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Extrema pobreza, repressão ao clero e assassinato de padre afetaram apoio da Diocese de Propriá à ditadura

Dom Brandão, o governador Lourival Baptista e o arcebispo dom Hélder (Crédito CDJBC)

Após o golpe de 1964 e início da ditadura, a correlação de forças no Estado de Sergipe mudou radicalmente. As antigas lideranças e nomes de peso do bloco reformista saíam pela porta dos fundos da vida política sergipana. A “limpeza” contra a “subversão” também se impôs em Sergipe. A onda de acusações e perseguições chegou até a Igreja Católica. A instituição se dividiu.

Em Aracaju, o arcebispo dom Távora teve que lidar com a criminalização das suas cartilhas sociais – consideradas subversivas – e com a ascensão do seu auxiliar, dom Luciano Cabral Duarte, simpático dos golpistas. A situação foi diferente para o bispo de Propriá, dom José Brandão de Castro. Como vimos no texto anterior, a sua diocese ficou do lado da “Revolução”.

Dom Brandão adotou uma posição conservadora e anticomunista, capaz de alçá-lo à condição de importante legitimador do regime instaurado com o golpe de 1964. Nos primeiros meses do novo regime, a relação entre nova ordem e diocese foi de total adesão. O periódico diocesano A Defesa noticiava a onda de perseguições acriticamente. Algumas matérias chegaram a reproduzir notícias com o interesse de minimizar as práticas autoritárias.

Apesar da boa relação inicial com a ordem pós-golpe, as contradições entre a defesa pela justiça social na Igreja e a modernização conservadora do novo regime atingiram a diocese de Propriá.

A participação do bispo no Concílio Vaticano II, a chegada de religiosos – vindos de outros estados e do exterior -, a perseguição contra eles e o apelo cada vez mais radical pela justiça social e pela reforma institucional da Igreja fermentaram posições inéditas na diocese.

Posições estas que estremeceram as relações, incialmente, amistosas entre ela e a ordem política dominante. Isso se deu de modo gradativo e não linear.

A diocese de Propriá entre a defesa pela justiça social e a ditadura militar

O início dos anos 1960 foi impactante para o futuro da Igreja Católica, assim como para a diocese de Propriá. O Vaticano II deu um novo impulso reformador à instituição. O bispo de Propriá participou de todas as sessões do concílio. Preocupou-se com assuntos internos, que diziam respeito aos problemas estruturais de sua diocese, a exemplo da falta de padres.

Uma falta amenizada com a chegada de religiosos redentoristas vindos da Bélgica. Eram os frutos do apelo de dom Brandão na Europa. De tantos pedidos do bispo, eis que a Congregação Redentorista tomou a decisão de fundar uma casa em Propriá, sob a responsabilidade da Província Redentorista de Bruxelas.[1]

Em fevereiro de 1964, chegaram à diocese os padres Paulo Lebeau e Nestor Mathieu. Também chegou o irmão leigo Michel Dessy – conhecido na região sergipana como Guido Branco.[2] Os religiosos estrangeiros, cada um à sua maneira, estavam sintonizados com os ares de renovação da Igreja. Por isso, foram muito além do perfil de meras linhas auxiliares do bispo diocesano. Eles se tornaram protagonistas importantes no processo de transformação radical da linha político-eclesial da diocese de Propriá.

Michel Dessy disse ter aceitado atuar no baixo São Francisco para conhecer outras regiões e em razão da missão redentorista de dedicar-se aos mais pobres.[3] Porém, Dessy pareceu afirmar que não conhecia bem o país em que estava pisando e os pobres com os quais iria trabalhar.

O historiador Antônio Fernando Sá, que realizou entrevistas com Dessy, chegou a salientar que o leigo belga ficou surpreso com os cidadãos que comiam lixo nas ruas de Aracaju.[4] A cena tétrica que o chocava não deveria ser muito comum na desenvolvida Bélgica. Esses choques foram fundamentais para que, gradativamente, esses religiosos radicalizassem as suas posições em favor das classes subalternas.

Paulo Lebeau, Nestor Mathieu e o leigo Michel Dessy (Guido Branco) chegam para reforçar a diocese. (Crédito: Arquivo)

O convívio com as realidades locais os empurrou lentamente para o complexo movimento que também levava a Igreja da América Latina para uma linha mais crítica do status quo. Uma verdadeira conversão da postura diocesana estava prestes a ser suscitada.

A chegada dos primeiros redentoristas foi uma vitória magna do bispo dom Brandão. Este bispo reconheceu que o trabalho pastoral diocesano também avançou com a chegada das irmãs da Caridade de Namur e as de São Vicente de Paulo.[5]

Antes delas, voluntárias belgas foram à cidade em 1966 para trabalhar no setor de assistência social.[6] Paulatinamente, outros sacerdotes ampliaram o quadro clerical diocesano.

O avanço nas relações da Igreja Católica com o mundo moderno também ressoou na diocese ribeirinha. Presente em todas as sessões do concílio, dom Brandão foi um dos bispos a se comprometer com os pontos traçados pelo “Pacto das Catacumbas”.

Dom Brandão não apareceu na lista dos primeiros bispos a assinar o pacto.[7] Porém, alguns anos depois, o bispo confirmou que aderiu ao grupo que optou pela chamada “Igreja dos Pobres”, participando do movimento, de nível internacional, que ficou conhecido como a “Igreja das Catacumbas”.[8]

Segundo as suas palavras, o Vaticano II inspirou a sua diocese a uma tomada “clara, positiva, sem rodeios, a favor dos pobres”.[9] O Vaticano II deu um estímulo importante, que acabou fermentando o novo impulso reformador na diocese de Propriá e um novo olhar da diocese para os dilemas sociais, políticos e econômicos. Disse o bispo sobre os momentos mais compensadores em que esteve à frente da diocese:

Os mais compensadores, sem dúvida alguma, foram os de minha participação no Concílio Ecumênico Vaticano II […], quando a Igreja Católica fez uma revisão profunda de sua linha pastoral e de sua atitude perante o mundo moderno. Só quem acompanhou mais de perto a caminhada conciliar da Igreja pode compreender o que representaram para ela os quatro períodos do Concilio.

Foi no Concílio que um grupo numeroso de bispos de vários países, entre os quais o Brasil, fez o célebre “Pacto das Catacumbas” que representou uma tomada consciente de posição em favor dos pobres. Os bispos desse “pacto” se comprometeram com os pobres, firmado naquelas palavras de Jesus Cristo: “Eu vim para anunciar o Evangelho aos pobres (Lc 4, 18)” […].[10]

Porém, como mesmo lembrou o bispo, a expressão concreta da sua mudança de posição só aconteceu alguns anos mais tarde.[11] A ressalva feita por ele é válida. Ela desnuda o longo e complexo caminho entre colaboração e conflito vivenciado por sua diocese diante da ditadura.

De todo modo, o Vaticano II foi um dos primeiros e mais importantes sinais da abertura da diocese de Propriá para uma nova posição na sociedade sergipana, influenciando decisivamente nos rumos da política local e nacional.

Numa corda-bamba: desencontros entre a diocese e a ditadura

No ano de 1966, o jornal A Defesa dava início a publicações que versavam sobre a vida concreta do povo no Brasil e na América Latina. O jornal publicou o “Manifesto dos Bispos do Nordeste”, em defesa dos militantes – acusados de subversão – da Ação Católica Operária (ACO), da Ação Católica Rural (ACR) e da Juventude Agrária Católica (JAC).[12]

De acordo com o historiador Iraneidson Costa, embora tendo um tom conciliatório, o “Manifesto dos Bispos do Nordeste” defendia um polêmico documento da ACO que denunciava a situação de desprezo, perseguição e exploração a qual a classe operária estava submetida.[13]

No ano de 1968, a diocese de Propriá festejou os 250 anos da paróquia de Propriá. Informes de jornais sobre os festejos destacaram a importância da comemoração, a ser realizada entre os dias 18, 19 e 20 de outubro daquele ano. As comemorações pelos 250 anos da paróquia foram saudadas enquanto “a maior festa de todos os tempos”.[14]

O arcebispo de Olinda e Recife, dom Hélder Câmara, foi convidado para os festejos. A boa relação desse bispo com a diocese de Propriá se manifestou em diversas ocasiões.

Dom Hélder fez uma longa pregação em defesa da reforma agrária, condenou uma possível indiferença da Igreja ante os dilemas sociais e políticos e tocou no lema que dizia ser necessária a justiça para que haja paz. Tudo isso em frente a autoridades políticas e militares.[15]

Dom Hélder também citou passagens das conclusões finais da Conferência de Medellín e condenou o uso da violência política.

Das autoridades que ouviam o seu discurso efusivo, estava Lourival Baptista, o governador biônico de Sergipe, cada vez mais influente na vida política sergipana. Na relação de dom Hélder com as elites políticas havia uma ambiguidade típica, unida a uma hostilidade latente.

Alguns anos mais tarde, os serviços de inteligência da ditadura levantaram informações sobre as relações político-religiosas entre dom Hélder e dom Brandão. Os informantes da ditadura classificaram a pregação feita nos festejos de Propriá como “um violento discurso contra a Revolução”.[16]

Dom Brandão, de apoiador a uma ameaça da ditadura (Foto CDJBC)

A diocese de Propriá ainda não causava o pânico nas elites políticas. Porém, em fins da década de 1960, algo começou a mudar. Além de dar palanque para dom Hélder defender reformas estruturais na sociedade, a diocese foi receptiva à “Declaração da IX Assembleia Geral da CNBB”.[17]

A importante “Declaração” suscitou um posicionamento episcopal ainda mais sensível aos dilemas políticos e sociais do país. A “Declaração” tocou nos problemas de ordem econômica e advogava por amplas reformas na sociedade brasileira: “reformas de mentalidades e de estruturas”.[18]

Ela discorreu sobre o desenvolvimento nacional, defendeu a importância da educação de base e da atuação sindical. Ainda condenou a violência subversiva, mas também a violência repressiva do Estado.

Um ano depois, em setembro de 1969, mais uma vez, foi manchete no jornal diocesano nova declaração da CNBB. Tratava-se de outro importante documento: uma nova “Declaração da CNBB sobre a situação atual do país”. Esta reconheceu a existência de um regime de exceção no país, apesar de classificá-lo como “circunstancial e transitório”.

Ela também defendeu ser indispensável que o Brasil retornasse à normalidade jurídica, mediante uma Constituição que fosse capaz de “consultar os reais interesses e anseios nacionais”.[19]

Em fins dos anos 1960, a linha editorial do jornal da diocese de Propriá foi sendo modificada. A adesão à nova ordem começou a sofrer os seus primeiros reveses.

Torturas de dois padres e consternação diante do assassinato do padre Antônio Henrique

A abertura da Igreja para o social direcionava a diocese para a contramão da ditadura. Além disso, as perseguições contra religiosos comprometidos com as lutas sociais a consternavam. Prova disso a repercussão na imprensa diocesana da tortura sofrida por dois padres maranhenses no ano de 1970.

Ganhou destaque no jornal A Defesa o relato sombrio do padre José Antônio Magalhães Monteiro sobre as torturas sofridas por ele.

O padre relatou a médicos e aos bispos do Maranhão tudo que sofreu fisicamente, psicologicamente e moralmente.

O jornal da diocese de Propriá detalhou o episódio, baseado no texto que foi entregue por religiosos em missas no Maranhão. Abaixo, a descrição do ocorrido:

Foi amarrado nos punhos e nos pés, e pendurado num pau que ia de uma janela a uma mesa. Como se fosse um porco, aí ficou cerca de duas horas, e desse modo iníquo foi ultrajado. Numa segunda vez, foi submetido ao mesmo suplício, durante cerca de três horas. Palavrões lhe foram dirigidos, zombarias, insultos em termos que o respeito a este lugar nos impede de repetir. Acusações sórdidas contra a moral de um homem, pontapés, puxões de cabelo, bofetadas no rosto, pontapés no abdômen, tudo isto com o objetivo de fazê-lo confessar crimes que não cometeu.

Culminando com a atrocidade de embalá-lo nessa posição, ao som de canções de ninar ultraje à memória de sua mãe já falecida. Não satisfeitos com isso, tentaram apavorá-lo pela aproximação do fogo. Padre José Antônio guarda bem essas palavras que ouviu: “Cuidado para não deixar marca”.

Depois de tanto suplício, sem mais domínio de si mesmo, o padre assinou tudo que lhe foi apresentado. Quando os Bispos tiveram permissão de vê-lo, Padre José Antônio havia recebido esta ordem: “Você fica ali no canto; não se aproxime. Se teimar […] vai ser pior”.

Toda essa preocupação com o fito de impedir que os Bispos percebessem os recentes sinais das torturas.[20]

A mesma edição do jornal A Defesa, de setembro de 1970, deu manchete às explicações de dom Hélder sobre uma série de calúnias perpetradas contra ele.[21]

De novo, a diocese dava respaldo a dom Hélder Câmara, cada vez mais perseguido pelos serviços de inteligência da ditadura militar e por grupos paramilitares de extrema-direita. Estes grupos vitimaram, um ano antes, um padre de sua arquidiocese.

Tratava-se do jovem padre de 28 anos Antônio Henrique Pereira Neto, encontrado morto num terreno da cidade universitária, no Recife. Sequestrado, torturado e assassinado.

Na cena do crime, uma corda se encontrava enlaçada ao seu corpo, dando voltas em seu pescoço. Hematomas, ferimentos de bala e um rosto quase desfigurado. Foi encontrado morto.

Corpo do padre Antônio Henrique, torturado e assassinado pela ditadura (Crédito: Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Hélder Câmara)

Sobre este último fato, o jornal A Defesa também se pronunciou. Chamou o assassinato de “macabro mistério” e demonstrou um ingênuo otimismo em relação à seriedade do Inquérito que apurava o crime cometido contra o padre.[22]

Esses foram os reflexos na diocese de Propriá da perseguição contra o clero católico mais radicalizado. A diocese deixou transparecer a sua clara posição a favor dos religiosos perseguidos, sem tentar minimizar os brutais acontecimentos.

Essa perseguição contra o clero católico foi um motivo importante para o distanciamento da diocese ante a ordem estabelecida. A prática autoritária da ditadura começou a se chocar com os ares de renovação da Igreja.

“Mensagem de Pentecostes”: as denúncias da diocese contra o autoritarismo em Sergipe

Ainda no ano de 1968, antes da abertura da Conferência de Medellín, foi divulgada a “Mensagem de Pentecostes”. Tratava-se de um importante comunicado da diocese de Propriá, assinado pelo bispo dom Brandão.[23]

Uma importante mensagem, ainda pouco conhecida e estudada, que passou despercebida em muitas pesquisas relacionadas ao tema da Igreja em Sergipe[24]. O documento oferece uma visão mais ampla da situação da diocese em fins da década de 1960.

A “Mensagem de Pentecostes” versou sobre os direitos, a dignidade e o respeito da pessoa humana. A discussão da mensagem em cima do tema da dignidade da pessoa humana ligou questões do campo político, social e também dos costumes.

No campo dos costumes, sobressaiu uma postura mais tradicional. Porém, uma vez tocando nas questões sociais e políticas, a mensagem trouxe um sinal mais profundo de um distanciamento da diocese com a ordem estabelecida.

A “Mensagem” citou uma circular baixada pelo Presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe, Serapião Aguiar. A circular concitava a todos os juízes do Estado de Sergipe a se posicionar sobre os casos de “flagrante violação dos direitos da pessoa humana” que se multiplicavam em cidades do interior de Sergipe.[25]

A “Mensagem” reproduziu da circular o trecho em que cobrava a punição de todos os que cometiam abuso de autoridade e excesso de poder.

Também listou uma série de violações aos direitos da pessoa humana que se multiplicavam por cidadelas do Estado de Sergipe: “Prisões ilegais e arbitrárias, violências no ato de prender, sevícias nos pobres presos, confinados em prisões imundas por tempo indeterminado”.[26]

O documento lembrou que a circular chegava num bom momento para a cidade de Propriá, uma vez que, por lá, a 24 de maio de 1968, Antônio Batista Filho, “um cidadão honrado e prestigioso”, foi preso humilhantemente num cinema local. Sem razão, levado para a cadeia, a qual o informe chamou de “cubículo […] onde até fezes havia”.[27]

No tópico “Nosso ponto de vista”, encerrando a “Mensagem de Pentecostes”, foi sinalizada a leitura que a diocese fazia de postulados do Vaticano II. A diocese voltou a ligar questões sociais, políticas e de costumes.

Numa citação direta da Gaudium et Spes, destrinchou as práticas “efetivamente dignas de censura” por atentarem contra a vida. Práticas que incluíam os encarceramentos arbitrários, as condições degradantes de trabalho – “que reduzem meros operários a instrumentos de lucro” – e as torturas físicas ou morais.[28]

A “Mensagem de Pentecostes”, de 02 de junho de 1968, foi singular. Segundo consta no texto, o pronunciamento foi considerado pelo clero diocesano um “imperioso dever de consciência”. A sua difusão foi defendida, a fim de que chegasse ao conhecimento geral.[29]

A chegada de novos sacerdotes

No caminho da defesa pela justiça social e pela promoção da pessoa humana, a diocese comemorou a chegada de novos sacerdotes, em fins de 1968. Sacerdotes chegavam ao alto sertão de Sergipe para se somar aos ainda parcos prelados diocesanos.

Eram eles os frades Juvenal Vieira Bonfim e José Caio Feitosa, popularmente conhecido como Angelino Caio Feitosa, juntos do jovem leigo Sebastião José de Lima.

Tinham um jeito diferenciado de lidar com os dilemas encontrados na diocese. Ocupavam-se das “pedras vivas”, ou seja, da comunidade evangélica; deixando em segundo plano as “pedras mortas”, os edifícios, as construções dos templos.

Após alguns meses de trabalho em Porto da Folha, criaram o “Conselho Paroquial”, formado por um grupo de leigos (sete casais e quatro jovens).[30]

Estava se dando a descoberta da responsabilidade dos leigos na direção da vida paroquial. Na ausência dos vigários, os leigos dirigem culto dominical e organizam uma “Celebração da Palavra”. A descentralização de poder foi chamada pelo periódico diocesano de “renovação cultural em Porto da Folha”.[31]

Frei Angelino se juntou na luta contra a miséria na região (Crédito arquivo)

A prisão do leigo Sebastião de Lima no 28° BC

A Igreja repensava os seus hábitos de poder. Enquanto isso, no país, a ditadura endurecia, centralizando cada vez mais a autoridade.

No final de 1969, o jovem leigo Sebastião de Lima, há alguns meses na diocese, foi levado ao 28º Batalhão de Caças (28º BC), em Aracaju.

Sabendo do ocorrido, os frades Juvenal e Angelino partiram para a capital. Segundo relato de Manoel Alves de Souza, os frades foram submetidos, na presença de Sebastião, a um demorado interrogatório, em meio à acalorada discussão e ameaças do comandante, o qual exigia a presença do bispo de Propriá.

No dia seguinte, estava lá dom José Brandão, que disse comungar com Sebastião e com os religiosos “pelo trabalho de evangelização que desenvolviam em Porto da Folha”.

A cópia do ofício referente à prisão de Sebastião de Lima, com origem na Divisão Regional da Polícia Federal na Bahia (DR/BA), revela mais detalhes do contexto da prisão. Consoante o dito no ofício, Sebastião atuava como professor de História na cidade de Porto da Folha.

Designado para levar Sebastião ao 28º BC, o agente auxiliar de polícia federal, Luiz Correa de Araújo, afirmou que contatou o delegado local, o tenente Gervásio, no momento da chegada do leigo à cidade. Em diligência, localizou a residência de Sebastião, na Rua da Baixinha.[32]

Chegando lá, o agente da Polícia Federal diz ter convidado Sebastião a comparecer ao 28º BC. Momento em que foi reprimido por frei Angelino. Segundo o agente da polícia, o frei Angelino, “num tom de arrogância, declarou que tudo que o Prof. Sebastião dissera era reflexo dele”.

As suspeitas sobre as atividades dos religiosos chegaram ao ponto de motivar o agente policial a fazer buscas de materiais bibliográficos na residência dos frades. Segundo o agente, “vários livros e revistas subversivos” foram encontrados e apreendidos.[33]

Depois de sete dias preso, Sebastião foi solto. De acordo com Manoel Alves de Souza, “sem que constatasse qualquer fato que desabonasse a sua conduta e a dos frades, em que pese desenvolverem um trabalho considerado de oposição à ditadura”.[34]

O caso se tratou de uma primeira grande investida contra o trabalho pastoral desenvolvido por membros da diocese de Propriá.

As suspeitas contra os padres estrangeiros

Em 1970, o número de sacerdotes se ampliou com a chegada de mais dois frades inspirados pelos novos ares de renovação apostólica. Eram eles os frades Enoque Salvador de Melo e Roberto Eufrásio de Oliveira.

Frei Enoque e dom Brandão com animadores das comunidades, em 1970, Gararu/SE (Crédito Eduardo Campos)

Em março daquele ano, chegaram de São Paulo as Irmãs Escolares de Nossa Senhora para se dedicar aos trabalhos de pastoral e à assistência social. Todas com experiência em colégios de São Paulo e Minas Gerais. Além delas, chegaram ainda no mês de fevereiro três irmãs Vicentinas. Teriam o seu local de evangelização no Centro Social da Cooperativa Agrícola Mista e de Colonização do Camurupim.[35]

O trabalho pastoral se ampliou. O perfil de muitos daqueles religiosos que chegavam à diocese gerava desconfiança. Falavam em conscientização, andavam com os pobres e optavam por morar em casebres distantes das casas paroquiais ou das casas de figuras importantes da cidade.

A título de exemplo, o frade franciscano Roberto Eufrásio Oliveira frisou que, ao invés da casa paroquial na praça da Matriz, optaram por morar numa casa de uma sala, um quarto, sala de refeição e cozinha, banheiro e pequeno quintal, na popular rua da Baixinha.

Faziam uma oração comunitária pela manhã e no final da tarde. E numa caixa comum, seguiam o princípio: “o que um frade recebe, todos recebem”.[36]

A casa paroquial ficava em Porto da Folha, mas os frades tinham a responsabilidade de evangelizar também nos municípios de Canindé e Poço Redondo. As lanchas e canoas os ajudavam na aventura de evangelizar nos povoados do interior à beira do rio São Francisco.[37]

Logo perceberam que o método de evangelização romanizado, tradicional e eurocêntrico, recheado por leituras estanques de códigos canônicos, não daria conta da comunidade de fiéis da região. Algo notado há muito pelo clero que chegou antes na diocese.[38]

Diferente das análises que reduziam o “povo” a meros ignorantes, os novos religiosos se preocuparam em estabelecer um tipo de relação mais horizontal e menos hierárquica, mais descentralizada e menos elitizada.

Tamanha novidade não passou despercebida. E foi contra os padres estrangeiros que a estranheza se voltou com maior intensidade. Por isso, o bispo dom Brandão teve de gastar algumas boas linhas da sua mensagem no “Dia da Paz”, para se pronunciar acerca das incompreensões que se avolumavam contra esses padres. 

À época, o quadro clerical da diocese já contava com dezessete estrangeiros. O texto de dom Brandão fornece uma compreensão detalhada da posição do bispo sobre a atuação desses sacerdotes.

Advogou por eles alegando que não estavam ali para explorar ou tirar dinheiro do povo, mas para promover este povo. Dom Brandão ainda cutucou a situação de um país de maioria católica que precisava esperar pela ajuda de países pequenos, como a Bélgica, a fim de que ampliasse seu quadro sacerdotal.

O bispo recordou que esses sacerdotes deixaram sua Pátria para trabalharem na região. Dom Brandão se mostrou desapontado com as incompreensões que recaíam contra o trabalho desses padres. Comentou:

É triste, meus caros amigos, eu falo agora com franqueza de um Bispo e de um Pai espiritual, é triste, quando nós vemos esses homens mal compreendidos, mal interpretados. Há pessoas que lhes seguem os passos, como se estivessem seguindo os passos de um bandido. Homens que se dedicam a toda prova, suspeitos, muitas vezes, de serem comunistas! Ora, quem pensa assim não tem o que fazer. Ou, como eu disse uma vez, aí, na zona rural, onde espalhavam que os padres eram comunistas: “Comunistas são aqueles que pensam e dizem que os padres belgas são comunistas”. Porque eles só querem o bem do povo. Que o povo não seja explorado. Que o povo seja promovido. Que todos tenham uma felicidade temporal e eterna. E talvez isto melindre algumas pessoas que achem melhor barrar o seu caminho, atrapalhar a sua atividade, arrasar com a sua vida. Ah! Meus prezados irmãos, é com sentimento de Bispo e de Pastor, que eu digo isto: “Padres dedicados a toda prova!”. E agora os nossos católicos, ou que se dizem católicos, imaginando cobras e lagartos a respeito deles.[39]

As suspeitas contra esses padres logo viraram perseguições. Estas perseguições só cresceram, atingindo padres estrangeiros e locais. Boa parte deles entrou no índex da ditadura. Um desses padres estrangeiros foi Domingos Puljiz.

À frente da Cooperativa Camurupim, o padre Domingos foi alvo da espionagem dos serviços de inteligência da ditadura. Contra esse padre, foram feitos levantamentos desde o ano da sua chegada. Calúnias foram perpetradas, a fim de desacreditá-lo na região. Uma busca policial foi feita na sede da cooperativa para criminalizar o seu trabalho.

Os ares de renovação da diocese de Propriá começaram a entrar na mira dos serviços de espionagem da ditadura. É disso que falaremos no próximo capítulo, focando no caso da vigilância contra o padre Domingos e a Cooperativa Camurupim.

Até lá!

Osnar Gomes dos Santos é doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Defendeu a tese: “Os sinais da conversão: o movimento do cristianismo da libertação na diocese de Propriá-SE (1960-1991)”. O texto na íntegra pode ser baixado aqui. Osnar possui Mestrado em História pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), onde integrou o Laboratório Interdisciplinar de Estudo das Religiões (LIER/UFAL). Possui Graduação em História pela Universidade Tiradentes (2012) e Pós-Graduação em História do Brasil pela Faculdade Pio Décimo (2014). Atualmente, é professor efetivo da Rede Pública do Estado da Bahia.


[1] Cf. “Festivamente recebidos em Propriá os redentoristas”. In: A Defesa, 23 de fevereiro de 1964, p. 1. A 22 de maio de 1966, o bispo pôde anunciar a fundação próxima do primeiro Convento Redentorista em Propriá e em Sergipe. Cf. “Primeiro convento de Redentoristas em Sergipe – Redentoristas terão convento próprio em Propriá”. In: A Defesa, 29 de junho de 1966, p. 3; “Homenageados o Provincial dos Redentoristas Belgas e as voluntárias recém-chegadas”. In: A Defesa, 13 de junho de 1966, p. 4.

[2] Ibidem.

[3] Cf. SÁ, Antônio Fernando. Combates entre história e memórias. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: Fundação Oviêdo Teixeira, 2005, p. 261.

[4] Ibidem, p. 260.

[5] O bispo não estava errado. Uma longa matéria no jornal A Defesa mostra claramente as muitas funções assumidas pelos sacerdotes. Tais funções ajudaram a cobrir atividades assistenciais da diocese para os pobres. Cf. “Os padres chegados da Bélgica trabalham intensamente no campo social de sua Paróquia”. In: A Defesa, 13 de fevereiro de 1966, p. 1. Sobre dom Brandão falando do avanço do trabalho pastoral da diocese, conferir: “DEPOIMENTO DE UM PROFETA”. [Entrevista] Dom José Brandão de Castro, Bispo de Propriá, A Defesa, dezembro de 1987, 2f.

[6] Cf. “Homenageados o Provincial dos Redentoristas Belgas e as voluntárias recém-chegadas”. In: A Defesa, 13 de junho de 1966, p. 4. Ver também: “Rotary homenageia voluntárias”. In: A Defesa, 13 de junho de 1966, p. 1.

[7] A lista com os primeiros assinantes do “Pacto” pode ser vista no trabalho: BEOZZO, José. Pacto das Catacumbas: por uma Igreja servidora e pobre. São Paulo: Paulinas, 2015, p. 53-59.

[8] Cf. “DEPOIMENTO DE UM PROFETA”. [Entrevista] Dom José Brandão de Castro, Bispo de Propriá, A Defesa, dezembro de 1987, 2f.

[9] Ibidem.

[10] Conferir 1º parte da entrevista: “Profecia e Compromisso com os Pobres”. [Entrevista] Dom José Brandão de Castro, Bispo de Propriá, A Defesa, março de 1987, 1f.

[11] Em muitas ocasiões, dom Brandão afirmou que a sua “conversão”, de fato, se deu depois do caso Betume, um histórico acontecimento na região, alguns anos depois do Vaticano II. A título de exemplo, ver: “DEPOIMENTO DE UM PROFETA”. [Entrevista] Dom José Brandão de Castro, Bispo de Propriá, A Defesa, dezembro de 1987, 2f. Ver também: Cf. [Entrevista] Dom José Brandão de Castro, Bispo de Propriá, Mensageiro de Santo Antônio, 04 de abril de 1984, p. 10. Entrevista concedida a Luciano Bernardi.

[12] NASCIMENTO FILHO, Isaías. Dom Brandão – um pastor com cheiro de ovelhas. Belo Horizonte: O Lutador, 2017, p. 80-81.

[13] Cf. COSTA, Iraneidson. “Eu ouvi os clamores do meu povo”: o episcopado profético do Nordeste brasileiro. Revista Horizonte, Belo Horizonte, v. 11, n. 32, out/dez, 2013, p. 1479. 

[14] Cf. “Realizou-se em Propriá a maior festa de todos os tempos”. In: A Defesa, 22 de novembro de 68, p. 1.

[15] Cf. “Pregação feita por D. Hélder em Propriá, a 20 de novembro de 1968”. In: A Defesa, 22 de novembro de 1968, p. 3.

[16] Cf. ARQUIVO NACIONAL. Doc. nº BR_DFANBSB_V8_MIC_GNC_PPP_82004980_d0001de0001. Manifesto dos Bispos do Nordeste – 1973; 08 de maio de 1973, p. 5.

[17] Cf. “Os Bispos se pronunciam”. In: A Defesa, 02 de agosto de 1968, p. 1.

[18] Cf. CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Declaração da IX Assembleia Geral da CNBB. Rio de Janeiro, 20 de julho de 1968, 4f.

[19] Cf. “Episcopado lança Declaração sobre a situação atual”. In: A Defesa, 11 de outubro de 1969, p. 1.

[20] Cf. “Presos dois padres no Maranhão e um deles foi Torturado”. In: A Defesa, 13 de setembro de 1970, p. 4.

[21] Cf. “Dom Hélder se explica diante calúnias que se levantam contra sua pessoa”. In: A Defesa, 13 de setembro de 1970, p. 1.

[22] Cf. “Vida e aspectos das coisas – Padre Antônio Henrique”. In: A Defesa, 06 de agosto de 1969, p. 2. O padre Antônio Henrique Pereira tinha apenas 28 anos. À época, o Ministério Público de Pernambuco defendeu que o assassinato do padre Antônio Henrique Pereira Neto se tratava de um crime comum. Porém, recentes pesquisas realizadas pela Comissão Nacional da Verdade e pela Comissão Estadual e Memória Dom Hélder Câmara atestaram que autoridades militares de Pernambuco e agentes federais sabiam das motivações e da autoria do crime. Agiram no sentido de ocultar e interferir no processo. As fontes apontam que não se tratava de crime comum, mas de um crime com motivações políticas, realizado por membros do grupo paramilitar de extrema-direita Comando de Caça aos Comunistas (CCC), em coautoria com a Polícia Civil do Estado de Pernambuco. Cf. BRASIL. COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE. – Brasília: Relatório, v. 3, 2014, p. 302-303. Sobre a descrição da morte: COMISSÃO ESTADUAL DA MEMÓRIA E VERDADE. Cadernos da Memória e Verdade. – Recife: Secretaria da Casa Civil do Governo do Estado de Pernambuco, v. 2, 2014, p. 11.

[23] Cf. CASTRO, dom José Brandão de. Mensagem de Pentecostes, 02 de junho de 1968, 3f.

[24] Pude analisar a “Mensagem de Pentecostes” em minha Tese de Doutorado. Cf. SANTOS, Osnar. Os sinais da conversão: o cristianismo da libertação na diocese de Propriá (1960-1991).  Recife. Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 2022.

[25] Cf. “Juiz diz não às violações dos direitos humanos”. In: A Defesa, 31 de maio de 1968, p. 4.

[26] Cf. CASTRO, dom José Brandão de. Mensagem de Pentecostes, 02 de junho de 1968, 3f.

[27] Ibidem.

[28] Ibidem.

[29] Ibidem.

[30] Cf. “Porto da Folha em busca da renovação cultural”. In: A Defesa, 31 de agosto de 1969, p. 4.

[31] Ibidem.

[32] A cópia do ofício foi enviada no dia 23 de setembro de 1969. Para conferir detalhes do caso: ARQUIVO NACIONAL. Doc. nº br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ppp_82004706_d0001de0001. Sebastião José de Lima – 1970; 30 de março de 1970, 12f.

[33] Ibidem. As bibliografias encontradas eram: (1) o Boletim Informativo da Ação Católica Rural (ACR), nº VI, ano II, abril, maio e junho de 1968; (2) o “Grito do Nordeste”: Servidores do Mundo Rural, da Civilização Brasileira; (3) Caderno Especial nº I, sob o título “A Revolução Russa: cinquenta anos de história”; (4) Revista Paz e Terra, nº 4 e 5. Boletim Informativo “Fase”. As referências foram entregues ao 28º BC.

[34] Cf. SOUZA, Manoel. Porto da Folha: fragmentos da história e esboços biográficos. Porto da Folha: Coleção Lindolfo Alves de Souza, 2009, p. 83.

[35] Cf. “Chegaram as irmãs para Brejo Grande e para a Cooperativa”. In: A Defesa, 12 de março de 1970, p. 1.

[36] Cf. OLIVEIRA, frei Roberto. Ob. Cit., p. 31.

[37] Ibidem.

[38] Ver, por exemplo, as “Conclusões a respeito de uma ‘Pastoral Batismal seletiva ou incondicionada’”, de julho de 1965. Resultantes de uma reunião do clero diocesano, de julho de 1965, as conclusões observaram o que entendiam enquanto a “falta de vida religiosa apostólica” do povo, como também a “falta do sentido de universalidade da Igreja”. Quanto ao batismo, as conclusões chegaram a duas afirmações divergentes. Uma delas dizia que o povo tinha boa compreensão do batismo. Outra afirmou que 70% da população não tinha convicção quanto ao batismo. Por fim, recomendava-se refletir sobre a relação da questão com a vida concreta no Nordeste. Cf. CASTRO, dom Brandão de. Resultado da Reunião do Clero, julho de 1965, 2f.

[39] Cf. “União com Cristo e com irmãos – Mensagem do Bispo de Propriá no dia da Paz”. In: A Defesa, 28 de janeiro de 1970, p. 1.

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Osnar Gomes dos Santos

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