
Todo começo de ano, o Governo de Sergipe festeja aquilo que seria a redução da criminalidade no estado. Rapidamente se espalha a notícia – sem maior apuração – que o menor estado do Brasil é um dos mais seguros do Nordeste, e figuras políticas se vangloriam deste “feito”. Entretanto, alguns números oficiais contradizem essa comemoração. Por exemplo, no ano passado cresceu em 50% os registros de mulheres vítimas de feminicídio no estado, comparando-se com o ano de 2024.
Só em 2025 foram registrados 15 casos de feminicídio em Sergipe, mais de um por mês em média. Em 2024, os dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontam dez assassinatos desse tipo.
No dia 29 de dezembro do ano passado, uma mulher, de 23 anos foi morta com um tiro no rosto. O crime ocorreu no Bairro Cidade Nova, Zona Norte de Aracaju. Segundo a Polícia Militar, o suspeito da morte seria o companheiro da vítima. Ele foi preso horas depois do crime. O crescimento em 2025 interrompeu a sequência de redução de casos nos últimos três anos.
Os dados revelam ainda que nos últimos nove anos, quando o feminicídio passou a ser considerado nas estatísticas como crime hediondo, Sergipe já registrou 151 assassinatos de mulheres. O ano mais letal foi 2019, com 21 casos. Veja o gráfico abaixo elaborado pela Mangue Jornalismo.

O feminicídio é todo homicídio praticado contra a mulher por razões da condição do gênero feminino e em decorrência da violência doméstica e familiar, ou por menosprezo ou discriminação à condição de mulher. O ódio contra mulheres é antigo, exemplo disso é a demora por parte do judiciário em catalogar o crime de forma adequada e criar mecanismos eficazes de prevenção e punição. A lei que caracteriza o crime de feminicídio é de 2015 e, de lá para cá, ainda se observa pouca mudança na redução de mortes.
Faz um ano que a Mangue Jornalismo publicou uma reportagem especial revelando que cresceram os registros de violência contra mulheres em Sergipe, apesar da redução de feminicídios em 2024.
No geral, os registros em delegacia de crimes contra a mulher passaram de 15.794 em 2023 para 16.516 em 2024 no estado. As Medidas Protetivas de Urgência (MPU) em favor das mulheres em Sergipe aumentaram 23,5% nesse período.
Na prática, os dados revelam que de 2023 para 2024, aumentaram no estado o número de mulheres ameaçadas, perseguidas, maltratadas, que tiveram suas medidas protetivas descumpridas, foram vítimas de injúria, danos e perseguição/stalking (perseguir de forma reiterada, ameaçando a integridade física ou psicológica). Os dados do ano passado sobre esses crimes ainda não foram divulgados.
Poucas políticas de prevenção ao crime de feminicídio
A professora de Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Milena Barroso, reitera que para combater de forma séria o crime de feminicídio é preciso agir de forma preventiva. “O feminicídio é uma questão estrutural dessa sociedade, então as saídas devem ser estruturais. Por isso, precisamos de políticas sérias para as mulheres.”, afirma.
De acordo com ela, as políticas públicas devem agir antes, quebrando o ciclo de agressão. Isso implica em mais orçamento, estrutura adequada e equipe completa para os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) do estado. “Não adianta a gente criar uma política sem garantir as condições, especialmente o orçamento necessário para que essas políticas possam chegar até essas mulheres”, explica a professora.
Ao priorizar a criminalização, o Estado chega quando mulheres já estão mortas ou agredidas. Para essa questão, a cofundadora e coordenadora geral do Instituto Ágatha, Valéria de Jesus, defende a criação de uma educação que discuta as questões de gênero nas escolas e o fortalecimento da independência financeira dessas mulheres. “Nós temos uma educação misógina e machista e precisamos trabalhar isso na base. Precisamos ter uma formação que trabalhe as questões de gênero”, defende Valéria.
O Instituto Ágatha tem como prioridade cuidar de vítimas de violência doméstica. Ao longo de 11 anos, tem acolhido e empoderado financeiramente mulheres. Através de oficinas, cursos e palestras, o instituto aprofunda, junto à sociedade, o conhecimento pleno dos tipos e fases da agressão. Só em 2025, foram pelo menos 300 mulheres alcançadas pelos projetos ofertados.
SSP/SE: crescimento de feminicídios obriga reforçar estratégias de prevenção
Em material da Secretaria de Segurança Pública do Estado de Sergipe (SSP/SE), a delegada Lara Schuster, titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM), lamentou que, apesar da redução histórica dos feminicídios ao longo dos últimos anos, em 2025 se registrou um aumento pontual nos casos, o que motivou o reforço das estratégias de prevenção, repressão qualificada e orientação às mulheres sergipanas.
A delegada diz que dos 15 casos, sete deles foram concentrados só no mês de dezembro, um cenário que acendeu um alerta para a intensificação das ações policiais e do trabalho de conscientização da população. Lara Schuster garantiu que todos os casos de feminicídio ocorridos em Sergipe tiveram resposta rápida e efetiva por parte da Polícia Civil, com taxa de 100% dos crimes solucionados e a prisão dos autores.
Somente neste mês de janeiro de 2026, a DEAM já cumpriu seis mandados de prisão por descumprimento de medidas protetivas, além de outros dois executados com apoio de equipes policiais de outras unidades. “O descumprimento de medida protetiva é tratado com prioridade absoluta. São procedimentos céleres, que podem resultar em prisão em flagrante ou preventiva, justamente para evitar a escalada da violência”, destacou a delegada.
Das 15 vítimas de feminicídio em 2025, só duas haviam pedido medida protetiva
A delegada chama atenção para um dado considerado crucial na análise dos casos mais graves: das 15 vítimas de feminicídio em 2025, apenas duas haviam solicitado medida protetiva anteriormente, e a maioria sequer havia registrado boletim de ocorrência antes do crime que feminicídio. “A violência doméstica é escalonada. Ela não começa no feminicídio. Começa com controle, humilhação, agressões verbais, ameaças e vai se agravando até chegar à agressão física e, em alguns casos, à morte. É por isso que insistimos tanto na denúncia precoce”, alertou.

Para ela, a medida protetiva de urgência é um dos mecanismos mais eficazes de proteção à mulher em situação de violência, e o descumprimento da ordem judicial autoriza prisão imediata do agressor, além da adoção de outras medidas cautelares.
A delegada destaca, ainda, que o medo de denunciar é um obstáculo para muitas mulheres, mas os dados demonstram que aquelas que não buscam ajuda tendem a permanecer mais tempo em situação de violência e ficam mais vulneráveis a crimes graves. “Denunciar não piora a situação. Pelo contrário, rompe o ciclo da violência e possibilita a atuação do Estado para proteger a vítima”, enfatizou.
A Polícia Civil reforça que qualquer pessoa pode denunciar casos de violência contra a mulher, mesmo não sendo a vítima direta. Todas as informações recebidas são apuradas, e o sigilo é garantido.
Alguns canais de denúncias são o Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV), que opera 24 horas (Rua Itabaiana, 258 – Centro, Aracaju/SE (79) 3205-54000; Delegacia Virtual (Devir Mulher), por meio da qual as vítimas podem solicitar medida protetiva sem sair de casa (a ferramenta pode ser acessada pelo link www.portalcidadao.ssp.se.gov.br/DelegaciaVirtual); a Central de Atendimento à Mulher (180), além dos canais já conhecidos, como o Disque-Denúncia da Polícia Civil (181) e o 190 da Polícia Militar.
Supervisão
Cristian Góes (DRT/SE 633)


