informada. Trata-se de uma quantidade cerca de 90 vezes menor que o total de boletins registrados na série histórica. 

A diferença, porém, não significa que cada boletim de ocorrência corresponda necessariamente a um caso que deveria resultar em inquérito, nem que os demais registros tenham sido abandonados ou não tenham sido investigados. Isso porque um mesmo inquérito pode reunir ocorrências relacionadas, por exemplo, e determinados registros podem passar por verificações preliminares ou receber outra classificação.

Para Ramos, portanto, a diferença entre o número de boletins e de inquéritos é um dado relevante, mas não permite, isoladamente, calcular uma “taxa de investigação” dos estelionatos virtuais. “A questão que importa é saber se os registros estão sendo cruzados entre si, para identificar quais contas, quais telefones, quais dispositivos e quais formas de atuação são recorrentes em termos de golpes no estado”, afirma. 

“Se a maioria dos registros não for sequer analisada, aí tem um gargalo claro do ponto de vista institucional. Mas eu acho que esse número por si só é importante, mas ele diz pouco”, completa o pesquisador.

Em outubro do ano passado, a Polícia Civil de Sergipe desmantelou uma associação criminosa especializada em aplicar golpes da ‘central bancária’. (Créditos: Divulgação/SSP)

Casos se espalham pelo estado

Aracaju concentra a maior parte das ocorrências, mas o crescimento não ficou restrito à capital. Na cidade, os registros passaram de 397 em 2019 para 3.295 em 2025.

Em Estância, foram 13 casos no início da série e 352 no ano passado. Em Itabaiana, no agreste sergipano, o número passou de 18 para 297; em Lagarto, de sete para 274; e em Nossa Senhora do Socorro, que compõe o grupo de município da região metropolitana de Aracaju, de 49 para 471.

Municípios menores também registraram aumentos expressivos. Capela passou de quatro ocorrências em 2019 para 115 em 2025. Tobias Barreto, de duas para 176. São Cristóvão, também na região metropolitana, de 24 para 230.

Os mais de sete mil registrados no ano passado representam uma média de aproximadamente 19 ocorrências por dia em Sergipe.  A série mostra uma mudança de patamar particularmente acentuada entre 2019 e 2021. No início da série eram menos de 600 registros no ano. 

Dois anos depois, o número havia ultrapassado 5.300. A partir de 2021, os registros permaneceram em patamar elevado e voltaram a crescer nos dois anos mais recentes do período.

A Polícia Civil de Sergipe possui uma Delegacia Especial de Repressão a Crimes Cibernéticos, que aparece na base da SSP com 106 registros classificados nessa natureza em 2025. O número havia sido de 79 em 2024, 110 em 2023 e 134 há quatro anos.

A distribuição dos casos, contudo, é mais ampla e inclui delegacias metropolitanas, distritais, municipais, regionais e especializadas. A 1ª Delegacia Metropolitana, por exemplo, aparece com 837 registros no ano passado. A 2ª Delegacia Metropolitana teve 366; a 3ª, 435; a 4ª, 421; e a 5ª, 362.

As delegacias regionais também concentraram centenas de ocorrências. A Regional de Estância registrou 315 casos em 2025; a de Itabaiana, 283; a de Lagarto, 203; e a de Tobias Barreto, 157. 

Em nota à Mangue Jornalismo, a Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-SE) informou que “o registro do boletim de ocorrência não implica automaticamente a instauração de inquérito policial”, com a abertura do procedimento condicionada às “circunstâncias de cada caso e dos elementos disponíveis para a apuração da autoria e da materialidade”. 

A pasta chefiada por João Eloy ainda disse ainda que o crescimento dos crimes virtuais “acompanha uma tendência nacional”, citando dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Na edição de 2025, afirma, “o levantamento registrou crescimento de 17% nos estelionatos por meio eletrônico no Brasil entre 2023 e 2024”.

O texto ainda pontua que a Polícia Civil “utiliza procedimentos específicos para a apuração desses crimes, incluindo análise de dados bancários, registros telefônicos, perfis em redes sociais, plataformas digitais e outros vestígios”. Nos casos de grupos com atuação interestadual ou internacional, são realizadas ações integradas com outras instituições de segurança, segundo a SSP-SE. 

“As investigações já resultaram em diversas operações, com desarticulação de grupos criminosos, recuperação de valores e ressarcimento de vítimas. Entre as ações recentes estão as Operações Depósito a Conferir e Cavalo de Tróia. Outro destaque é a Operação Central Fantasma, iniciada pela Polícia Civil de Sergipe e realizada em dez estados, que desarticulou uma associação criminosa envolvida em golpes de falsa central bancária e identificou prejuízo estimado em R$ 1,3 milhão”, acrescenta a nota. 

Por fim, a secretaria ressaltou que o registro das ocorrências é fundamental e recomendou que as vítimas preservem “conversas, comprovantes de pagamento, números de telefone, links, perfis e demais informações” relacionadas ao golpe. Esses elementos auxiliam na investigação, na recuperação de valores e na identificação de conexões entre diferentes ocorrências e grupos especializados, pontuou a SSP-SE.

Registros crescem, mas inquéritos ficam em dezenas

Os dados sobre a etapa investigativa sobre os casos de estelionato virtual mostram outro movimento. O número anual de inquéritos instaurados cresceu de quatro em 2019 para 78 no ano passado. Já os procedimentos despachados para remessa final passaram de nenhum em 2019 para 111 em 2025. No jargão jurídico, o termo “remessa final” diz respeito ao ato em que a polícia envia os achados da investigação ao Poder Judiciário ou ao Ministério Público. 

No ano passado, dos 111 procedimentos encaminhados para remessa final, 79 tinham autoria determinada ou identificada. Outros 21 foram classificados como de autoria desconhecida e 11 como sem autoria.

A categoria “autoria determinada/identificada” apresentou crescimento durante a série: passou de quatro casos em 2020 para oito em 2021, 13 em 2022, 21 em 2023, 35 em 2024 e 79 em 2025.

Não é possível afirmar, a partir da base de dados acessada pela Mangue, qual foi o desfecho judicial dos procedimentos. O documento não informa quantos resultaram em denúncia pelo Ministério Público, arquivamento, condenação ou ressarcimento às vítimas. Também não é possível concluir, apenas com esses dados, que a Polícia Civil tenha deixado de investigar os demais registros. 

A apuração de um estelionato virtual pode depender de informações de instituições financeiras, plataformas digitais, operadoras de telefonia e empresas de tecnologia, além de cooperação com polícias de outros estados ou países.

É justamente a dispersão desses vestígios que, segundo Ramos, pesquisador do NEV/USP, torna esse tipo de crime particularmente complexo para as autoridades. Uma vítima pode estar em Sergipe enquanto o autor está em outro estado ou até em outro país. A conta usada para receber o dinheiro pode estar em nome de um terceiro, e as comunicações podem estar espalhadas por diferentes plataformas.

“A investigação precisa relacionar uma série de telefones, contas bancárias, várias chaves Pix, endereços digitais e, às vezes, identidades que nem sempre pertencem ao autor do crime”, afirma.

O ambiente digital, diz ele, deixa rastros, mas os criminosos procuram fragmentá-los para dificultar sua conexão. Isso exige rapidez de perícia, inteligência e cooperação entre diferentes instituições. “Muitas vezes [as forças de segurança] estão um pouco um passo atrás”, afirma.

De acordo com Ramos, não há uma resposta única sobre a capacidade das polícias brasileiras para lidar com esse tipo de crime. Segundo ele, existem delegacias especializadas e experiências bem-sucedidas, mas, em muitos locais, a estrutura de investigação não acompanhou o crescimento do volume e da complexidade das fraudes. “Em muitos lugares, a estrutura de investigação não cresceu no mesmo ritmo que o volume e a complexidade dessas fraudes”.

O pesquisador pontua que o enfrentamento não depende apenas da criação de delegacias especializadas. Seria necessário articular, segundo ele, investigação em escala, com triagem mais centralizada, cruzamento automatizado de ocorrências, equipes capacitadas e ferramentas de perícia digital.

A criação de bancos de dados e plataformas compartilhadas entre os estados também seriam alternativas importantes neste contexto, já que os autores podem atuar simultaneamente contra vítimas de diferentes localidades, conclui Ramos.

O estelionato virtual passou a ter previsão específica no Código Penal em 2021, com a Lei nº 14.155. A modalidade prevê pena de quatro a oito anos de reclusão e multa. (Créditos: Divulgação/PCMG)

Golpes ganham escala com digitalização

O avanço dos estelionatos ocorre em paralelo à transformação dos hábitos financeiros dos brasileiros. Transações bancárias, compras e pagamentos passaram a ser realizados majoritariamente por canais digitais, criando também novas oportunidades para os fraudadores.

Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), 82% das 208 bilhões de transações bancárias realizadas no Brasil em 2024 ocorreram por canais digitais. O Pix, incluído pela entidade na categoria de mobile banking, registrou crescimento de 41% em relação a 2023 e alcançou 25 bilhões de transações no ano.

A expansão desse ambiente também mudou a forma de atuação dos criminosos. Em vez de depender da presença física para abordar a vítima, o fraudador pode utilizar redes sociais, aplicativos de mensagem, páginas falsas e mecanismos de engenharia social para alcançar um grande número de pessoas a distância.

O relatório A Jornada dos Golpes: Como redes sociais e apps de mensagem são explorados por golpistas e fraudadores no Brasil, do Observatório Lupa, identificou aumento da sofisticação das fraudes digitais. Entre 142 golpes verificados pela organização entre 2020 e 2025, 93% ofereciam algum tipo de retorno financeiro imediato e 77% utilizavam marcas ou figuras públicas para transmitir aparência de legitimidade. Veja aqui a íntegra do estudo

Entre os golpes analisados em 2025, a utilização de marcas ou pessoas famosas chegou a 90%.

O relatório também aponta a incorporação de ferramentas de inteligência artificial às fraudes. Desde 2023, conteúdos fabricados com IA e deepfakes passaram a aparecer com maior frequência nos golpes analisados.

A estratégia pode reproduzir praticamente toda a jornada de uma compra ou contratação legítima: mensagens em aplicativos, e-mails de confirmação, páginas falsas e telas de pagamento semelhantes às originais. O objetivo é fazer com que a vítima não perceba, até que seja tarde, que está diante de uma fraude.

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Wendal Carmo

Editor-chefe da Mangue Jornalismo. É jornalista investigativo (DRT 2796/SE) com atuação na cobertura de política, direitos humanos e judiciário. Também colabora com a revista CartaCapital direto de Sergipe.Já trabalhou nas redações do Correio Sabiá, da revista In Magazine do Expresso Jornalismo. Foi vencedor nacional do Expocom 2024, na categoria “reportagem em jornalismo impresso”, e finalista do Prêmio Mosca 2025 com dois trabalhos. Apaixonado por café e pelos bastidores do poder, está sempre em busca de historias cativantes para contar. Também é membro do Conselho Gestor do Centro de Estudos em Jornalismo e Cultura Cirigype.

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