HECTOR SOUSA, especial para Mangue Jornalismo
Os acontecimentos recentes nos Estados Unidos envolvendo a ICE (Immigration and Customs Enforcement), o Serviço de Imigração e Alfândega norte-americano, nos remete ao recente filme Guerra Civil, lançado em 2024. O longa-metragem de Alex Garland se passa em um futuro próximo, no qual os EUA estão à beira do abismo. Uma jornalista e seus colegas tentam se deslocar pelo país durante uma guerra civil que escala rapidamente e mantém toda a nação sob seu domínio.
Em Guerra Civil somos apresentados a um universo especulativo no qual os conflitos já estão firmados e o fim da guerra se aproxima. A realidade atual parece seguir o movimento inverso: os sinais de ruptura se acumulam. Desde seu primeiro mandato, Donald Trump tem implementado uma forte política anti-imigração, mas está sendo nesta sua segunda passagem na Casa Branca que estamos vendo essa política se concretizar de forma mais violenta sob nossos olhos, beirando regimes tiranos. Os agentes da ICE andam armados em meio às ruas, “caçando” imigrantes para deportá-los.

Um dos casos recentes das ações da ICE que gerou impacto mundial aconteceu no dia 20 de janeiro, quando os agentes detiveram um menino equatoriano de 5 anos junto a seu pai em Minneapolis. No dia 07 de fevereiro pai e filho foram liberados da prisão no Texas e retornaram para Mineápolis, porém o governo Trump ainda faz esforços para que Adrian Conejo e seu filho, Liam Conejo, sejam deportados.
Esse caso gerou uma onda de manifestações no estado de Minnesota, e foi lá que dois assassinatos fizeram com que Trump reduzisse as ações da ICE, pelo menos por enquanto. As duas vítimas eram cidadãos estadunidenses que protestavam contra a investida da agência na cidade, o primeiro caso foi a morte de Renee Nicole Good, uma mãe de três filhos, que havia acabado de se mudar para a cidade que levou tiros dos agentes enquanto dirigia seu carro pelas ruas durante uma confusão. Segundo defensores de Trump, ela usava “seu veículo como arma”, mesmo que imagens de câmera de segurança indiquem o contrário.
As gravações que percorreram o mundo também contradizem a versão dita oficial do assassinato de Alex Pretti, um enfermeiro que filmava as ações da ICE na manhã do dia 24 de janeiro. Alex foi imobilizado e executado com dez tiros. Nem mesmo os olhares atônitos e os vários celulares que registravam a cena foram capazes de impedir a ação. Esses casos chamam a atenção para um ponto: se o governo estadunidense está assassinando seus próprios cidadãos, imagine o que não são capazes de fazer com imigrantes nessa política excludente.

Bom, retornando ao filme Guerra Civil, a obra não explora os meandros do conflito. Apesar dele dar pistas do que cada lado da guerra defende (um está do lado do governo, com um posicionamento mais nacionalista e purista do “ser americano”, enquanto o outro combate essa repressão), não define isso tão bem e para o espectador mais desatento pode acabar passando despercebido. O presidente dos Estados Unidos, interpretado por Nick Offerman, não vai afundo na representação de alguma figura, apesar de trazer alguns trejeitos de Donald Trump, que venceu a sua segunda eleição justamente no ano de lançamento do longa. A única coisa que temos certeza do presidente do Offerman é que ele está do lado errado (ou mais errado) da guerra e precisa ser enfrentado.
Se o longa, apesar do seu nome, não trata da guerra, o espectador imagina que ele irá tratar do jornalismo em um conflito como esse e suas nuances, já que seus protagonistas, interpretados por Kirsten Dunst, Wagner Moura e Cailee Spaeny, são jornalistas. Mas não é bem isso que acontece. Na realidade, o filme traz um jornalismo muito pragmático, apático, sem aprofundamento nem envolvimento nos acontecimentos. Em um dos poucos momentos no qual se tenta tensionar isso — sem gerar muito resultado —, a personagem da Kirsten Dunst adverte: “se tentar elaborar é ladeira abaixo, o fotojornalista tem que apenas registrar”. A frase sintetiza o dilema ético da profissão em cenários de violência: testemunhar ou intervir?

Lee Smith, a personagem de Kirsten, é a peça-motor de Guerra Civil. O filme se reflete muito em seus traumas enquanto uma fotojornalista de guerra, sobre os terrores que ela teve que vivenciar e registrar, e que em nenhum momento poderia interferir sob aquilo. A fotógrafa se encontra em um ponto de esgotamento, em que apesar de ainda ser uma das melhores no que faz, já não tem mais psicológico para seguir atrás da “foto perfeita”. Em contraponto temos Jessie (Cailee Spaeny), que é uma iniciante na atividade e se espelha em Lee para traçar sua carreira. Ao longo do filme vemos os opostos entre o trauma e a ferocidade em meio ao caos da batalha.
Além do contraponto das personagens, algo que se destaca em Guerra Civil é a direção em conjunto com a direção de fotografia. O aspecto técnico não traz uma inovação que muda o patamar da obra, mas em diversos momentos se utiliza de planos com câmera parada e alguns segundos de pausa ou lentidão nas ações para dar uma sensação de fotografia na tela. Algo semelhante também foi explorado no também recente Retrato de uma jovem em chamas (2019), que usa da técnica para remeter a pinturas. Mas nem todos os 109 minutos de filme são explorados dessa forma, já que a maior parte dos momentos a câmera usa de movimentos dando uma condução mais natural, sem que o espectador sinta os cortes ou nuances técnicas ressaltarem.

Guerra Civil funciona bem como um road movie de um grupo, cada um com suas individualidades, atrás de um objetivo e destino em comum. Quem fecha o trio protagonista nesse grupo é Wagner Moura, interpretando Joel, porém não segue uma função tão grande quanto as personagens femininas. A maior parte do tempo Joel funciona como um alívio cômico para os conflitos, seja botando “lenha na fogueira” para ir atrás da pauta ou apaziguando as coisas entre o grupo. Até jornalisticamente falando dentro da trama, o personagem do ator brasileiro tem menos relevância que as fotojornalistas.Vale lembrar que Moura é graduado em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), o que acrescenta uma camada simbólica à sua presença em um filme centrado na cobertura de guerra.
O ator indicado ao Oscar, em recente entrevista para a revista Variety, relembrou o filme de 2024 ao falar sobre o atual momento dos EUA e a não valorização dos norte-americanos à democracia:
“Quando eu estava fazendo ‘Guerra Civil‘, eu ficava pensando em como o Brasil reagiu de forma diferente à nossa insurreição — de uma forma melhor do que vocês, porque o Brasil foi rápido em fazer a coisa certa e mandar a mensagem de que não se mexe com a democracia. Nós prendemos gente. Bolsonaro está preso. Nos Estados Unidos, é como se estivessem testando os limites, como uma criança — eles pensam: ‘Vou fazer isso’, e se não houver reação, o que acontece? Sinto que os EUA e suas instituições não estão respondendo com a firmeza necessária — não estão estabelecendo limites, não estão fazendo com que as pessoas enfrentem as consequências”.

Costuma-se dizer que “a vida imita a arte”. Talvez, em certos casos, seja a arte que antecipe tensões latentes da vida real. O que sentimos em Guerra Civil é um prenúncio dos conflitos internos nos EUA e serve como uma reflexão (mesmo que não tão aprofundada) do que isso pode se tornar.
Considerando o peso geopolítico dos Estados Unidos, qualquer escalada interna produzirá repercussões globais, inclusive no Brasil. Se a crise se aprofundará a ponto de configurar uma ruptura irreversível, ainda é impossível afirmar. Por ora, resta observar os desdobramentos e reconhecer que, entre ficção e realidade, as fronteiras parecem cada vez mais tênues.


